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Pedro Fernandes: “Já recebi nudes e já me pediram. Não caio nessa”

É cara famosa na televisão e voz familiar na rádio. Antes da estreia do novo programa, o miúdo tímido falou de nudes, velhinhas e do seu grande amor. Não, não é o Sporting.

Aos 40 anos, é o tipo com piada da rádio e televisão. Na rua, as velhinhas tratam-no como o seu netinho. Nas redes sociais, houve quem lhe mandasse e pedisse nudes, mas não pensem que ele cai nessa. Casado e pai de dois miúdos, está nas Manhãs da RFM e regressa em outubro à televisão para animar os fins de tarde dos portugueses — um regresso que vai ser um descanso para os avós, que sempre desconfiaram destas modernices como carreira. “Então, filho, como é que isso está, tens trabalho?”, perguntam-lhe sempre. Tem, pois.

Era um puto reguila?
Lá em casa tinha uma rádio com os meus amigos, a Rádio Júnior. Tínhamos um gravador e enchíamos uma cassete de 90 minutos. Radio-novelas, anúncios, talk-shows, tudo. Também fazíamos casas fantasma. Havia túneis por todo o lado feitos com lençóis e cadeiras. Gravava músicas do Indiana Jones para as partes mais assustadoras e ainda punha teias. Quando os meus pais chegavam a casa não achavam tanta graça, mas nunca fui puto de me meter em encrencas.

Trabalhou na área de Publicidade. Era tudo para fugir a um emprego das 9h às 18h?
Não sei. Ainda fiz isso uns 10 anos. Só tive dois empregos antes disto. Fui paginador e depois estive numa agência de publicidade que foi uma grande escola. Era um miúdo muito tímido e ali tive de sair da casca, perder a vergonha e fazer um pouco de tudo.

Quando é que percebeu que ia dar este salto?
Quando o patrão me convidou a sair, que eu passava já mais tempo fora do que lá [risos]. E agradeço- lhe. Deu-me a possibilidade de crescer e foi sempre muito aberto comigo. Eu é que ia adiando. Os meus pais são de uma geração em que o emprego era para a vida e sempre me incutiram a ideia da estabilidade. “Tu vê lá”, diziam. Mas correu bem. Os meus avós é que ainda hoje me perguntam, “Então, filho, como é que isso está, tens trabalho?”.

Farta-se de partilhar fotos de corridas, de trails, no ginásio…O desporto é um assunto assim tão sério?
Motiva-me. Dá-me pica. Sempre fui competitivo. Como já não estou em idade de ser competitivo com os outros, sou comigo próprio. Bato os meus recordes. Quando me lançam um desafio raramente digo não. Depois tenho de levar aquilo até ao fim. Às vezes vou a provas sabendo que não treinei como devia mas nunca desisti, tenho brio nisso. Dizem-me: “Só uma pessoa com muito espírito de sacrifício consegue fazer o que tu fazes”. Com treino era mais fácil mas como não há tempo atiro-me na mesma. Agora vou correr no Triangle Adventure, nos Açores, são 100 quilómetros em três dias. Mais um desafio que me lançaram.

Era um miúdo muito tímido, tive que perder a vergonha

Tinha a cena do futebol quando era miúdo, não é?
Quem gosta tem aquele sonho de jogar no clube do coração. O meu era o Sporting. Tinha algum talento, mas não o dos predestinados. Quando falamos do Messi e do Ronaldo, o Messi é mais talento inato e o Ronaldo trabalhou imenso. Eu seria mais como ele. Tinha é que trabalhar muito para chegar a algum lado e nunca chegaria aos calcanhares dele… nem da Kátia Aveiro [risos]. Se fosse um primo afastado já não era mau. Com 16 anos fui a treinos de captação no Sporting mas estava lesionado. Saí de lá com dores e triste. Não correu bem mas valeu a experiência de estar nos balneários do antigo Alvalade. Que loucura. Se calhar foi a última oportunidade, mas há males que vêm por bem.

