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Miguel Guedes: “Odiavam os Blind Zero por sermos uma réplica dos Pearl Jam”

Passámos uma das tardes do mês em que os Blind Zero completaram 25 anos de carreira com o homem que não só é o vocalista da banda, como uma das vozes que mais defende outras duas das suas paixões públicas, resumidas numa palavra: Porto, clube e cidade.

Com que idade subiu pela primeira vez a um palco?
É curioso porque eu recordo-me vagamente do primeiro filme que vi, mas não me recordo exactamente da primeira vez que subi a um palco. Até porque, na idade em que começas a subir a um palco, normalmente são palcos baixos, portanto não tens muito a ideia de estar a subir a um grande palco. Lembro-me quando toquei das primeiras vezes, lembro-me do primeiro concerto dos Blind Zero, por exemplo, que foi em Zebreiros. Quem conhece o Porto e Entre-os-Rios, há ali uma localidade que se chama Zebreiros e lembro-me perfeitamente desse palco ser um não-palco, porque de facto era muito baixo, um piso térreo, espaçoso porém, numa espécie de colectividade. Estávamos na primeira semana do ano e lembro-me de termos enfeitado o palco, tínhamos de ter alguma coisa, algum cenário, alguma alegoria e foram rolos de papel higiénico. É facilmente perceptível porque as coisas acabaram por correr como correram.

Foi a primeira banda?
Tinha uma banda que se chamava O.P. Visions. No fundo era visões do Porto e eu moro em Gaia. Nasci no Porto, em Cedofeita, no coração do Porto, mas sempre morei em Gaia. Sempre tive visões do Porto, belíssimas aliás, porque embora haja uma distinção que o rio marca permanentemente, é traçada essa demarcação territorial, mas são duas cidades de gente que está sistematicamente a cruzar e a confluir e que sente pertencer a uma zona geográfica. Não digo que as cidades se anulem, há alguns movimentos até em que se possam juntar, no entanto a massa é muito indistinta. Sempre morei em Gaia, sempre olhei para o Porto como a cidade onde eu ia, lembro-me de dizer aos meus amigos, “Eu hoje vou ao Porto”. Grande parte dos meus amigos era do Porto e isso era quase anedótico para eles. “Tu vens ao Porto? Ok, tu estás em Gaia”. Essas visões do Porto sempre foram muito bonitas, sempre foi a minha cidade que muitas vezes parecia uma cidade irmã. Essa banda antecedeu os Blind Zero em cerca de um ano, tivemos alguns concertos em locais indizíveis, mas depois apareceram os Blind.

Percebeu logo que tinha de ser o vocalista?
Eu nunca fui um grande instrumentista. Tocava e toco guitarra, mas muitas vezes chamo fios aos cabos… Não sou o tecnicista, componho à guitarra normalmente, mas não tenho essa filigrana, infelizmente, de saber tocar um instrumento tanto quanto gostaria. Sempre desisti de o fazer. Nunca me apeteceu ter aulas, tive aulas de piano, de guitarra e apeteceu-me desistir mais do que aparecer. Por isso, para mim foi muito claro que passava mais pela voz, pela palavra. Sempre escrevi e sempre fui o vocalista, já nos O.P. Visions era assim. Experimentei também tocar um pouco de bateria, porque tínhamos um baterista mórmon e ele não podia tocar aos domingos. Então tive a necessidade de vez em quando de o fazer, mas era claro que seria como vocalista que ia fazer o meu percurso.

Os Blind Zero venceram a primeira edição do Termómetro Unplugged, no ano em que começaram. O que é que nasceu primeiro, a banda ou a vontade de ir ao concurso?
A banda. Sou péssimo em datas precisas, mas tínhamos a banda seguramente há mais de meio ano. Havia um conjunto de canções que podiam ser experimentadas. Aliás, o nosso primeiro disco, o Trigger, foi um ano e pouco depois de nascermos, portanto tínhamos aquele lote de canções e o disco foi muito bem-sucedido, vendeu muitíssimo para a época. Foi a primeira vez que houve um disco de ouro com uma banda de rock a cantar em inglês, um produtor estrangeiro e tudo isso, tudo aquilo aconteceu de uma forma muitíssimo rápida. Nós estávamos a começar, fizemos uma ou duas músicas no primeiro ensaio, depois fizemos mais e ao fim de seis meses estávamos a concorrer ao Termómetro Unplugged e ganhámos. Depois estávamos a fazer uma mini-tournée por bares no Porto, bares míticos, o Meia Cave, O Meu Mercedes, o Labirintho e outros, e de repente criou-se à nossa volta uma espécie de convulsão muito engraçada para um país que funcionava de forma diferente. Na altura apanhavas as coisas com dois ou três anos de reflexo, não havia MTV, não havia cell phones, não havia nada. O que havia era a vontade de absorver o que por sorte nos chegaria um ano depois, já era assim uma coisa porreira. Nós aparecemos com um carácter muito imediato, o que estávamos a fazer estava a acontecer lá fora, nomeadamente com o fenómeno do grunge em Seattle. Tudo foi também muito rápido para nós. De alguma forma tivemos também um pouco a sorte de estar no momento certo por coração, não era uma estratégia.

