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Tiago Monteiro: “Estar vivo é um milagre. Estive uma semana sem falar e um mês sem andar”

O único português a subir a um pódio na Fórmula 1 recorda a carreira e o acidente que fez com que dar esta entrevista fosse uma espécie de milagre.

Ainda se lembra da sua primeira vitória?
Comecei pela Porsche Cup na altura tinhas um campeonato global e o campeonato B, que era para os não profissionais. Ou seja, a primeira vitória foi aí, mas não foi uma vitória à geral. A primeira vitória à geral foi na Fórmula 3 para aí em 1998 ou 1999.

E depois das Fórmulas, porquê os carros de turismo?
Sabes que quando eu saí da F1, a principal razão foi não poder estar, ou seja a equipa estava cada vez pior, com grandes dificuldades financeiras, com imensa gente a sair e eu não queria continuar naquela equipa, queria dar um salto para outra, mas sabes como é, sempre poucos lugares todos os anos. Quando saltei da F1 inicialmente era mais numa de, “Ok, vou saltar um ano para depois voltar para uma equipa melhor” e quando fui ver o que é que havia disponível para ficar no activo, queria um campeonato que fosse competitivo, que fosse internacional, que tivesse marcas envolvidas e tal, os GTs não estavam muito fortes na altura, quem estava muito forte era o WTCC, um campeonato do mundo, com carros de turismo e pensei, “Comecei na Porsche Cup, não é bem a mesma coisa mas são carros fechados, tenho alguma experiência de endurance, não deve ser assim tão difícil passar para os turismos”. Mas o que me atraiu realmente, mais do que o carro em si, foi o campeonato, queria mesmo estar ligado a uma marca e estava ligado à Seat na altura, era uma equipa oficial num campeonato do mundo da FIA, era isso que me interessava realmente.

Então quando saiu da F1 não imaginava que ias fazer isto durante a década seguinte da carreira?
Exactamente. Nunca imaginava passar dez anos nesse campeonato, que ia gostar tanto e que ia ter tanto sucesso.

Ser operado antes de uma corrida por um diretor que também era dentista foi a coisa mais esquisita que lhe aconteceu na Fórmula 1?
Muito provavelmente foi o mais caricato que tive na carreira, quase de certeza. Para já teres um abcesso e uma inflamação no fim de semana de corrida nunca é fácil, nunca é agradável mas depois a coincidência de ter um dentista como patrão também é raro. E é uma pessoa que não é muito agradável, é brilhante, mas não é simpático e tinha um aspecto assim muito agressivo e tal, por isso era a última pessoa que escolherias como dentista e a relação que tinha com ele era profissional, não propriamente de amizade. Não estava nada para aí virado, mesmo cheio de dores, e imaginar que ia ser tratado pelo Colin Kolles, estava mesmo muito preocupado. Mas olha que foi uma grande surpresa, o homem tinha umas mãos de fada e foi incrível, muito bom mesmo.

Durante os dois anos na F1 a equipa teve três nomes. Sofreu com a instabilidade?
Obviamente, muitos dos empregados estavam era focados em não perder o emprego e preocupados com o futuro, mais do que propriamente em encontrar a performance do carro. E quando a equipa está à venda, é óbvio que não há investimento dos donos actuais, fica tudo em stand by a ver o que é que aquilo vai dar, por isso em dois anos tivemos ali momentos de crise complicados, não só a nível do pessoal, mas também com a falta de injecção de capital que seria normal haver na temporada. Não tinha um carro tão competitivo como poderia ser, nunca ia ser uma equipa de topo, mas podíamos ter tido melhores resultados. As duas, três últimas equipas estão sempre nessa situação, ali a tentar sobreviver, continuam, não continuam, se vendem ou não vendem, a F1 sempre foi assim, faz parte do jogo.

E a corrida em que chegou ao pódio foi a mais estranha da sua vida?
Foi também algo muito muito caricato, inédito até hoje, toda a gente se lembra dessa corrida, aquele boicote dos concorrentes com os pneus Michelin e obviamente que foi aquela grande oportunidade, estávamos no sítio certo, na altura certa, mas nesses seis era preciso estar o mais à frente possível e a luta lá atrás era feroz mesmo.

