Playtalks

Nuno Gomes: “Tive propostas de Itália e Inglaterra. Respondi que só falavamos depois de me reunir com o Benfica”

Um dos maiores goleadores da história do futebol nacional, numa viagem que começa em Amarante e pode vir a continuar novamente no estrangeiro. Sempre sem grandes planos pelo meio.
Foto: Louie Thain

Quando é que percebe que ia poder fazer do futebol a sua vida?
Talvez por volta dos 15/16 anos. Quando saio de Amarante, da minha terra, para o Boavista, começo a ter essa noção e a pensar mais a sério que o futebol poderia ser a minha vida. A partir do meu primeiro/segundo ano no Boavista, nas camadas jovens, começo a olhar para o futebol não só como o meu modo de vida mas também como uma profissão. Poderia ser aquilo que sempre sonhei, se realmente trabalhasse para isso.

Usa a alcunha ‘Gomes’ desde que idade?
Foi desde pequeno, muito antes de ir para o Boavista. Jogava futebol na rua, em Amarante, e a partir de certa idade, 7/8/9 anos, comecei a participar em alguns torneios no Verão e usava assim o cabelo meio comprido. Começaram a chamar-me Nuno Gomes porque o Fernando Gomes era o melhor marcador dos campeonatos, e nesses torneios eu comecei também por fazer muitos golos e ganhar alguns prémios de melhor marcador. Dali vou para o Amarante Futebol Clube jogar já com esse apelido, já toda a gente me conhecia por Nuno Gomes e ficou até aos dias de hoje.

E o 21? Aconteceu?
Sim. Não foi por imposição, mas foi quase. Quando subo aos seniores do Boavista queria era poder fazer parte do plantel, e que me dessem oportunidade de jogar. Nem pensava no número, não é? Quando começou a pré-época, houve um dia em que o roupeiro me chamou. Estavam três ou quatro camisolas em cima de uma mesa e ele disse: “Escolhe uma dessas para ser o teu número”. Eu olhei e realmente eram números que não me diziam nada. Quando os números ainda eram de 1 a 11 eu normalmente jogava com o número 9, às vezes com o 10, e ali eram todos números muito altos, números de suplentes, digamos assim. Um deles era o 21 e eu achei graça por ser um número mais composto em relação aos outros, que eram trintas e tais. Dentro do mau, escolhi o 21.

Quando joga e ganha aquela final da Taça de Portugal frente ao Benfica, já sabia que estava a jogar frente aos futuros colegas?
Já, nessa altura já tinha assinado o compromisso de na época a seguir ir para o Benfica, eu e outro colega, o Erwin Sanchez, e sim, lembro-me que foi uns dois/três meses antes desse jogo. Quando assinei ainda não sabia era que ia defrontar o Benfica na final da Taça. Mas lembro-me perfeitamente que quando chegámos ao estádio, os jogadores muitas vezes têm por hábito irem ver a relva, subi com a equipa e o estádio já estava totalmente cheio, a maior parte, como é óbvio, de benfiquistas. Lembro-me que quando entrei, muitos benfiquistas me aplaudiram. Já era público que ia representar o Benfica.

Os colegas tiveram mais cuidado consigo nesse jogo?
O Benfica atravessava um período não muito fácil, com muitas saídas e entradas de jogadores. Tinha uma equipa que não era muito regular, foi muito por aí que o Boavista conseguiu ganhar, apesar de o Boavista ter um excelente plantel nesse ano. E uma final é sempre uma final, nem sempre os mais fortes ganham.

Depois destes anos todos em Lisboa ainda sofre também pelo Boavista?
Sim, gosto muito do Boavista, foi o clube onde me formei. Tive também essa sorte de durante a minha progressão como jogador jovem ter apanhado, em Amarante e no Boavista, pessoas idóneas, treinadores competentes que me ajudaram muito. Em termos de formação, o Boavista estava uns passos à frente de muitos clubes e fazia sempre um bom trabalho. Tenho um carinho especial e muito grande pelo Boavista.

