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Rui Miguel Tovar: “A Seleção às vezes é monótona, dá pena”

O autor e comentador ainda olha para o jogo com a paixão de miúdo. Falar com ele é sinónimo de falar de bola, sem os habituais muros e convencionalismos. Assim foi.

Rui Miguel Tovar recebe-nos em sua casa. À porta, um tapete em forma de campo de futebol. Lá dentro, biografias de Vialli a Trapattoni, almanaques de campeonatos, camisolas de inúmeros clubes e bonecos Subbuteo a decorarem uma prateleira. Num tempo em que abundam programas de futebol em que o assunto menor é o jogo jogado, o jornalista continua a falar do maior desporto do mundo com fascínio de miúdo, munido de histórias e detalhes para todas as circunstâncias. Nota-se a influência do pai, o jornalista desportivo Rui Tovar.

Foi nos antigos estúdios da RTP, em miúdo, que começou a interessar-se por jornalismo. Foi também ali perto que se deixou fascinar por um puto que haveria de maravilhar a Europa ainda antes de Figo ou Ronaldo. Aos 42 anos, este sportinguista sem clubismos bacocos continua à procura de inovar a cada crónica e entrevista. Desta vez, foi ele a responder a questões, mas mesmo à beira do minuto 90 da entrevista contra-atacou com uma pergunta, uma que o próprio um dia há-de responder.

O Rui é uma enciclopédia do futebol. Como é que se coleciona tanta informação?
Tenho um Excel que permite ver imensa informação. O Twitter é boa ferramenta, até foram dois amigos meus na altura do i que me fizeram aquilo e mantenho os mesmos 25 amigos até hoje. Ali um fala, outro junta-se e às tantas é um tsunami de emoções e informações futebolísticas. Comecei em 1999 a ir ao arquivo do Diário de Notícias. A sorte é que os jogos antes eram ao domingo. Como não tinha portátil era tudo à mão e em casa passava a computador. Agora é mais fácil, lembro-me de adormecer com o meu pai a escrever à máquina, a bater as fichas da Seleção que ainda tenho ali: equipa A, juniores, olímpicas, feminina. Fiquei com esse espólio.

O seu pai já era arquivista, não é?
Ele é que era. Batia à máquina, furava as folhas e punha num dossier. Aquilo está ali, limpinho, e tudo por ordem. Só não tinha o Excel, que permite ter uma informação na hora mais pertinente do que o normal “ganhou 2-0 uma vez”. É quantas vezes ganhou 2-0. Ou quantas vezes ao intervalo estava a ganhar 2-0 e deixou-se empatar. Aprendi isto com o meu pai.

Percebeu cedo que queria fazer o mesmo que ele?
Ia à RTP todas as semanas, gostava daquele mundo. Os meus primeiro tempos no Record foram complicados. Não sabia o que era jornalismo. Numa das primeiras breves que escrevi meti os pés pelas mãos e troquei o nome do guarda-redes do Barcelona, Busquets. Disse que era do Real Madrid. Foram sete anos que adorei. Era fácil seguir a profissão, os meus pais eram jornalistas, mas ali fui obrigado a ser jornalista.

As pessoas não gostam de futebol, gostam do seu clube

Que mudou no jornalismo desportivo desde então?
Quando entrei, a secção de internacional do Record tinha um telefone para chamadas internacionais e um computador com Internet. Agora todos têm telemóvel. Era previsível sermos muito melhores e não foi isso que aconteceu. Lês um “Dragões batem Águias no Teatro dos Sonhos” — há muletas desnecessárias e com a repetição não se evolui. É preciso encontrar sempre diferentes maneiras de escrever e pensar para não ser a lenga-lenga do costume. As coisas mudaram mas o jornalismo desportivo continua muito burocrático.

