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Sam The Kid: “Não tenho relógio biológico, aquilo de ser o avozinho que vai levar o filho à escola”

O passado, presente e futuro de Samuel, numa conversa que tanto passou por Tallon como por Marcelo Rebelo de Sousa.

O miúdo chega aos quarenta e numa fase bastante forte, entre os lançamentos de Classe Crua, Mechelas, as produções da TV Chelas e a agenda com Mundo Segundo.

“Até que idade tenciona Sam, continuar a ser The Kid?”
Queres que eu responda a isso?

Quero. Vai fazer 40, não é?
Vou, agora em Julho. É o meu nome artístico, nunca irei mudá-lo. Aliás, nem o mudo nas outras facetas que tenho, quando vou passar música podia ser o DJ Sunset, ou como produtor podia ter outro nome, ou mesmo nos Orelha Negra. Tenho um projecto com o Beware Jack, Classe Crua, na capa está Beware Jack, Sam The Kid e eu estou na capa. Tenho a certeza que há pessoas que pensam que vou estar a rimar. Os GROGNation, também estou a fazer uma cena com eles e até eu é que lhes disse para o título dos vídeos no YouTube ser mesmo ‘GROGNation X Sam The Kid’ e os comentários dos putos são, “Isso é clickbait, estão a usar o nome do Sam”. Não tenho culpa, também faço beats e não vou arranjar um nome só para isso. Ou não vou estar a dizer-te mesmo, “É produzido, não vou rimar”. Por isso, se sou uma pessoa que não muda o nome por nada, a idade também nunca será um factor.

Nesse Juventude (é mentalidade), onde fui buscar a primeira pergunta, escreveu “Não é ser cool tar nos 50 e bafar muitas ganzas”. Agora, 13 anos depois e com a chegada aos quarenta, dá importância a isso?
Por acaso não. Continuo com a mesma mentalidade da mensagem que essa música transmite, que é “Está tudo na tua cabeça, manteres uma fome, no meu caso uma fome criativa e seres uma coisa em que sejas tu mesmo, que te sintas confortável”. Quando digo esse tipo de rimas é sobre aquele pessoal que quer forçar o ser jovem, o ser cool e transparece que não é puro. Agora, eu se usar chapéu até aos 60, não vou tipo “já não tenho idade para andar com chapéu”. Não. Enquanto achar que é natural, será natural. Não vai ser a sociedade a estipular uma certa idade para não fazer certas coisas. Mas é curioso falares nisso, porque recebi uma mensagem de uma mulher, que eu nem respondi, em que ela me diz essa cena. Deve ser uma mulher queimada, não percebe o ponto da música: eu não estou a dizer que alguém de 50 anos não pode fumar ganzas, isso é uma estupidez, claro que podes fumar. A minha cena é tu fazeres só por ser cool. E ela, “Estava a ouvir o Juventude (é mentalidade), olhe eu tenho 50 anos, porque é que não é cool ter 50 e bafar muitas ganzas? Não sabes mesmo nada. Já não gosto de ti, não sabes nada, cresce. Estou farta de ouvir essa parte, acho que não percebi mal, pois não?”. [risos] É curioso, porque foi uma cena recente. E estamos a falar de uma rima bué antiga.

O Rapública, que habitualmente se assume como o pontapé de saída do hip- hop tuga, é de 1995, e começa a dar os primeiros passos no ano seguinte. Teve influência em si, ou já estava nesse caminho de qualquer forma?
Já estava nesse caminho, mas não havendo quase gravações nenhumas de rap nacional, claro que veio fazer algo. Tipo, perceber como é que está a situação, principalmente a nível de Lisboa, porque essa compilação centra-se muito ali e os Mind da Gap também já estavam a dar os primeiros passos, por exemplo. Foi interessante, claro, sem dúvida. Mas eu, por acaso, em termos de ser fã e ter uma influência mais directa, até sinto que os Da Weasel (o Carlão enquanto rapper) e os Mind da Gap me influenciaram mais, sentir que estavam a fazer uma cena espectacular. Enquanto que o Rapública, foi uma coisa bastante bem-vinda mas que se sentia ainda verdinha e ingénua, de certa forma. Não foi algo que me inspirou assim “Uau”. Talvez o Boss AC fosse quem estava mais a frente, também é uma pessoa que respeito bastante, mas no meu estilo de rimar consigo ver nas minhas primeiras letras nuances na maneira de dizer as palavras que, em retrospectiva, vejo que fui beber mais ao Carlão e aos Mind da Gap, do que até concretamente ao Boss AC, que já era um grande rapper. E também não posso omitir uma grande influência para todo o rap nacional, que foi o Gabriel, o Pensador, também nessa altura. Isso principalmente é que foi uma grande inspiração, ele já estava num nível muito à frente na escrita de poesia, fez mesmo com que o pessoal se sentisse inspirado e quisesse fazer letras melhores.