Ainda antes de vir para o Benfica, com 20 anos acabados de fazer, vai ao Torneio Olímpico em Atlanta e no jogo para o terceiro lugar sofre uma das maiores derrotas da carreira: 5-0 frente ao Brasil. Apesar da equipa extraordinária que eles tinham, doeu muito?
Doeu. Eles tinham realmente jogadores fantásticos, que vieram a ser de renome mundial, mas foi uma derrota muito pesada. Sabíamos que ia ser um jogo difícil porque o Brasil seria um dos candidatos até a vencer os Jogos Olímpicos. Perdeu nas meias-finais, nós com a Argentina e eles com a Nigéria, assim um pouco surpreendentemente. A Nigéria acabou por vencer esses Jogos Olímpicos depois na final contra a Argentina. Mas fomos para o jogo sempre com a vontade de poder ficar em terceiro lugar. Foi realmente impossível, não tivemos argumentos perante a força daquela selecção brasileira.

Fala-se muito em campo?
Fala. Depende. Quer dizer, eu falava. Também gostava de falar com os adversários, com o árbitro, sempre de um modo sem infringir a lei, claro. Mas fala-se muito. Mais do que aquilo que as pessoas pensam e que se apercebem nas bancadas. Depende sempre do adversário. Sendo avançado, apanhava mais de perto os defesas e, normalmente, são aquelas pessoas mais agressivas numa equipa. Muitas vezes brincava com isso porque percebia que estavam muito concentrados e era também para desbloquear ali qualquer coisa, os chamados mind games.

Eles tentavam intimidá-lo?
Sim. Havia defesas que às vezes ameaçavam, aquelas coisas de quem muitas vezes está com o sangue a ferver. “Vou-te partir uma perna”, “Tu não venhas para o pé de mim que vais levar porrada”, essas coisas.

Em Itália, ao princípio, não devia perceber grande coisa.
Em Itália, não. Também apanhei muitos defesas durinhos e agressivos mas, sim, ao início podiam falar comigo que eu não percebia a maior parte das coisas. Mas rapidamente aprendi. Às vezes podia não perceber, mas bastava o tom de voz ou o olhar para perceber se era boa coisa ou não.

E quando tinha um falhanço e umas 40 ou 50 mil pessoas no estádio estão a chamar nomes? Sente-se esse peso lá em baixo ou está tão focado e chateado que ne pensa nisso na altura?
Depende do barulho que se faz na bancada e depende também da importância do jogo. Havia situações em que se percebia claramente, até porque às vezes os adeptos se manifestavam de forma a que o jogador conseguisse perceber que estava a ser criticado, mas eu procurava sempre abstrair-me dessas situações porque para um avançado é sempre pior quando perde muito tempo a pensar naquilo que já passou.

É duro dar a volta a isso psicologicamente durante o jogo?
Considero que seja preciso ter força mental para se abstrair daquilo que se está a passar ao nosso redor. Muitas vezes leva o seu tempo a tentar esquecer. “Como é que consegui falhar aquilo?” ou “como é que aquela bola não entrou?”, mas isso depois vem só com a experiência. A certa altura comecei a perceber que não adianta estar a remoer sobre aquela oportunidade, o importante é estar pronto para a próxima.

Custava mais ir para a cama depois de falhar um golo isolado ou agora quando sabe que a filha de 19 anos saiu à noite?
Custa muito mais a adormecer agora. [risos] Às vezes, quando isso acontece, sou vencido pelo cansaço, adormeço por já não aguentar mais, porque para um pai, pelo menos para mim, não é fácil. Infelizmente, hoje há muitas situações com as quais os pais têm de estar preocupados. Em relação ao dormir depois de um golo falhado, muitas vezes ia ver o lance várias vezes. Também custava a adormecer, principalmente se tivéssemos perdido o jogo. Nessas alturas ficava muitas vezes a moer. E muitas vezes, no dia a seguir, no treino, tentava repetir o lance para sentir a bola a bater nas redes.

