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A utopia de Užupis — uma nação pequena, real e fora do comum

A capital da Letónia esconde uma curiosa e autoproclamada república.
Ilustração: Max Loeffler

Qual é a verdadeira história por trás da república de inventar na Europa de Leste, que capta a imaginação de todos os que a visitam?

Texto: Daisy Alioto

Ilustração: Max Loeffler

Antes de viajar até Užupis, uma autoproclamada república no interior de Vilnius, capital da Lituânia, li o romance “The Republic of Užupis”, do autor coreano Haïlji. O protagonista, Hal, espera voltar a Užupis para lançar as cinzas do seu pai. Ao chegar, depara-se com a confusão acerca da localização da república, primeiro com a polícia alfandegária no aeroporto e depois com o seu taxista, que durante uma hora dá voltas a Vilnius à procura do bairro. É realismo mágico puro mas a alegoria tem sentido: Užupis, uma micro-nação fundada em 1998, é esquiva para os que vêm de fora mas tem significado para os que querem acreditar.

Aterrando vinda de Estocolmo, começo a minha jornada de forma diferente de Hal. Passo ao lado da alfândega no Aeroporto de Vilnius e vou direta a um táxi. O taxista consegue com facilidade e ajuda do GPS chegar ao meu Airbnb em Užupis. Passamos pelas curvas apertadas do centro histórico de Vilnius enquanto a voz familiar de Billie Eilish em “Bad Guy” vai rosnando nos altifalantes enquanto atravessamos a ponte de Užupis. Užupis significa “para lá do rio” e o parlamento da pequena república situa-se num bar com vista para a fronteira. Numa alcova de pedra há uma estátua de bronze de uma sereia famosa entre os locais. Foi criada por Romas Vilčiauskas, um escultor pouco importante para os padrões do Google. Diz a lenda que se olharmos durante demasiado tempo para os olhos da sereia, nunca de lá sairemos.

Visitar uma nova cidade precisamente quando as folhas começam a mudar é um dos muitos encantos de viajar. Visitar uma micro-nação à beira do outono está noutra categoria. Aqui, sente-se o arrepio no ar entre o passado e uma promessa de futuro para a humanidade. A constituição de Užupis, com um total de 41 artigos, está disposta em placas para consumo do público e a sua leitura é considerada um requisito para os turistas.

Rūta Ostrovskaja, embaixadora da república nas áreas de vigor e decisão, caracteriza o documento “como uma das melhores declarações de direitos humanos do mundo”. Os artigos vão de “Toda a gente tem o direito de amar” a “Toda a gente tem o direito de chorar”. Algumas roçam o absurdo (“um gato não é obrigado a amar o dono mas tem de ajudar em caso de necessidade”). De forma notável, em dezembro de 2018, a versão da constituição da República de Užupis para a embaixada Munique — a constituição está traduzida em dezenas de línguas — tornou-se a primeira de sempre a reconhecer a inteligência artificial. “Toda a inteligência artificial tem o direito de acreditar na boa vontade da humanidade”. (Tal embaixada consiste num pequeno coletivo de artistas e técnicos sediados na Bavária). De acordo com Ostrovskaja, a constituição não foi escrita para ser cómica. Foi por interesse na sobrevivência.

Užupis foi fundada no Dia das Mentiras de 1998 e desde então tem chamado a atenção de artistas, poetas e inovadores da tecnologia. Levanta questões sobre as hipóteses de estados sem fronteiras num mundo pós-digital e no potencial governativo da autonomia e da auto-gestão no meio do capitalismo desenfreado. Com cerca de 148 hectares e isolada do resto da capital pelo rio Vilnia, conta com cerca de sete mil habitantes. MicroFreedom, um site que indexa as nações mais pequenas do mundo, destaca Užupis pela sua longevidade e sucesso. Já foi comparada a Christiania, uma comuna hippie em Copenhaga, mas sem o mercado a céu aberto de canábis. Max Haarich, embaixador de Munique em Užupis, já sugeriu que se trata da mais estável república da Europa. Ainda assim, a natureza efémera de uma micro-nação convida à projeção e à mudança: dependendo de a quem se pergunte, Užupis tanto é um projeto político revolucionário como um conto de fadas; é um figmento da imaginação dos Balcãs ou mais uma Bohemia rapidamente a gentrificar-se. Užupis é todas estas coisas.

