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Pêpê Rapazote: “Era feliz a fazer qualquer coisa, a plantar batatas, a fazer canalizações, a servir às mesas”

Começou como arquitecto, mas a paixão pela representação falou mais alto. E poderá estar prestes a encarar a maior mudança da sua vida.

Tirou o curso de arquitetura e ainda trabalhou 12 anos na área. Chegou realmente a pensar ficar por aí ou era aquele backup plan enquanto perseguia o seu sonho?
Desde miúdo que sempre gostei muito de fazer tudo. Era feliz a fazer qualquer coisa – a plantar batatas, a fazer canalizações, a servir às mesas. Há coisas em que somos depois mais felizes do que outras. A arquitetura foi, francamente, um equilíbrio entre a física, a matemática e as estruturas de que eu gostava muito, e depois a criatividade, o desenho, o gesto. É uma coisa absolutamente deliciosa. Há coisas que me acontecem na arquitetura que nunca me aconteceram na representação e vice-versa. Acordava várias vezes durante a noite com uma ideia; e ao princípio ainda pensava “Estou muito cansado, acabo isto de manhã”, mas de manhã já me tinha esquecido. Portanto, tinha mesmo que me levantar , começar a desenhar e depois acabava por me deitar às 9 da manhã, se é que me deitava. Isso é uma coisa extraordinária. Tenho saudades disso de dormir sobre o assunto.

Não acha que foi demasiado tempo?
Não, não foi demasiado tempo. Era felicíssimo a fazer arquitetura. E também faço música desde os 9 anos, comecei a aprender instrumentos e começaram a acontecer uma série de coisas. Fiz música em várias situações até há 10 anos e só depois é que veio o teatro amador. Um dia estava a fazer uma peça do falecido Francisco Nicholson e ele disse que me ia ligar dali a 15 dias e assim foi. Entrei na minha primeira novela sem saber ler nem escrever, mais ou menos. Já tinha 2 anos e meio de teatro amador e profissionalizei-me em teatro. O que é que isto significa para quem não tirou o curso? Foi a primeira vez que cobrei bilhetes, porque até lá o teatro amador não é cobrado. Estava a ganhar bem como arquitecto, fui ganhar melhor como actor e foi uma passagem perfeitamente suave. Não me faltou nada, foi devagarinho, durante dois anos. Eu já era feliz e continuei a ser feliz.

Sendo bem sucedido, como foi gerir a decisão de abdicar da estabilidade e atirar-se de cabeça para o mundo cão da imprevisibilidade?
Houve um dia ali a meio em que tive que decidir, porque na arquitetura os projectos podem demorar seis meses, mas normalmente demoram sempre mais do que um ano. Entre o projecto de licenciamento, o projecto de execução e até a obra acabar ,se calhar, demora 3/4 anos. Nós não podemos dizer aos clientes “Olhe fique à vontade, a casa de banho é ali, sirva-se, faça como se estivesse em sua casa, eu vou ali 6 meses e volto já”. Isto chegou a acontecer, não eram 6 meses de seguida, mas não é forma de tratar ninguém. Portanto, tive que tomar uma decisão. E depois sou pai de família, portanto não dá para fazer tudo. Neste momento, o teatro vejo-o por um canudo, embora seja o sítio onde eu mais sou feliz.

Em cerca de 20 anos de carreira, as novelas foram uma boa parte do recheio. Vê-as como uma espécie de guilty pleasure ou é sempre uma questão de sobrevivência no meio?
Eu gosto de tudo. E as novelas têm uma coisa boa, sou um gajo que trepa paredes, parece que estou high em qualquer coisa, estou sempre a morder pernas de cadeira como os cães. Mesmo. O ritmo da novela é o meu ritmo. São 12 horas por dia e faço protagonistas desde há muito tempo, portanto é esta coisa: dormir sábado de manhã até um bocadinho mais tarde, depois começar a reunir os textos da semana seguinte e não se faz nada durante meses e meses a fio. Mas gosto muito de novela. Há um prazer enorme que tenho em ver como conseguimos fazer novelas cada vez com menos dinheiro, com mais eficácia e mais eficiência. Vejo desperdícios de dinheiro todos os dias lá fora, às centenas de milhares de dólares, só porque sim. Se eu fosse Produtor lá fora, se calhar, iam matar-me pelo caminho, os sindicatos acima de tudo, mas ia fazer as coisas com metade do preço. Porquê esse desperdício? Porque se pode. Yes, We Can. Cá não se pode repetir uma segunda vez. Temos que fazer bem à primeira. Somos a malta do desenrasca, somos do melhor, resolvemos sempre tudo, é absolutamente fascinante. É fantástico como se faz com tão pouco dinheiro. Isso é um orgulho enorme e não páro de o dizer.

