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Sam Harris. “Trump vem de um espaço no cérebro que não representa a realidade. É o mesmo do wrestling”

Uma conversa frontal da PLAYBOY com o cientista, humanista e (dependendo a quem se pergunta) Chefe Supremo da Intellectual Dark Web das ortodoxias americanas — religiosas e seculares, liberais e conservadoras.
Sam Harris fotografado por Christopher Patey

Texto: David Hochman

Fotografia: Christopher Patey

Numa altura em que os discursos públicos parecem cada vez mais divididos entre uma esquerda moralista e uma direita demagógica, Sam Harris situa-se naquilo que alguns chamam centro radical. Um filósofo, neuroscientista, crítico da religião e defensor dos controversos pensadores sob ataque, é simultaneamente desconfiado de Donald Trump, do fundamentalismo islâmico, das políticas de identidade e da hipocrisia liberal. Se acredita profundamente em alguma coisa — de Deus a Kanye Westé bem possível que Harris queira afrontar essa crença.

Em 2018, o New York Times juntou Harris ao grupo famoso de analistas marginais conhecidos como “Intellectual Dark Web”, a par com críticos pragmatistas como Jordan Peterson, o matemático Eric Weinstein e Ben Shapiro, fundador do “Daily Wire”. Para além de serem na maioria homens brancos, não têm nada em comum senão fazerem franzir sobrancelhas, o que lhes provoca o afastamento dos principais media e da academia. Que se lixem as ações afirmativas! Aperte-se o controle fronteiriço! O multiculturalismo mete nojo! Harris rejeitou essa aliança por achar ser uma espécie de piada.

Com o seu best-seller de 2004, “The End of the Faith”, Harris acabou por fazer parte de outro grupo de agitadores: o denominado Four Horsemen [alusão aos quatro cavaleiros do Apocalipse], um grupo de ateus que incluía Richard Dawkins, Daniel Dennett e o falecido Christopher Hitchens. Em 2010, emThe Moral Landscape”, Harris sustenta que a ciência é a única chave apta a entender a moral e o bem-estar. Em 2014, no programa “Real Time With Bill Maher”, teve uma discussão com um furioso Ben Affleck sobre o islamismo radical ser uma ameaça global. O ator acusou Harris de ser “grosseiro” e “racista”; mais tarde Harris disse que Affleck estaria provavelmente agastado com a sua última atuação no papel de Batman.

Sendo um estudioso do Budismo e da meditação, Harris avança através dessas exaltações com uma serenidade perturbadora, como demonstrou em 2014 num debate com Ezra Klein, fundador do Vox., sobre raça e QI. Harris afirmou que poderia haver uma ligação; Klein disse que a teoria era racista. Em 2017, Klein escrevia que, Para Harris as políticas de identidade são coisa dos outros. Para mim, é algo que todos fazemos e que ele e muitos outros recusam admitir que o fazem também. Esta é uma das vantagens de pertencer à maioria: as nossas preocupações são identificadas como preocupações; os outros é que estão a brincar às políticas de identidade”.

Mas, concordando ou não com Klein, é difícil negar que a prioridade e paixão de Harris são grandes questões, as mais difíceis de provar: existirá uma verdade moral objetiva? Existem valores mais importantes do que outros? E onde entra o avanço vertiginoso da tecnologia?

Samuel Benjamin Harris nasceu em Los Angeles a 9 de Abril de 1967. Não confirma muitas informações pessoais, por preocupações com a segurança, mas gosta de revelar que a primeira vez que experimentou ecstasy foi quando era estudante na Universidade de Stanford. Teve uma epifania espiritual. Saiu a meio do curso para estudar misticismo e religiões orientais na Ásia, voltando em 2000 para se formar em filosofia. Mais tarde recebeu um doutoramento em neurociências na Universidade da Califórnia.