sam the kid

Quando começou a lançar álbuns, existiam rivalidades ou nessa idade de mais inocência estava tudo a trabalhar para um bem comum?
Não acho que tivessem existido rivalidades fortes ao ponto de serem mencionadas. Lembro-me que ali mesmo, em 1996/97, começam a haver umas noites no Johnny Guitar, com o KJB dos Black Company e o Carlão, eles tinham um programa de rádio, Ataque Verbal, e faziam lá umas noites. Como estava a coincidir um pouco com a cena East Coast e West Coast nos Estados Unidos, o pessoal tentou inventar ali por momentos o Margem Sul – Margem Norte, por exemplo. Mas foi uma coisa que não teve seguimento, graças a Deus, até porque era forçada. Mesmo de Norte e Sul eu nunca senti isso de forma específica.

Apesar de achar que tinha noção do valor de Pratica(mente), estava preparado para o impacto que teve?
Sabia que iria surpreender as pessoas no aspecto de estar a competir com a minha discografia anterior, sabia que tinha algo superior, pela primeira vez estava a gravar um álbum sem desculpas, em estúdio e estava melhor do que nunca a escrever, produzir e também pela primeira vez a gravar com alguns músicos. Tive também a ajuda do Lil’ John, hoje em dia o Branko, e eu estava bastante confiante no produto. Nem gosto de dizer estas coisas, é sempre subjectivo, mas conheço muitas pessoas a considerarem-no o melhor disco de hip-hop nacional: não foi por aí que eu apontei. Só quis fazer algo melhor do que os meus trabalhos anteriores e que durasse. Esse feito consegui. Então, nesse aspecto, estava à espera que isso acontecesse. Realmente tinha uma confiança e uma aura que se cria às vezes, é inexplicável, que é misturada com ingenuidade e há um encanto e uma força, e isso é uma coisa um bocado espiritual, que eu actualmente não tenho. Já é mais metódico, criam-se momentos de luz, de confiança, mas é uma coisa que dá mais trabalho. O Pratica(mente) é muito mais focado naquilo que quer ser, enquanto que os anteriores são ingénuos, mais “bora lá gravar e olha depois juntamos estas músicas todas”. E mesmo a decisão de Poetas de Karaoke ser a primeira carta. Meses antes tinha havido uma coisa inédita em Portugal, alguém teve acesso a maquetes de Poetas de Karaoke, do Abstenção e Negociantes e foi parar a fóruns da editora do Valete, ou seja, a comunidade toda já tinha essas músicas.

Como é que isso aconteceu?
É uma história engraçada. Em 2004/2005, entrei num evento que se chamava Optimus Open Air, foi das primeiras vezes que veio cá o Zé Ricardo, que faz as cenas do Rock in Rio quando é misturar portugueses com brasileiros, esses palcos. Então vias um cinema ao ar livre e depois um espectáculo. E quando chegou o meu dia, eu já queria actuar com músicas novas e aquilo era com banda, então levei essas três faixas, ainda em versão demo e eles tiveram que aprender a tocar as músicas ali no próprio dia. Eu levo uma cópia, essa cópia é multiplicada por 10 indivíduos, talvez, um deles esquece-se no camarim, a mulher a dias está a limpar o camarim, lê “Sam The Kid”, leva para o filho, curiosamente o filho era de Chelas, eu vou a passar na rua e vejo que alguém está a ouvir a minha música que ainda iria sair. E disse-lhe, “Ok, fica com a cena mas não passes a ninguém”. Mas conforme os meses vão passando, esse “não passes a ninguém” é “passo a ti, mas não passes a ninguém”, vai passando, é como um segredo e eventualmente foi parar a um fórum.