Como é que apareceu a oportunidade de participar em “Shameless”?
Essa é das histórias de que mais me orgulho na vida. Sempre fui muito ambicioso, pelo conhecimento, no sentido de não me ver a fazer a mesma coisa muito tempo. Sempre me interessei por tudo – eu vou estar aos 70 anos a fazer novelas? Não vou. E isto se me quiserem, porque os avós hoje em dia têm 45 anos e não há bisavós nas novelas, portanto, acabou. Este país não é para velhos. As novelas não são para velhos. O que é uma estupidez, se nós presássemos os nossos como os brasileiros, estávamos cheios de velhotes para fazer coisas fascinantes. Mas eu não me estava a ver a fazer novelas para o resto da vida e comecei por Espanha, por causa da minha capacidade para línguas, e achei que podia começar a experimentar. Não havia um agente em Portugal que conhecesse um agente em Espanha, não sei se hoje já acontece, duvido. Depois comecei a tentar os Estados Unidos e ninguém conhecia, portanto isto foi um trabalho do zero. Foi começar a enviar e-mails, telefonemas, cartas, começar a recolher reels das minhas coisas e começar a lançar-me para o Estados Unidos. Até que do outro lado o sonar respondeu com um pim e arranjei um agente que ainda é meu manager, acredita em mim como ninguém, até quando eu o quis deixar ele não me largou. [risos] Somos muito, muito amigos. Essa é a coisa que mais me orgulho, a capacidade que foi ir lá para fora completamente sozinho, compilar o processo de emigração, de obtenção do visto, ano e meio até às 4 horas da manhã e de manhã ir gravar novela. O Shameless chegou assim, uma imagem americana de um traficante brasileiro, que veste Hugo Boss e fala inglês. Depois vêm as outras participações, sempre com castings, o que me agrada bastante, deixam-me aquele orgulho de não ter sido daqueles “Ah ok, está a dormir com…” – ainda por cima sei que o meu agente é pequeno, não tem qualquer dimensão, que é uma coisa que às vezes dava jeito, “Metes o rapaz no filme, depois eu faço-te um favor e a seguir fazemos contas”. Não há como fazê-lo, há com as agências grandes.

Nunca pensou em fazer também uma perninha do outro lado e, com esse conhecimento todo que já tem, poder eventualmente também agenciar atores portugueses?
Não. Agenciar, não. Eu já entreguei o meu processo a alguns actores “Olha, querem?”. Não. Mais facilmente produzo. Espero estar a aproximar-se aí uma época em que hei-de começar a produzir coisas cá, em parceria com Espanha e Estados Unidos. Temos histórias absolutamente fascinantes para contar. Um dia hei-de chegar a um sonho antigo que tenho, que não nasceu de mim mas que já há muitos anos que tenho a vontade de o fazer, que era a história da educação de Cristóvão Colombo com os nossos templários em Tomar: Colombo ter sido afastado da corte portuguesa e ter sido sugerido que assinasse um documento ‘vinculando-o’ de alguma forma ao rei de Nápoles. Ele não é genovês, não é espanhol, é português. Acho que era muitíssimo interessante pegar numa série dessas com um grande elenco. Há-de ser lá para a frente.