Pensava antes em como ia tentar fazer golos? Por exemplo, aquele ao Barthez no Euro’2000: aconteceu ou tinha na cabeça que quando apanhasse a bola a jeito o ia tentar surpreender de longe?
Não, foi por instinto. Não tinha pensado, embora na altura já tivéssemos acesso a vídeos para analisar as equipas. Se calhar nos penáltis íamos ver para que lado é que ele se atirava a defender, mas nada com um conhecimento tão específico como é hoje. Foi por instinto. Embora muitas vezes, durante a minha carreira, na noite anterior, para adormecer, costumasse imaginar, mas acho que é geral em todos os jogadores. Nós a pensar no jogo do dia seguinte queremos imaginar situações: uma desmarcação ou enganar o defesa, costumava pensar muitas vezes nisso. Se calhar os psicólogos chamam-lhe preparação mental para a competição, uma coisa assim.

E os festejos? Treinam-se?
Os festejos podem-se pensar, embora dependa sempre da importância do golo. No Europeu de 2000 fui para o campo com o pensamento de que se marcar um golo vou festejar com o Sá Pinto, porque ele lesionou-se e merece que lhe dedique o golo. Às vezes vai-se para o campo com aquilo que se quer fazer. O resto é mais por instinto.

A seguir vai para a Fiorentina, onde passa duas épocas até o clube ir à falência e regressar livre ao Benfica. Para que Ligas podia ter ido na altura?
Logo nos primeiros dias que foi conhecido que a Fiorentina tinha falido houve uma força muito grande de um clube para eu ficar em Itália e de outro para eu ir para Inglaterra. Aos dois respondi: “falamos depois de primeiro reunir com o Benfica”.

Se tivesse aceitado um desses convites, estando sem contrato ia conseguir um prémio de assinatura que garantia logo a reforma. Nunca foi o dinheiro que determinou as escolhas?
Se calhar só no último contrato que fiz é que pensei mais, mas mesmo assim foi pela experiência de jogar em Inglaterra. Se fosse pelo dinheiro, nessa altura tinha ficado em Itália ou tinha ido para Inglaterra e não tinha regressado ao Benfica. Hoje os jogadores perceberam que a carreira é curta e que convém ganhar o máximo de dinheiro possível, embora no meu tempo eu também já tivesse sido alertado para esse facto, mas tentei sempre arranjar um equilíbrio porque precisava de me sentir feliz. Não só pela parte financeira, mas também sentir-me feliz a jogar, num sítio onde gostasse de estar. Hoje o futebol está cada vez mais um negócio, é toda a gente a ganhar dinheiro à volta do futebol, e os jogadores, que são os artistas principais, também perceberam que eles é que devem ser aqueles que mais dinheiro ganham com isso. Parece-me que hoje, sejam jovens ou consagrados, estão mais focados na parte financeira do que propriamente noutros sentimentos. Não é uma crítica, até pode ser um elogio, porque depois da carreira, olhando para trás, se calhar é mais importante ter uma boa conta bancária do que uma sala cheia de troféus.

O futebol mudou muito desde que começou a jogar?
Sim, principalmente naquilo que são as emoções à volta do jogo. O próprio negócio em que o futebol se tornou, e a chegada das redes sociais também contribuiu para essa mudança. O futebol nas quatro linhas evoluiu muito em termos tácticos, em termos de os jogadores terem um maior conhecimento sobre o treino, sobre o jogo, porque estão com uma maior preparação, têm mais dados sobre a equipa adversária, mais acesso a essa informação também muito por culpa da evolução tecnológica, mas o jogo em si, o futebol jogado, as características dos jogadores, há sempre parecenças com aquilo que era há 20 e tal anos, quando comecei. Mas a envolvência e os destaques que se dão desde muito cedo, as redes sociais que ajudam a fabricar um jogador, antigamente não existiam. O próprio barulho que se faz à volta do futebol é diferente.