E quando saiu o álbum, sentiu que de repente tinhas dado um salto e as coisas estavam diferentes?
Percebo que se calhar estando de fora pode parecer isso. No meu lugar, sendo eu a pessoa que está a viver, sinto que são degraus e então é mesmo gradual. És conhecido aqui, depois 200 pessoas conhecem-te, depois 300, depois 400, não é do zero para duas mil. Por acaso não senti. Também posso ter uma percepção errada, mas ao meu redor foi tudo muito tranquilo.

Na altura era mais difícil viver da música?
Sim, mas eu já conseguia. Se quiseres pôr as coisas em perspectiva, eu também não vivia sozinho. Não estava a pagar renda. Só de há uns anos para cá é que sustento a minha mãe, sustento outra casa, tenho muito mais despesas. Naquela altura já era independente, mas pronto, não tinha estas despesas importantes. Eu tocava todos os fins de semana e o cachet já era espectacular. E mesmo as vendas dos CDs, na editora em que estava era uma coisa mensal e que me deixava bastante satisfeito.

Apesar de viver em casa da sua mãe, sentia-se uma rock star, com groupies e isso tudo?
Nunca me senti rock star em nenhum ponto da minha vida. Claro que tenho episódios, não é, todos temos nesse aspecto.

Não está a subestimar bastante o impacto que o álbum teve?
Mas até essa situação que estás a falar também é gradual. Por exemplo, eu posso só lançar um álbum e depois dentro do meu meio haver pessoas que ficam fascinadas por mim, raparigas a quererem envolver- se. Depois no Sobre(tudo) também. Mas não é por aí. Não fiquei mais bonito depois do Pratica(mente). Também não sou esse tipo de pessoa. “Agora tenho mais sucesso, deixa-me ir para a night para ver o barómetro, ver como é que está o assédio.” Não. Vivo uma vida normal e claro que periodicamente tu sentes essa situação e são episódios. Stalkers, também tenho os meus UHFs desta vida…

E com o Sobre(tudo) a ir de encontro ao seu plano, pode ter ficado a pensar que saiu demasiado bem, ao ponto de ficar na dúvida se conseguia ultrapassar essa fasquia num novo álbum?
Considero que consigo fazer algo superior, mas se calhar que já não será superior tão consensualmente. Depois o facto de eu não lançar um álbum há tanto tempo, estou a valorizar bastante esse, tenho noção disso, também é uma boa jogada. Mas também tem essa maldição, quanto mais tempo passa, mais as pessoas ganham afecto à situação que, por melhor que faça, já não será a mesma coisa. Vai sempre haver pessoas divididas. E irá sempre haver a tal comparação, “Mas não é bem a mesma cena”; “Gostaste mais deste Blade Runner ou do outro?”. Vai sempre haver essa situação. Depois também esse álbum é o que costuma ser o primeiro, tu ficas a conhecer o artista e eu explico de onde venho, a minha adolescência, como é que faço os meus sons, a minha posição política, explico várias cenas biográficas que estão ali e não estão nos álbuns anteriores. Se fizesse o próximo, iria fazer temas adequados à minha idade e à minha vivência. Abordar temas genéricos que ainda não abordei, se calhar de religião ainda não falei, por exemplo, e podia ter falado ali. Ou seja, não tem muito a ver com a idade, embora a idade também é sempre uma cena. Também não vou inventar a roda, mas sinto que estou cada vez melhor.

