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PAUS: “Cantamos muito pior do que tocamos”

A banda que é muito mais do que uma bateria siamesa não nos deu um blusão de ganza, trouxemos apenas esta bela entrevista.
Foto: Tomás Brice

No mês em que sobem pela quinta vez ao palco do NOS Alive, desta vez com Madeira na bagagem, fomos visitar os campeões do Red Bull Music Culture Clash ao seu HAUS: uma ilha em Lisboa com um cocktail cultural à discrição.

1. Lideraram o top nacional de venda de álbuns com Madeira. Acham que esta simbiose entre o exótico e o experimental acaba por ser algo mais orelhudo?
Hélio: Nem sei. Se calhar houve muitas bandas a vender poucos discos nessa semana. [risos] Mas acho que ficámos à frente dos Thirty Seconds to Mars.
Makoto: Não sei se é a palavra “orelhudo” que mais se encaixa aqui, mas é menos instrumental em termos de estrutura.
Hélio: Acho é que as vozes estão mais próximas das pessoas. E, por exemplo, até sinto que o Mitra era mais verso-refrão.
Makoto: Não era tão especial.
Hélio: Não sei se este foi influenciado pela Madeira, até porque quando começámos a fazer o disco, não tínhamos a certeza que íamos para lá. Mas, se calhar, deixámo-nos levar pela ideia da ilha.

2. Não estavam lá no momento da composição, mas souberam que iam estar numa residência no Funchal quando iam compor o arranjo final. Deu um twist significativo ao disco ou foi apenas um complemento?
Makoto: O twist foi fulcral na parte visual e conceptual. O nome das músicas e o conceito foi todo feito lá.
Hélio: Mas mesmo as letras também. Já lá tínhamos tido algumas experiências, portanto, também nos deixámos influenciar pelo que conhecíamos e imaginávamos. É sempre uma visão enviesada a que tu tens, o que as pessoas te mostram não é necessariamente a visão que tu terás quando lá fores.

3. Este flirt com a Madeira resultou num vídeo-disco e num documentário. Já era um formato que tinham pensado para álbuns anteriores ou aqui foi porque houve o chamamento da poncha?
Makoto: Sim, a poncha falou mais alto. [risos] Se já tínhamos pensado? Sim, naquele cenário hipotético que era fixe.
Hélio: Nunca há budget para isso. Ou é a banda que investe, ou sai do marketing que a editora aloca ao disco e não é suficiente. Com muito boa vontade fazes três vídeos no máximo, se tiveres alguns amigos que percebam da coisa e te façam uma borla.
Makoto: Depois sentes-te mal porque estás a pedir uma borla.
Hélio: Neste caso, havia este convite para fazer a residência – que, inicialmente, era só para aprendermos a tocar as músicas e fazermos o primeiro concerto da tour na Madeira. Mas depois adiámos o disco para 2018 e tivemos que encontrar aqui outro contexto. Falámos com o pessoal do Festival Aleste e prepusemos-lhe esta ideia, sem sequer pensarmos que seria viável. Isto implicava viagens dos PAUS e dos técnicos, o transporte do nosso material, viagens e cachet da equipa de filmagens… É uma operação complicada a nível logístico e monetário. O festival conseguiu encontrar os parceiros indicados dentro da Madeira e a coisa fez-se.

4. Explique melhor essa parte de terem que aprender a tocar as músicas.
Makoto: Basicamente, nós não sabemos tocar as músicas. Aprendemos quando temos que nos apresentar ao vivo. Vamos compondo e gravando directamente aqui no estúdio. Editamos, cortamos, montamos. Aprendi a tocar algumas músicas seis meses depois. Já havia gravações e vídeos feitos, e eu não sabia tocar a malha.
Hélio Nós fazemos quase como música eletrónica. Gravamo-la toda orgânica, mas construímos de uma forma muito digital. Às vezes, parece que estamos a fazer um puzzle no computador.
Makoto: Isso dá bué cunho à assinatura de PAUS porque é tudo muito editado. Com os grooves e a forma como passam, dá uma característica mesmo sem nos apercebermos.
Hélio: A primeira vez que o fizemos foi um acaso.
Makoto: Não tínhamos muito tempo, entrámos em estúdio e vimos resultados. Eu já experimentei fazer isto com outras pessoas e não consegui. Eu curto deste processo, é muito mais imediato e faz com que não haja grandes triagens. O que nasce é PAUS.
Hélio: Acho que resulta connosco por três factores: somos práticos, somos todos muito confiantes naquilo que fazemos e, por outro lado, nenhum tem um ego desmesurado. Quando um está a compor, todos estão a opinar. Se tu tens insegurança ou um grande ego, fica difícil de aceitar. E temos um equilíbrio fixe nesse sentido. Acho que estamos todos muito confortáveis individualmente, o que faz com que estejamos bem em grupo.