Aí esperava que tivesse existido uma continuidade imediata na carreira internacional?
Não sei. Para mim, entrar nos episódios que entrei no Shameless não era muito importante. Para mim, na perspectiva da dimensão dos papéis em Portugal, para os americanos é imenso. É um recurring guest lead, têm nomes pomposos. Eu não achei que fosse assim ter mais consequências. Ou seja, nunca pensei capitalizar, o meu agente pensou. Mas era muito novo, ainda era muito verde. Temos aprendido muito com os erros dele. Eu lembro-me de ter ido parar lá 3 meses e ele achou “Pêpê, isto vai ser limpinho” – 3 meses quase a enforcar-me. Estava a ficar deprimidíssimo. Los Angeles é uma cidade muito antipática. Não falo das pessoas, mas do estilo de vida. As pessoas vivem muito distantes, não há nada para fazer. É engraçado, se fores a Los Angeles cinco dias, o programa de uma das tardes é ir a Pasadena comer a melhor pizza. Isso é uma tarde? Não tem nada aquela cidade. Depois vais ver o Santa Monica Pier, o fim da Estrada 66. As pessoas são um bocadinho distantes. Mas claro, é onde está a nação toda e se for para lá viver, vou. Se o trabalho me mandar.

Ao receber o convite para participar em Narcos, percebeu de imediato que a carreira nunca mais seria a mesma ou gosta de manter as expectativas domesticadas?
Pés muito assentes na terra e mais uma vez não foi garantido. Devia ter sido, aí por falha também de acompanhamento. Supostamente há uma possibilidade de haver um spin-off com o Chepe em Nova Iorque, mas podia ser uma série que canibalizava o Narcos original, até porque o Chepe tinha muita graça. Olha o Chepe em Nova Iorque, sem falar uma palavra de inglês, com três famílias, sendo que estropiou a primeira, matou a segunda e trouxe os dois filhos que tinha da segunda para a terceira. Ele era dez vezes mais violento do que se conta. Não tinha metade do charme.

Sabia desde o início que era para o Narcos que estava a fazer o casting?
Sim, claro. O casting foi muito engraçado. Uma cena que depois foi cortada porque “havia muito Chepe” nesse episódio, foi a justificação que me deram. A justificação foi, vou confessar, com as palavras do realizador, “Pêpê não és protagonista. Está muito bom, mas não pode ser, tu não és o centro da história”.

O mundo do cinema está cada vez mais a ser formatado pelo universo Netflix. A par do óbvio reconhecimento mundial que deu, adaptou-se bem a esta realidade de consumo rápido?
Sim, já me começo a adaptar melhor. Preferia sempre a ansiedade de esperar pelo episódio da semana seguinte e hoje em dia temos as temporadas todas. “Já há?”, “Acabámos de lançar!”, “Queremos mais”. Parecemos toxicodependentes. Sexta à noite, pipocas e tal, sábado de manhã, “Como é que é, vou comprar croissants, o que é que vamos ver a seguir?”. É muito interessante. A Amazon cá em Portugal tem menos saída, nos Estados Unidos tem mais. E como quer apanhar a Netflix, tem imenso dinheiro. Faz produções riquíssimas. Não estou a dizer que seja melhor mas há produções com muito dinheiro, às vezes com muito mais do que a Netflix. Precisamente para tentar chegar aos níveis da Netflix, de popularidade, etc. E um dia destes vai chegar lá. Isto permite também outra coisa, acima de tudo na Netflix, que é os filmes que os produtores arriscam e distribuem poderem não fazer grande bilheteira. Às vezes, até mesmo nos Estados Unidos, estreiam e depois no primeiro fim-de-semana se não for famoso vendem logo à Netflix, pagam as contas e ninguém perde dinheiro. E mais outra coisa: ainda não há legislação fechada para o streaming; os royalties que nós temos, se trabalharmos pela Netflix, ninguém recebe dinheiro deles. Dos cinemas recebes, dos canais de televisão recebes, da Netflix não, porque é streaming. Mesmo com a GDA (Gestão de Direitos dos Artistas), que tem acordo com alguns países, poucos, das nossas novelas não vemos um tostão daquilo e às vezes estamos a passar na Argélia, na China, na Índia. Um tipo diz “Uau, um bilião de espectadores potenciais”. Acho terrível. Às vezes, somos um bocadinho mais lentos do que eu desejaria, as coisas demoram 20 anos a fazer.

Aqueles 10 episódios do Narcos fazem-se em quanto tempo?
Os 10 episódios em 7 meses. Em 7 meses nós fazemos numa novela, se calhar, 200. Diferente. É uma diferença enorme e o que se gasta em 10 é provavelmente dez vezes mais do que se gasta nesses 200.