Hoje em dia pertence a uma classe de público intelectual em que, não estando ligado em especial a nenhuma instituição, plataforma ou até doutrina, dá conferências, escreve e tweeta para os seus milhões de seguidores. O seu premiado podcast “Waking Up já vai no oitavo ano. É casado com Annaka Harris, uma professora de mindfulness e autora do livro para crianças “Wonder”; têm duas filhas.

David Hochman, editor da edição norte-americana da PLAYBOY, passou uma tarde em West Hollywood com Harris. De camisa abotoada, blazer escuro e jeans, Harris aparentava uma tranquilidade Zen mas pronto para disparar em várias direções.

O Sam é um autêntico produto intelectual dos nossos dias”, diz Hochman. “É como um vídeo online, sem aquela demora no início ou os anúncios em pop-up. Ao início pode parecer pouco sério, mas quando começa a desenvolver é brilhante, seguro nas suas opiniões e muito persuasivo”. Pode introduzir uma ideia sobre cultura, política ou sexo que nos faz pensar ‘espera aí, não, não, não’. Mas deixamo-lo continuar e pensamos ‘Ok, entendo o que queres dizer’. Por isso, faz sentido começar com uma pergunta sobre as questões que as pessoas têm tendência para esquecer.

Para um tipo educado, suscita um número fora do normal de polémicas com os seus pontos de vista. Sugere que o QI difere entre etnias, defende o uso da tortura e afirma que mais facilmente se livraria da religião do que da violação.

Interesso-me sobre como pensamos os problemas e como falamos deles. Muitas vezes o meu interesse em algo não é necessariamente interesse sobre aquilo de que falo. É algo meta. Pensemos na tortura: não me interessa a tortura em si. É o fundamento ético. Hoje em dia admitir a sua eficácia faz de ti um monstro mas em tempos de guerra ela pode ser necessária. Em termos éticos, os danos colaterais de largar bombas podem ser maiores do que um afogamento simulado. O mesmo se aplica ao assunto das raças e o QI. O meu empenho não é medir inteligência e, muito menos, medir diferenças da inteligência entre grupos. Não tenho interesse nisso. Estou interessado nas implicações onde se vai chegar com tudo isto e no facto de pessoas como o cientista de ciências políticas Charles Murray estarem a ser mal interpretadas pela sua honestidade intelectual.

Dou muitas vezes o exemplo de que se queremos rigor ético, deveremos ser capazes de dizer coisas como “porque não havemos de comer bebés? Há tantos a mais no mundo e estão cheios de proteínas. Não podemos comê-los?” Não se trata de uma conversa sobre comer bebés; é sobre como podemos fechar a porta a esta ideia que ambos reconhecemos ser repelente e porque a achamos assim. Mas lá fora ainda existem pessoas que dirão “olhem o Sam Harris, o tipo que pergunta por que não havemos de comer bebés”.

Ou do tipo que uma vez escreveu “é difícil imaginar um conjunto de crenças mais sugestivo de doença mental do que os que se encontram no centro de muitas das nossas tradições religiosas”.

Há sempre casos em que é difícil encontrar o ponto negativo da religiosidade de alguém, se for inofensivo, se não estiver ligado a nenhum programa político que impõe a miséria às outras pessoas ou lhes viola os direitos. Mas um conhecimento do mundo que seja baseado na infalibilidade da palavra de Deus requer uma espécie de ignorância obstinada — a roçar a loucura — sobre história, ciência, senso comum e respeito humano. Os verdadeiros crentes não se limitam a “rezar faz-me sentir bem” ou “honra o teu pai e a tua mãe”. Também acreditam em coisas como o estatuto dos gays ou, em casos extremos, o que fazer a quem não é crente como eles. Aplicam o pensamento bíblico aos problemas complexos dos nossos dias. Alterações climáticas? Não nos temos de preocupar com isso quando se está à espera do Messias. Claro que há ótimas pessoas que em algum momento são ajudadas pela fé. Não ponho isso em causa. Afirmo apenas que existem alternativas racionais. Na realidade, este problema de sectarismo religioso alimenta a energia do partidarismo que agora está tão espalhado por todo o lado.