Esse regresso permitiu marcar o primeiro (e o segundo) golo na nova Luz. Foi lá para dentro especificamente com esse objectivo?
Eu queria. Queria muito, sou sincero. Venho da Fiorentina em 2002, faço a época 2002/03, depois a época 2003/04 começa em Julho e sou operado ao tornozelo em Junho, portanto não começo a pré-época com a equipa. Estive três/quatro meses parado a fazer a recuperação da operação e o primeiro jogo que faço é exactamente esse.

A inauguração foi em outubro.
Sim. Aproveitei a pausa das férias para ser operado. Já sabia que ia ficar três ou quatro meses parado e a recuperação coincidiu com a curiosidade de regressar na inauguração do estádio. Estávamos no quarto do hotel a ver na televisão o burburinho das pessoas a chegar ao estádio, muitos directos, e lembro-me de um jornalista perguntar às pessoas quem é que gostavam que fosse o autor do primeiro golo e três ou quatro pessoas disseram o meu nome. Aquilo mexeu um bocadinho comigo. Quando saí do hotel já ia com aquilo na cabeça. Felizmente, consegui marcar.

Os estádios novos contribuíram muito para a evolução do futebol português?
Sim, embora eu não tenha esses dados estatísticos de pessoas presentes nas bancadas, mas, à partida, as pessoas começaram a ir mais aos jogos porque têm melhores condições. Depois, os próprios jogadores também se sentem com uma maior motivação, cria-se outro ambiente, de um palco com excelentes condições para se jogar, e muitas vezes chegávamos a dizer: “nestes estádios só não é jogador quem não tiver mesmo jeito”.

Contou num podcast duas histórias ligadas à final do Euro’2004: fazia anos no dia a seguir e quando chegou a casa nessa noite tinha uma festa surpresa, além de que dias depois seguiu para as férias que já tinha marcado na Grécia, no mesmo hotel onde estavam vários dos jogadores que o tinham derrotado. E os outros clientes? Sentia que também olhavam para si com um sorriso malandro?
Só o dono e um dos relações públicas do hotel. Não foi nada engraçado, mas agora tem a sua graça. Durante o Europeu planeei as férias com a minha mulher e estávamos sempre a mudar de destino até que chegámos a esse consenso de ir para a Grécia. Naquela altura não sonhava era em ir à final com a Grécia e, principalmente, em perdê-la. Depois do jogo, cheguei a casa e já passava da meia-noite, portanto já era o meu dia de aniversário, e tinha uma festa preparada com a minha família e vários amigos. Foi a partir daí que se começou a tentar esquecer o jogo, mas era ainda muito a quente. Foi um grande balde de água fria termos perdido essa final. Passados dois dias vou para a Grécia e, não sei se foi no primeiro dia, se no dia a seguir, estava na praia e começo a ver chegar uma cara conhecida. Era o Fyssas, que jogava comigo no Benfica. Ele olhou para mim e disse-me: “Vamos passar aqui uma semana”. E eu: “Mas quem?” E ele: “O dono do hotel ofereceu, como um prémio, uma semana a todos os jogadores da selecção”. Eu olhei para ele: “Mas todos?”. De repente, começo a ver a praia a ser invadida por jogadores gregos e tive de levar com eles ali uma semana. Felizmente, o hotel tinha duas zonas de praia e eu ia sempre para onde eles não estivessem, ou então ia visitar a ilha para não estar muito tempo com eles. À noite ficava a jantar pelo hotel e às vezes havia uma festa mesmo dedicada aos jogadores da selecção. E houve uma vez ou outra em que os jogadores estavam todos lá a jantar e a ouvir música, começaram a dançar e tentavam, assim meio na brincadeira, vir buscar-me à mesa para ir dançar com eles. E eu: “Bem já estão a ultrapassar os limites! Isso não. Estou aqui, mas não vamos confundir as coisas”. [risos]

No Mundial seguinte já se tinha ultrapassado essa derrota?
Vai ser sempre difícil recordar essa final. Se calhar agora menos, porque já fomos campeões da Europa, finalmente, mas acho que essa geração também merecia ter ganho um título importante.