Então sentiu a pressão.
Ah sim, talvez a maior da minha carreira. Porque eu estava consciente que era uma oportunidade única. Era um fim de semana onde podia haver oportunidade de pontos, mas nunca imaginámos que seria assim, que houvesse tanta adesão ao boicote e iríamos ser só 6 carros. A partir do momento em que vimos que éramos seis ainda foi pior. Um dos meus concorrentes na altura era o meu colega de equipa, a luta era muito renhida entre nós e qualquer um podia ter acabado em terceiro. Felizmente naquele fim de semana estava muito forte, confiante. A equipa a meio da corrida, quando eu estava já com um bom avanço, deu-me indicações que havia uns problemazinhos da temperatura de caixa, etc., e que tinha que abrandar um bocadinho o ritmo e eu não queria. Não queria perder a concentração, manter aquele meu ritmo, estava confortável assim e não queria estar sobre pressão no final da corrida. Por isso continuei a atacar ao máximo até aos três quartos da corrida. Se perguntares quem fez quarto, ou quinto ou sexto, quase já ninguém se lembra, por isso foi mesmo importantíssimo estar ali em terceiro. Se aquilo foi bom ou mau, não tenhas dúvidas que aquilo não foi fantástico para a F1, mas faz parte daqueles pontos na história que eles se lembram, a bem ou a mal, tanto faz, mas o importante é que estava lá e agarrei aquela oportunidade.

E aconteceu nos Estados Unidos, onde já tinha feito um campeonato. Foi a primeira grande oportunidade?
Por acaso foi. Foi um ano crucial, porque até 2002 a minha carreira foi de uma ascensão muito forte e muito rápida, nas Fórmulas, e fui “descoberto” por alguns profissionais deste meio, e integrado no Renault Driver Development. Francamente, foi a primeira vez que pensei, “As coisas estão a correr mesmo bem, com este apoio de Renault isto pode passar mesmo a ser uma grande oportunidade”. A Renault é que suportou a maioria desses meus anos, suportou também financeiramente o salto da F3000, que já eram custos muito elevados e ofereceu-me um teste no final do ano, na F1, logo em 2002. Não correu assim tão bem, eles não podem apostar nos pilotos todos e esse teste era mais para saber quem ia ser piloto de testes do ano seguinte. Éramos três franceses e um português a testar e a performance até foi boa, mas já sabíamos à partida que ia ser muito complicado ficar. Mas pior do que isso foi que não só não fiquei na equipa dos testes, como também não continuaram com o apoio dos jovens pilotos, isso é que deu cabo dos meus planos e ficámos muito preocupados, pensei que ia parar por ali. Lembro-me de ter ido aos Estados Unidos, fiquei lá com o meu advogado, que era o meu manager na altura, durante para aí 15 dias dei a volta a todas as equipas americanas da Indy. Todas elas precisavam de muito budget e era complicado, até que finalmente fomos mesmo à organização e aí sim tive uma oportunidade muito boa, porque o Emerson Fittipaldi estava a tentar montar uma nova equipa, a organização estava a ajudá-lo e precisava realmente de pilotos europeus porque a Indy queria vir à Europa. Por sorte apoiaram-me a mim e a um inglês na altura, para terem dois pilotos europeus. E foi assim que tive essa oportunidade de ir para um campeonato muito forte na altura, americano mas com nome internacional, fez-me um bocado dar nas vistas outra vez.

Tiago Monteiro: "Estar vivo é um milagre. Estive uma semana sem falar e um mês sem andar"

Gostou tanto que pelas redes sociais se percebe que está frequentemente a treinar, recuperar e mesmo de férias na Flórida.
Ao início até fui viver para Indianápolis, que era onde estava baseada a equipa mas rapidamente o Emerson Fittipaldi levou-me para Miami e apaixonei-me por aquela cidade, criei lá amizades, estive lá um ano e meio a viver, por isso conheci bem aquilo. Gostamos da zona e do país, vamos muitas vezes de férias, realmente, mas entretanto as razões de ter lá voltado ultimamente é porque também estou a seguir lá uns tratamentos depois do acidente, vou voltar a ir mais uma semana em Março, antes de começar o campeonato.