Quanto tempo demorou a dar a sua própria aprovação para sair Sendo Assim, canção em que rima novamente sozinho ao fim de mais de uma década?
De certa forma não demorou assim tanto tempo, porque eu sabia que queria que fosse a última música da compilação, para dar uma força depois ao produto físico. Sabia que ia chamar-se Sendo Assim e já tinha escolhido o instrumental. Depois foi recorrer aos meus anos de apontamentos de cenas que estão guardadas, se calhar até estavam guardadas para um possível álbum. Mas só que eu agora já não penso assim, “Esta aqui vou guardar para quando sair o meu álbum”, não, não. Não interessa, mano. Lança já, mano. A música é para ser consumida. Claro que também estaria muito bem num álbum a solo, enriqueceria bastante. A seguir foi juntar essas pérolas todas, boas frases que estão dentro deste sentimento, e montar o puzzle. Depois a gravação foi rápida, não foi daquelas duvidosas de chegar a casa e quero gravar outra vez porque não gosto da minha voz ali. Fiquei logo satisfeito, por acaso. Na mistura, sendo uma música bastante crua, que até nem tem muitas pistas, sempre ali um loop a andar, não é muito complexo, estive ali na luta com o Here’s Johnny e disse, “Mete a voz mais para cima, eu quero que o som esteja quase um som de fundo, imagina que isto é quase um som a capella e por acaso está ali a dar uma coisa de fundo”. Não queria que a voz estivesse ali no meio, como é habitual. Queria mesmo que estivesse em cima, para as palavras terem mais força. Depois há coisas em que eu não penso na altura. Isto até é uma prova disso, se fizer sons a pensar, “Tenho que ver se isto bate nos concertos ou nas discotecas”, eu não faria este som. Já o cantei algumas vezes ao vivo e mesmo sonicamente não é a melhor coisa do mundo, ficas ali cinco minutos a ouvir uma cena, mas pronto, ficas a ver um gajo a entregar-se à rima, e acho que essa é que é a parte forte. É por aí.

Esse tema fecha a compilação Mechelas, em que trabalhou essencialmente como produtor para imensos convidados, num projecto da sua TV Chelas. Apesar de certamente me ir dizer que trabalha pela arte, friamente, acha que o tempo investido ao longo de anos compensa?
Tenho ali muitas horas, anos. Queria fazer algo que estava na minha bucket list de desejos, que era fazer uma compilação. Não apontei para fazer a melhor compilação de sempre e a coisa mais conceptual de todos os tempos, tenho noção disso, mas só o facto de o ter feito e realmente a nós, enquanto adultos, a vida corre mais depressa e os anos passam mais rápido. Eu não tenho culpa, estou sempre a trabalhar nas cenas, todos os dias. Durante estes dois anos que estava a fazer a compilação também saiu um álbum de Orelha Negra, várias produções para outras pessoas, entrevistas que fiz no canal, onde também estou a editar vídeos e é isso que me completa. É essa variedade. Claro que tento sempre que as músicas fiquem o melhor possível e estou orgulhoso desse trabalho. Se pode haver espaço para fazer algo deste género ainda mais marcante? Claro que há. Mas eu vejo uma compilação como algo diferente. Não é algo para vender, porque é muito mais arriscado, em cada música é um artista diferente, nem todos vão gostar. Eu obviamente podia, “Esta compilação vai ser só liricistas do mais alto nível”. Vivo mesmo a cena do hip-hop de dar a conhecer nomes. Depois, como consumidor, consigo encontrar encanto, às vezes, naquele rapper que para algumas pessoas pode ser mediano, mas eu consigo perceber a identidade e a coisa especial que há nele. Consigo ouvir vários estilos de rappers, nem todos precisam de ser “uau”, malabaristas ou com dicas incríveis. Qualquer pessoa quando aponta o dedo aos outros, depois se for ver, ele próprio também consome rappers que não são nada do outro mundo. O 50 Cent não é um rapper nada do outro mundo, mas sabe fazer a sua cena e tem a sua identidade. Depois há pessoas que dizem, “Este gajo aqui não me entra muito”, estás no teu direito, mas eu sou feliz porque consigo gostar de vários sabores, neste caso.

Lançou música a música e depois o álbum físico para o coleccionador. Agora que o processo terminou, ficou satisfeito com a estratégia?
Acho que faz mesmo todo o sentido, é mais inteligente porque consegues espremer um disco durante dois anos. Claro que depois, quando o álbum sai físico, “esta música já saiu há dois anos”. Não interessa, agora se quiseres compra e mais nada. E realmente tem corrido muito, muito bem. Enquanto que há outros projectos, por exemplo Classe Crua, que saiu agora, é precisamente à maneira antiga. Só saiu uma música e no dia de lançamento podes ouvir o álbum todo, ter essa experiência. Porquê? Porque é conceptual. Eu quero que entres na viagem, na estética da cena, tem uma vibe própria e acho que merece essa surpresa para a pessoa que quer consumir logo assim à primeira. Apesar de daqui a dois meses ou três já ninguém querer saber. Vou tentar fazer com que dure, à maneira antiga, fazer vídeos. Eu no caso com o Mundo, também é a conta-gotas, vamos lançando, um dia se sair um álbum já tem músicas mesmo com anos, é quase já um greatest hits, mas não faz mal, que assim seja. Faz mais sentido ir mandando assim as coisas, até por, vamos ser honestos, estratégia, para teres concertos, por exemplo.