Sporting, a coisa não está fácil, pois não?
Infelizmente já nos vamos habituando. Não sei dizer o que falta ao Sporting, se soubesse já tinha dado as dicas aos presidentes. Sei que há muita coisa suja, mas ouço sempre as pessoas dentro do futebol a dizer “se vocês soubessem”. Pá, se sabem, porque é que não põem tudo cá para fora? Toda a gente sabe que há podridão mas depois ou não se sabe ou não há consequências para ninguém. Adoro futebol e o Sporting, sofro com as derrotas e já estou a passar esta maldição aos meus filhos. É mais forte do que eu.

Rádio ou TV, qual é o favorito?
Gosto de fazer muita coisa: talk-shows, concursos, programas de talento. Não há assim nada em que te diga que já não estou muito confortável. Se calhar tenho vergonha de alguns sketches que fiz, pelas figuras e porque não tinham assim tanta piada, mas nada que dissesse hoje que não teria feito. Foram todos projetos de que me orgulho.

Pedro Fernandes: "Já recebi nudes e já me pediram. Não caio nessa"

Com tantos diretos, alguma vez se sentiu perdido?
A rádio ainda é um meio novo para mim – e não sei se já viste uma mesa de rádio mas aquilo tem botões que nunca mais acabam. Esqueces-te de um e corre mal. Na RFM há um concurso que é gravado uns minutos antes de ir para o ar e eu tenho que mudar os botões dos microfones. Ainda no outro dia quando voltámos ao ar esqueci-me de mudar. Ninguém nos ouvia. Foram só uns segundos mas em rádio chega para acharem que se passa algo. São daqueles momentos em que fico irritado comigo próprio, mas a rádio é uma trituradora. Há que estar preparado.

É o seu maior crítico?
Sim, sou muito e às vezes sofro com isso, mas faz parte da minha maneira de ser: é tentar sempre fazer melhor.

Na televisão, houve algum momento embaraçoso?
São anos de direto, acontecem coisas caricatas. Houve o Gary Dourdan, o ator do CSI. O agente disse que ele vinha ao Cinco Para a Meia Noite e ele não apareceu. O que me safou é que tinha a Fernanda Serrano como convidada, que fez um programa espetacular. Ainda deu para brincar com a cena. Tivemos também o Bernardino Soares, agora presidente de câmara em Loures, que deu um tralho em direto a jogar basquetebol comigo. Até levámos as mãos à cabeça. Houve peripécias mas agora recordas e ris-te. O direto tem essa magia: tudo pode acontecer.

Ainda se lembra da primeira vez que uma PLAYBOY lhe passou pelas mãos?
Não me lembro, mas era aquela revista mítica que estávamos à espera que um amigo tivesse guardada numa gaveta ou de ter idade para a comprar.

Tem aura de fruto proibido, não é?
É quase aquela passagem à idade adulta. Já podes tirar a carta, ir ao salão de jogos… e comprar a PLAYBOY. Encaixa- -se naquelas coisas a fazer com 18 anos mas que tentamos fazer antes.

Sabemos que é um homem casado. Também sabemos que tem muitas fãs. É um problema?
Não. A minha relação com a Rita é tão longa e assumida que há respeito nesse sentido, um “de certeza que ali não me safo”. Mas já recebi nudes nas redes sociais e recebi propostas para enviar nudes de volta, o que nunca aconteceu, estou tranquilo em relação a isso. Por vezes até choca um bocadinho ver miúdas que se expõem de forma tão fácil. Às vezes até me pergunto se não é um gajo que sacou imagens para se fazer passar por uma miúda e tentar apanhar figuras públicas. Mas não vou cair nessa, escusam de tentar.

E as velhinhas, também metem conversa?
Sim. Sou o bom menino e o netinho das senhoras que me apanham na rua. É engraçado ver isso, fiz programas tão diferentes que tenho pessoas a seguir o meu trabalho dos 8 aos 80.

Pedro Fernandes: "Já recebi nudes e já me pediram. Não caio nessa"

O namoro começou quando ainda eram adolescentes e continuam juntos. Como é que se consegue uma proeza dessas?
É um dia de cada vez. Conhecemo-nos no Algarve, numa festa da espuma. Ela devia ter os olhos a arder e não percebeu que era eu [risos]. Éramos adolescentes. Aquilo tinha a seriedade de qualquer amor de verão. Depois encontrámo-nos em Lisboa, uma coisa leva à outra e às tantas dás pelo tempo a passar e ela foi minha namorada a faculdade toda. Fomos muito tradicionais no casar e ir morar juntos. Depois tens um filho, dois, as coisas vão acontecendo e hoje é uma relação sólida.

