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“Vamos para o telhado?”. Frente a frente com Toro Y Moi

O multitalentoso músico cavalgou a crista da onda, mergulhando de seguida de cabeça na exploração da criatividade e na alegria do relacionamento. À conversa com Toro Y Moi.

Vamos para o telhado?”, Perguntou-me Chaz Bear com um sorriso bem disposto.

O seu entusiasmo apanhou-me desprevenida. Tinha sido um longo dia aqui na Company, o estúdio de arte e editora discográfica que Bear, mais conhecido por ser o músico experimental Toro Y Moi, fundou em Oackland, Califórnia. Na última noite, estivera ali a trabalhar numa nova música até às cinco da manhã, voltando algumas horas mais tarde para um roteiro completo de fotografia, filmagem e entrevista para a PLAYBOY. Enquanto se aproximava do final (o sol já se punha), a energia de Bear não se tinha esgotado, mostrando-se ansioso para me mostrar mais do seu novo mundo.

Ao chegar lá acima, empurra com força uma porta de acesso, circular e pesada, instalada por cima de tubos industriais. Um feixe de luz irrompe e banha as traseiras do estúdio de gravação no segundo andar da Company. A abertura pouco maior do que os seus ombros faz lembrar a saída de emergência dum submarino. Para a passar, temos de nos esgueirar habilidosamente entre uma escada e uma caixa de eletricidade colocada na parede. Bear sobe balançando comicamente as pernas antes de se erguer.

Não quero o monopólio ou coisa parecida. Só quero fazer tudo bem e servir quem estiver ao meu alcance

Vens?”, pergunta esboçando o mesmo sorriso de há pouco. Não fazia a mínima ideia do que nos esperava lá em cima mas como Bear é considerado excepcional – as suas criações posicionam-no ao mesmo nível dos artistas mais ousados e inspirados – tornava-se uma agradável surpresa acompanhá-lo a ver o pôr de sol.

Passou uma década desde que Bear, 32 anos, penetrou no mundo da cultura pop como Toro Y Moi, um projeto a solo que nasceu num pequeno quarto de um skater desengonçado que gostava do rapper Dilla e do músico Panda Bear. Em 2010, o som hipnótico e tranquilo do seu primeiro LP, “Causers of This”, rendeu-lhe um culto de seguidores, lançando-o rapidamente para um movimento musical de sucesso chamado chillwave – um género musical marcado pela nostalgia, sonho e resignação. O clima preocupante da recessão e a alta taxa de desemprego de 2008 impulsionaram o seu envolvimento no chillwave e nos temas sobre o desamparo juvenil.

Mas a estrela do chillwave apagou-se rapidamente, esfriando em princípios de 2010. Retrospetivamente, apesar de ser considerado um dos progenitores do género, o grupo Toro y Moi repudia as variações estilisticamente omnívoras feitas sobre os seus subsequentes oito LPs, duas compilações e três EPs — cheios pelo gosto pela exploração e não pelas tendências.

“Vamos para o telhado?”. Frente a frente com Toro Y Moi

Hoje, Toro y Moi é mais uma das facetas de Chaz Bear, um artista cuja imaginação está centrada na sua identidade holística e cujas obras se apresentam mais como resultados de pesquisas do que como um padrão estanque. Ele é Chadwick Bradley Bear, com o nome de nascença Bundick — cantor, escritor de música, produtor, designer gráfico, pintor e designer de capa de álbuns; fundador da Company Records; DJ e criador de dance music com o nome de Les Sins; colaborador juntamente com Travis Scott, Flying Lotus e Tyler, the Creator, entre outros; homenageado no “Chaz Bundick Day” como principal convidado do mayor de Berkeley; e viciado no trabalho, como o próprio admitiu.

Percebi que antes do meu trabalho se ter tornado no que é atualmente, procurava ter prazer no processo criativo, nos géneros que tentava recriar”, conta. “O romance desviou-se da parte criativa para o gozo das expressões das pessoas”.