É aí que percebem que aquilo da banda era mesmo a sério?
Sei o que estás a querer dizer, mas para nós sempre foi muito sério, no sentido de querermos ter um percurso. A questão do profissionalismo dos músicos, que na altura também se falava muito, é uma questão permanente na arte. Se deve ser uma coisa intrinsecamente amadora ou obrigatoriamente profissional e acho que não há uma resposta boa para isto. Qualquer músico gostaria de viver da sua arte, ponto. Porque poderia explorar muito mais quadrantes da sua arte, ter outras artes. Um artista normalmente consome-se na arte. Na arte e na vida. Isso era extraordinário que pudesse ser assim. A verdade é que eu também sempre fiz coisas diferentes e gosto dessa multi-dimensão do que vou fazendo e dá-me muita satisfação. Nesse sentido talvez eu seja um artista atípico. Mas também sinto que nunca investi tão profundamente na minha arte quanto gostaria e acho que isso vai acabar por ser algo que eu me vou queixar, vou olhar para trás com um relativo desalento, daqui a 100 décadas.

Nenhum de vocês vive exclusivamente da banda. Isso chegou a ser discutido?
Na altura, quando fazes uma banda aos 18 anos só queres fazer a banda e só estás a fazer a banda e estás vagamente a estudar e nós estávamos todos vagamente a estudar. Alguns de nós até concretizámos, eu acabei por tirar um curso, Direito em Coimbra, sempre conseguimos fazer isso correr mais ou menos em paralelo, com mais ou menos dificuldade. O trabalho que nós tínhamos era, até porque ainda estávamos a estudar, a banda. Para além de um trabalho, era o nosso vício, a nossa afirmação. De repente tínhamos gente atrás de nós para nos ver, enchíamos salas pequenas ou médias no Porto, ao fim de um ano e pouco estávamos a tocar no Super Bock Super Rock, em Lisboa, na primeira edição, com os Young Gods, Faith No More e The Cure. Nós já tínhamos um corpo físico quando saímos dessa tenra idade. Isso é algo surpreendente, em Portugal era tudo muito mais lento, gravar um disco demorava anos. Chegar às pessoas demorava três discos e nós ao fim de um ano estávamos a gravar um disco que foi de ouro e a tocar em todo lado, festivais, daí que naquela altura se falava nos The Next Big Thing. Não era Next coisíssima nenhuma, não tinha havido outra. Nós devemos ser a primeira.

Esse primeiro álbum tem um produtor americano, tal como os dois seguintes. Ainda apanharam os tempos em que existia dinheiro para gastar?
Havia dinheiro para gastar, havia uma indústria que ainda se podia chamar indústria, com todas as sílabas. Também aí foi a primeira vez que um produtor estrangeiro vem produzir o disco de uma banda rock nacional, a cantar inglês. E porque é que nós quisemos isso? Não porque achássemos que não havia ninguém em Portugal que pudesse fazer um disco, com certeza que sim. Nós muitas vezes fomos confundidos, havia uma espécie de arrogância que nós não tínhamos e que nos queriam colar à pele, porque fazíamos escolhas diferentes, só isso. Nós não tínhamos nada contra a portugalidade, amamos e odiamos em português, somos portugueses, não somos outra coisa. A estética que estávamos a trabalhar não era portuguesa, portanto parecia-nos perfeitamente normal que começássemos por tentar trazer alguém de fora que nos ajudasse a descobrir essa estética. Estávamos à procura de trazer para nós algo que conhecíamos à distância de um continente, nunca lá tínhamos ido sequer. Esse é um exercício muito engraçado olhando para ele agora, acho que foi uma porta também diferente que se abriu e que arejou um bocadinho tudo isto.