Nunca lhe apeteceu ficar por Miami.
Apeteceu-me, sim. Não hesitaria nem um segundo se tivesse uma oportunidade interessante de lá estar, mas sabes como é, a minha profissão é ser piloto profissional, tenho que ir para onde há realmente condições para viver disso. Quando estás ligado a uma marca tens obviamente condições fantásticas, mas tens outras limitações. Mas não há dúvida que se tivesse que escolher um país onde pudesse ir correr e ficar a viver era muito provavelmente nos Estados Unidos ou Austrália.

Chega a conhecer alguma coisa dos países por onde passa durante a temporada?
Se for para um país novo, tento sempre conhecer, antes ou depois.

Dá para gerir os voos e essas coisas?
Dá, não posso é chegar em cima da corrida, sobretudo quando há uma diferença de fuso horário muito grande. Algumas equipas até pedem um dia de antecedência por hora de diferença horária. Se vais correr em Macau, com sete ou oito horas de diferença, tens que lá estar três dias antes. Há métodos para gerir bem o fuso horário, mas isso é um exagero. Mas de qualquer forma quando vais para longe convém estar antes, depois esses dias aproveitas para treinar, visitar e tal. E se calhar na altura de férias dos miúdos, também tentamos aproveitar para férias.

Correr em casa continua a ser especial?
Muito, muito. Sobretudo eu, porque nunca corri num campeonato em Portugal, fiz só corridas avulso, comecei a trabalhar em França e depois passei logo para o internacional, por isso não tive essa experiência. Cada vez que vinha a Portugal era sempre especial, depois quando vens integrado num campeonato do mundo ainda mais, tens um impacto ainda maior. E quando vens e fazes parte dos líderes do campeonato, há um apoio e um carinho incrível. Mesmo os estrangeiros, Portugal é das corridas mais acarinhadas deles todos, porque sentem-se mesmo bem recebidos.

Nesta Europa sem fronteiras, parte de uma aldeia cada vez mais global, o desporto é a grande base atual do patriotismo?
Sem dúvida. Também as artes, tudo o que tem a ver com talento nacional, nota-se um patriotismo impressionante. A vantagem que temos é o facto de sermos pequenos em dimensão, sobressaímos mais e conseguimos viver muito mais intensamente esse amor pela bandeira, pelo talento nacional. Em Inglaterra, França ou mesmo a Alemanha, o país é tão grande que é muito difícil um atleta ou um artista destacar-se da melhor forma. E pilotos internacionais de sucesso, lá fora somos quatro ou cinco, talvez e por isso somos muito apoiados e acarinhados.

E qual é o circuito preferido lá fora?
Circuito mesmo, diria Spa-Francorchamps, é impressionante, acho que a maior parte dos pilotos gostam bastante porque é um circuito muito atípico, à moda antiga ainda mas com características naturiais impressionantes. Nordschleife, aquela pista de 25 km também. Depois claro que Macau, como pista citadina, é um desafio humano impressionante, acho que essas três para mim são as mais interessantes e desafiantes.

Faz cerca de 150 voos por ano, como é que se entretém durante essa boa parte da vida que passa lá em cima?
É a parte mais tranquila da minha vida, porque não tens nem telemóveis nem Internet, apesar de já haver, eu nunca me ligo à Internet nos aviões, acho que é aquele momento sem estar conectado e quero guardar isso o maior tempo possível, porque é aquele pequeno momento que temos de privacidade, depois fora disso mal tu aterras, já tens net em todo lado e as coisas complicam-se. Mas começo logo por trabalhar um bocado, responder a e-mails, acabar alguns projectos, limpar um bocado a agenda de coisas que se vão acumulando, se for uma viagem mais longa, comer alguma coisa e a seguir descansar ou dormir, tentar dormir o máximo possível. Depende de quando é que chegas lá, se chegas ao destino de manhã convém dormir, porque depois vais ter que aguentar o dia todo, se chegas à noite não convém dormir tanto. Depois é relaxar, basicamente ler, ver um filme ou uma série, a rotina é essa.