Mas no Mundial a seguir ainda estavam a tentar compensar a derrota anterior?
Sim, também porque para alguns jogadores esse Mundial era a última oportunidade de poder ganhar algo.

A França não foi, depois de nos terem deixado de fora das finais do Euro’2000 ou do Mundial de 2006?
A França, não. Embora vá várias vezes a França. Se tivesse apanhado os jogadores franceses, ia lembrar-me de certeza.

Já não podia ver o Zidane?
Por acaso o Zidane se pudesse vê-lo a jogar muitas vezes agradecia. Para mim foi um dos melhores, daqueles que defrontei. Admirava como jogador e também fora do campo porque tinha muita classe.

Nunca enfrentou o Messi, mas jogou cinco vezes contra o Cristiano Ronaldo, a quem ganhou duas vezes e perdeu três. A primeira foi há 16 anos, num Sporting-Benfica, mas nas outras quatro foi frente ao Manchester United. Já se percebia que estava ali uma coisa poucas vezes vista na história do futebol?
Sim, desde cedo.

Estou a falar destes jogos em que o viu na outra equipa, porque provavelmente é diferente quando joga com ele.
Sim. Principalmente no Manchester United. Tenho poucas recordações desse jogo do Sporting onde joguei contra ele. O Benfica ganhou?

Ganhou 2-0 em Alvalade em 2002 e ele foi titular. Saiu aos 54 minutos.
Foi naquele dos autogolos do Beto?

Não, não foi nesse ano. Do Beto e do Cadete…
Exacto. Do Beto e do Cadete. [risos] Sinceramente não me lembro muito bem. Se calhar, por não me lembrar, é porque também não me saltou muito à vista o Cristiano, mas lembro-me perfeitamente de perceber que estávamos perante um excelente jogador quando ele começou no Sporting. Depois, contra o Manchester United, já era o Cristiano que vimos durante muitos anos. Um jogador muito perigoso, que fazia a diferença e que não se podia dar um milímetro que fosse de liberdade porque era muito difícil tirar-lhe a bola e era sempre um jogador que qualquer acção que fizesse levava sempre perigo à nossa baliza. Ele evoluiu muito.

Nessa fase ainda não se percebia que ele ia crescer assim tanto?
Se calhar não podíamos olhar e dizer: “Vai ganhar cinco vezes a Bola de Ouro”. Mas sabíamos que estávamos perante um jogador diferente daquilo que tínhamos visto. E na Selecção, depois já como colega, tinha acesso a pormenores que como adversário não conseguia detectar. Durante a caminhada que fizemos juntos deu para perceber que fazia coisas que só ele conseguia e que além disso era uma pessoa muito competitiva, que queria sempre aprender mais.

Foi capitão: ter ou não a braçadeira mudava de alguma forma o seu comportamento?
Só na relação com o árbitro. Usar ou não a braçadeira nunca foi importante nem sinónimo de que tinha de alterar a minha maneira de ser. Estava sempre atento a tudo o que se passava à minha volta, sempre fui aquele de pôr paninhos quentes e de aconselhar os mais jovens. Se calhar com os árbitros sim, porque sabia que era o representante da equipa. E às vezes também pensar que me podia esticar um bocadinho mais por ser o capitão. [risos]