Agora também é comentador. Há muitos programas de bola, mas nem sempre se fala do jogo.
Havia o Remate, o Domingo Desportivo, eram informativos. Lembro-me de quando o Fernando Gomes se incompatibilizou com o Otávio Machado e foi aos estúdios da RTP dizer de sua justiça. Agora é impossível, os clubes blindam muito mais os jogadores, os jornalistas não têm liberdade e perdeu-se a comunicação. Temos programas muito primitivos.

Rui Miguel Tovar: “A Seleção às vezes é monótona, dá pena”

Falta alguma educação para a liberdade de expressão?
Claro. E cabeça. São programas corrosivos, mas os canais não apostavam neles se não fossem vistos. Hoje notas no estádio a agressividade natural, as pessoas vão lá para se libertar. Isso acontecia no tempo de Salazar. Agora o rentável é rewind do penálti. Tudo é especulação. Às vezes há um golo e perguntam-me “Ó Rui, aquela mão, achas que aquele gajo foi comprado e não sei quê!?”. Se é assim, eu não quero saber do futebol para nada.

Como se sai deste ambiente de suspeição?
Só com Ctrl+Alt+Del. A própria estrutura do futebol está mal pensada. Com a UEFA, antes havia Taça dos Campeões, Taça das Taças, Taça Uefa, agora uma equipa é eliminada e vai para a Liga Europa. Tem alguma explicação? Nunca entendi. Foi eliminada, xau. O Ajax faz uma campanha do caraças, chega às meias-finais, é campeão e tem de ir a pré-eliminatórias. Está tudo desvirtuado. E já nem falo no nosso país.

[O Sporting] é como um partido político: o golpe palaciano está sempre ao virar da esquina

Como vê este mundo dos grandes empresários e negócios de milhões?
É a evolução, não sei é se é para cima ou para baixo. Os clubes mais ricos estão cada vez mais ricos e os pobres mais pobres. O bolo está mal repartido, dos direitos televisivos às competições europeias. Devia haver um teto salarial, como há na NBA.

Portugal tem grandes jogadores, grandes treinadores e é campeão Europeu. Porque estão os nossos estádios vazios?
As pessoas são cada vez mais dos grandes clubes, falta a cultura do clube da terra. O Braga mudou isso, temos o Vitória, em Guimarães, como exemplo de topo, depois há clubes engraçados mas só têm adeptos em casa e é de vez em quando. A Alemanha é o melhor exemplo de ver o futebol pelos adeptos. Um Eintracht não é um Dortmund ou um Bayern e enche o seu estádio e a parte de visitante quando joga fora. As pessoas não gostam de futebol, gostam do seu clube.

O golo do Éder tornou-se numa espécie de “Onde é que estava no 25 de Abril” do futebol português. E o Rui, onde estava?
Estava no estádio, por sorte. O golo foi alto alvoroço. Ouviu-se a euforia dos portugueses e de repente calou-se o estádio todo. Tenho a minha própria história gloriosa desse dia. Os jornalistas portugueses estavam juntos, estivemos uma hora e tal à espera e não vinha ninguém. Vi o Griezmann mas pediu para não falar. De Portugal, só o Rui Patrício. De repente vieram uns 10 jogadores, o Ronaldo a coxear, o Quaresma, o Éder a filmar e a cantar aquela música que ficou no ouvido. Como é que é? Fintaram os jornalistas a cantar, todos contentes [cantarola baixinho: “Quero é levar a taça, para o nosso Portugal”] Exatamente! Foram embora e a dada altura vem um colega: “malta, podemos ir ao relvado, os seguranças já foram” e entrámos. Não havia som nenhum no estádio, só a nossa alegria, a pular, a tirar fotos, a adrenalina ao máximo. Depois vieram os seguranças. De facto estávamos no relvado duas horas depois do jogo, se calhar já chega [risos]. Durante 15 minutos foi lindo de se viver. Não havia Lloris, mas marcámos golos na baliza onde o Éder marcou.