Além do tempo e do dinheiro, não há grandes diferenças entre o que encontra aqui e lá?
Há bastantes. Há desde logo uma escola e uma tradição enorme no cinema e na televisão. Em qualquer país da América Latina, há mais do que cá em Portugal, nós não temos tradição de cinema nenhuma, não temos escola. É uma pena. São de vez em quando filmes, alguns muito bons, que saem separados, não têm sequencia. Se calhar, durante um ano não sai algum filme com qualidade internacional, só de dois em dois anos. Depois há uma tradição fantástica de argumentistas: a escrita é a coisa mais importante para depois nós visualizarmos tudo e começarmos a produzir com a capacidade de “Think big”. Nos Estados Unidos, o “Think big” é eu em duas páginas enchê-las de coisas ricas e já gastei 2 milhões de dólares, porque escrevo assim, estou habituado a escrever para dinheiro. O nosso foco está exactamente no contrário, “Não escrevas caro, não há, tem que se escrever barato”. Essa é uma diferença grande, que é normal, que é adaptarmo-nos precisamente ao habitat onde estamos. Há uma coisa que pode vir a mudar e que eu gostava muito – pode não, será com toda a certeza: o centro de produção da Netflix em Madrid, aqui ao lado, em que se trabalha muito bem e onde mais no fim deste ano ou no início do próximo, serei protagonista de uma série futurista muito engraçada, parte de uma história grande. Há relações cada vez maiores com Espanha e com a produção que há lá, há interesse de ambos os lados em começar a fazer coisas. Claro que eu gosto muito de representar.Mas se puder, e eu quero, fazer pelo audiovisual português um bocadinho do que fiz pela minha carreira quando fui lá para fora, farei com toda a certeza, que é: “Meus amigos, temos as melhores histórias do mundo que ninguém conhece”, tal como ninguém conhecia Lisboa e Porto. Como é possível que o mundo não conheça das cidades mais lindas da Europa? De repente, conheceram. Do mesmo modo, há-de acontecer um dia destes, “Espera aí, vocês tem umas histórias do caraças, têm quantos anos de história?”, “Queres chegar aos fenícios ou ir mais atrás? Temos uma história brutal, só a nossa tem mil anos. Queres?”. Isto é brutal! Há interesse em fazer, há dinheiro. La Casa de Papel e outras produções vieram trazer grande visibilidade à Netflix de Espanha, portanto já tem uma grande liberdade para tomar decisões, quase de forma independente da Netflix de L.A., sem ter que falar com uma série de malta. Mas, conhecendo de um lado e do outro, melhor ainda. Para a Netflix, era um risco começar a trabalhar com portugueses que não se conhece de lado nenhum, nem sequer as televisões. As coisas não são tão assim tão difíceis, mas dão trabalho. O que é também bastante cansativo, porque acabo por estar sempre fora da zona de conforto. Quando me apetece descansar não posso, estou sempre em sentido. Nunca estou no meu meio ambiente, nunca estou em casa, nunca estou de pantufas e isso deixa-me sempre muito tenso, enquanto tiver energia para isso. Estou sempre com gente desconhecida. Estou mais confortável aqui do que a maior parte das vezes que estou no estrangeiro e estou a fazer uma entrevista com pessoas que acabei de conhecer.

Os dois anos que viveu na Venezuela enquanto criança ajudaram a construir essa veia latina que usou em Narcos?
Não tinha que ver com a realidade de agora, mas lembro-me que em 1980 havia campanhas televisivas de prevenção rodoviária: “Não fique no tráfego com a mão fora do vidro”, porque cortavam mãos para levar os anéis, de catana, em vez de “O senhor importa-se de me dar o anel?”. Não há cá meias medidas. Era assim que se fazia, uma brutalidade. Enquanto eu lá estava, foi também proibido andarem duas pessoas numa lambreta. Porque o da frente guiava e o de trás ia arrancando as carteiras no passeio. Portanto, a violência estava muito instalada. Hoje em dia, mais ainda. É uma questão de sobrevivência horrível. É um país que adoro e durante algum tempo senti-me mais venezuelano do que português. Durante muito tempo da minha vida, soube melhor o hino venezuelano do que o português, que é lixado em termos de letra – “os egrégios avós”… A sério? Queres que uma criança aprenda isto? Mas, e eu já ouvi ideias destas, desde o 25 de abril parece que é proibido falar em hinos e bandeiras, porque chamam-lhes fascistas. Teve que vir um senhor brasileiro chamado Scolari a dizer, “Então não há bandeiras neste país?”, “Metê-las à janela e cantar o hino, se faz favor”.