Perdeu muito do crescimento dos filhos?
Em tempos sim, por estar 220, 230 dias fora de Portugal. Não quer dizer que estive sempre sem eles, porque muitas vezes felizmente vêm comigo. Perdi muitos dias, mas também não me queixo porque os dias que estou com eles aproveito-os muito. Felizmente, como não tenho um horário de escritório, todos os meus afazeres são organizados conforme me interessa, por isso quando estou cá faço questão de ir levá-los e buscá-los à escola, estar com eles à noite, quando eles estão na escola é o momento em que eu trabalho. E ao fim do dia, a partir do momento que os vou buscar à escola, tento, não é todos os dias que posso, mas tento desligar de tudo e aproveitá-los. O tempo que estou com eles passo de forma muito intensa e gosto disso.

E o Noah já corre em karts. É incentivado por si?
Não incentivei directamente, agora indirectamente, não tenho dúvidas que sim. Da mesma forma que o meu pai me incentivou por ter essa paixão e correr em clubes e a nível amador, o meu filho desde que era bebé vem às corridas, a vida dele foi muito nas pistas, conhece toda a gente e para ele foi quase uma coisa natural. Agora não quero forçar, longe disso, no dia que ele me disser que não está contente ou que não quer continuar, vou ser o primeiro a incentivá-lo a abandonar. Ele faz outras coisas, faz muito basquetebol, skate, não pára quieto um segundo. Se ele gostar, tiver jeito e quiser continuar, obviamente que tenho alguma experiência para o ajudar. Ainda por cima com a minha empresa vou lançar este ano, de forma mais oficial, a gestão de carreira de miúdos nos kartings. Vamos começar já com dez pilotos com 12 ou 13 anos, essa parte para mim está a ter uma importância cada vez maior.

É isso que se vê a fazer no futuro?
Não era, até achava que não era uma parte que gostava assim tanto, apesar de sempre ter dito que queria ajudar novos talentos a evitar erros que cometi na minha carreira e a tentar chegar o mais longe possível e é o que tenho feito, já há oito anos. Dos miúdinhos é algo que descobri, nunca passei por kartings, por isso também não tinha assim muito conhecimento dessa área e foi graças ao meu sobrinho primeiro e ao meu filho agora que me fui envolvendo e vi que havia um amadorismo muito grande, que é normal, não é só em Portugal. Vi ali lacunas grandes que quero tentar preencher e vou revolucionar isso, tentar fazer as coisas de uma forma um pouco mais profissional, sem tirar a vertente de divertimento, lúdica e de hobby que isto tem que ser nesta fase, para ver se realmente descobrimos mais talentos. Temos talentos nacionais incríveis, que muitas vezes perdem-se pelo caminho e não é só por uma questão financeira, muitas vezes também as decisões são tomadas por ignorância, falta de conhecimento, que é normal, se uma pessoa nunca saiu de cá só vê o que tem aqui.

E quando há um acidente fatal, não se coloca tudo em causa?
Tudo em causa não. Obviamente que não impede que penses nas coisas. Agora não se pode pôr tudo em causa, porque não é nenhuma novidade. Aliás, os acidentes fatais são cada vez menores, porque a segurança também tem vindo a aumentar de forma incrível. Nunca vai retirar o risco total, mas estamos a diminuir de forma muito constante e forte o número de acidentes fatais. É impossível prever todos os cenários e cada vez que surge um que não foi antecipado, é uma oportunidade de se resolver esse problema. O meu caso, por exemplo, sei que está a ser um case study bastante grande na FIA e na segurança, porque descobriram-se umas lacunas que havia em certas zonas de impacto dos carros e das barreiras. Tudo é aproveitado para evoluir e para ter uma maior segurança.