Isso quer dizer que a nossa divisão cultural não é um esquerda versus direita?

Mesmo quando não se trata de religião, dividimo-nos em setores religiosos. Escolhemos o local de culto e é muito difícil vermos o que está errado na nossa fé inabalável. Claro que facilmente encontramos o que está errado no outro lado, e entramos num ‘nós versus eles’ que nunca acaba.

Existe caminho para uma espécie de unidade na era Trump?

Penso que há passos a dar, que muitos recusam, e que poderiam tornar o diálogo nacional infinitamente mais produtivo — por exemplo, não distorcer os argumentos contrários. Vemos isso a toda a hora no Twitter, logo à partida por parte do Trump. As pessoas atacam as outras posições deturpando-lhes o raciocínio para desse modo derrubá-lo. Raramente ajudamos a esclarecer as visões contrárias. Temos de estudar para compreender o ponto de vista dos outros. Mas isso quase nunca é feito.

Aquilo com que me deparo muitas vezes é uma certa esquerda que pensa entender o nosso ponto de vista ou motivos melhor que nós próprios. Não interessa o que argumentamos, entramos num jogo de pseudo-telepatia, em que te dizem aquilo em que acreditas mesmo que não seja o correto.

É muitas vezes censurado pela esquerda por criticar o Islão.

Como conjunto de ideias, o elo entre o Islão como religião e o terrorismo suicida preocupa-me. Mas a pessoa da esquerda que tem essa posição dirá “bem, na verdade você é só racista. Não gosta de pessoas do Médio Oriente”. Ou “nasceu judeu, e foi apanhado na sua própria política identitária”. Deus proíbe-nos de pronunciarmos qualquer coisa que possa ser suscetível da pior interpretação possível. Hoje em dia não há espaço para se dizer “isso saiu-me mal”, não dá para tirar a pata da poça nos diálogos públicos. Há uma espécie de falta de caridade vinda de ambas as partes (…). É quase só marcar pontos a atacar a reputação do outro. Como se cada golpe que podes dar, deves dar.

Trump vem de um espaço no cérebro que não representa a realidade. É o mesmo que atrai as pessoas ao wrestling

Porque é que esses golpes não resultam com Trump? Chamem-lhe preconceituoso ou sexista ou corrupto e a sua base de apoio mantém-se.

Para a maioria de nós isso é um mistério. Trump consegue ter à sua volta uma audiência de pessoas que se estão nas tintas para as suas falhas morais. Há qualquer coisa de sociopata nele. É egoísta; mente com frequência e uma rapidez nunca vistas na vida pública. Não é apenas o mentir; é fundamentalmente hostil à verdade. Muitos mentirosos fazem-no de forma a passar despercebida. Inserem a mentira com a lógica de uma peça que completaria um puzzle. Trump não se rala com o puzzle. Mente e contradiz-se dois segundos depois. Não tem problemas que lhe apontem algo, segue simplesmente e muitos continuam a achar que ele faz tudo certo.

Qual é a neurociência por trás disso?

Trump vem de um espaço no cérebro que não representa a realidade. É o mesmo que atrai as pessoas ao wrestling. Os apoiantes de Trump não querem saber se a Rússia pirateou a eleição; gostam de ver a bola de demolição em ação. A maioria acha que o sistema os lixou por isso qualquer mudança é bem-vinda, até o distúrbio que um tipo como Trump causa. Quando se bate no fundo, as coisas só podem melhorar, não é assim?

Há uma espécie de sobreposição entre apoiantes de Trump e os seus. Os ‘reis dos memes´ à direita adoram-no e ao seu grupo na Intellectual Dark Web (IDW).