E o carinho que se tem por um treinador pode fazer correr ainda mais?
Inconscientemente, acho que sim. Se o jogador se identificar com a maneira de ser do treinador, se tiver empatia, se gostar das ideias e até se gostar da pessoa que é atrás do treinador, porque há o treinador e depois há a pessoa, se calhar sim. Muitas vezes há treinadores que têm essas personalidades que são de uma maneira quando estão como treinador e depois são de outra como pessoa. Nos casos de não ser tão forte como treinador mas ser uma excelente pessoa, os jogadores se calhar tendem a dar mais um bocadinho e tentar ajudar. E o contrário: se olharmos para o treinador e reconhecermos qualidades, mas depois estamos ali perante uma pessoa com que não nos identificamos, as coisas podem tender inconscientemente, porque pelo menos eu nunca o fiz de propósito, a não dar aquele bocadinho mais que faltava para que as coisas resultem.

Terminou a carreira há cinco anos. Já sabemos que não foi onde planeou, porque depois do Benfica ainda passou pelo Braga e pelo Blackburn Rovers, mas foi com a idade que tinha idealizado?
Não sei, porque nunca pensei nisso. Sei que há colegas que, ao chegar à fase final da carreira, planeiam. Outros querem sair em grande, como se costuma dizer. Eu nunca planifiquei nada. Sabia que esse dia ia chegar, mas sempre pensei desta forma: “enquanto me sentir bem, enquanto for feliz a jogar, enquanto fisicamente conseguir, vou continuar”. Se calhar podia ter decidido acabar a carreira no Benfica, mas achei que ainda não era altura. Sentia-me em condições de jogar e foi por isso que ainda fui fazer mais duas épocas. Quando saí do Benfica recusei propostas para ir para o estrangeiro, porque não estava com esse espírito de ir para fora, por isso fui para o Braga. Depois, passado um ano, acabo por ir para fora. Não fazia muitos planos. [risos]

Acha que é uma questão de tempo até o Braga ser campeão?
Acredito que sim. O Braga está a crescer de uma forma sustentada, a olhos vistos. Tem tido equipas competitivas, está a fazer um excelente início de época, e contra o Porto provou que é capaz de discutir o jogo pelo jogo com qualquer outra equipa. Em relação aos últimos anos, acho que é mesmo essa a diferença que está a fazer falta ao Braga, o confronto com os grandes, tem de fazer mais pontos. A partir daí parece-me que está pronto para discutir o título. Acredito até que o possa fazer este ano.

Como foi Inglaterra já como veterano?
Gostei muito. Já falámos numa possibilidade que tive de ir para Inglaterra quando volto ao Benfica, durante a carreira recebi mais uma ou outra proposta para ir e, se soubesse o que sei hoje, se calhar… Os ingleses vivem o futebol de uma forma muito intensa e diferente daquela que nós vivemos. Acreditam que os jogadores estão ali para fazer o melhor pelo clube e respeitam o jogo e os jogadores. Muitas vezes ficava de boca aberta. Nos jogos fora tínhamos duas/três mil pessoas a acompanharem o Blackburn Rovers, no Championship, e o clube atravessava problemas de relação entre adeptos e os donos do clube. Tinha acabado de ser comprado há pouco tempo e a relação não era a melhor, mas, mesmo assim, perdemos uma ou outra vez em casa e saíamos aplaudidos. Houve uma vez, perdemos 3 ou 4-0 em casa, fui para o carro depois do jogo e ninguém me tinha riscado o carro, furado os pneus, nem sequer um adepto à minha espera ou à espera de alguém da equipa para mandar umas bocas. [risos] Bateram palmas no final e depois foram à vida deles e passados três dias estavam lá outra vez a encher o estádio. Isso para o espectáculo em si, depois também para a confiança da equipa é de louvar. Temos muito a aprender com eles.

Já se convenceu quando olha para um relvado que agora é só para ver?
Infelizmente, já. Costumo dizer que, até prova em contrário, não sei o que é que me espera no futuro, os anos em que fui jogador de futebol foram os melhores da minha vida. Portanto, quando olho para um relvado sinto saudades, mas já interiorizei que não vou voltar a jogar e que tem de ser só para ver, como disseste. Mas sinto muitas saudades, como é óbvio.