Em relação a esse álbum com o Mundo Segundo, vocês falam em lançá-lo há bastante tempo. O que é que fez mudar os planos? Falta de tempo?
Estarmos a viver a vida tranquilos e até já estamos quase com aqueles maus hábitos, “Picamos o ponto uma vez por ano e está fixe”. [risos] Obviamente vai-se perder sempre esta cena do impacto de ouvires um projecto novo e estares entusiasmado, será mais para coleccionares as músicas que vamos lançando ao longo dos anos. Foi assim que foi feito, desta forma natural.

Essa continuidade nos concertos com ele foi-lhe oferecendo gradualmente uma maior divulgação das suas canções com 13/15 anos junto dos mais jovens, ou esse processo não era necessário e a resposta foi forte desde o início?
Esse trabalho é muito importante. Mas na realidade, eu podia estar a tocar sozinho e ter os concertos à mesma. Começas a ver, a brincar, a brincar, o tempo a passar e a passares as gerações, as pessoas a acompanharem as músicas, músicas antigas que descobrem e isso é um feito. Às vezes no hip-hop uma música tem a sua vertente também de música de dança, que é muito mais efémera, é uma coisa para resultar naquele Verão e depois morre. Eu estando mais na outra vertente, de tentar fazer clássicos, concretizar essa situação deixa-me mesmo muito orgulhoso. Considero que estou nesse campeonato. Podem chamar-me antiquado, mas eu prefiro isso. Não é superior à linha de quem quer agradar só para ter o hit deste Verão, isso também é importante, queremo-nos divertir e há momentos para tudo, mas o meu campeonato é tentar fazer com que as coisas durem. Tenho sorte, estamos numa era de seres velho logo muito cedo, no hip-hop ainda é pior, logo aos 30 e tal anos as pessoas já não se identificam, já és um cota e ter esse respeito de um adolescente e não te ver como uma cena careta que podia ser o pai dele… Já estamos numa altura que se calhar o pai desses miúdos gosta de mim. E tu és o filho e não queres gostar da mesma música que os pais e eu conseguir esse feito em alguns casos…

Está a entrar no campeonato dos Xutos.
Nunca irei estar a esse nível, mas pronto, nesse aspecto geracional, ya, diria que sim. Claro que há uma ausência de álbuns, também tenho pena, muita pena de não ter álbuns em nome próprio mas há uma presença que faz com que isto aconteça.