Primeiro, não tenho a certeza de quem está nessa chamada IDW. Há pessoas que são mencionadas como fazendo parte de quem nunca ouvi falar ou com quem não quero estar associado. Mas as pessoas que estão no núcleo — Jordan Peterson, Joe Rogan, o defensor da teoria evolucionista Bret Weinstein e o irmão Eric, que inventaram o termo — são pessoas com quem gosto de conversar (…).

Por vezes a IDW é tratada como uma cabala fascista quando acredito que praticamente todos desse grupo se situam no centro ou na esquerda do centro, onde me coloco.

Sam Harris. "Trump vem de um espaço no cérebro que não representa a realidade. É o mesmo do wrestling"
Sam Harris fotografado por Christopher Patey

Acha que os liberais são demasiado brandos a defender as fronteiras.

Faz sentido haver fronteiras nacionais. Seria uma catástrofe ter fronteiras abertas. Ao aceitar haver fronteiras tem de se ter um sistema de informação que monitorize quem atravessa essas fronteiras, porque não se quer deixar entrar jihadistas. Ou alguém que venha do estrangeiro infetado com Ébola. Tem de se saber onde as pessoas estiveram, porquê, quem são, se têm as vacinas. Em princípio, tudo isto é coercivo. Há ali alguém armado que não vai deixar saltar por cima do torniquete. Claro que na esquerda ninguém quer ouvir falar disto. Basicamente dizem “és um estupor dum racista por queres deixar alguém de fora”. Mantendo-se essa forma de pensar garantidamente teremos mais quatro anos de Trump, porque pelo menos metade da nossa sociedade ficou sem paciência para tal.

Como é que a esquerda pode reverter isso?

Temos de nos dissociar das políticas de identidade e moralismos. Há esta ideia crescente de que só se pode ter opinião forte sobre um segmento da população se se fizer parte dele. Se eu sou branco não é bem visto falar de raça ou de uma solução para o crime em Chicago. É de doidos. Os tiroteios em Chicago, qualquer que eja a solução, envolvem fatores sociais e económicos e devemos poder falar disso independentemente da cor pele. A verdade é a verdade, e que ganhe a melhor ideia. Não se tem direito de falar sobre esses horríveis problemas sociais sem se ter sofrido pessoalmente com eles? É ao contrário. As políticas sociais nem sempre são melhor estruturadas por pessoas demasiado próximas do problema. Só conseguem pensar nisso. Não têm outra perspetiva e não querem ouvir outra perspetiva.

Hoje em dia não há espaço para se dizer ‘isso saiu-me mal’, não dá para tirar a pata da poça
nos diálogos públicos

O problema não reside em dar a palavra a grupos que tradicionalmente foram marginalizados por causa da raça, género, religião, etc.?

O problema é o discurso público estar a tornar-se um exercício de confirmação de preconceitos. Com as políticas identitárias, encontramos o nosso argumento sobre o assunto e acantonamo-nos. É uma espécie de vitimização que eu descrevo como o jogo mais infeliz de Dungeons & Dragons: todos os jogadores têm pontos de vítima (…). Há casos como o de uma professora latina, lésbica e feminista não ser considerada adequada para os alunos por querer continuar a ensinar o cânone ocidental. E é quase queimada como uma bruxa por não ser esquerda da esquerda da esquerda da esquerda.

algum ponto negativo no movimento #MeToo?

Estou 100% a favor da essência do #MeToo. Há tipos que se portaram horrivelmente, violadores e criminosos que deveriam estar na prisão. E depois há a outra área de assédio sexual intolerável e grosseiro para a qual tradicionalmente não há punição. Agora passou a haver e isso está certo, não acha?

E há um mas?

Mas há imensas coisas por resolver. Onde estão os limites? Qual a diferença entre alguém que tenha Asperger e não tem jeito para flirtar e um agressor? É difícil conseguir separar isso num escritório. Ainda estamos a tentar orientar-nos neste capítulo, mas tenho medo que estes problemas totalmente racionais, éticos e defensáveis acabem num mar de pânico moral que vá prejudicar gente inofensiva.