Mas algum dos acidentes o fez pensar se devia parar?
Sabes que, em 20 anos, o acidente que tive agora em Setembro foi o primeiro onde realmente me magoei, passei perto de uma catástrofe muito maior. Estar aqui hoje a falar contigo já foi um milagre, segundo os médicos todos, e estar a andar, a mexer-me, é outro milagre, porque se não estivesse ficado lá o mais provável é ter ficado tetraplégico. Por isso, o facto de estar agora a treinar como estou a treinar, a andar como estou a andar, a falar… Estive uma semana sem falar, estive um mês sem andar, estive bloqueado à direita, estive sem ver praticamente, durante alguns meses, ou seja, tive muita sorte da forma como as coisas estão agora a resolver-se. No entanto, se perguntares se me fez pensar, obviamente que num mês e meio acamado no hospital tive tempo para pensar em tudo e mais alguma coisa. Se me fez pensar em parar, acho que nunca, e não sei se isso é grave ou não, é um lado inconsciente que podemos ter. Acho que nem nos dias seguintes, quando comecei a recuperar os sentidos, nunca pensei em parar, antes pelo contrário, só queria era voltar lá o mais rápido possível, mas também acho que foi isso que me deu a força para lutar, porque a recuperação foi muito dolorosa, fisicamente e psicologicamente também. Acho que se não tivesse esse objectivo de querer voltar teria deixado andar as coisas, se calhar ficava deitado a ver televisão ou a ler um livro que é muito mais fácil. Ao início os médicos estavam bastante preocupados e alguns não sabiam se eu ia voltar a andar.

Quando ficou consciente já sabia que não ia ficar tetraplégico?
Eu só estive inconsciente oito horas. Quando acordei nas primeiras horas estava completamente sedado, os primeiros dias não percebia nada do que é que se estava a passar, não tinha noção da realidade da situação, achava que a questão da visão foi só do impacto, que numa questão de dias ia passar, achava que o não me mexer também era uma questão de dias, por isso, não, não tens consciência. A pancada é tão forte, foste tão abalado e as drogas que te dão por causa das dores, estás completamente noutro planeta. Mas pouco a pouco, nas semanas seguintes vais começando a perceber da gravidade das coisas mas também ao mesmo tempo sim, percebes que afinal foi muito grave mas que há uma boa hipótese de recuperar e foi isso que, apesar de algum negativismo em médicos que estavam mais pessimistas, felizmente havia alguns também optimistas e que me deram essa força. E tinha uma equipa fantástica à minha volta. O objectivo era voltar o mais rapidamente possível, alguns médicos diziam-me no mínimo dois anos de recuperação até voltar a estar mais ou menos normal. Isso para mim, fora de questão. Aliás, durante o primeiro mês e meio, dois meses, era das oito da manhã às oito ou nove da noite, fisioterapias todas, homeopatias, optometria, oftalmologia, todos os tratamentos possíveis e imaginários, eu estava a fazê-los. Agora passaram cinco meses e meio, ainda ontem estive com um médico que me viu logo no início, dos que dizia que isto, no mínimo, um ano e meio, dois anos e estava muito surpreendido, obviamente, com a recuperação. Feliz, mas surpreendido. E isso eu acho que é o objectivo de querer regressar que faz dar esta força, senão sabes, em vez de fazer oito horas por dia, se calhar já só fazes duas de tratamento e tal, o tempo vai passando e depois tenho 40 anos, se tivesse 20 era uma coisa, com 40 é outra.