5. Sendo amigos, isso faz com que em digressão se chateiem mais ou menos que outra banda qualquer?
Hélio: Normalmente, na estrada até é onde nós nos damos melhor. Onde ferve tudo um pouco mais é nas vozes. Instrumentalmente, eu sei que se treinar um bocadinho mais consigo fazer melhor. Mas o meu timbre é o meu timbre.
Makoto: Cantamos muito pior do que tocamos. É muito mais simples dizer “não curto desse baixo” e passado dois minutos sai outra coisa qualquer. Com a voz, temos muito menos ferramentas. Mas este disco correu bueda bem.
Hélio: Se calhar é por isso que está tão bem-disposto.

6. Disseram que o som do Madeira acaba por ser um cruzamento entre África, Europa e América do Sul. Mas essa topologia e a ideia de marginalidade de uma ilha poderá simbolizar também um triângulo amoroso entre os PAUS, Lisboa e os subúrbios?
Hélio: Acho que sim. Todos nós crescemos na periferia. A linha de Sintra tem muitos retornados, refugiados, uma multiculturalidade muito fixe. E quando éramos putos do hardcore ouvíamos bandas de Washington, mas também levávamos com kizombas e hip-hop. E chega uma altura que acabas mesmo, inconscientemente, por as incorporar. Os meus pais são angolanos, mas mesmo que não tivesse essa ascendência, teria tido acesso a estas coisas todas. Sendo do subúrbio de Lisboa, há esta diversidade toda que é muito boa.

7. A ideia de viajarem sempre em casa traduz-se aqui mesmo no vosso HAUS. Com três anos de idade, já sabem o que ele é? A tal missão de aliar rendimento e expressão comunitária cumpriu-se?
Hélio: Vai-se cumprindo. Enquanto eu estou no escritório a trabalhar o booking, o Makoto e o Fábio estão no estúdio de gravação.
Makoto: O Fábio está mais na bricolage. [risos]
Hélio: E, de repente, tens aqui os Dead Combo a ensaiar, tens os Maus Lençóis que são road managers de uma série de bandas, portanto é frequente os artistas deles virem cá; e cria-se aqui uma comunidade, mesmo que não seja uma cena definida.
Makoto: Vamos fazendo isto como a nossa profissão, pagamos as contas assim. E vai dando para ir buscar um puto que toca bateria, se o gajo também está a precisar de guita, baza lá; precisamos de um roadie, chamamos. No outro dia estavam aqui cerca de 40 pessoas.
Hélio: Eu nessas alturas fujo.
Makoto: Estava o AGIR, o Charlie Brown e people a entrar para entrevistas. Mas é muito fixe sentires a comoção e a vida aqui. O objectivo agora é furarmos este lado todo até Marvila e furarmos aquele até ao Cais do Sodré. [risos]

8. Este último disco ainda enfatiza mais o vosso som multicultural, sem rótulos estilísticos. É um reflexo também da homogeneização crescente da capital?
Hélio: É capaz. Porque não ouves só reggae roots ou hip-hop roots. Como já há essa mistura toda, também acabas por fazer uma cena ainda mais fora. Acho que já existe um som que podes associar a Lisboa e que não é fado, nem é rock, nem é hip-hop.
Makoto: É PAUS.
Hélio: Nesse caso, a melhor definição para PAUS é PAUS. Acho que já somos um pouco disso tudo.
Makoto: São influências, isto não é uma banda de Funaná.

9. Têm projectos paralelos e em comum, que têm de gerir neste mesmo espaço. Nunca houve o risco de se perder uma identidade mais vincada?
Makoto: Eu acho que PAUS tem muito de Linda Martini, tem bué de Riding Pânico, tem de tudo. Vais fazendo a tua identidade como músico pelas experiências que vais tendo e todos os projectos influenciam, naturalmente. Quer dizer que, individualmente, crescemos e amadurecemos a nossa identidade de uma forma honesta.