De um lado há monstros como Bill Cosby e Harvey Weinstein. Merecem estar numa prisão. Mas noutro temos Al Franken, que pode ser culpado de alguma coisa que mereça preocupação, mas não ao nível do que os outros fizeram. E temos um Aziz Ansari em que não está provado que tudo não tenha passado de um encontro infeliz. As coisas ainda se tornam mais inócuas quando alguém diz uma piada que há dois anos faria rir toda a gente, e agora essa mesma pessoa está preocupada com a sua carreira. Matt Damon afirmou que temos de saber fazer essas distinções e sofreu um tsunami de críticas que acabou com ele a pedir desculpa: “nunca mais falo sobre isto” (…).

Olhemos para o caso de Louis C. K., um dos cómicos com maior graça que alguma vez tivemos e que enfrentou acusações do #MeToo. Acho que teve azar na altura. Todos olharam para ele através das lentes do Harvey Weinstein.

Várias mulheres acusaram Louis C. K. de se masturbar na presença delas. Não será o caso de alguém que acha que como estrela tudo lhe é permitido?

Bem, a menos que eu não esteja a perceber a situação de Louis C. K., parece que ninguém foi obrigado e ninguém achou que devia sair da sala. O problema surge quando existe um desequilíbrio de poder. Seria uma situação pior se ele tentasse fazer alguma coisa para prejudicar a carreira de alguém ou tentasse impedir alguém de falar. Isso seria perverso. Mas se estamos só a falar dum tipo que tem essa mania de se masturbar e se pede às pessoas se o pode fazer à frente delas e elas dizem que sim e ele fá-lo, estamos a uma distância enorme do que é apontado a Harvey Weinstein. E então o que deve acontecer a alguém como Louis C. K.? Morre à fome e nunca mais trabalha?

Acha que a Roseanne ainda deveria ter trabalho na televisão depois de ter comparado Valerie Jarrett, a assessora de Obama, a um macaco?

Ai é mais difícil. Há tantas variantes. A Roseanne está de certeza a lidar com algum distúrbio mental, sempre a tomar Ambien. Se virmos a conversa que ela teve com Joe Regan depois apercebemo-nos de que está num momento caótico. Ela afirma que nem sequer sabia que a Valerie Jarrett era negra. Se pesquisamos o nome dela no Google e virmos as fotos isso não é assim tão óbvio. É plausível. Por muito estranho que possa parecer, para mim, o racismo aqui existe na mente da pessoa que interpreta o tweet. Se a Roseanne lhe tivesse chamado um cavalo não estaríamos a ter esta conversa.

Há alegorias na nossa cultura que têm um sentido mais profundo. Há um passado de afro-americanos a serem comparados a macacos.

Não quer dizer que isso fosse o que naquela altura Roseanne estava a pensar. Veja-se o despedimento de Megyn Kelly da NBC. Não a conheço nem as suas convicções mas ela tentou ter uma conversa sobre o Halloween e não se poder sair com caras pintadas de negro. Ela disse: “quando era miúda podíamos pintar a cara e sair mascaradas à Diana Ross”. Aparentemente não sabia que a declaração era radioativa. Na sua perceção, o termo blackface não estava ligado a estas matérias em que devemos ser críticos. Ela queria simplesmente dizer que se nos estamos mascarar, porque é que não nos podemos maquilhar para nos parecermos com essa personagem? Devíamos poder falar sobre isso na televisão. E ou temos um bom argumento ou não.

A Bíblia é só um acidente da história. Todos esses textos religiosos não passam de livros que
sobreviveram

E o que se passa com os padres que foram afastados por serem acusados de pedofilia?

