Playtalks

“Representei milhares de criminosos mas nunca um que mentisse 10% do que Trump mente”

Seth Abramson é advogado, professor, poeta e metamodernista que quer provar que o conluio aconteceu. Uma conversa com o estudioso da relação entre Trump e a Rússia.

Não é fácil tirar o perfil a Seth Abramson. Comentador, sobretudo no Twitter, das ligações entre o presidente e a Rússia e autor do livro “Proof of Collusion: How Trump Betrayed America” [“Prova do Conluio: Como Trump Traiu a América”, em tradução livre], não parece um jurista ou sequer um raivoso criador de teorias da conspiração. Podia ser um qualquer gestor de um call-center.

Os seus tweets exibem uma memória quase robótica, um dom para o pensamento sequencial, amor pelos asteriscos, itálicos e uma entediante produtividade — uma discussão pode gerar milhares e milhares de palavras, um feito digno de nota numa plataforma que privilegia mensagens de 280 ou menos caracteres.

Nascido em 1976 em Concord, Massachusetts, é professor de Comunicação, Arte e Ciência na Universidade de New Hampshire, autor publicado de poesia conceptual e advogado com cinco graduações em diversas universidades.

Colunista na “Newsweek” desde 2018, a sua posição na comunicação social está por definir, até porque os grandes órgãos gostam pouco de desconhecidos nascidos no Twitter com contagens ilimitadas de caracteres e 600 mil seguidores. Apelidam-no de “delirante”, “hiperbólico” e “conspirador”.

Se o seu livro aparenta ser algo nebuloso, isso é porque a relação de Trump com o Kremlin também o é. A teoria? Trump e os seus assessores conspiraram com o Kremlin e outras forças hostis, uma troca do controlo da política externa do país por dinheiro e uma preciosa ajuda na conquista das eleições presidenciais.

Prove-nos que houve conluio.
Primeiro temos que estabelecer qual é o nosso quadro de referência. Há informação sobre o conluio que seria convincente num filme, outra que poderia ser sustentável num tribunal e até aquela que colocaria um jornalista a dizer que sim, “agora temos provas”. Acredito que há várias dúzias de incidentes na cronologia Trump-Rússia que seriam percebidas como conluio em qualquer desses paradigmas. É o caso do encontro de Trump com os conselheiros para a Segurança Nacional a 31 de março de 2016. George Papadopoulos, um dos conselheiros, revelou que esteve em contacto com agentes do Kremlin e que foi instruído para servir de intermediário na organização de uma reunião secreta entre Trump e Putin.

O que lhe garante que isso realmente aconteceu?
O “The Washington Post” reportou inicialmente que Papadopoulos se assumiu como “um intermediário do governo russo”. Interpretando a linguagem em termos legais, se assumes tudo isso então és, legalmente falando, um agente do Kremlin. No paradigma da sala de audiências do tribunal, Papadopoulos estava a agir como um agente especial do Kremlin. Ele informou uma sala inteira de homens da campanha de Trump que era um agente do Kremlin. A primeira reação deles não foi a de contactar o FBI, despedi-lo ou dizer-lhe para não fazer nada disso. O que aconteceu foi que ele foi promovido para a equipa de redatores de discursos do presidente. Olhando para isto através de qualquer dos paradigmas de que falei, em todos eles isto é um conluio.

“Mentiu aos eleitores americanos. Ao fazê-lo, deu material ao Kremlin para ser usado como chantagem”

Porque é o caso de Papadopoulos tão importante, que tenha sentido necessidade de o mencionar como primeiro exemplo?
O papel dele é o mesmo do canário na mina de carvão. O que ele disse a Trump e aos seus assessores deveria tê-los feito parar e avisá-lo para terminar ou corrigir o comportamento — isto se eles agissem de acordo com a lei, os valores americanos ou o processo democrático. Não fizeram nada disso. Dou outro exemplo. A 26 de abril de 2016, Joseph Mifsud revelou a Papadopoulos que o Kremlin roubou os emails a Hillary Clinton. De acordo com o testemunho ao Congresso de John Mashburn, assessor de Trump, Papadopoulos passou mesmo essa informação à campanha de Trump. A partir desse momento, todos deveriam ter percebido que se há algo que legalmente não poderiam fazer era tentar obter os emails, precisamente porque sabem que foram roubados. Nesse momento, sabiam que estavam a ser cometidos cibercrimes contra os EUA.

Foi a tagarelice de Papadopoulos com um diplomata australiano numa noite de copos que alertou o FBI, não foi?
A forma como a investigação começou é irrelevante.