Como foi estar a liderar o Mundial e vê-lo escapar sem poder fazer nada?
Essa foi a parte mais difícil, uma coisa é estares em pista e as coisas não correm bem, mas estás lá a lutar. Outra coisa é estares em tua casa, ou nos tratamentos, seja o que for e a ver na televisão os outros a roubarem-te os louros. Foi um exercício psicológico duro, mas interessante ao mesmo tempo, porque descobri muitas coisas sobre mim próprio, obrigou-me a uma luta interna óptima, uma força muito grande para aceitar isso e passar à frente. Ainda fiquei uma corrida à frente no campeonato, apesar de não estar lá, e na segunda perdi a liderança, mas por meio ponto. E faltavam duas para acabar, ou seja se voltasse à terceira corrida ainda dava. Não foi possível e foi uma fase difícil de aceitar mas só me deu mais vontade que nunca. Não digo que isto foi bom, isto não foi bom para nada, mas por um lado estou consciente que vou sair disto muito mais forte. Foi uma bofetada muito grande, estão a roubar-te o campeonato, claro que ninguém me garante que eu tivesse ganho mas toda a gente sabe que era o maior candidato à vitória e roubar-me desta forma é muito frustrante. Não digo que tinha perdido a paixão, antes pelo contrário, mas deu-me uma nova vontade, um novo alento de ir buscar o que é meu e de voltar à competição. Quando fazes isto há 20 anos, nem todos os dias é fantástico, é como tudo, há dias que estás cansado, dias que não te apetece tanto, e quando vais três/quatro dias para Barcelona ou para Valência no Inverno, está um gelo e tu lá o dia todo no carro, com dores de cabeça, dores de corpo, não é fácil. Mas mesmo dessa parte agora estou com vontade, voltou a dar-me uma motivação interna incrível.

Ter sido eleito piloto do ano, numa votação realizada pela imprensa, foi uma espécie de justiça poética?
É um reconhecimento importante, muito simpático e fico satisfeito, como é óbvio. Também recebi o prémio de mérito com a Federação de Desporto Nacional, acho que eles vêem a minha força de vontade, não é só, “olha teve um acidente, coitado”. Fico agradecido por isso, mas o meu objectivo não é receber esses títulos, eu quero é ter os títulos na pista.

Tiago Monteiro: "Estar vivo é um milagre. Estive uma semana sem falar e um mês sem andar"

Relações com colegas de equipa podem ajudar a estragar uma época?
Podem, é muito importante porque é o teu concorrente directo, é a pessoa que te pode dar mais trabalho se for realmente bom, o material é o teu e é uma comparação muito direta do teu trabalho. Se esse colega tiver um feitio complicado, se não for uma pessoa justa, se for uma pessoa duvidosa como alguns, pode pôr uma época desastrosa pelo menos a nível de ambiente. Felizmente não tive muitos desses, mas tive alguns. Na F1 tive um que foi o meu pior colega de equipa de sempre, mas é raro. Para ganhar tens que esmagar o outro, há um lado egoísta, muito agressivo e não estamos lá para ser amigos de ninguém, mas na realidade há que haver respeito uns pelos outros.

E agora o que é que vai mudar no WTCC, além do nome?
A grande diferença é o regulamento do carro, que é muito mais simples, ou seja, também muito mais limitado, não deixa tanta abertura de desenvolver o carro, para limitar os custos. Não podes partir de uma folha branca e fazer o que queres, tens que partir de um carro que já existe e desenvolvê-lo dentro dos parâmetros que são controlados, por isso todas as marcas têm muito interesse porque têm esse tipo de carros, é mais fácil, não precisam de 50 engenheiros e designers para fazer um carro, partem de uma base que já existe. Obviamente alteram tudo e mais alguma coisa, mas dentro de uns certos parâmetros e tens um equilíbrio entre marcas muito maior. Dá um interesse para a marca, porque não só estão a vender carros e peças também, ao mesmo tempo fazem publicidade, são os carros deles que estão a andar. Continua a ser a Eurosport a promover o evento e a ter o carimbo da FIA, que também é muito importante.

Partem portanto de carros normais, é isso?
Têm que ser baseados em carros de série, no caso da Honda há o Type R, desmancham-no completamente e alteram elementos, mas não é um protótipo. Dantes não havia praticamente nada do carro real, havia os faróis. A Citroën tem desses carros, a Seat, a Opel, a Alfa, a Volvo está a desenhar porque não tinha feito ainda, mas também lá vai chegar, a Hyundai, ou seja, quase todas as marcas têm carros já prontos no mercado para se basearem.