Falando em Chelas, certamente já reparou que as placas de trânsito passaram todas a dizer Marvila. Há um processo de branqueamento de Chelas?
Não acredito que estás a tocar nesse assunto. Tenho falado desta situação, até de forma rebuscada, em que a pessoa não pergunta diretamente e eu, como quero falar disto, forço a resposta. E tu fizeste mesmo a pergunta direta, mano. Isso aí realmente é algo que me preocupa. Deixa-me bastante triste num certo aspecto, que é tirarem aos poucos a tua identidade, aquilo que tu és, aquilo que tu abraças, aquilo que tu sentes, aquilo que te dá conforto. Eu sou chelense, sou de Chelas, é a camisola que visto. Por razões financeiras as pessoas mudam os nomes. Se quisermos ir até por caminhos políticos, a verdade é essa. Eu não estou a par desde ontem, tenho estado a par, porque isto é gradual. Depois, passados dois anos, “Onde é que está Chelas? Olha, acabou”. Hoje em dia é Alta de Lisboa, já não há Musgueira. Se tu fores de Cascais e disseres à tua amiga que compraste uma casa na Musgueira, “Ai Musgueira, credo”. “Comprei uma casa na Alta de Lisboa”, é mais valioso. As pessoas do poder por alguma razão pensam que “OK, o nome está sujo, vamos varrer aqui para o lado, é só pôr um nome novo”. Eles já começaram a fazer isso há uns tempos, mudar o nome dos bairros. Que era Zona I, Zona J, L, N, N1, N2. O meu bairro, Zona I, ficou Bairro das Amendoeiras; zona J, Bairro do Condado. Uma vez estive no Liceu D. Dinis, estavam a dar lá uma palestra, e o Presidente da Junta na altura até acabou por confessar que foi por causa do filme Zona J, que sujou o nome. E eu, “Por causa de um filme? Por causa disso tu vais mudar os nomes? Não podes fazer isso”. Não sou nenhum político, mas a solução não é mudares os nomes, é associares coisas boas ao nome de sempre. Isso é que faz com que limpe o nome. Porque por mais que mudes o nome, quando acontecerem coisas más, os media vão pegar no nome antigo à mesma, porque vende. Já era Bairro do Condado, Marvila: o Quaresma foi assaltado na Zona J e achas que o Quaresma foi assaltado no Bairro do Condado, Marvila? Não, Zona J de Chelas. Vende mais, mano! Realmente Marvila, em comparação com Chelas, é um nome mais apelativo para as coisas serem mais caras. Eu agora, se estivesse em campanha contra eles, o que eles iriam fazer era ir a casa dos velhotes dizer, “Olhe você agora pode vender esta casa por muito mais por se chamar Marvila, acredite”. E as pessoas vazias, que não têm identidade, para elas é indiferente esta situação, só pensam no dinheiro, que é uma coisa que vai e vem, desaparece. Para que é que queres agora fazer 20 mil, 30 mil euros, e deixas de ser quem és? Se calhar alguns cotas poderiam alinhar nisto.

Vender a alma.
E vendes a alma. Se quisermos fazer um paralelo, imagina agora o Marcelo Rebelo de Sousa ia até à Alemanha, voltava e dizia, “Portugueses, vamos ter que mudar o nome do país, agora vai ser a Kiwilândia, porque o nosso país vai beneficiar muito mais com isto e vamos ser um país rico, sem dívidas nenhumas, por isso vocês agora são kiwilandeses. E tu ficavas, “Fogo, afinal já não sou português, sou kiwilandês”. A tua identidade, só por causa destas razões, mano. Deixa-me mesmo triste saber que por estes motivos as pessoas que até são de fora, nem sequer nasceram ali, tentam mudar os nomes aos poucos. Está a haver um projecto para mudar o Metro, está a avançar neste momento. Eu não quero acabar com Marvila, Chelas faz parte da Junta de Freguesia de Marvila. Quando há as marchas, já é Marvila o nome. Mas Chelas é uma grande parte de Marvila e não apaguem isso.

Este mês lança também o álbum de Classe Crua, onde produz para o rapper Beware Jack. Como é que isto começou?
De uma forma bastante natural, tinha outra coisa na bucket list, produzir um álbum inteiro para um artista. Então tentei algumas vezes: com a Marta Ren, imaginava-a a cantar soul com beats mesmo de hip-hop, sem facilitar; tentei com o Nerve, mas não foi em frente; tentei com o Beware e aconteceu. É um processo que já tem alguns anos até, aos poucos fui descobrindo a identidade dele, gosto da escrita, das palavras que usa, tem um vocabulário espectacular. Não é uma pessoa que grite muito, não projecta muito a voz, então usei beats que tenham espaço para ele brilhar e contar as suas narrativas. Foi feito de forma bastante natural, estive sempre presente, mesmo nas gravações. Aí depois há algo que é a minha parte, que está em constante evolução e realmente já posso dizer que sou um produtor. O produtor não é apenas o rapaz que faz o instrumental e ouve o produto final depois quando o CD está pronto. É a pessoa que está lá em parceria com o artista, a tentar contribuir para o melhor produto final, nesse aspecto cada vez me sinto melhor.

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Não temeu que ele fosse demasiado desconhecido?
Não, não. Lá está, eu nunca penso a nível de marketing.

Por outro lado, é um álbum em que está o seu nome na capa.
Está lá o nome e faço parte do grupo. Assumo isso completamente. Aliás, para ser sincero gostaria que ele até nunca tivesse lançado nada. “Oiçam este rapaz que nunca ninguém ouviu em lado nenhum”, até para ser mais egoísta, mas não é por aí. Assim nem estás a lidar com muitas expectativas e eu também tenho noção das coisas e aponto sempre para baixo. A não ser raras excepções, como o Poetas de Karaoke ou o Solteiro, que sabia que dava para apontar um bocado mais para cima. Aqui neste caso penso naquela bolha, um bocado adolescente, aquela cena do underground, “Isto é para a malta” e depois o resto, quem curtir, curtiu. Se calhar da parte dele, como é um projecto comigo, pode haver uma ambição extra mas da minha parte não. Quero tentar fazer a melhor coisa possível e satisfazer-me.