Euro2020. Que imagina para a nossa seleção?
Portugal a eliminar a Inglaterra em Wembley. Depois de tudo o que se passou com o Conguito, até com um golo do Bernardo Silva para ter mais piada [risos]. Em 2016 fomos para o Europeu sem algumas figuras mas compensámos isso e ganhámos. Agora temos mais talento, podemos sonhar com o bicampeonato, tem é de haver uma maior mentalidade. Ganhámos a jogar bem cá atrás e a tentar a sorte lá à frente. A Seleção às vezes é monótona, dá pena. Devemos querer ganhar porque somos melhores, é esse o sentimento a pôr em prática.

Tem outra seleção favorita?
Sou fã da Holanda desde 88 e gosto muito da Alemanha, quando perdem sentem necessidade de mudar na hora. Aconteceu no Euro2000, quando foram varridos na fase do grupos por Portugal com um 3-0. No Mundial 2014 foram ao Brasil, montaram o centro de estágio na Baía, estiveram lá um mês, foram campeões e ofereceram o centro de estágios: “É vosso”.

Vi grandes jogos, vi o golo do Éder, mas ver o Futre ganhar a Taça do Rei é o momento mais alto

Voltando a Portugal. Como olha para esta fase má do Sporting?
O Sporting está numa fase má há muitos anos. Teve fases boas com o Jesus e Leonardo Jardim, embora as fases boas raramente se traduzam em títulos de campeão. Isto tem peso num país que não tem capacidade para três grandes. Nos últimos 17 anos foi um campeonato bipolar entre Benfica e Porto. Tenho 42 anos e nesse tempo o Sporting foi campeão quatro vezes e foram sempre espasmos, o último bicampeonato foi nos anos 50. É um clube parecido com um partido político: o golpe palaciano está sempre ao virar da esquina. Há mesquinhez e figuras do Sporting que não gostam do Sporting. A culpa não é de um treinador, é de uma coisa maior, é por isso que raramente se impõe. E esta época vês jogador a jogador e não dava para competir com Porto e principalmente com o Benfica, que tem mais qualidade e quantidade no plantel.

Agora até ao Brasil. Falava do Jesus, que por lá foi da desconfiança à devoção em pouco tempo…
O Brasil historicamente é avesso a estrangeiros. É engraçado ver que ao início Jesus era um objeto estranho e agora é adorado. Virando a agulha, nós também tivemos isso com o Scolari e é natural. O Mourinho quando foi para Inglaterra foi igual. “Quem é este!?” Este português era campeão europeu com o Porto, devia lá ter chegado com alguma admiração, que não aconteceu. O Jesus tem contornado isso à sua maneira. Adoro as conferências de imprensa dele. É castiço e transmite uma naturalidade pouco comum no futebol. A equipa era boa, melhorou-a e está a fazer história. Espero que vença a Libertadores até porque vai encontrar na final o Enzo Perez, uma das maiores metamorfoses da carreira do Jesus. É o Criador e a sua obra.

Rui Miguel Tovar: “A Seleção às vezes é monótona, dá pena”

Quem também dá sempre nas vistas nas conferências de imprensa é o Sérgio Conceição.
As pessoas às vezes esquecem a pessoa. Há o que vemos na televisão e no estádio e depois há o lado pessoal. Como jornalista ouço histórias muito abonatórias. Esta época o MaisFutebol entrevistou o Serifo, do Vitória de Setúbal, que passou por maus momentos e vivia com o rendimento mínimo. Ele jogou com o Sérgio Conceição no Leça e contou que se cruzaram na Foz, trocaram umas palavras, mas não lhe falou dos seus problemas. A entrevista saiu e nessa manhã, o Sérgio ligou ao MaisFutebol a pedir o telefone do Serifo, para lhe dar uma palavra. Tem esse lado humano que as pessoas não veem. Ele explode, como faz o Sá Pinto ou o João Vieira Pinto, que ainda hoje é uma mola no banco de suplentes da Seleção. Claro que há coisas que as pessoas não devem dizer e fazer e depois põem a mão na consciência. As pessoas não têm que saber da vida dos outros, não é isso, embora ouças histórias destas e ficas a pensar. Salta-lhe a tampa mas depois é muito humano, se calhar mais do que outros.