10. Ao serem a banda da bateria siamesa não temeram que isso se tornasse o foco da atenção sobre vocês e ofuscasse a própria música?
Hélio: Já há dois discos, pelo menos, que o foco não é esse. Pensamos muito mais na música, do que nas baterias. Nós já nem comunicamos isso, não acho que seja uma vantagem hoje em dia. Lá fora, o pessoal ainda fica um bocado “que bicho estranho!” e ficam interessados por isso mesmo; depois ouvem a música e relacionam-se, ou não, e continuam a acompanhar a banda, ou não. Cá, não é surpresa para ninguém; não é que sejamos uma banda mainstream, mas quem se interessa por música mais alternativa, já conhece.

11. E hoje sabem quem é que vos ouve?
Hélio: Há hipsters que ainda nos ouvem, porque não querem só a cena mais cool e mais recente. Nós começámos num nicho, tocámos no Milhões de Festa e Paredes de Coura, e já havia o público do chamado “indie alternativo” que nos seguia. Entretanto, já há tantas propostas diferentes, que é normal que deixe de ser a cena mais em voga. O que sentimos é que conseguimos consolidar uma franja de público bastante fixe, que nos permite fazer uma tour de teatros e ter sempre um número regular em cada cidade.
Makoto: Havia pessoal que curtia das nossas cenas e foram largando um pouco pela forma que começámos a fazer música, e que agora voltaram. O Clarão era um disco que eu também não conseguia perceber muito bem, em termos sónicos e de assinatura.
Hélio: Isso foi o primeiro disco numa multinacional, foi o nosso primeiro no Primavera Sound, portanto era a oportunidade que tínhamos de fazer algo mais transversal e bater em todo o lado. E como nós não programamos as coisas, os discos saem como saem.
Makoto: O Mitra foi fora do que é.
Hélio: Até tenho uma relação fixe com o disco, gosto mais deste, mas tenho uma relação fixe com o Mitra. O Clarão é mais duro. O Fábio estava a começar a explorar guitarra.
Makoto: Acho que há pessoas que estão a fazer as pazes com PAUS.

12. Mesmo numa ilha, os nomes estranhos das músicas mantiveram-se, como Blusão de Ganza ou L123. Nascem nos ensaios e esses working titles acabam por ficar?
Makoto: Esses nomes foram escolhidos lá na Madeira.
Hélio: Na nossa cabeça, a Madeira é o subúrbio mais distante de Lisboa e o L123 era o passe social que nos permitia chegar ao centro e voltar para casa. O L123 era incrível. Lembro-me de uma vez estar em Alfama, nuns Santos Populares, e um mitra mesmo mitra dizer “Aquele tem a mania que é um L123, tem a mania que entra em todo lado”. [risos] E desde aí que me ficou esse nome. Mas quem se lembrou para a música foi o Quim.
Makoto: Para mim chamavam-se 1, 2, 3, 4 até agora. Foi muito difícil para mim encaixar os nomes. O Blusão de Ganza é 04 para mim.
Hélio: A Sebo na Estrada tem que ver com aquelas cestas na Madeira onde levam pessoas. Aquilo é perigosíssimo. Antigamente, punham sebo para deslizar ainda mais. Claro que quando os carros depois andavam lá, dava merda. E proibiram o sebo na estrada.
Makoto: 970 Espadas é uma água ardente bueda boa.
Hélio: Que se chama 970. Espadas é porque aquilo queima. A Olhar de Rojo é um ditado mal interpretado. É “olhado rojo”. Estávamos a jantar e quando nos disseram isso eu percebi “olhar de rojo”.
Hélio: E foi assim, depois de termos gravado um vídeo qualquer.
Makoto: E de ter bebido umas ponchas.
Hélio: Pah, às 6h da manhã estávamos a gravar um vídeo e traziam-nos poncha. Nós já nem queríamos.
Makoto: Faziam ali na hora. O gajo espremia as laranjas, lá o Fábio. Havia 50 mil Fábios naquela ilha.
Hélio: Devia ser por causa do Fábio Júnior, eles ouviam muito.
Makoto: Os homens de uma certa geração foram corridos a Fábios.
Hélio: É tipo as Anas dos anos 80.
Makoto: Na nossa crew de 10 pessoas havia para aí 4 Fábios.
Hélio: Até nós tínhamos o nosso próprio Fábio.

