Playtalks

Pedro Abrunhosa: “Não se pode ser cantor naquilo que eu faço, tem que se ser outra coisa, com alma, sexo, corpo, tudo”

De sexo na voz e alma nas palavras, o camaleão mais icónico da música portuguesa recebeu-nos sem tabus.
Foto: Arlindo Camacho

Sempre disse que não queria que gostassem de si mas sim da sua música, e que não queria ser famoso. Em que momento é que percebeu que esta última parte ia mudar para sempre?
Achei que havia ali qualquer coisa que podia fazer a diferença. Lembro-me do meu irmão dizer: “se isto não funciona, não sei o que é que vai funcionar”. A dimensão que acabou por ter e depois toda a reprodução em cascata até hoje, obviamente, estava longe dos meus objectivos. Eu era músico puro e duro, da clássica e do jazz. De repente, estás perante 40 mil pessoas e a coisa começa a ganhar uma forma de “devo ter feito alguma coisa bem”.

E o que é que o levou a deixar a vida de músico de jazz?
Na década de 70, eu estava na área da música contemporânea e na música clássica. Depois passo para o jazz, depois para o funk. Fundei a escola de jazz e fiz uma orquestra, que depois veio a ser a Cool Jazz Orchestra – mais tarde Máquina do Som e mais tarde Bandemónio. Foi passando de 40 elementos a 20 e depois a 4 elementos. Foi um laboratório de experiências. E esta transmutação da música contemporânea para a música clássica, para o jazz, para o funk e depois, digamos, para o rock, foi deixando para trás sempre algumas pessoas que trabalhavam comigo, quase como uma cobra que muda de pele. E deixava sempre muita amargura, “vais-te dar mal”; os professores da Clássica diziam: “Jazz? O que é isso?!”. Era uma coisa muito mal vista. Cada vez que há uma mudança, há essa reacção.

Quando dá esse passo para Pedro Abrunhosa & Os Bandemónio, o que o fez acreditar que podia ser um frontman?
Eu nunca julguei que conseguia, essa insegurança faz parte. Com a Cool Jazz Orchestra, comecei a fazer temas meus; escrevia para sopros, por isso é que os Bandemónio tinham ainda muitos sopros, era uma reminiscência. Eu não era o gajo que cantava, aliás eu não canto, sou o gajo do microfone. Eu sou quem dá corpo àquilo e o espírito da cena. E ia experimentando ter vários cantores, o problema é que com a força da orquestra, eles vinham e cantavam [um tímido] “I am a man”; e esta cena tem que ver com the guts [as entranhas]. Não se pode ser cantor naquilo que eu faço, tem que se ser outra coisa. Tem que se pôr a alma, o sexo, o corpo, tudo lá ao mesmo tempo. Comecei a perceber que aquilo galvanizava as pessoas. Estamos a falar de muitos espectáculos num ano. Quando faço os Bandemónio, naturalmente sou eu que começo a cantar, e em português, e é realmente uma mudança radical.

“Não se pode ser cantor naquilo que eu faço, tem que se ser outra coisa. Tem que se pôr a alma, o sexo, o corpo, tudo lá ao mesmo tempo”

Além das aulas de canto que teve na tua formação, já ia brincando com a voz antes de se tornar efetivamente vocalista?
Não, a voz é outra coisa. Os meus primeiros concertos com os Bandemónio eram em bares, com uma multidão de seguidores. Ou seja, alguma coisa estava a acontecer. Esse culto puro e duro é que depois rebenta com o Viagens. Nós fazíamos queimas das fitas antes de termos disco, e era tudo a curtir e a dançar (1992/1993). E há uma dada altura em que faço canções em português e tenho uns letreiros enormes em cartolina, cheios de desenhos, com a parte da letra que eu quero que as pessoas cantem. Imagina “SOCORRO”, e depois pegava noutro “ESTOU A APAIXONAR-ME”. Era uma forma de projetar a voz e dar importância à palavra na canção.

Reforça “e os Bandemónio” e, tal como com os Comité Caviar, sempre assinou os discos com o nome da banda na capa. É algo que faz questão?
Apesar de grande parte ser um trabalho de escrita meu, aquele som é o som da banda que me acompanha. E o João Bessa como co-produtor. Não podes fazer este som sozinho, é um som colectivo.