Esse é um caso muito difícil. Provavelmente a pedofilia tem subjacente um problema neurológico que nós ainda não percebemos. É interessante sabermos que se conhecêssemos a genética e a neuro-anatomia poderia haver cura, não é? (…). Temos de resolver este problema. Temos de tratar as pessoas e não haver mais julgamentos morais. Mas como não conseguimos ainda, temos esta maneira extremamente moralista de pensar. No caso da Igreja Católica, temos uma instituição que protege cinicamente a sua reputação, mudando esses padres de paróquia, sabendo que irão abusar de crianças. E com milhões de dólares a silenciar as pessoas. É maldade pura.

A propósito, lembra-se do momento em que assumiu que Deus não existia?

Em novo era ateu sem o saber. Achava que a religião era uma farsa e que essas instituições tinham sido obra de pessoas malucas ou aldrabonas. Li Bertrand Russel mas não sabia nada de ateísmo organizado nos EUA. O nome de Madalyn Murray O’Hair, fundadora do American Atheists, não me dizia nada. Cresci numa casa secular laica onde não se falava de religião. Lembro-me de uma cadeira em Stanford, no primeiro ano de caloiro, em que líamos a Bíblia. E lembro-me de chatear o professor: Com tantos livros ótimos para ler porque é que estamos a ler Leviticus? Não serve para nada. Não é a melhor filosofia; não é a melhor escrita. Não passa de uma ladainha antiga que não devia estar a moldar as nossas vidas.

Quem quer que tenha escrito a Bíblia deveria ter pelo menos algum crédito porque tem sido um best-seller com sucesso ao longo de milhares de anos. As suas histórias não têm interesse?

A Bíblia é só um acidente da história. Todos esses textos religiosos não passam de livros que sobreviveram. Explico: alguém tinha que vencer. Temos também Platão, Sócrates e Aristóteles, mas isso quer dizer que, em Atenas, eles eram as três melhores cabeças daquela geração? Não necessariamente. Pode ter havido outras três cujos livros arderam no fogo de Alexandria. É só contingência histórica e em vez de nos fixarmos nesse legado deveríamos equipar-nos para produzir as melhores ideias possíveis. Há boas partes na Bíblia que deveriam ser retidas. Como a Ética da Reciprocidade — faz aos outros aquilo que gostavas que te fizessem. Mas isso também aparece noutros lugares (…).

De que maneira é que experimentar ecstasy desafiou as suas ideias sobre o divino?

Só depois de ter tomado MDMA é que percebi que há estados de consciência, como o que vivi durante seis horas, que explicam algo como Jesus. assim é que podemos entrar numa religião ou numa seita. Não apagou as minhas visões sobre a veracidade da revelação, mas mudou completamente a minha noção do que era viver uma boa vida, porque sabia que queria viver mais dessa maneira do que da forma que achava que ia viver antes de tomar ecstasy.

Ainda recorre a drogas?

Muito raramente. Mastiguei algumas comestíveis por ter insónias com resultados diferentes. Posso estar anos sem fumar canábis. Bebo socialmente.

Não se importaria que uma das suas filhas experimentasse um dia?

Escrevi no meu livro “Waking Up” que se as minhas filhas não experimentassem pela menos uma das drogas psicadélicas nalguma altura da vida teriam perdido um importante rito de passagem. Ainda penso isso, embora quando chegar a altura queria gerir isso de forma mais severa do que deixei transparecer nesse parágrafo.

No liceu era um nerd?

[Risos] Não, tinha bastante sucesso no liceu. Era ótimo aluno mas não faltava a uma festa. Aos fins de semana ficava pedrado. Olhando para trás, parece tudo muito equilibrado embora houvesse talvez um bocado de álcool a mais. Não tinha nada a ver com a cultura do engate dos dias de hoje, mas tive algumas namoradas a sério.

Já que falamos em sexo, o que pensa da pornografia?