13. Vai ficando cada vez mais fácil encontrar uma voz colectiva, uma vez que já conhecem as nuances de cada um?
Makoto: Sim. Este disco foi bueda fácil, sem querer ser pretensioso. Foi simples.
Hélio: Quando se diz “fácil”, quer-se dizer que foi unânime. O nosso som é tão estranho, que se tu metes a voz errada pode arruinar completamente. Às vezes, metes uma coisa que fica demasiado azeiteiro; não consegues pôr uma voz tipo cantautor, não cola. Também não podes pôr uma coisa também a fazer só “ohohoho”, porque já fizemos isso muitas vezes.
Makoto: Sim, já chega. Fazemos isso melhor no instrumento.
Hélio: Então, tentámos encontrar assim uma zona mais rítmica com as vozes que tenha alguma melodia, mas que também não seja demasiado para conseguir ser consensual.
Makoto: O disco foi composto e gravado em 10 dias, o instrumental. As vozes foram cerca de 4 ou 5 dias.
Hélio: O Quim escreveu quatro letras e eu escrevi duas. Mas isso cada um escreve em casa e depois ajustamos todos.

14. E em termos de royalties, hoje as coisas estão muito melhores?
Hélio: Streaming é uma grande merda, não ganhas nada. Tens que ter milhões de views. Por exemplo, no Youtube tens que ter milhões de plays e nós não pagamos plays, por isso não temos retorno daí.
Makoto: Temo retorno dos concertos.
Hélio: Claro que há vendas de discos, mas os direitos de autor advêm essencialmente de concertos. Quantos mais concertos, mais recebes.
Makoto: A cena com PAUS não é por aí. Os putos que estão no intervalo e vão ouvir o AGIR ou whatever, aí bate muito porque é uma escola inteira a ouvir a música Parte-me o Pescoço todos os intervalos. Aquilo que usávamos no walkman, eles usam no smartphone. Isso conta tudo como streaming.
Hélio: O Youtube paga muito pior que o Spotify, e ainda assim consegue-se fazer mais dinheiro neste.

15. Levaram o prémio do Red Bull Music Culture Clash para casa, numa decisão oficialmente anunciada à posteriori como empate técnico. Acham que a competição deve passar a incluir videoárbitro?
Makoto: Fomos a única crew que ganhou 2 rounds. Como é que podíamos empatar com alguém que não ganhou nenhum? Pá, desculpem lá. Não sei o que é que eles andaram a fazer nos bastidores, se falaram com os managers de alguém, mas não faz sentido.
Hélio: O que sei é que a Red Bull nos ofereceu uma coisa que diz ali vencedor.
Makoto: Eu fui para o Rive Rouge curtir, que era a after party da cena, e estava “sou campeão!”. Até que me disseram que “afinal não”.
Hélio: Se tu vires fotos desse dia, só nos vês a rir. Estávamo-nos a cagar para ganhar aquilo. Aquilo foi do tipo “bueda fixe, temos aqui uma oportunidade de convidar uma série de artistas que curtimos”. Convidámos o Holly Hood, o Mike El Nite, o Glue, o Silk, o Scúru Fitchádu, o Janelo… Curtimos muito nos ensaios a compor todos, divertimo-nos no dia e ainda por cima deram-nos aquele prémio.
Makoto: Obviamente que vais para uma competição sempre naquela vibe do “vamos ganhar”. Mas se não ganhássemos, era igual.
Hélio: Eu até ia a pensar que quem ia ganhar seria o Richie, porque é quem tem mais público. Ele tinha feito a Altice Arena há pouco tempo. Aquilo media-se pelos decibéis, portanto se tu tens mais público, em teoria, tens mais pessoas a gritar quando é a tua votação.
Makoto: Nós levámos o Janelo, ele levou um dubplate do Janelo. [risos] Nós levámos o real deal e o gajo meteu uma cassete.

16. E a colaboração com o Holly Hood não ficou por aí e vão partilhar um palco com ele no NOS Alive. Já sabem o que é que vai acontecer?
Makoto: Não.
Hélio: Já. [risos] A estrutura já está montada, já sabemos como é que vão ser as transições, não escolhemos foi as músicas que vamos tocar uns dos outros. Vamos cruzar músicas.
Makoto: A nossa cena com o Mike El Nite também não ficou por ali. Fizemos uma música com ele para a banda-sonora do filme Linhas de Sangue.
Hélio: Do Holly Hood éramos só fãs. Quando saiu a primeira parte da trilogia que ele está a lançar, acho que foi o disco que mais ouvimos na carrinha em tour.
Makoto: O Silk conhecia há bueda anos aí da street.
Hélio: E no Ritz, as primeiras bandas que tivemos de hardcore, o Glue também tinha, antes dos Da Weasel. O Glue fazia graffiti e eu também, então já o conhecia há muitos anos, para aí desde 1997.