E chegou mesmo a dar aulas de contrabaixo no Hot Clube. Porque é que não explorou mais esta vertente nos palcos?
Eu dei aulas aqui e simultaneamente também dava no Porto, já nos anos 80. Toco contrabaixo nos discos, à excepção deste último. Assumi uma vez só em palco, num concerto aqui no São Luiz, duas horas e meia de espectáculo em que estou eu e o piano e, no final para surpresa, pego no contrabaixo e toco e canto, que era uma coisa que fazia enquanto músico de jazz. Obviamente que é um desafio, tenho uma grande tentação de um dia voltar ao contrabaixo. Imagina, estão 40 mil pessoas a ver e um foco por cima [som de contrabaixo]… Isso remete para ter que encontrar a canção ideal.

Essa entrada no mainstream aos 33 anos foi também uma estratégia de não atingir o estatuto de estrela precocemente ou uma consequência do percurso?
Eu fiz esse percurso todo desde muito cedo e fui adquirindo conhecimento e know-how, porque música é música, só há dois estilos: o bom e o mau. O jazz e a clássica têm menos público, mas são uma grande escola. Eu não vejo a minha carreira a começar com o disco Viagens, não! Para mim é uma continuidade. Eu tocava contrabaixo e não era ouvido necessariamente, o gajo que se quer fazer ouvir ou toca guitarra eléctrica na frente do palco ou toca bateria. Ou então, é autor. E eu começo a escrever canções e, quando assumo os Bandemónio e o disco rebenta, tenho 33 anos. Foi uma consequência normal. Agora, à distância, com 33 já se é velho [risos]. As popstars emergem aos 17 e aos 25 começa-se a ser velho. Que fará aparecer uma popstar aos 33 anos? E o que fará manter aos 58?

Os videoclips transpiravam uma atmosfera muito quente. Essa atitude inovadora contribuiu para não denunciar a sua idade?
Acho que sim. Na altura, a música portuguesa era um bocadinho cinzenta, à excepção dos Heróis do Mar. Era tudo muito desleixado no palco, não no mau sentido, barba por fazer… e a cantarem a nostalgia e a saudade. Para além dos óculos e de uma certa postura (sempre dei muita importância à moda), eu trago para cima do palco certas palavras-chave: sexo, a primeira. A palavra «sexo» é introduzida na pop nacional, sem metáforas, sem andar a rodear. E palavras como «sida», «foder»; mas não é só o foder, é o que vem atrás disso: a ruptura de tabus e a própria concepção política e estética que está implícita. Esse novo conceito, apesar dos 33 anos e o meu público ter 15 e haver ali um gap, fazia e faz com que sejamos próximos; porque há uma postura de arrojo, mas sobretudo de genuinidade. Traz para cima do palco coisas do dia-a-dia. Já não era falar do amor, “vem cá e vamos olhar o céu”, não! Era the real thing. Apesar das músicas lentas que os meus discos sempre tiveram, como é o caso do Tudo O Que Eu Te Dou, enquanto eu conseguir, o espectáculo continuará a ser altamente físico.

E qual foi a inspiração para a sua imagem icónica?
Acho que não me inspirei em nada. Na música sim, fui aos grandes heróis de funk, sobretudo James Brown – com quem ainda chegámos a tocar – e Prince. Quanto à imagem, o Porto sempre foi o grande impulsionador da moda em Portugal, por causa da proximidade com a indústria têxtil. Cheguei a fazer desfiles enquanto pseudo-manequim. Fui sempre muito ligado à moda e aos estilistas, porque a maior parte deles era do Porto. A roupa era uma consequência lógica e depois tinha o bar na Indústria, embora não beba e não seja um gajo da noite, e surgia “o que é que achas que eu deva usar no clip?” [risos].

Os óculos também surgiram nessa altura?
Isso vem da primeira pergunta que me fizeste, o não querer ser famoso e criar uma distância. “Eu preciso de manter alguma sanidade mental, deixa-me pôr uns óculos escuros”.