O departamento de Geografia e Assuntos Globais dos serviços de informação dos EUA conta com uma coleção de cartas descritas internamente com os ficheiro dos Estados efémeros. Esta coleção dá-nos uma ideia dos contrastes no chamado movimento destas micro-nações. Uma das cartas é de Leicester Hemingway, irmão de Ernest, e vem com uma recomendação do Escritório do Inspetor-Geral onde se lê: “Ela conhece o Sr. Hemingway muito bem e diz que ele não é maluco e que defende muito a sério esta causa”. Esta recomendação diz respeito ao pedido de Hemingway feito em 1973 para que os EUA reconhecem-se oficialmente uma ilha criada artificialmente nas Bahamas. O pedido foi negado. Outra carta, de um líder indígena, pedia autorização para estabelecer o Reino Maori nas ilhas Tetiti, no Pacífico Sul. Mas não deu em anda.

Muitos dos ficheiros são cómicos e um testamento ao desejo masculino de conquistar um pedaço ainda que minúsculo de território. Mas algumas cartas, como a do Reino Maori, são mais difíceis de desvalorar. Numa região atolada de passado colonial, quem tem razão sobre quem manda em quê?

A Internet veio aumentar o interesse pelas micro-nações. Também divorciou o movimento de territórios físicos, embora a existência de áreas como Užupis, que foi visitada pelo Dalai Lama em 2001, continue a dar alguma credibilidade a projetos de território. Travis McHenry, gestor do site MicroFreedom, conta-me que a ascensão do GeoCities, em finais dos anos 1990, onde se guardavam páginas criadas por utilizadores, foi instrumental em trazer maior atenção, individualmente, às micro-nações, mas também ao movimento destes mini-Estados como um todo. Em 2001, McHenry usou o GeoCities para estabelecer a presença online da sua própria micro-nação, a Westarctica, um território de 620 mil m2 na Antártida. Na altura na Marinha, McHenry fez a sua reivindicação por simples gozo. Mas a coisa deu para o torto quando dois agentes do Pentágono o interrogaram e ameaçaram retirar-lhe as suas credenciais de segurança. Em 2001 a tensão estava no ar e McHenry optou por abdicar do seu ‘trono’ até terminar a carreira militar. Desde então, transformou a Westarctica numa organização ambiental sem fins lucrativos que trabalha na conservação da região.

O Seasteading Institute, fundado por libertários em 2008, mantém-se num eixo semelhante de boas intenções e fantasias. A sua missão é construir cidades flutuantes autónomas como forma de contrariar ameaças como a subida dos níveis do mar, o excesso de população ou a má gestão de governos, mas a fuga aos impostos seria sem dúvida uma das primeiras motivações para ricos se estabelecerem numa cidade flutuante. O embaixador do instituto representa 29 países, 24 estados norte-americanos e conta com investimento do conhecido investidor de risco Peter Thiel.

Noutro campo estão os grupos do Reddit, no Facebook e em pelo menos um chat do Discord, que são ocupados pelas gerações mais novas que se dedicam aos movimentos de micro-nações. Sobre este interesse crescente entre as gerações mais novas em estabelecerem a sua própria soberania, McHenrry realça que resolve dois problemas habitais da adolescência: “a falta de controlo e não ter amigos”. É também, um exercício criativo, que permite oportunidades de explorar o design de selos ou bandeiras. Alguns destes selos inúteis, apelidados de Cinderelas, tornam-se peças de colecionadores, de acordo com Steven Scharff, fundador do MicroFreedom. [A alcunha] “não é por causa do elemento de fantasia”, explica. “A piada é que quem os emite tem que sair à meia-noite”.

Dependendo de a quem se pergunte, Užupis tanto é um projeto político revolucionário como um conto de fadas.