Por mais solitário que possa ser muitas vezes a representação lá fora, assusta-o a ideia de conforto e prefere andar sempre de mala feita?
Não, às vezes sinto falta. Gostava de ficar mais tempo e às vezes não fico. Mas não me assusta a ideia de conforto, de maneira nenhuma. Odeio viajar. Odeio andar de avião, é a coisa mais aborrecida do mundo. Felizmente já não fumo, deixei há muitos anos, porque se não era pior ainda. Embora nos aviões eu pusesse o chip “não podes e as janelas não abrem, portanto nem penses no assunto”. Dois minutos antes de aterrar já estava… [respiração ofegante]

Além das pessoas que lhe são queridas, do que sente mais falta quando está sozinho lá fora?
Da família sobretudo. Estou a trabalhar, estou muito entusiasmado com o que estou a fazer lá e depois não fico tanto tempo seguido que me dê para “Já não vou à terra há 2 anos”. Isso não acontece. E sinto falta do Porto, que também precisa de exportação. O Porto precisa mesmo. Os clubes em geral precisam, mas o Porto eu gostava muito que se exportasse porque tem imensos adeptos pelo mundo fora – estrangeiros, não estou a falar de portistas portugueses. Gostava de ver Casas do Porto espalhadas pelo mundo, principalmente na América Latina. Do México para baixo é Porto, do México à Argentina, por razões óbvias, por intercâmbio de jogadores. E cá não temos essa noção de como as pessoas lá vibram pelo Porto. É muito engraçado. Vibram pelos seus jogadores no Porto, depois fica marcado, “O teu clube em Portugal, qual é?” – “Porto, claro”. Isso é giro.

Já consegue cheirar os 50. É altura de retrospectivas e balanços ou é apenas mais uma nova aventura?
Eu não meço as coisas por ai. Esta vida é boa demais. Eu por mim vivia 150 anos, se calhar nos 40 para sempre, ou 35. Era porreiro. Mas não pode ser. Sou muito feliz acima de tudo. Estou a ver-me perfeitamente a envelhecer, até aos 90 se Deus quiser, ou até aos 100, por aqui a fazer muita coisa. Nós sabemos que os actores, por exemplo, trabalham muito com a cabeça e depois a memória começa a falhar. Isso é outra coisa boa nos Estados Unidos, não sabem o que é que são novelas e termos que decorar 100 páginas num fim-de-semana para a semana seguinte. Não fazem ideia. Cá a memória falha-nos e já não podemos fazer novelas. Temos que saber adaptarmo-nos a novas formas de vida, desde sempre. Esta coisa de “foi isto que eu estudei, trabalhei toda a vida”, há muito tempo que não é assim. Eu sou assim por personalidade, toda a vida quis fazer tudo, sempre, portanto não me custa nada saltar de um poiso para o outro. As pessoas que não conseguem, muitas delas sabem que são postas na prateleira. Já não falo só de actores. É preciso uma capacidade de adaptação grande e por isso, naturalmente, fico felicíssimo por chegar aos 100 se for caso disso.

Diz-se que nos homens a idade não limita assim tanto o tipo de papéis. É mesmo assim?
É. Há outra coisa nos Estados Unidos muito engraçada. As nossas pivots de notícias começam a ter umas rugazinhas, são despachadas e vem uma mais nova. Os homens é um bocadinho diferente. Nos Estados Unidos, quanto mais velho o pivot, melhor, mais respeito tem na televisão. Se tiveres 90 anos, quero-te e triplico-te o ordenado. “Quero um pivot com 90 anos, dá credibilidade ao canal”.