E sendo tão camaleónico, nunca pensou que começar a atuar sem óculos seria uma forma de se reinventar?
Eu não preciso de chamar a atenção. É como a virgindade, só tens uma oportunidade. [risos]

Vinte e tal anos depois ainda ouve aquelas bocas do “não sabe cantar” ou o público já percebeu como a coisa funciona?
Sim, percebeu. No rock, saber cantar pode ser um estorvo. O intérprete não tem que ser um cantor, pelo contrário. Eu só conheço um, o Freddie Mercury. Todos os outros são assim-assim, mas é isso que lhes dá carisma. O Freddie Mercury canta muito bem, mas por isso é que há uma fronteira entre o fixe e o azeiteiro. Se calhar o mais radical é a Céline Dion, que canta tão bem que é impossível ouvir aquilo. Falta sexo na voz. Quanto menos hormonas e feromonas tu colocas na voz, mais desinteressante é; melhor cantas, mas pior cantas. No meu caso eu sou autor, escrevo as minhas músicas e canto-as como quiser. O próprio Springsteen na biografia dele diz: “Eu sou um cantor limitado, sei disso”. Mas fizeram dessas limitações a grande mais-valia, porque ninguém canta como eles. Ninguém canta como o Lou Reed e é por isso que eu sou eu. Claro que é porreiro que as pessoas digam “não sabe cantar”, porque os cantores estão nos concursos de televisão e nos hotéis a cantar.

O que é que o levou a cantar de forma “falada”, algo tão distintivo que só temos algo semelhante hoje no rap, e depois mudar de estilo?
O Viagens foi considerado pela imprensa um dos primeiros discos de hip-hop em Portugal. Depois, começou a haver gente muito interessante a fazê-lo. A mim, enquanto linguagem, foi como a música clássica e o jazz, deixou de me interessar. Comecei a aproximar-me mais da canção no sentido do Lua, em que anunciava que a minha cena é mesmo escrever canções de guitarra e multidão, e falar sobre a noite – que era uma coisa que também não existia desta maneira com mais garra. Embora o funk seja uma linguagem que eu adoro fazer no palco, mas a narrativa… este disco está cheio de histórias. O Leva-me Para Um Sítio Melhor é uma história em que a mulher é um personagem vital, é aquela mulher que domina, que faz a relação, que pega no gajo, estatela-o no chão e dá uma foda.

O mundo do entretenimento ficou virado ao contrário: as audiências mudaram de plataformas, mas os artistas ficaram com canais abertos para se promoverem. Qual é a sua opinião sobre o que a Internet trouxe aos criadores?
Os canais não fazem os conteúdos. Eu já há 8 anos que disse que a música se vai transferir para o YouTube. Mas se só puseres a imagem, não funciona. O que faz com que as pessoas queiram ver quer os Stones quer os Arcade Fire é a música. Não podes pensar na imagem enquanto forma. Para tu teres coisas para mostrar às pessoas, na indústria musical, vai ser sempre necessário conteúdos. Podes passar do disco de 78 rotações para o vinil, para o CD, para o Spotify, mas vais precisar de música. Eu posso ligar a MTV agora e vai estar a dar Sia e Beyoncé que, por muito respeito que tenha, é música para ver; se eu tirar o som até vai ficar mais interessante, porque vamos ver o rabo da Beyoncé sem sermos incomodados. Isto tudo para dizer que: podemos comunicar por todo o lado, mas será que devemos? Será que vale mesmo a pena mostrar o pequeno-almoço de hoje de manhã, a seguir as unhas, o cabeleireiro, a tatuagem nas costas? As pessoas vão ter que perceber que it’s a bit too much. E disto tudo, continua a emergir o verdadeiro conteúdo, a ligação às pessoas. A realidade das redes sociais é uma realidade escondida, em que aparentemente estás conectado, mas quando vais à feira do porco e da porca, ou tens conteúdo para mostrar às pessoas ou o que é que fazemos? Mostrar o Instagram? “Isto agora sou eu a tentar fazer música”. As nossas vendas são assustadoramente boas. A fonte de receita é a autoria, depois a edição e depois a performance. Continuas a ter a autoria e a performance. Mas, obviamente, que uma coisa é vender 3 mil e outra era vender 30 mil. O Viagens vendeu 240 mil, mas o Tempo ultrapassou. Hoje em dia, isso são coisas irreais. Mas, o grande encaixe financeiro dos músicos eram os espectáculos, porque o grosso dessas vendas ficava nas editoras. É por isso que não estou assim muito preocupado, agora sou eu o editor.