Na minha primeira noite em Užupis, consegui desviar o meu olhar da sereia e em vez disso concentrei-me na Ponte de Užupis, enquanto esperava no parlamento por , Tomas Čepaitis, o ministro dos negócios estrangeiros. Observei um homem entrar no rio para prender um baloiço de madeira à grade de ferro, com um cigarro pendurado na boca. Conhecido como Baloiço do Destino, a atração é permanente e aquele homem estava a substituir o antecessor. Acima do baloiço estavam espanta-espíritos que pareciam feitos pelas avós dali. “Com o inverno irão dissolver-se, como as nossas memórias das nossas mulheres”, diz-me mais tarde Ostrovskaja.

Čepaitis e Romas Lileikis, o presidente de Užupis, fundaram a república e escreveram a sua constituição numa tentativa de mudar a história daquela área. Antes da II Guerra Mundial, Užupis era um bairro judeu mas 95% da população judaica da Lituânia morreu durante o Holocausto. A área vazia deteriorou-se e criminosos aterrorizavam quem quer que se atrevesse a passar ali depois de o sol se pôr. A principal rua ganhou o nome de “Rua da Morte”.

Čepaitis está familiarizado com o trabalho do escritor e futurista polaco do meados do século XX, Stanisław Lem, que previu tecnologias como a realidade virtual e motores de busca. Agora que estas inovações já não são ficção-científica, Čepaitis já se interessa menos por elas. Por entre os desenvolvimentos tecnológicos das últimas duas décadas, diz-me Čepaitis, “a alma manteve-se igual — ou até ficou mais selvagem”. E acrescenta: “Não podemos viver num conto de fadas a toda a hora; não podemos viver na realidade a cada instante. A minha intenção foi juntar tudo isso num pequeno lugar”.

Declarar a independência tem sido um teste, de certa forma, para o governo pós-soviético da Lituânia. Será que a área iria tolerar uma nova doutrina? As condições materiais de Užupis melhoraram certamente desde 1998 — quase até demasiado. Durante mais de duas décadas a área prosperou sob uma constituição utópica. Em 2004, os geógrafos Harald Standl e Dovilė Krupickaitė publicaram um estudo sobre a gentrificação em Vilnius, com especial enfoque em Užupis. Descobriram que entre 1998 e 2003, os preços do mercado imobiliário ali aumentou mais de 70%. Descobriram também que 65% dos novos ‘chefes de família’ de Užupis tinham estudos superiores, contra apenas 12% dos mais antigos.

Užupis é agora um dos locais mais caros para se viver em Vilnius. Scooters elétricas passam junto à escultura de um anjo na praça central da república. Herr Katt, uma barbearia da moda, e Kitsch, um café-galeria, servem já uma nova geração. O Kitsch aceita Bitcoin. Serve também um Užburger num pão azulado, numa homenagem à bandeira da república, que conta com uma mão azul no seu centro. Čepaitis diz-me que estas mudanças não são mal recebidas desde que se preserve a atmosfera, mas alega também que os antigos edifícios de madeira arderam convenientemente para dar lugar ao desenvolvimento. Neste aspeto, Užupis não é muito diferente de outras comunidades gentrificadas do séc. XXI.

Em 2013, Gleb Divov, natural de Moscovo, planeava mudar-se para Barcelona. Estava preparado para abrir lá uma comunidade e tinha até aprendido espanhol. Num impulso, marcou uma viagem de três dias até Vilnius e aventurou-se no final por Užupis. “Quando atravessei a ponte deu-se um clique: estou em casa”, diz-nos. Divov mudou-se para lá e abriu uma start-up, a Musical Blockchain, que procura aproximar os residentes recorrendo a composições musicais criadas por inteligência artificial.

Divov é um sinesteta: consegue ouvir uma melodia só de olhar para um objeto. O seu compositor de inteligência artificial usa mais de 40 referências — da cor à forma, passando pelas condições ambientais —, juntamente com um conhecimento da música em código, que transforma áreas de Vilnius numa sinfonia. “Definimos a composição musical como uma cadeia de blocos interligados”, explica-nos. Atualmente ministro de Užupis do Som, Eventos e Tecnologia, Divov sonha em aplicar esta ferramenta na cidade, como forma de minorar a poluição sonora e de chamar a atenção de novos visitantes para as áreas menos desenvolvidas da cidade.