17. Já chegaram mesmo a pensar em desacelerar um disco para receber rap por cima. Não há receios, portanto, de desvirtuar demasiado o vosso som?
Hélio: Nunca curti pessoas muito rígidas, é muito chato. Depois ficas agarrado a quê? A uma ideia? A cena mais fixe é não teres grandes limites, tens limites do bom gosto e da enormidade da banda.
Makoto: Já nos aconteceu fazer isso, importámos mal os ficheiros no projecto. Depois fizemos play e uau. Era uma malha extrema sonicamente e rápida, e depois ficou bue pesadão.
Hélio: Acho que começou aí a cena de nos misturarmos com o hip-hop.
Makoto: Fizemos play e foi do tipo “fogo, isto está mesmo bom”.
Hélio: Estava bué desacelerado. Em vez de estar com o BPM de 140 como costuma estar, estava para aí com 90/100.
Makoto: E com uns glitches bué bizarros, porque foi um erro.
Hélio: Nunca iríamos era conseguir tocar aquilo ao vivo. [risos]
Makoto: Não faz mal. Há bueda malhas que não tocamos ao vivo. Há uma deste disco que nenhum de nós sabe tocar, o Olhar de Rojo.
Hélio: Nem aprendi, nem vou aprender. Essa música tinha um estilo bueda estranho. E o Fábio foi para casa e andou a tirar daqui e a meter ali, inventou os beats que nós não fizemos, misturou partes minhas com partes do Quim e nem faço ideia como é que poderia tocar aquilo. Poderia reinterpretar, mas nunca tocaria aquela música.

18. 2010, 12, 14, 16 e agora 2018 no Alive. Podemos contar convosco lá sempre nos anos pares?
Hélio: Normalmente é ano de disco. O Alive tem sido um festival bastante fixe connosco.
Makoto: Tocámos todos os discos e em todos os palcos.
Hélio: Em 2010, tocámos no palco Clubbing, onde vamos tocar este ano outra vez; na vez seguinte, tocámos no principal; e depois nas outras duas, pedimos para ser no Heineken, que agora é o Sagres. É grande, mas é mais cosy. E o Clubbing ainda é mais. Pá no principal, ganhamos mais dinheiro de direitos de autor, é a única coisa fixe.
Makoto Nós aí tivemos sorte porque foi o dia de Radiohead, estavam muitas pessoas já na grade e o concerto foi muito bom. Mas já houve concertos em que és a banda que abre o palco e não está lá quase ninguém. Eu prefiro tocar 3 horas mais tarde no da Heineken.
Hélio: E esse público é mais a nossa cara. Nesse ano que tocámos no principal, correu muito bem, mas também porque tinhas Caribou e umas cenas mais experimentais.
Makoto: O principal ou está cheio tipo Metallica ou é demais. Mas, não me queixo, obviamente.

19. Entre Texas, Londres, Barcelona, etc, qual é o palco internacional que mais vos atrai?
Hélio: Epá, vamos ter de dizer Barcelona, Primavera Sound. Atenção, o do Porto é mais bonito. Mas o de Barcelona tem uma história engraçada: o Makoto e o Shela (quando ainda estava na banda), já tinham ido lá há alguns anos, e em 2011, o Makoto disse “eu não volto lá se não for para ir tocar”. E no ano a seguir, fomos lá tocar! Foda-se… foi mesmo alta cena. Pá e nem tínhamos agência. Linda Martini é que foram contratados mesmo de início.
Makoto: E nós os mitras… [risos]
Hélio: Eu não sei se a história é mesmo esta, mas o EL-P, de Run The Jewels, cancelou uma semana antes porque lhe tinha morrido um familiar. E, como já havia um pré-acordo do Gabi (o boss do Primavera Sound) com o Quim, que eles tinham-se cruzado noutra cena qualquer, devem ter dito “então manda vir os PAUS”, e fomos. No ano seguinte fomos outra vez.

20: O que é que se segue até ao final do ano? Conseguem perceber quanto tempo dura um disco?
Makoto: Começamos a ficar fartos de tocar este e fazemos outro.
Hélio: Mas há aqui planos para fazer umas coisas lá fora também, por isso agora estamos focados em fazer passar o Verão. Agosto está muito forte, temos mais uns concertos até Outubro e depois é trabalhar a sério nestas ideias que já estamos a tentar pôr em marcha.
Makoto: Este disco ainda está muito fresco.
Hélio: Mas a nossa ideia é gravar o próximo já em Janeiro. O instrumental, porque as vozes demoram mais tempo. Janeiro é sempre meio morto, a não ser que faças uma tour. E é tempo que não desperdiças porque estás a construir já o resto do ano.