Os Mind da Gap por essa altura também escolheram um produtor americano. E o EP que fazem com eles, foi sugestão da editora ou conheciam-se lá do Porto e aconteceu?
Conhecíamo-nos, obviamente. Somos uma banda dos anos 90, mas nos anos 80 a coisa era dividida por tribos, havia os punks, os metaleiros, os góticos, os surfers, e por aí em diante. Nos anos 90 a coisa começa a querer misturar-se um bocadinho mais, os rappers já se tinham unido com os rockers a fazer o Judgment Night, havia a ideia de que se podia confluir. Isso corre ainda hoje, felizmente, como deve ser, tudo é possível. Mas na altura não. Na altura ainda víamos muito a lógica da tribo e o hip-hop tem muito essa lógica, ainda hoje, embora as coisas excitantes a acontecer hoje são no hip-hop, com o Lamar, tudo isso, mas na altura era diferente. Nós chamávamos aos Mind da Gap os Carecas e eles chamavam-nos os Capilares. [risos] Tínhamos uma relação de respeito mas os nossos mundos eram muito diferentes. Quando o convite da editora se faz, para fazer uma coisa juntos, foi o desafio que nos guiou aí. Acho que o EP acabou por ser muito engraçado. Curiosamente na altura serviu também para matar vícios de alguma malta, os Blind ou eram amados ou odiados, não havia muito meio-termo, havia gente que nos odiava profundamente por sermos uma cópia, uma réplica dos Pearl Jam, dos Alice In Chains e daquele movimento grunge de um rock que sempre foi muito mal visto e havia quem nos amasse profundamente, porque achavam que estávamos a fazer coisas que eram perfeitamente normais, trazendo-as para uma outra esfera, com o fascínio de quem olha de longe, a fazer coisas que eram profundamente portuguesas, apesar de tudo. Para além de fascínio, tínhamos algum mérito no que estávamos a fazer, dávamos bons espectáculos, tínhamos essa energia. Os Mind da Gap também, a mesma coisa. O hip-hop era visto como uma coisa de um gueto, não se podia tornar mainstream, ainda por cima eles sempre foram uma banda algo conservadora, na forma old school. De repente essas duas bandas juntam-se e a crítica, que criticava os Mind da Gap ou criticava os Blind Zero, percebeu que se calhar nós estávamos mais abertos às coisas do que a própria crítica estava em relação a nós.

E o nome Blind Zero foi proposto por si?
O nosso nome surgiu de uma imensa lista e é fonético. Era uma corrente de que gostava, forçar as palavras a entenderem-se. Blind Zero é isso, não tem nada a ver com o Ensaio Sobre A Cegueira, ou sobre nulidade, ou zeros e uns. Tem a ver com duas palavras que nós achamos que foneticamente se juntavam e que sobretudo não nos conectavam com rigorosamente nada que quiséssemos fazer no futuro. Poderia ser uma banda satânica, ou que aspirasse ser evangelista, com Blind Zero. Podia ser uma banda rock, como foi.

Lançaram o último álbum, Often Trees, não só em vinil mas também em cassete. Isto surgiu como?
Houve o ressurgimento do vinil e depois começou o da cassete, quase como um objecto pictórico, como uma coisa que se pode apanhar por causa de uma memória de juventude e para quem tem os leitores, com um som diferente. Quem ouve uma cassete, ouve com um som diferente e um vinil também. Não é igual, não é digital. Há muitas pessoas que compram a nossa cassete mas nunca a vão ouvir, é apenas para ter o objecto. Acho que podemos explorar a multiplicidade dos formatos, é um sinal dos tempos, que tudo se consegue fazer mesmo que algumas coisas só tenham uma leitura que aponta o imaginário.