Apesar de todos os relatórios e avaliações, consegue-se perceber quando um miúdo está pronto para jogar pela equipa principal antes de o meter lá dentro?
Hoje se calhar é mais fácil, embora dependa sempre da personalidade de cada jovem, de cada jogador. Podemos usar o caso do Renato Sanches que numa época começou nos juniores, jogou na equipa B, na Youth League e depois jogou na equipa principal do Benfica na Champions League e ainda foi fazer o Europeu. Nesse ano, olhava para o Renato Sanches no Europeu e estava a ver o Renato que tinha começado nos juniores. Era o mesmo jogador. Ou seja, a maneira de ele jogar, de enfrentar qualquer adversário ou qualquer equipa, não mudou por estar a jogar ao mais alto nível. Depende sempre muito da personalidade de cada um. Há alguns jovens que podem abanar mais um bocadinho.

Não é tanto a parte técnica, mas é mais a parte mental que faz a diferença?
Sim, e também a experiência que já levam quando chegam à equipa principal. Acho que é aí que também evoluímos: os torneios internacionais em que eles participam e os jogos pela Selecção, que lhes dão maior estaleca para estarem habituados a outro nível. No caso do Benfica, a própria equipa B: eles terem idade de juniores e jogarem com seniores dá-lhes também esse andamento necessário para quando chegarem à equipa principal não ser uma mudança brusca, do oito para o oitenta, que muitas vezes pode fazer tremer. Quando comecei, olhava para os meus colegas, já todos pais de famílias e já consagrados no futebol, e às vezes parecia que até tinha de pedir-lhes licença para lhes passar a bola e mesmo para lhes falar às vezes era o “senhor Alfredo”, e hoje é diferente. No caso dos clubes que têm academias há ali um conhecimento entre os jogadores muito profundo. Não há aquela barreira de quando os jogadores juniores sobem aos seniores e estão a ver tudo pela primeira vez. Já se conhecem, já falaram com outros jogadores, há uma proximidade e facilita essa integração.

Depois de sair de Diretor-Geral do Caixa Futebol Campus, não quis voltar às Relações Internacionais porque queria continuar mais próximo do campo. Pensas que esse futuro vai arrancar em breve?
Acho que sim. Já podia ter arrancado. Houve abordagens de alguns clubes para que pudesse retomar funções, mas ainda não quis. Não só porque não achei o momento apropriado e também porque noutras situações o projecto não era tão aliciante que me fizesse aceitar. Mas sim, aquilo que me vejo a fazer é exactamente isso: funções não como treinador, mas com uma maior preponderância perto da equipa, perto dos jogadores.

Tem abertura também para o caso de aparecer uma proposta do estrageiro?
Sim, já apareceu, mas não era… Se fosse um projecto que me tivesse seduzido tinha ido. Não tinha esses problemas.

E se aparecesse uma proposta de um rival?
Acho que não vai aparecer. [risos]

Apesar de um símbolo do Benfica, sempre foi uma figura simpática. Alguma vez teve problemas com adeptos dos outros grandes?
Problemas acho que não. Define problemas. [risos] Não, só aquelas bocas normais, mas nunca tive problemas assim ao extremo. Se queres que te conte um episódio, ainda estava a jogar no Boavista e tive problemas em Guimarães. Há ali uma certa rivalidade entre o Boavista e o Guimarães que sinceramente me custa um bocadinho a perceber porque não devia existir. Ou pelo menos, não dessa forma muitas vezes violenta. Tive um episódio em Guimarães, uma vez que fui sair. Jogava no Boavista, salvo erro no meu primeiro ano de sénior, ainda não era aquele jogador conhecido, mas o facto de ser jogador do Boavista naquela noite tramou-me. Passei ali por uma situação complicada, tive de ficar resguardado e de chamar a GNR para poder sair do local onde estava. [risos]