Tenho duas opiniões sobre esse assunto. Por um lado, não tem mal nenhum e é benigno. Obviamente que não deveria haver leis contra. É uma questão de liberdade de expressão. Tenho a certeza que há pessoas que trabalham no ramo que não sofrem problemas por causa disso. São meros trabalhadores e este é um meio racional para fazer dinheiro. Não são dependentes de drogas. Não são mal tratados. Têm relacionamentos saudáveis. Não foram violados pelos padrastos. Não têm problemas.

Mas também tenho a certeza que as piores histórias que podemos imaginar são verdade, onde há drogados que só querem a próxima dose, pessoas que são exploradas, escravatura sexual. Abres um vídeo no Pornhub e não sabes o que estás a ver. Pode ser com alguém que tenha sido raptado. Esta atividade lucra com o fascínio de todos por sexo e podemos sem saber estar a apoiar a pior pessoa à face da terra. Essa é a realidade deste ramo.

E a perspetiva do consumidor?

Bem, há pessoas que veem pornografia e têm uma vida sexual completamente saudável, com relações normais e felizes. Ninguém vê isso como uma traição ao parceiro ou como uma diminuição da intimidade sexual entre os dois. Um casal pode ver em conjunto e melhorar a sua vida sexual. Esta é a versão saudável, mas há pessoas que são viciadas e que não conseguem ter relações normais. É um substituto para as pessoas que não conseguem ter contactos sociais. Agora temos crianças de 12 anos a terem a sua educação sexual com vídeos à toa com as mais inimagináveis e humilhantes acrobacias sexuais. É isto que nos deve preocupar.

Com tanta tecnologia, estamos a passar por uma experiência psicológica e não sabemos o que vem a seguir. Não é natural ter acessos infinito a imagens de pessoas. Pornografia à parte, isso é uma coisa que esqueci totalmente na minha vida amorosa, mas não sei o que o Tinder faz à perspetiva de encontrar relações sérias. Dá a sensação que há sempre mais alguém a seguir à pessoa que nos interessa. É o paradoxo da escolha, nunca nos sentimos satisfeitos porque a escolha é infindável.

Vamos mudar de assunto. É errado da minha parte se este fim de semana fizer hamburgueres ou cachorros-quentes?

A pecuária intensiva como geralmente é praticada é indefensável. Deveríamos pressionar economicamente o sistema para torná-lo o mais benigno possível. Em última análise poderíamos ser todos vegetarianos mas não acho que isso seja à prova de idiotas em termos de saúde humana. Tento comer animais de agropecuária biológica, que viveram fora de gaiolas. Até investi numa start-up, a Memphis Meats, que produz carne com cultura de células. É uma carne que vai retirar o animal da equação. Extrai-se uma pequena célula da vaca — literalmente é uma pequeníssima biópsia do músculo — que é ampliada e cultivada em laboratório. Ainda não chegámos lá. Da última vez que vi, tinham uma almôndega de 18 mil dólares, mas aparentemente sabe bem e o preço vai baixar.

O que gosta de ver na TV?

Game of Thrones”, “Westworld”, “Breaking Bad”, “Mad Men”. Gosto muito de “Ozark”. Do Darren Aronofsky, um grande realizador, que agora tem uma nova série chamada “One Strange Rock”, que basicamente é a sua versão do “Cosmos”.

Tem algum talento secreto?

Sou cinturão negro em ninjutsu. Lembra-se do Ninja? Foi na era pré-MMA, em que quase toda a a arte marcial era uma pantomina de falsa violência. O treino era muito semelhante ao do krav-maga dos dias de hoje — não era totalmente inútil mas também não era 100% sério. Recentemente, a minha crise da meia idade fez-me experimentar o jujitsu brasileiro. Sou só um cinturão azul mas mesmo assim passo a vida a magoar-me.

Qual o seu filme favorito de Ben Affleck?

Gostei do “Argo”. Não vi o seu último filme do Batman. Como sabe, eu e o Ben temos uma história de divergências, mas não posso dizer mal dele como ator ou realizador. Não é um erudito em religião.