O álbum é de 2017, o que nos dias que correm é muito tempo. O concerto no Capitólio foi o último da digressão dele, ou ainda tem mais para dar?
É um fim formal, não será um fim material porque o disco vai continuar a ser tocado. Nos concertos desta digressão fizemos questão em tocar as músicas todas do disco, foi a primeira vez que o fizemos, porque de facto este disco marca uma ruptura com o que andávamos a fazer nos últimos anos. É um disco muito mais denso e pesado, não só sonoramente. No que se diz e na estética que se procura ter, é um disco muito sombrio e há um imaginário muito bonito para mim, pelo menos. Acho que se vão a muitos bons lugares, um disco sobre o desassombro da floresta, andar no meio dela, subir a árvores para ver mais longe, para ver de cima, mudança de perspectiva, lagos, elementos. Acho que é um disco bonito e deu-nos muito gozo tocar. Aliás, nós começámos a tocar algumas músicas ao vivo antes de ir gravar e essas músicas tinham por parte das pessoas que não as conheciam de lado nenhum uma reacção melhor do que às nossas músicas antigas. Isso acho que quer dizer algo sobre o nosso público, também. É um público que mudou muito, é nesta altura inter-geracional. Tens pessoas de 15 e pessoas de 50, é muito engraçado. O público percebeu que este disco ia ter nos concertos uma intensidade muito grande, portanto vão continuar a ser tocadas seguramente para além do próximo disco.

Na primeira metade destes 25 anos tiveram não só mais lançamentos, como uma presença mediática mais intensa do que daí para cá. É fruto do processo de evolução natural de uma banda e dos tempos que correm ou da vossa própria disponibilidade individual?
Isso é completamente verdade mas tem a ver com não só com a lógica da vida, mas também não temos que querer dizer coisas sempre. Não somos a típica banda de ter um álbum todos os anos, tivemos hiatos, às vezes de cinco anos sem gravar um disco e nunca sentimos que tivéssemos acabado ou esmorecido por causa disso. Simplesmente não era o momento para o fazer. Tem também a ver com as nossas vidas, mas sobretudo com o que nós queremos dizer. Depois também há o fenómeno inexorável do tempo, surgimos numa altura em que éramos a Next Big Thing de algo que ainda não havia antes e depois o panorama muda. O que estamos a fazer deixa de ser urgente para a maioria das pessoas, a música que se ouve é outra, mas se calhar ouvimos menos a música que se ouve, o mainstream entretanto atolou num deserto de indignidade e nós não somos uma banda mainstream, portanto mais dificilmente comunicamos com o mainstream que existe, não queremos de todo comunicar. Tenho, por exemplo, muita dificuldade em ouvir rádio.

Sempre conseguiu comunicar profissionalmente, deixando de lado a vida privada. É fácil fazer isso ao longo destes 25 anos?
É super fácil. Muitas pessoas queixam-se sobre a falta de privacidade que têm pelo que se expõem enquanto artistas ou músicos, tudo depende se deixas as pessoas entrar. Se tu deixas as pessoas entrar para verem o canário na tua casa, estás a abrir uma porta da intimidade, para além da privacidade. Sempre tive uma noção muito clara, a minha vida é a minha vida e a minha arte é a minha vida. Faz parte dela e todas as outras coisas que faço, faço-as com uma dedicação muito bondosa, não faço nada por obrigação. Falar de futebol dá-me imenso gozo, escrever sobre política e sociedade, fazer o que faço nos direitos dos artistas… Para mim é muito fácil distinguir tudo isso, todo esse trabalho, da minha vida privada. Nunca expus a minha vida privada e sempre tive horror e pavor a quem o faz.

Como é que encara as várias áreas da vida, são todas projectos paralelos sem existir um principal?
Todo o artista tende a consumir-se na sua arte, se puder. Se os Blind Zero tivessem aparecido num país que não tivesse 10 milhões de habitantes, porventura eu estaria só a fazer música ou a escrever músicas para outros e para mim, a escrever livros e se calhar tinha tentado já, com a liberdade que isso me permitiria, ter feito duas ou três curtas-metragens. Ficava perfeitamente bem aí. Continuava a discutir futebol em casa, no café, mas se calhar não estava num escritório a fazer outras coisas que adoro, mas que apesar de tudo não me enchem de tanto prazer como fazer uma canção. É tudo 99% de trabalho. Há trabalhos que inspiram outros trabalhos. Quando escrevo canções, depois avidamente quero ouvir outras coisas que se andam a fazer. É quase como se o trabalho memorizasse que sou um artista, entendes? Isso é algo que pode consumir uma vida, positivamente.