Esta mudança tornou-se a imagem de marca de Toro y Moi no mais recente Outer Peace”. O álbum não só mostra que o estilo acutilante de Toro y Moi ainda existe nas produções R&B, batidas de eletrónica e narrativas de arregalar os olhos — como também é uma introspeção do próprio Bear e a sua crença que a energia e potencial de cada um estão interligados às conexões que estabelecemos com o mundo que nos rodeia.

De volta ao terraço da Company: “Às vezes num dia limpo, pode-se ver a Golden Gate”, diz Bear gesticulando por entre a bruma. Ao contrário das minhas expectativas, o telhado — uma extensão coberta de placas de alcatrão e estuque cheias de tampas de garrafas — é banal. O que é fora do normal é o que o rodeia. As colinas em cascata de Berkeley e Kensington encontram-se a nordeste. Perto, um comboio de passageiros deslizava pela rede residencial de Oakland na lentidão do sol e os picos das construções projetavam-se na linha do horizonte.

Rodeado por quase uma dúzia de estúdios deste complexo industrial de artes, o telhado remendado da Company sugere humildade. Para Bear, traduz-se num refúgio duma ilha improvisada para escapar à máquina trituradora de mentes e emoções lá debaixo.

Este é um dia como todos os outros aqui na Company este tipo de coisas, estas pessoas à roda”, diz sobre os dias dos eventos. “É ótimo, adoro. Mas se quiseres desenvolver um projeto, aqui é impossível”.

Só recentemente Bear compreendeu que quando nos envolvemos num processo criativo também temos de saber quando o interromper. “Honestamente só aprendi a tomar conta de mim há três anos. Só comecei a fazer coisas que me dessem gozo pessoal depois de estar sozinho outra vez”, diz, referindo-se a uma curta separação da sua companheira Samantha Beardsley (agora estão casados e adotaram o apelido “Bear”). “Tens de passar por isso. Eu andava cada vez mais deprimido quando estava a fazer “Boo Boo” (2017). Pensava em imensas coisas ao mesmo tempo e não conseguia despegar-me do computador. Merda, tenho de desenhar isto, tenho de escrever aquilo, tenho de preparar isso. Não fazia mais nada do que trabalhar e nunca dizia, Okay, hoje vou passar o dia todo a dormir”.

A viver em Portland na altura do lançamento de “Boo Boo”, desistiu de sair em digressão com o novo álbum a altura mais lucrativa na carreira de um artista para se entregar à pintura, montanhismo, e a viajar para a Bay Area e embrenhar-se no meio artístico local. “Nunca tive um sistema de suporte e precisamos dele para quando não temos tempo para nós”, diz. “Tive de me obrigar a parar de ser tão introvertido e de começar a fazer amigos, senão fica-se maluquinho”.

Abriu formalmente a Company Records quando se mudou em 2017 para Oakland. Dez anos depois do começo de Toro y Moi, Bear é ainda um DIY (faça você mesmo) mas trocou o seu quartinho por esta editora e incubadora. Hoje, a Company inclui uma loja de impressões, um espaço para ensaios e uma galeria, todos disponíveis para os artistas locais. Providenciar estes recursos permitiu a Bear sair de debaixo dos holofotes e manter o controlo criativo mas também significou adiar as suas iniciativas de lobo solitário.

Outer Peace é um sucesso porque pude ter a oportunidade de saborear cada etapa do processo

Apesar (ou talvez por causa da) sua tendência para trabalhar fora de horas, os retiros pessoais surgiram como parte essencial no processo criativo. No ano anterior, refugiou-se num chalé dum escritor fora de São Francisco para acabar “Outer Peace”. Aí, na mais completa solidão, entre painéis de madeira e um crânio de vaca na parede, fez o balanço do trabalho produzido na altura que vivera em queda livre.

“‘Outer Peace’ é um sucesso porque pude ter a oportunidade de saborear cada etapa do processo”, conta. “Antes, era como se fosse um fardo. Agora, basta-me desempenhar o papel de diretor criativo.