A compra de um grande por um milionário estrangeiro ainda está longe?
Não sei se estará assim tão longe. Já temos o caso de alguns clubes, seja da Primeira ou da Segunda Liga, terem sido comprados por investidores estrangeiros. Não sei se isso alguma vez irá acontecer aos três grandes, embora há uns tempos pusesse isso mesmo radicalmente fora de hipótese e hoje se calhar não. É sempre muito difícil prever. Depende das circunstâncias em que se encontram os clubes, tem a ver também com as emoções, com o sentimento de pertença que os adeptos têm ao clube. É sempre uma situação muito difícil de gerir, mas não sabemos até que ponto é que os grandes clubes irão precisar dessa injecção de dinheiro ou não. E depois o peso que irá ter na balança em relação àquilo que é a afectividade dos seus adeptos e sócios.

Mas um dia vamos ter aí uma espécie de Manchester City, a vir de baixo e começar a vencer regularmente?
Aqui em Portugal poderá acontecer também. A minha questão é se o campeonato português é atractivo a esse nível. Se calhar primeiro terá de haver uma reforma na maneira como se olha para o futebol português e as próprias infraestruturas, porque vamos a Inglaterra e a maior parte dos clubes, pelo menos da Premier League, dão condições aos jogadores e aos adeptos para que se faça à volta do futebol um negócio e um espectáculo. Em Portugal, tirando os clubes que tiveram essa felicidade do Euro’2004, e de um ou outro que renovaram os seus estádios, ainda há muitos que as condições deixam a desejar. Se começarmos por aí, os próprios clubes poderem ter saúde financeira não só para renovar os seus estádios mas também para investirem na formação, podemos vir a ter um clube daqui a uns anos a ganhar a Primeira Liga.

Qual foi o seu maior erro durante a carreira? O empurrão ao árbitro no Euro’2000?
Talvez. Acho que sim. Foi um acto irreflectido, de cabeça quente, convencido que estávamos a ser injustamente atirados para fora do Europeu e depois foi fruto do ambiente que se estava a viver e fui na onda. O que me custou bem caro, porque estive uns meses fora da Selecção e depois perdi um bocadinho o comboio para o Mundial da Coreia e Japão.

E o melhor momento da carreira?
Foram quando fui campeão pelo Benfica no Estádio do Bessa e depois um golo que fiz contra a Espanha, estávamos todos à espera de um golo para ganhar, se não íamos ficar de fora do Europeu que estávamos a organizar e ia ser um grande balde de água fria. Ainda hoje consigo lembrar-me da vibração do estádio no momento do golo, daí mencionar a importância que teve para a minha carreira. E o estremecer do estádio, parece que o senti na altura no campo. Vai ficar sempre na minha memória.

Aceitou ser comentador por ser um programa com uma abordagem diferente e positiva?
Sim, sem dúvida. Depois de ter saído do Benfica fui abordado para fazer comentários em alguns programas, mas esse critério foi sempre ponto assente e por isso é que neste momento estou no Mais Futebol. É exactamente por ser um programa que gostava de ver e com o qual me identificava porque não se entra em polémicas, não se fala daquilo que não se deve empolar, e tenta-se sempre falar mais do lado positivo daquilo que é o futebol.

O cabelo é para sempre?
Espero que sim, seria bom sinal! [risos] Já esteve mais longe. A pessoa que me corta o cabelo, todas as vezes que me sento na cadeira pergunta se é desta e ando sempre a adiar.

E até que ponto acha que ajudou a carreira do Nuno Gomes da Remax?
Ouvi dizer que é um bom ponta de lança. [risos] Não sei, acho que não ajudei em nada. Acho não, tenho a certeza! [risos] Penso que tem muito sucesso e fico feliz por ele, apesar de não o conhecer.