A cidade nem sempre foi hospitaleira com turistas, de acordo com William Adan Pahl, um homem natural de Detroit que vive na Lituânia desde o ano em que Užupis foi fundada. Mas, ao receber os visitantes de braços abertos, Užupis beneficiou da vaga de turistas que acorreu à Europa de Leste após a expansão das rotas da Ryanair e da recém-adquirida popularidade da Lituânia como destino ideal para despedidas de casamento. “As cidades do Leste Europeu poderão vir a amaldiçoar o dia em que a Ryanair criou novas rotas”, reportava o “The Independent” em 2016. “Sim, hordas invasoras de britânicos bêbados são boas para a economia mas a que custo?”.

“Era como se víssemos algo à distância a aproximar-se e estivéssemos prontos para a mudança que se anunciava”, diz-nos Pahl. Por pouco não chama ao governo um grupo de amigos da bebida e considera a constituição mais um símbolo do que um documento político de facto. “Do meu ponto de vista, estamos a celebrar o instrumento da constituição. É o foco na celebração. Não é uma ferramenta. Reflete o espírito do lugar”, diz Pahl.

Haarich, o embaixador de Munique, quer fazer de Užupis um modelo de convite às comunidades da tecnologia e das artes. Trabalha numa start-up de inteligência artificial que tinha, entre outros clientes, a BMW, e que tem planos para se expandir e tornar uma das comunidades artísticas de Munique. “Os artistas podem tornar a tecnologia mais ética só por aproximarem a sociedade e tornarem a tecnologia mais acessível”, afirma. “Há a grande ameaça da gentrificação — mas há também esta grande oportunidade de criar algo muito inovador que quero conectar a Užupis, porque Užupis tem estes 22 anos de experiência com a gentrificação”.

Haarich faz parte de um grupo no Facebook dedicado às micro-nações, cheio de pessoas à espera de encontrar a sua própria Užupis. Poucas destas comunidades deverão sobreviver — mas se o conseguirem é certo que a tecnologia terá um papel central nisso. McHenry afirma que “eles são realmente uma inspiração para todas as outras micro-nações e para as pessoas comuns que têm ideia do que é uma micro-nação”.

Não podemos viver num conto de fadas a toda a hora; não podemos viver na realidade a cada instante. A minha intenção foi juntar tudo isso num pequeno lugar

Como forma de sublinhar o fascínio pelas origens de Užupis, uma equipa de produção coreana está a filmar no local uma reconstituição da celebração anual de independência, de dia 1 de abril. Nessa data, todos os anos os turistas podem ter o seu passaporte carimbado na ponte e os ministros do governo são pagos pelos seus serviços na rara moeda de Užupis. Nestas celebração a fingir, há uma banda a tocar “When the Saints Go Marching In” enquanto transeuntes e carros vão passando hasteando a bandeira. Aproximo-me de dois locais que foram contratados como extras para as filmagens e que, como eu, estão a observar tudo o que se passa.

“Nunca vi um lituano vestido desta maneira”, diz a rapariga vestida com um estilo vitoriano. O seu colega tem um fato de papagaio.

“O fato de papagaio é um dos costumes?”, pergunto.

“Não”, e ambos rimos.

No meu último dia ali revisito as placas com a constituição e espero pela minha vez entre outros turistas para pôr a minha mão na “Mão Aberta de Užupis, montada ali perto. Os turistas colocam as mãos ali para dar boa sorte. A Mão tem um design semelhante ao da bandeira. Alguns dizem que é um símbolo para recusar subornos mas Ostrovskaja diz-me que significa “Assim como vem, também vai” — uma mensagem sobre não nos agarrarmos aos bens materiais. Toco-lhe e sinto este país invisível passar-me por entre os dedos.

No seu livro “Cidades Invisíveis”, o jornalista e escritor italiano Italiano escreve: “o catálogo de formas é infinito: Até que cada forma encontre a sua cidade, novas cidades continuarão a nascer. Quando a forma esgotar a sua variedade e se desfizer, começa então o fim das cidades”. Antes de partir, Čepaitis dá-me um livro de poesia do embaixador da Finlândia. Quando o abro já em casa, em Nova Iorque, um selo cai: a sua proveniência: República Federal de Lostisland.

A utopia de Užupis — uma nação pequena, real e fora do comum
A bandeira da pequena nação.