Ronaldo e Messi. Como olha para o grande duelo da última década?
Fabulosos como o Pelé e Eusébio no seu tempo, cada um no seu continente. É interessante ver o Messi dizer que teve pena de ver o Ronaldo sair, é porque sabe que isso o ajudava. Claro que houve ali um período de rivalidade pouco saudável do Real e Barcelona, aquilo descontrolou-se, vias amigos de seleção a discutir. Isso passou e depois vimo-los a marcar 50 golos por época, cada um à sua maneira. Um fazia hat-trick no sábado, o outro respondia ao domingo. Não percebo a comparação sistemática. O que interessa é que são fenomenais.

Que figura do futebol português o marcou mais?
O Futre. O meu pai disse-me certa vez que havia um miúdo muito bom nos juniores do Sporting e na altura a RTP era ali perto, no Lumiar. Comecei a ir e o Futre era diferente. Mesmo que estivesse desaparecido num jogo, deixava-te naquela do “vai acontecer qualquer coisa”. E acontecia, mesmo que não fosse golo. Torcia pelo Sporting, mas quando ele foi para o Porto naqueles três anos torci também por eles por culpa do Futre. Ele é o que vês na televisão. Vi grandes jogos, vi o golo do Éder, mas ver o Futre ganhar a Taça do Rei é o momento mais alto. Naquela altura não havia portugueses e de repente vês um a levantar a Taça no Bernabéu, pelo Atlético, ao lado do rei. Marcou-me.

Tentei entrevistar o Di Stéfano e ele enxotou-me com a bengala

Que lhe parece um mundial no Qatar?
O Qatar tem uma coisa com piada, há quatro estádios na capital, em Doha, e podes ver dois jogos no mesmo dia. Temo que seja o único lado bom. Estive lá em junho e as pessoas saiam do hotel e em cinco minutos os óculos de sol estavam embaciados. É em novembro e dezembro mas mesmo nessa altura há calor. A FIFA deu um passo importante ao abrir ao Médio Oriente, só que vai implicar muitas mudanças. É tudo muito estranho. E eles são muito sossegados a ver futebol. Esse lado depende de outros adeptos irem para lá e isso implica muito dinheiro. Vai ser mau para todos.

Qual foi o entrevistado que mais o surpreendeu?
Foram vários mas o Quaresma foi uma grande surpresa. É difícil encontrar um grande jogador, ainda a jogar, que seja prestável. Está tudo com medo do jornalismo, há aqui um grande muro. É provocado pelos clubes mas também por nós. Às vezes ouves perguntas que são descabidas. Com o Quaresma mandei-lhe mensagem, respondeu na hora, perguntei quando vinha a Portugal e disse logo “aí não, que quando chego a Portugal sou da Seleção e não vai dar. Vem ter a Istambul, ficas neste hotel, do Besiktas, e no dia seguinte vou ter contigo”. Bateu tudo certo. Impecável. E continuamos a falar por mensagem, brinco com ele quando leva um cartão e responde sempre na boa. Há um grande muro, quando um jornalista e um jogador a falar devia ser a coisa mais natural do mundo.

E quem é que era o seu entrevistado de sonho?
Durante anos andei a estimular a caminha cabeça para o Di Stéfano. Estive perto, perto, perto, quando os veteranos do Real Madrid vieram cá, em 97 ou 98. Era o Chendo, o Camacho, ainda longe de pensar que iria para o Benfica. Estavam no aeroporto a entrar para o autocarro, vi o Di Stéfano, entrei pela porta dos fundos, e ele de bengala a enxotar-me: “No, periodistas no”. Eu a querer entrevistar este gajo e ele a querer dar-me com a bengala na cabeça [risos]. Ainda liguei uma vez para casa, não deu. Depois em 2014 morreu e fiquei órfão. O trono ficou vazio. Quem é que eu vou entrevistar agora?