E as três corridas por fim de semana, vão fazer muita diferença?
Não faço ideia, acho que a intenção é dar mais importância e interesse ao sábado, até agora eram treinos e qualificação e depois ao final da tarde era mais actividades comerciais e coisas assim e quiseram pôr uma corrida também ao sábado. Francamente não sou muito a favor porque já tínhamos uma agenda muito preenchida, agora se vai trazer mais espectáculo, sim, talvez.

Os testes para a nova época, não consegue fazê-los.
Não, por enquanto não estou, mas também mais uma vez os testes têm alguma limitação, nos últimos anos em final de Fevereiro, já tinha feito para aí uns 15 dias de teste. Desta vez foram feitos dois ou três dias de testes, lá está, para limitar um pouco os custos. Por isso não estou a perder assim tanto e vou, em princípio, começar a testar em Março.

Como é que vê a atual F1?
Altos e baixos. Não a vejo em grande forma em certas coisas, mas claro que a F1, é sempre a F1, mas com esta nova compra dos americanos, eles estão-se a procurar ainda, qual é que será o melhor formato, estão a tentar moldar a F1 às novas tecnologias, hoje em dia a forma de veres corridas, de veres televisão, mudou completamente. Já não é aquela situação de domingo à tarde que tens três canais na televisão, toda a gente via F1 porque era quase o que havia, hoje tens muito mais escolha, tens muito mais desportos interessantes. A F1 está a combater uma dificuldade de angariação de novos fãs muito grande porque querem coisas mais radicais, mais espectaculares e têm acesso a essas coisas. A nível desportivo, acho que não está mal, é verdade que houve um domínio de uns anos da Mercedes mas com algumas lutas interessantes por parte da Red Bull, da Ferrari também. Tenho seguido obviamente de muito perto e acho que há muitas coisas interessantes mas têm que ser mais valorizadas.

Alguém por cá com hipóteses de lá chegar?
Infelizmente não, eu quero descobrir o próximo talento português que chegará à F1 mas não é para já. Há muito talento jovem que ainda não está nessa fase. Os que estão ali a meio caminho também não vejo neste momento ninguém preparado para esse salto, é uma pena, mas não é fácil. Neste momento não estou a ver assim ninguém capaz de nos próximos 2/3 anos chegar à F1. Mas daqui a 5/6 anos já não digo que não.

E até que idade se vê a entrar na grelha de partida?
Sei lá, 65/70, até quando me deixarem. [risos] Basicamente, ou vou perder a vontade, ou vou perder a motivação, ou vou perder os reflexos. A correr tudo bem, não tenho dúvidas que até aos 45/46/47/48 anos, possas continuar a ser muito competitivo. A partir dessa idade são mesmo casos muito raros. Espero ter mais cinco ou seis anos, não sei, a nível de topo. Depois se quiser continuar a correr para me divertir, logo se verá.

E agora, é ir buscar o campeonato?
Tem que ser. Não tenho ainda garantias de estar a 100% em Abril, mas se me derem o OK para correr e começar o campeonato desde o início, o meu objectivo vai ser lutar pelo campeonato, não há dúvida. Apesar de ser um campeonato novo, os circuitos alguns são novos, carros novos, produtos novos, muita coisa nova, no entanto sei que posso lá estar a lutar pelo campeonato e é isso que quero. Claro que não sei como é que vai estar o carro, isso também vai obviamente ter interferência nestas ambições, mas tenho experiência e capacidade para isso, vamos ver.

Quem é que dá esse OK? É mesmo a FIA?
Primeiro vão ser os meu médicos cá em Portugal e depois tenho que fazer uma série de exames com a FIA. Eles querem assegurar-se que não será um perigo para mim nem para os outros, e que não seja ainda prematuro a nível físico, porque não é o facto de apto, é o facto de voltarmos a ter um acidente, muitas vezes os regressos são adiados por causa disso. Estás de perfeita saúde para pilotar a alto nível, no entanto estão aí algumas lesões que podem estar um bocado fragilizadas e que, se voltas a ter um acidente grave, aí pode ser uma catástrofe e eles não querem arriscar isso.