A voz de Bear assume uma reverência tranquila porque se reflete nas construções envolventes da coletividade artística que inspirou a aproximação da comunidade da Company a desenvolver a arte. “A verdadeira razão porque me instalei em Portland foi por me ter tornado o pai deste projeto quando a minha amiga se foi embora”, disse quase sem fôlego. “ São todos artistas puros. Incríveis”.

Por trás de nós há uma fila de estúdios de cujas janelas se vislumbra os trabalhos dos impressores, metalúrgicos, escultores e pintores, muitos dos quais são inquilinos desde os anos 70 quando apareceram os arrendamentos a preço reduzido“. Estes tipos são genuínos. É por isso que me sinto tão honrado em possuir este espaço. “Pertencem àquela época, são os beatniks que vieram para aqui”, diz. “Esse movimento influenciou este espaço a tornar-se um polo de mentes abertas. Aqui sentimo-nos totalmente em casa.

“Vamos para o telhado?”. Frente a frente com Toro Y Moi

Estas velhas gerações sofridas de artistas também ajudaram Bear a recarregar, mesmo que com a noção que agora as regras sejam outras. Nunca houve um tempo tão paradoxo para um artista: a hiperconetividade está em guerra com a desconexão cultural. Muito dinheiro a ser trocado por meia dúzia de mãos. O poder corporativo impede a inovação dos mais fracos, obrigando os sectores periféricos a existirem segundo as suas regras e a apoiarem-se uns aos outros em comunidade.

Tens de te promover a ti próprio. É ao que isto chegou. É uma merda, mas é o mesmo que ser o tipo da imobiliária local que tem uma fotografia em todos os bancos das ruas”, acrescenta Bear. “Se te vais entregar de alma e coração porque não pôr isso no teu trabalho?”

Para chegar aqui, Bear percorreu um longo caminho desde o início da carreira. Não interessavam as aspirações que ele e os seus colegas veteranos tinham. Sabiam que apenas podiam ter controlo no que produziam. Sabiam que se se focassem e dessem o melhor de si, isso só os levaria a ter bons resultados. Diz: “só queremos fazer coisas que nos interliguem. Se for esse o objetivo significa que o que fizermos em conjunto ainda terá valor no futuro”.

Ultimamente, há por todo o lado chamadas de atenção para o controlo que temos sobre o mundo que nos rodeia. Ainda não é muito, mas talvez o suficiente. Vejo-me como um dono de uma loja local. Não quero o monopólio ou coisa parecida. Só quero fazer tudo bem e servir quem estiver ao meu alcance. E dar um passo de cada vez. Tem sido o meu enfoque neste tempo todo. É só construir alguma coisa na cidade”.

Tens de te promover a ti próprio. É ao que isto chegou. É uma merda, mas é o mesmo que ser o tipo da imobiliária local que tem uma fotografia em todos os bancos das ruas

Quando descemos de volta ao estúdio, Bear pergunta-me se tenho fome. “Eu estou a morrer”, diz. Juntámos à pressa as nossas coisas para chegar ao restaurante antes que fechasse. Bear passa uma última ronda, trancando portas, fechando armários, desligando o equipamento da corrente e apagando as luzes. As pesadas portas de aço fecham-se atrás de nós com estrondo.

Merda”, grita Bear. Tinha-se esquecido das chaves.

Os colegas de trabalho tinham saído há horas e tivemos de esperar por um porteiro. Passeei pelo jardim do complexo comunitário que tinha uma pequena árvore com os braços carregadinhos de ameixas.

Apanhou uma e estendeu-ma. Tem um sabor floral e doce como o mel, invulgar e familiar. Permanecemos ali, banqueteando-nos com as ameixas e rindo deste absurdo. Não era isso que planeáramos, mas era bom na mesma.

Publicado originalmente na edição norte-americana da PLAYBOY

Texto: Andrea Domanick

Fotografia: Mancy Gant