Ainda tem muita coisa nessa bucket list?
Eventualmente. Coisas a nível de audiovisuais, tentar fazer uma curta, uma média metragem, algo que mostrasse ao público. Já as fiz de forma amadora, tenho lá em casa. E mais umas coisas que agora não me estou a lembrar.

Houve uma fase recente em que o primeiro comentário quando alguém o mencionava era que estava magro. Acordou um dia e decidiu passar a ser mais saudável?
Ya, por acaso foi. Não foi saudável, foi mesmo querer emagrecer, aquela resolução de ano novo e tal. Foi de 2017 para 2018, eu mais a minha mulher, que isso também é importante, estarmos os dois na mesma linha, um ajuda o outro e fomos mesmo até ao Tallon. Lá com comprimidos e o caraças e isso acaba às vezes até por ser psicológico, estás a gastar dinheiro, não vais desperdiçar agora esta cena. É quase estares a castigar-te. Para ser sincero, não é estar a fazer publicidade mas foi uma cena rápida. Em um ou dois meses, dez ou vinte quilos. Agora desleixei-me outra vez. Tinha 110 quilos, fiquei com 80, agora já estou outra vez quase com 100. Então, vou ao Tallon outra vez. [risos] Vivo com a minha mulher e temos que estar os dois. Não posso ir comprar coisas saudáveis e depois vai ela e traz bolachas. Depois um gajo de manhã está meio zombie e se estiver lá, um gajo come.

E num instante também se passou uma década de Orelha Negra, com vários álbuns pelo caminho. Ainda têm truques na manga e vontade de fazer a banda durar? 
Sim, com certeza. Por alguma razão a estrelinha não está do nosso lado, normalmente lançamos o álbum e depois a mixtape, com versões de outros artistas a abordarem a nossa música. Convidámos as pessoas, mas por alguma razão as coisas não estão a acontecer. Mas vão acontecer. Já temos lá algumas coisas. Até já falámos entre nós para fazermos um bocado à maneira actual, não esperes pela mixtape estar pronta, lança já esta. E iremos fazer outro álbum também, com certeza.

E o Beats vol. 2, que diz ter pronto numa gaveta? Ainda lhe vai mexer ou está só à espera do momento ideal?
Ainda lhe vou mexer. Fico a ver de vez em quando o que é que está ali, este está fixe, este está fixe, este aqui não aguentou estes anos. Eu gosto mesmo disso. A solução de tu estares num campeonato intemporal é deixares as coisas estarem lá um tempo. Assim tens uma melhor noção. Se já tens lá este beat há dez anos e ainda está fixe, se calhar aguenta mais dez. Ainda vou mexer um bocadinho mais. Por acaso é interessante, durante estes anos todos fui construindo uma química interessante com o Here’s Johnny, que tem misturado as cenas e dá um input interessante às minhas músicas. Ele misturou o Beats vol. 2 na versão que tenho lá e acho que agora consegue fazer um trabalho melhor. Isso também é fixe, deixares uma química entre duas pessoas amadurecer e ele próprio também vai ficando melhor. O Entre(tanto) comemora agora o vigésimo aniversário. Não merece uma reedição? Eu não comemoro nenhuma data de carreira, nem de álbuns. Planeio fazer estas situações todas, não planeio é que estejam inseridas numa data de celebração. Mas obviamente tenho isso tudo em mente. Criar conteúdos, histórias por trás das cenas, mas sou eu sozinho muitas das vezes. Tenho tanta coisa para fazer. O meu plano era começar já com o Pratica(mente), apenas não curto alimentar as pessoas com muita coisa. É focado numa coisa de cada vez, assim depois dá mais power. Desde que abri a minha loja que a situação é mesmo essa: eu ter controlo sobre todo o meu espólio e as coisas estarem disponíveis, que é o mais básico, andei aqui a dormir durante muitos anos. As pessoas conhecem-me por este produto, as músicas, o meu catálogo e ele não está disponível em lado nenhum? Até estou a inflacionar os preços para os coleccionadores, estão a pagar centenas de euros por uma coisa não estar no mercado. E eu disse, “Não, não”. Quero é banalizar para as pessoas terem acesso ao produto. Percebo o coleccionismo, mas como autor não quero essa situação. Para já, eu não estou a beneficiar com isso. [risos] Esses 100 e tal euros que estão a cobrar por um álbum não vão para mim. E eu nunca iria pôr esse valor. Porque também há essa estratégia, só vou fazer mil cópias, mas cada cópia é 100 euros. Eu não penso assim. Queres, está tudo bem, está aqui. Privar as pessoas de terem uma coisa que querem, para quê? Para as outras se sentirem superiores? Porque tinhas dinheiro e a outra não tinha? Não.