A própria pirataria perdeu a relevância que tinha.
Mas o Spotify, Tidal, YouTube, etc, continuam a pagar muito mal os direitos de autor. Há um movimento para mistificar que nós queremos acabar com isso e não é verdade, nós queremos é receber os nossos direitos. Não se compreende que o YouTube tenha um vídeo meu com 12 milhões e que eu não receba nada. Enquanto que tu para veres aquele vídeo tens que gramar 12 milhões de vezes com um anúncio qualquer – estão ali 2 milhões de gajos para ver o anúncio ou a minha música? O “vamos tributar as plataformas” é um discurso completamente legítimo que defendo até à medula. São as plataformas que mais uma vez estão a fazer papel de vampiros entre o autor e a remuneração. Estão aqui a pôr-se no meio e nós recebemos, literalmente, por cada clique, dez zeros e um dois.

Sente que a música portuguesa atual pode cair numa homogeneização, quando se compara o que foi penetrar no mercado dos anos 90 com a acessibilidade de hoje em dia?
A rapidez com que hoje as coisas são vorazes faz com que as pessoas queiram agradar. E corre-se o risco de não correr riscos. Imagina que são 50 famílias a viver num prédio e todos querem agradar ao porteiro; veste-se tudo de igual, todos sobem as escadas ao mesmo ritmo, para ter acesso à chave. Essa homogeneização é uma realidade. Aliás, eu substituía essa palavra por mesmização. Está tudo a ficar o mesmo com medo de errar. O risco e o arrojo são aquilo que aconteceu com o Viagens e com este disco. Assumir a diferença, ser o outro e nunca ser o mesmo. Ao homogeneizares tudo, é como se passasses uma máquina de cortar relva em cima da estética; fica tudo igual, um bocadinho monótono e faz com que as pessoas se cansem rápido. É por isso que eu digo que o jogo ainda se está a completar. Daí que discos como este, com palavras e com arrebatamentos de multidão, sejam cada vez mais importantes porque são discos que não querem agradar.

Nunca tinha estado cinco anos sem gravar. É uma fase?
Tem que ver com disponibilidade física, a última digressão demorou 4 anos. Foi infernal. Eu querer reunir os músicos durante 2 anos em estúdio era impossível. E ao não estar necessariamente obcecado com prazos e com agradar, tenho o meu próprio timing. O primeiro, o Viagens, demorou 33 anos. [risos]

Os títulos dos discos são sempre só uma palavra. Alguma mensagem subliminar?
Se 8 vezes eu repito a mesma cena, não deve ser fruto do acaso. [risos] As letras são tão densas, que acho que consigo sintetizar a essência do disco numa palavra. Os Queen era ao contrário, mas funcionava muito bem; como A Night at the Opera, eram nomes muito compridos, mas que se conseguia identificar.

Numa era de politicamente correcto, chegou a sentir-se retraído a ser tão ácido na construção das músicas?
Não. Tens aí uma música neste disco que É O Diabo.. Qualquer ruptura ao homogéneo é uma atitude política, o ser destemido. A PLAYBOY é uma coisa não convencional, que quebra tabus e gera uma série de polémicas, mas que acima de tudo, é um profundo acto político. Este disco tem a questão do Amor em Tempo de Muros, a que fala dos diabos de veludo que são donos disto tudo… A grande questão é como esculpir as ideias de forma poética. É o que me apetece, há-de estar lá sempre ironia, ou auto-ironia.