Como?
Se tudo tivesse começado com uma caixa de doces entregue por um tipo vestido de coelho nos escritórios do FBI, com um papel a dizer “Investiguem o Papadopoulos”, o que é que isso me importava? Nada, a não ser que os agentes violassem algum direito constitucional. Mais importante do que isso é como Papadopoulos acaba na equipa que escreveu o primeiro discurso de Trump sobre política externa. O texto que ele editou foi, no meu entender, essencialmente escrito por um lobista da Gazprom, controlada pelo Kremlin, e Dimitri Simes, CEO do Centro para o Interesse Nacional [um think tank norte-americano] e próximo de Vladimir Putin. Não podes deixar que a tua política externa seja secretamente escrita e editada por agentes do Kremlin, para depois a apresentares como um produto dos teus valores americanos, quando sabes que o que está lá escrito protege sim os valores e a agenda do Kremlin.

trump
Os críticos apelidam-no de “delirante”, “hiperbólico” e “conspirador”

Dê-me outro acontecimento que ache significativo para a prova do conluio.
De acordo com J.D. Gordon, número dois do comité de aconselhamento para a segurança nacional da campanha de Trump, a plataforma do Comité Nacional Republicano que falava do tema da Ucrânia foi modificada para beneficiar o Kremlin. Depois Gordon começou a mentir e disse que não esteve envolvido. Paul Manafort fez o mesmo. Trump também. Isto numa altura em que o alegado espião e homem do círculo de Manafort, Konstantin Kilimnik, andava pela Europa a gabar-se de ter manobrado esta alteração graças aos seus contactos secretos na campanha de Trump.

Diria que entre todos estes acontecimentos, a reunião na Trump Tower entre Trump Jr., Jared Kushner, a advogada russa Natalia Veselnitskaya e outros, em junho de 2016, destaca-se claramente. Ou será que perdi algo entre abril e…
Antes de chegarmos a 31 de março de 2016, os atos de conluio chegam aos dois dígitos. Sejamos claros: durante toda a campanha presidencial, Trump estava a negociar dois projetos multimilionários de Trump Towers em Moscovo — não apenas com agentes do Kremlin, mas com o próprio Kremlin. Falo dos negócios Trump-Agalarov e Trump-Rozov. Trump escondeu o negócio até dos principais executivos da sua organização. Mentiu aos eleitores americanos e ao fazê-lo, estava a dar material ao Kremlin que poderia ser usado para o chantagear.

“Trump mente uma média de 11 vezes por dia. Nunca poderia ser tratado como uma testemunha credível num tribunal”

Os relatos e a análise são igualmente cruas e alarmantes. Se apenas está a resumir material conhecido, porque é que muitos dizem que as suas conclusões são precipitadas?
Muita gente não compreende que a presunção de inocência só se aplica no tribunal e aos jurados. Um exemplo: de acordo com o “Washington Post”, Donald Trump mente uma média de 11 vezes por dia. Isso significa que nunca poderia ser tratado como uma testemunha credível num tribunal. Significa que não pode ser usado como fonte credível por repórteres com o básico de princípios jornalísticos. E também que na política convencional, ninguém deveria apoiar um político que mente 11 vezes por dia.

Acusam-no de escrever tweets demasiado longos, mas também há quem diga que é uma fraude — uma palavra tão em voga nos nossos tempos. Temos uma conspiração para defraudar os EUA, nas palavras de Robert Mueller. Trump foi apelidado de fraude graças à Universade e Fundação Trump.
Acho que Trump foi eleito porque os nossos sensores de alerta de fraude estão a funcionar muito mal. Se as pessoas entendem o meu discurso, sobre quem eu sou e o porquê de escrever o que escrevo como uma elaborada fraude, enquanto neste país há tanta gente cega à óbvia fraude que é a carreira e a vida de Donald Trump, então temos um problema.

Como advogado, consegue dizer-me se alguma vez existiu alguém tão consistente na mentira, capaz de tantas vezes dizer o completo oposto da verdade — como “Não sou fantoche, não sou fantoche, tu é que és fantoche.”
Trump revela a verdade através das mentiras. Já representei milhares de criminosos mas nunca alguém que mentisse 10% do que Trump mente — e incluo aqui pessoas acusadas de crimes financeiros e assaltos à mão armada —, o que me diz que ele é um mentiroso patológico. Digo às pessoas que devem tomar qualquer coisa vinda do Trump como uma mentira, e o seu objetivo deve ser o de tentar perceber se existe algum tipo de verdade no que ele diz, ao invés de andarem à procura da mentira. O “Washington Post” conta quantas mentiras ele diz. Deviam fazer o oposto: “Quantas verdades conseguimos encontrar?”

Além de mentir, gaba-se habitualmente de coisas que podem configurar potenciais crimes. Estou convencida de que conseguiríamos uma confissão, mas teríamos que lhe dizer: “Tem razão, não houve conluio. É algo muito maior. Algo muito mais interessante. Fez algo que nunca nenhum presidente americano conseguiu fazer…”
De um certo ponto de vista — e sei que vou mergulhar no campo da teoria —, esta administração tornou-se no primeiro escândalo criminal metamodernista. Todos os anteriores escândalos públicos de corrupção envolveram uma conversação sobre que informação estava escondida e a qual é que conseguíamos aceder. Era aí que estava o drama: “Conseguimos aqueles 18 minutos de gravação? Serve de prova para o nosso caso?” Donald Trump é a personificação da Internet e, como consequência, se comete uma conspiração criminosa, é exatamente como a Internet: é tudo demasiado público e demasiado acessível. Está tudo tão presente — a conspiração criminosa —, que o desafio passa a ser: “Será que estamos todos em sintonia sobre como as provas funcionam, para reconhecermos o que já é público?” É um novo tipo de escândalo criminal que investigadores, advogados, jornalistas e público nunca viu antes. O teste que temos que passar não “Conseguimos aceder à informação?”, mas sim “Conseguimos perceber aquilo que estamos a ver?”.

Artigo publicado na edição de outubro de 2019 da PLAYBOY PORTUGAL. Pode comprar a edição impressa na loja online.