E o Sam, está onde queria estar?
Estou. Estou muito feliz. Agora neste momento até estou mesmo a viver a vida com a justiça correcta a nível da minha arte, exactamente com a cena da loja. Fazer o ciclo de como comecei, que foi de forma independente, mas agora com este estatuto, o que dá um retorno muito maior. Essa justiça já devia ter acontecido neste tempo que eu estive aqui a brincar com parcerias e essas parcerias, 90% delas se for preciso devem-me dinheiro. E depois também tem mesmo essa cena a favor, que é as pessoas saberem que és tu que tratas das cenas. Sabem que és tu que vais aos correios, que és tu que estás a fechar o envelope, isso é apelativo. Sentes mesmo. E até já falei muito com os Orelha Negra, nós também não precisamos disso. A única parceria que faz sentido é a do agenciamento. Porque as outras pessoas negoceiam melhor que o artista e ele não está a levar com essas situações. Aí ainda acredito na parceria, agora do resto do meu produto, já chega de mamarem do meu bolo. Nesse aspecto estou mesmo onde quero estar. Obviamente que nesta altura do campeonato gostaria de já ter mais dois álbuns em nome próprio, sem dúvida, não vou dizer que é indiferente. Se um gajo for ver, não houve nenhum álbum meu com 30 anos.

E não tem vontade de testar se o talento é hereditário?
Porque é que não vejo pelo meu pai? [risos] Também posso ir por aí, ou pelos meus avós. E tenho visto bastante. Vou ao Facebook e o meu pai está com mais datas que eu e Orelha Negra, o gajo está incrível. Está sempre na estrada, numa cena de spoken word, que não é um circuito para todos. O meu pai ter conseguido este espaço aos 60 anos, eu sinto muito orgulho porque sei que fui uma das razões para isso acontecer, dei-lhe essa força de uma veia que estava ali meio enferrujada. Quando o convidei para o Pratica(mente) aquilo reavivou, começou a ser convidado para mixtapes, álbuns de hip-hop e o caraças e não parou mais. É uma pessoa que admiro bastante. Em relação a mim, isso é uma cena que não sei, pode vir a acontecer, mas não tenho uma notícia para te dar. Eu não tenho a cena do relógio biológico, de “O avôzinho vai levar o filho à escola”. E se for, qual é o problema? “Já não vou ver o meu filho na Universidade”, não penses nisso. Tu nem sabes se vais viver amanhã. Tem juízo. Há pessoal que faz muitos cálculos. Eu gosto mais de viver no dia a dia e isso quando acontecer é na altura certa, com as condições certas. Para mim é o ideal. Tem que ser passo a passo. Para viver em harmonia vou ter de fazer aquele plano normal, que é, OK, conheces a pessoa, vives com ela, poderá haver casamento ou não e depois pode haver filho ou não. Ainda estou no processo de viver com a minha mulher, são poucos anos. Isso não quer dizer nada, há pessoas que podem apaixonar-se em cinco meses, serem pais e ainda estarem juntos e há pessoas que podem estar juntas anos e nasce o filho e acaba, não quer dizer nada. Mas pelo menos eu estou a tentar seguir um feeling que sinta que é certo, e quando coincidir acontecer algo, será bem-vindo.

Artigo publicado na edição de julho de 2019 da PLAYBOY PORTUGAL. Pode comprar a edição impressa na loja online.