Percebeu-se pelo Instagram que andou por New Orleans. Algum projeto de que ainda não pode falar?
Chama-se Queen Of The South, é uma série onde, mais uma vez, sou um narcotraficante. Curiosamente, isto foi muito à última da hora, ligaram-me um mês antes, foi uma aventura grande. A minha personagem é o Raul “El Gordo” Rodriguez, um cubano que vive em New Orleans há uns anos valentes. Antes de mais, uma curiosidade: eles estavam à espera que eu estivesse mais como o Chepe, mais gordinho e entretanto perdi o peso que ganhei nessa altura; é suposto este Raul ter sido muito gordo, com uma banda gástrica e uns ataques de cólera muito grandes e os empregados dele dizem que é da fome que passa. Tem a sua graça. Depois entretanto aparece este gajo que está mais magrinho do que devia. Já vai na 4ª temporada e é muito interessante. Tem uma produção rápida, porque não é tão rica quanto outras, mas muito bem feita, e a personagem é francamente simpática. Tem carácter.

Na página do IMDB tem dois projectos por estrear, La Pequeña Suiza e Femena, a que se junta Almost in Love, que é referido no seu site. Qual é o primeiro que vamos poder ver?
O Femena é um projecto que já teve vários financiamentos, deixou de ter já há alguns anos, portanto não sei em que estado está neste momento. O Almost in Love ficou agora adiado, será na Argentina, serei protagonista de um drama, pai adolescente. Outra coisa que também me agrada muito é não fazer os estrangeiros nos filmes, “Olha um português que está na Argentina”. Hei-de ser um porteño, que é uma coisa que me enche de orgulho, “Este gajo não só fala espanhol, como lhe dá o sotaque porteño”. Mais do que venezuelano, perguntam-me muitas vezes se sou argentino. Não há venezuelanos com este aspecto. É muito engraçado. Depois há outras coisas que andam aí a cozinhar em Los Angeles. Não posso falar, mas essas seriam uma mudança de vida grande. A maior até agora.

E episódios piloto?
Irei fazer um provavelmente agora. Depois no dia 15 ou 17 de maio, toda a gente se reune à volta do computador e as networks apresentam ao mesmo tempo, no mesmo dia, à mesma hora, os pilotos que foram aprovados e os que não foram. Há 60 pilotos e se calhar 10 foram aprovados. Quando os pilotos são encomendados pela própria estação, há a probabilidade de ser um piloto directamente para série, é só para ter a certeza e já serve se calhar de primeiro episódio, “É isto, vamos para a frente”. Vamos ver como é que sai, mas é muito provável que depois me possa mudar bastante a vida. Vem de um spin-off, portanto não há muito para provar, a mesma produção, o mesmo realizador, ou seja, já está mais que provada a eficácia do produto, portanto não há porque não fazer este. Pode acontecer alguma coisa pelo meio, claro. Seria muito interessante.

Pensa muito no que poderia ter feito de diferente?
Só há uma coisa. Gostava de ter começado nesta profissão mais cedo. Isso gostava. Gostava de ter ido aos 35 para os Estados Unidos em vez de aos 40. Isto começou com umas aulinhas de teatro amador e depois tornaram-se sérias. Se soubesse o que sei hoje, tinha começado o Conservatório. Neste momento estaria a produzir, se calhar estaria noutro ponto lá fora. Ou seja, tudo isto teria chegado mais cedo. Mas felizmente, posso produzir até morrer.

Se terminasse hoje a carreira sentir-se-ia realizado ou ainda falta o papel de uma vida?
O que queres dizer como isso? Se morresse hoje?! [risos] Ia cheio. Adoro a vida. Já fiz tudo, e estou sempre com intensidade máxima a sentir e a viver as coisas. O coração está sempre aos pulos. Tinha uma coisa no site antigo, não sei se ficou no novo, que era a frase “não há nada como o milissegundo de espanto na presença de algo inteiramente novo”. E é essa experiência nova que eu estou sempre à procura e consigo encontrá-la lá fora. É isso que quero e é isso que me move. Aqui é repetido, é uma seca. Não quero mais. Não. Sinto que estou a perder vida às golfadas se ficar no mesmo sítio. E isso é mais forte do que eu. Tem de ser. Devíamos todos fazer isto, sermos maiores. Todos temos capacidade impressionantes e, às vezes, maltratamo-nos. “Mas ficaste e não tiveste oportunidade?”, “Mais ou menos, dava muito trabalho e fiquei”. E ficamos, temos coisas boas e temos energia e autofagia, e autossabotamo-nos. WAKE UP, MOTHERFUCKERS