O novo single foi a forma que encontrou para se voltar a algemar a uma causa?
Essa situação de Coliseu foi uma coisa muito pontual. Nós estamos algemados à vida. Viver uma vida artística, não comprometida com o teu próprio tempo, é estar a passar ao lado daquilo que é arte. A arte é um espelho do seu tempo. Se tu não conseguires posicionar o objecto artístico em função do periférico histórico, a obra de arte não está a cumprir o seu papel. Eu estou algemado a mim mesmo e à necessidade de extravasar isso. A arte cumpre um mero papel de válvula social. A arte impede muitas vezes que as pessoas individualmente desesperem e, colectivamente, é muito apaziguadora. Ao colocar esses assuntos na esfera poética, não faz esquecer.

E enquanto músico sente que podes ser um veículo para isso mesmo.
Não quero ser, mas não me posso esquecer. Não conseguia viver bem comigo a falar de “amorzinho”, se não falasse daquilo que é amor puro.

O que é que acontece às mais de trinta canções que se compõem e apenas quinze integram um disco?
Geralmente ficam num casulo, como quem vai a Marte e deixou lá ficar uma cápsula. Dificilmente as vou buscar, já tiveram a sua oportunidade e não vingaram.

Pode dar-se o caso de a culpa não ser da canção, mas de um conceito.
Pode. Mas o processo é tão custoso. Aliás, isso de partir para outras faz com que não me lembre das músicas. Se eu inconscientemente esqueço aquelas para dar espaço a novas músicas, não vou buscar as antigas que nem sequer entraram no disco. Um dia, por curiosidade.

Volta a fazer uma variação do seu gesto mítico com as mãos na capa do álbum. Porquê?
Ai é? Um gajo tem que ter as mãos em qualquer lado. [risos] Todos temos tiques e esse se calhar é um deles. Oh pá, se eu me tivesse lembrado disso, tinha-me reprimido.

Foram dois anos de intensas, e quase diárias, gravações com os Comité Caviar. Hoje não se via a criar sem o seu estúdio à disposição?
É uma extensão da casa. É no sentido quase do Ulisses que regressa a Ítaca, onde está tudo à sua espera em ordem. Lá dentro, sei que vou respirar silêncio, conforto e alguma atmosfera, e isso é muito importante para quando estás ao piano e reparas que estás há 12 horas a escrever uma música – o tempo cronológico é diferente do tempo psicológico.
O estúdio foi das coisas mais importantes para esta desenvoltura com que eu tenho escrito.

Se diz que o disco ganhou essência, depois corpo e, por fim, identidade, como é que inicialmente passa o que pretende ao João Bessa, que também assina a produção?
Eu vou começando a encaminhar o disco num sentido. Quando juntas 9 músicos num estúdio e lhes apresentas uma canção ao piano, eles ouvem-na e interpretam-na de modo meramente analítico. À 57ª vez já soa bem, à 102ª soa excelente e à 124ª é a que está gravada no disco. Há vários níveis, é como construir um prédio.

Quando faz a triagem, tenta que exista um equilíbrio entre os hits que sabe que vão resultar e as outras que, mesmo não batendo tanto, são importantes no álbum como forma de arte?
Sim. Há músicas que ficaram para trás que se eu as tivesse trabalhado, seriam êxitos imediatos. Mas, prefiro a densidade do que o imediatismo; aqui tem algumas canções imediatas, como o Vem Ter Comigo Aos Aliados ou o Dor sem Álibi com a Ana Moura. Mas, quando estou a compor, tenho várias preocupações: a artística e, depois, as consequências disto ao vivo; porque sou eu e os músicos, a segunda pessoa é o público e a terceira é o resto (editora, por aí fora) – numa relação muito próxima.

A par da Ana Moura e da Elisa Rodrigues, o que é que idealizou quando decidiu colaborar com três mulheres a cantarem nas línguas maternas?
É um desafio. Eu gosto do impossível. Gosto mesmo do difícil. A Lucinda Williams é uma grande heroína do folk e uma referência na música americana, o Dylan fala dela… De repente, eu mando a música e compete-lhes a eles julgar se querem entrar no jogo ou não, podes obter uma não-resposta. Passado umas semanas, a Lucinda manda-me a música cantada por ela: é um momento epifânico; assim como o Ney Matogrosso.