Nem a fama foi um entrave?
Ao princípio ela não gostava. Nem no grupo de teatro na faculdade ela gostava. Tinha medo que eu tivesse de beijar alguém [risos]. Eu também não queria, que ia ser um bocadinho constrangedor. Mas basta abrir as revistas e vês os atores envolvidos uns com os outros. A Rita tinha esse medo mas foi-se habituando e aceitou que o meu caminho era aquele — não o de ator, mas da TV e rádio —, e acabou por ganhar confiança em mim e nela própria. Hoje já não se assusta com a minha fama.

Diga-nos uma figura que o inspira.
É cliché, eu sei, mas o Herman José. As primeiras coisas de humor de que gostei eram dele. Era quase religioso lá em casa vermos os programas, havia aqueles de fim de ano incríveis. Gravava em VHS e depois com amigos imitava. Já estive com ele e tem sempre mil histórias para contar, mesmo que sejam repetidas, ficas a ouvi-lo em silêncio. É um maravilhoso contador de histórias e continua a ser das pessoas com mais piada deste país.

A [entrevista à] Ana Bola foi desconcertante, mas no bom sentido. Deu-me uma lição em direto

Já enfrentou algum entrevistado complicado?
O Ivo Canelas, no Cinco Para a Meia Noite. Ele estava num dia mau. Na altura eu era muito verdinho e ele parecia que estava a fazer um frete. Começas a ficar nervoso e a suar. Foi um martírio. Encontrámo- nos depois, pediu desculpa e continuo fã dele. E a Ana Bola, que foi desconcertante, mas no bom sentido. Queria baralhar-me, naquela do “deixa cá ver como este miúdo se aguenta”. Hoje olho e foi uma oportunidade perdida. Podia ter brincado mais e entrado na onda dela mas não o fiz. Foi uma lição que me deu: ouvir mais o entrevistado e ir para onde a conversa nos levar.

Se um dia voltar aos talk-shows, quem gostava de entrevistar?
O Marcelo Rebelo de Sousa. No Cinco para A Meia Noite tivemos uma semana de campanha em que em cada dia entrevistávamos um líder partidário – e foi incrível. Eles sabiam ao que iam e eu sempre gostei de entrevistar a pessoa tirando-a da zona de conforto. Quando os políticos estão em campanha, como querem mostrar aquele lado divertido, prestam-se a tudo. Se a meio do programa desafiares: “agora vamos pôr a mão neste balde de enguias”, eles põem.

E agora, o que se segue?
Para já o concurso na TVI, que estreia em outubro e quero que seja um grande sucesso. Depois gostava de fazer teatro. É algo que ando a adiar há muito tempo por falta de tempo e algum receio. Se fosse de improviso se calhar já o tinha feito mas é com texto para decorar. E tenho um livro infantil para escrever, uma história que contei aos meus filhos à noite e que partilhei na entrevista à Fátima Lopes. Tive imensas reações na altura, de pessoas que me dizem que agora também contam a mesma história aos filhos e corre bem. Depois se calhar escrevo outra coisa, mas por agora é isso.

Essa entrevista… acabou a chorar, não foi?
Quem me conhece sabe que sou de lágrima fácil, mas não sabia que era tão chorão até ter sido entrevistado pela Fátima Lopes [risos]. Sabia que ia haver testemunhos de pessoas da minha vida mas não sabia quem. A família era expectável. Fizeram um trabalho de pesquisa imenso e surpreenderam- me. Encontraram pessoas que já não via há anos. Falaram com a minha professora primária, com o meu treinador de futebol, com um amigo do meu 5ºano que na altura me protegeu… A Fátima Lopes é uma profissional incrível. Até te esqueces que estão ali as câmaras. Os meus amigos sabem que sou de lágrima fácil mas eu não sabia que era tanto. Lágrima fácil e suor, que acabei com a camisa a pingar [risos].

Artigo publicado na edição de outubro de 2019 da PLAYBOY PORTUGAL. Pode comprar a edição impressa na loja online.