O que é que canta no chuveiro?

Não canto propriamente. Entoo. Quase sempre música hindu. Consigo relaxar com o Hare Krishna.

Falemos de mindfulness, uma vez que agora faz parte do seu mundo. Qual é a sua opinião?

O mindfulness é a libertação de alguns dos nossos padrões de pensamento e o tomar consciência que nós não somos o que pensamos. Esquematizo esta analogia entre a mente e os sequestradores; é como se se fossemos raptados pela pessoa mais chata da terra e fossemos obrigados a escutá-lo o dia inteiro. Literalmente, a conversa começa quando acordamos e só acaba quando adormecemos desesperados à noite. O mindfulness é uma alternativa a isso, mas carece de algum treino para se lá chegar.

Sam Harris. "Trump vem de um espaço no cérebro que não representa a realidade. É o mesmo do wrestling"
Sam Harris fotografado por Christopher Patey

O que lhe interessa mais saber sobre o futuro?

Estou interessado na revolução que se passa no imediato com as máquinas inteligentes e o modo como irão transformar a nossa vida. Estou desejoso de conhecer as implicações de nos tornarmos ainda mais cibernéticos do que já somos. Quando constato a minha dependência do telefone não me lembro sequer como era combinar um encontro com alguém. “Encontramo-nos às três”. E se essa pessoa não aparecesse? Agora conectamo-nos instantaneamente.

Penso que vai haver tantas alterações binárias como esta cada vez mais estranhas. Por exemplo, o quadro ctual da imunologia, em que nós basicamente temos sempre cancro e estamos sempre a combater o cancro. O cancro é como um problema de barulho de fundo com que temos sempre de lidar. Mas a determinada altura podemos ter micro-robôs a detetá-lo. Vai ser possível olharmos para o telemóvel e ver como estão os nossos níveis do cancro. Na realidade, há tantas coisas sobre as quais ainda não sabemos questionar por não conseguimos imaginar qual seria a forma da pergunta. Não é loucura pensar que poderemos fazer parte das últimas gerações que têm por defeito a realidade do envelhecimento.

E se por acaso estiver errado sobre Deus e a vida após a morte?

A verdade é que sou agnóstico sobre a vida para além da morte. Não sei como surge a consciência logo, por definição, não sei se a perdemos quando morremos. Quer dizer, não temos a certeza. Algumas coisas muito estranhas são possíveis. Se calhar agora podemos estar numa espécie de simulação de computador. Há argumentos que não são tresloucados que podem levar-nos a estarmos abertos a essa hipótese. O argumento da simulação do filosofo Nick Bostrom defende que se nós somos seres suficientemente inteligentes para produzir máquinas inteligentes e, eventualmente, se não nos matarmos antes, poderemos criar mundos simulados com um nível de consciência semelhante ao dos nossos cérebros. Vamos ficar cada vez melhores nisso e a dada altura os mundos simulados vão superar os mundos reais. Então temos de nos questionar se não podemos estar a viver num mundo simulado. Quando as simulações se tornarem o mais perfeitas possíveis, não vamos saber distinguir entre a simulação e a realidade, como se fôssemos alguém como no “Matrix”. Se for verdade então isso significa que se acredita em Deus e que estamos no disco rígido dum qualquer computador alienígena?

Planeia ser cremado?

Não sei. Acho que não está no meu testamento. Por alguma razão, tenho uma propensão para enterros porque gosto da ideia. Gosto de cemitérios. Claro que se pode espalhar as cinzas de alguém mas acho simpático haver um sítio onde os outros podem ir para pensar nessa pessoa.

O que quer escrito na sua lápide?

Um número grande – 1967 a 2267.

 

Texto: David Hochman

Fotografia: Christopher Patey

 

Entrevista publicada originalmente na edição norte-americana da PLAYBOY