Esse encaixar do português e do inglês nos refrões…
É muito complicado por causa da fonética. A expressão “hold me” que a Lucinda Williams canta, eu não a queria traduzir. “Agarra-me” ou “abraça-me” não tem essa magia. Como há esse conflito fonético e até de sentido, porque “hold me” é uma coisa gutural e quente, optei por deixá-la cantar os refrões sozinha. E depois há o contraponto, que se aprende na ópera, em que o outro está a cantar uma coisa completamente diferente; é uma das grandes virtudes da música.

Já as conhecia pessoalmente ou são os agentes que tratam das negociações?
Só conhecia a Carla Bruni, que desfilou comigo no primeiro Portugal Fashion. Há várias estratificações, entre artistas é sempre um diálogo superior onde não há dificuldades. As dificuldades estão num espaço intermédio de logística e os agentes são para isso. O artista é que decide e aí vem uma decisão em cadeia inerente à resposta.

Nunca está menos do que 2h45 em palco porque custa cortar o alinhamento para arranjar espaço para as novas?
É! [risos] É mesmo isso. Custa arranjar espaço para as novas, mas porquê? Porque nas velhas, são tantos os êxitos e tantas gerações ali à frente que se eu tiro o Não Posso Mais, há 20 mil que vão assobiar. Quando se tem discos com várias músicas que são êxitos ao longo dos anos, crias um reportório vastíssimo. As pessoas vão lá para ouvir, fazem 100 quilómetros dos sítios mais incríveis, não as podes defraudar. E eu gosto mesmo de estar no palco. É o sítio onde o reencontro com as músicas acontece, com a minha escrita e com o público. Porque aquele reencontro é feito com as pessoas a cantar, é um sítio de revelação. E além disso, ao vivo posso fazer de uma maneira muito diferente, e isso dá-me tusa. Eu só suporto fazer aquelas músicas porque as revisito, senão eram 25 anos a fazer a mesma canção.

Depois do Capitólio, a grande apresentação ao vivo foi marcada para a Passagem de Ano, nos Aliados.
Prova de fogo. No Capitólio é uma festa, nos Aliados é uma festa mas com 200 mil. Há mais responsabilidade num disco novo, temos de ter muita parcimónia a apresentar. Não fazemos o disco todo, um gajo tem que ter cautela e bom senso.

E o Porto como é que está a lidar com o fenómeno do turismo?
O turismo é uma das grandes indústrias do mundo e uma realidade que resgatou o país de um destino trágico. Mas é preciso tomar medidas para que as cidades não fiquem todas iguais: acho que isto compete aos cidadãos que têm casas e que desatam a alugar apartamentos e expulsam os inquilinos; no outro dia, soube dos despejos dos alfarrabistas, que eu acho que é uma asneira crassa a longo prazo porque tudo se desarticula da cidade. Mas também é uma questão de acção política, e tendo-se tornado este um debate público através de muitos meios, as autarquias estão a atacar bem o problema. Prefiro assim do que como estava antes: o Porto estava literalmente abandonado e a cair.

Já quase no final da segunda década do século XXI, os portuenses ainda sentem que é Lisboa e o resto é paisagem?
Não só os portuenses. Eu estou no meu 8º disco e para dar as entrevistas tive que vir a Lisboa. E isto é um grão de areia na vida de um indivíduo que vive fora. Até há bem pouco tempo, para tirares o passaporte tinhas que vir a Lisboa, ou até o bilhete de identidade. Nós que passamos por isso, gerações e gerações, sabemos, e o país inteiro sabe. Um gajo vinha de Ponta Delgada tirar o passaporte a Lisboa, uma coisa de loucos. É como comeres bolachas Maria durante 40 anos. O centralismo é uma coisa absolutamente doentia e era forçoso que isto mudasse; é uma coisa dos países muito pobres, dos africanos. O Tonga é que põe a elite toda na capital, com frango e marisco, e o povo fica esquecido.

Já que falamos na sua cidade, na Rádio Clube do Porto produziu o programa “Até Jazz”. Sente-se parcialmente responsável pela perpetuação dessa expressão?
Epá, eu tenho que eliminar essas merdas do meu currículo, porra. [risos] Isso ainda lá está?! Na altura, não se dizia “Até Jazz” e lá fiz esse programa na década de 70. Era uma rádio pirata, eu levava os meus disquinhos. Na mitologia urbana do Porto, A Rádio Caos era a grande rádio pirata portuguesa. Essa expressão não fui eu que inventei, recuso-me a ser responsável por isso. [risos]

E protagonizou um filme do Manoel de Oliveira, “A Carta”, que posteriormente realizou o videoclip de Momento.
Esse sim é um momento giro da minha vida. Eu não dou importância nenhuma a prémios. Não tenho nada, nem discos nas paredes. Mas, tenho uma fotografia minha nas escadarias de Cannes, porque esse filme ganhou o grande prémio do júri; subi com a Chiara Mastroianni, com quem tinha uma relação muito conflituosa – estava apaixonada por mim no filme, mas embirrávamos um com o outro [berros] –, e o Manoel dizia “Acção!” e ela “oh je t’aime…” [risos]; e há um momento fantástico, em que para essa sessão vai um dos meus heróis, o Aznavour, portanto essa fotografia eu gostava de recuperar (não havia Instragram na altura). Depois pedi ao Manoel para realizar aquilo que ele chamava a curta-metragem do Momento.

Gostava de fazer mais na sétima arte ou só aquele momento fez sentido?
Eu sou músico. O cinema é uma área muito complicada que não domino, não tenho nenhuma apetência por isso. Gostava de fazer bandas sonoras. Por acaso quando era miúdo tinha jeito para representar, mas nesse filme… que papel de paspalho total. Eu dizia isso nas entrevistas e o Manoel ficava furioso porque achava que estava a denegrir o filme [risos].

E voltando ao início, ao distanciamento dos holofotes. Nunca foi um desafio nesta indústria?
Isso para mim nunca foi dilema, estou a marimbar-me. Quando se usa a vida pessoal para promover a profissional, é porque a profissional está muito má. [risos] A minha vida é a mais banal possível. Aliás, é o que faz com que eu continue a fazer canções. Quando o gajo se fecha numa redoma e entra numa de star, afasta-se da realidade e depois não tem assunto sobre o que escrever. As canções são o fruto da vivência. Consigo proteger a minha vida porque o faço muito bem feito, mas não dá trabalho. As férias são num sítio recatado, não se vai a determinado restaurante, não se frequenta determinadas horas. As redes sociais são só para a minha vida pública e a privada é exclusivamente privada. São universos que não se tocam.

Chegam as pistas que vai dando nas letras ou equaciona contar a sua vida em livro?
Há muitas pessoas interessadas em fazê-lo, não sei se estou pronto. Mas, se isso um dia acontecer, vou ser eu a escrevê-lo.

Ainda tem muito por fazer?
O grande desígnio da humanidade é o caminho que tem para fazer, não é o que está feito. E mal acabei este disco, e em todos foi assim, sei o que está errado. Ao saber isso e ao não conseguir corrigi-lo, eu tenho que pensar no outro e no próximo. Não sei onde é que vou chegar, mas sei por onde é que estou a ir. São coisas diferentes.

E é isso que o move?
São coisas interiores, coisas estéticas. Apetecia-me ter feito uma ou duas canções só com piano. Por exemplo, no outro dia fiz um concerto com a Orquestra Sinfónica do Porto, 150 músicas, foi brutal. Estou permanentemente a projectar-me no sítio do impossível.
Ao chegares lá, tu fazes o possível.

Estando sempre na vanguarda, acha que continuarás a conseguir impactar um público cada vez mais exigente?
O público não está a ficar mais exigente, está a ficar habituado. É a tal relvinha aparada. Estamos todos a ficar um bocadinho como o filme Metropolis, do Fritz Lang (1927), considerado o primeiro filme de ficção científica temático, profundo: é uma cidade distópica, uma espécie de pré-George Orwell, quase 20 anos antes do Triunfo dos Porcos. O público está-se a habituar à tal mesmização. É por isso que é fundamental continuar a fazer música exigente. Vou dar-te uma metáfora: podes dar ração às pessoas toda a vida? Podes, mas quando dás um bife elas reconhecem.