As pessoas mudam muito ao longo de um quarto de século. A que nível é que isso se reflete nos vários elementos que formam uma banda e é compatível com o que os fãs, também cada qual com a sua própria evolução, esperam dela?
Nós vamos mudando e somos em grande parte o que fazemos. Uma vez perguntaram ao Marilyn Manson quem era o Marilyn Manson. Ele, no meio daquela falta de costelas, terá dito, “Eu sou o que faço”. Não acho que seja verdade mas é uma resposta inteligente para quem é ambíguo. Ele de facto é uma personagem, mas nós não somos umas personagens, somos em palco e em disco exactamente aquilo que somos na vida. Ok, obviamente que pode haver o Jekyll and Mr Hyde, pode haver uma espécie de metamorfose, mas somos direitinhos aquilo que vai cá dentro, não há nada plástico ali. Não há Hollywood. Não há Broadway. Não há luz a piscar. Os nossos espectáculos, os nossos discos, são aquilo que nos vai na alma e portanto são profundamente humanos. Tão aborrecidos como um humano às vezes consegue ser, não temos a pretensão de divertir ninguém, longe disso, nunca tivemos, não somos uma banda dançante, temos de criar a pretensão de que as pessoas parem um bocadinho e que nos permitam entrar no nosso imaginário durante uma hora ou duas e que saiam com a sensação que eu muitas vezes saio de um concerto ou de um filme: amplamente projectado para a vida por esse filme durante uma meia dúzia de horas. A ver a vida por esse prisma, eu acho que isso é notável, porque são momentos de escape proporcionados pela arte neutral. Nós crescemos muito com isso e modificamo-nos muito com isto, não era a mesma pessoa se não tivesse uma banda, era outra pessoa.

A experiência na banda deu-lhe uma tranquilidade em frente às câmaras de televisão?
É tudo um somar de experiências, acredito que sim. A televisão é um meio muito diferente de tudo, um concerto é vertigem, a televisão é voraz. São coisas diferentes. A televisão é profundamente vampiresca, come-te a todo o tempo e projecta-te a todo o tempo, sobretudo na televisão que eu faço. Já fiz o Factor X, era transversal, havia pessoas que vinham ter comigo a falar sobre o programa com seis anos ou sessenta anos. Acho isso estupendo. Quando as pessoas me abordam na rua, há muitos anos que é assim, eu não sei do que vêm falar, podem vir falar sobre futebol, sobre política, sobre a banda, sobre tanta coisa, e depois as coisas não jogam necessariamente com as idades ou com aquilo que pensamos, olhamos quando uma pessoa nos aborda, pensamos esta pessoa veio falar disto e 50% das vezes não é assim. As experiências mais bonitas são de pessoas improváveis a falar sobre nós.

Será das figuras ligados ao FC Porto mais respeitadas pelos adeptos dos outros clubes, concorda?
Não ousaria dizer tanto, mas para já acho que o respeito é muito bonito, portanto esse respeito eu exijo-o de toda a gente porque não falto com ninguém e o futebol é um mundo com muita falta de respeito. Eu vejo o futebol com um lado clubístico. Gosto muito de saltos de ski, a minha segunda modalidade favorita, nunca a pratiquei, não há neve em Portugal que permita ser um atleta, mas gosto muito desde a altura em que a RTP nos servia saltos de ski e Fórmula 1, quando era miúdo e ficou algo. É um desporto onde torço por todos. Eu gosto de saltos de ski. No futebol eu gosto de futebol, mas para gostar de futebol, em Portugal eu gosto do Futebol Clube do Porto. É o meu clube, a minha paixão, que não troco por nenhuma outra paixão no mundo. Como os benfiquistas e os sportinguistas dirão do seu clube. É algo que tem a ver com afecto, com irracional, de família, de clã, do que tu quiseres. Apesar disso eu tento controlar-me. Acho que temos de ter respeito pela inteligência das outras pessoas e pelo amor que as outras pessoas têm pelos seus clubes. Adoro benfiquistas que vivem o seu clube até à morte. Adoro sportinguistas que fazem isso pelo seu clube, eu sou assim pelo meu, sei muito bem o que significa. Do top 5 das minhas alegrias, há pelo menos duas que são do Futebol Clube do Porto. Da vida! E eu tenho um filho. É algo que acho incrível e adoro. Acho que há uma certa dimensão de respeito por parte das outras pessoas, eu não minto a ninguém. Há muitos assalariados e avençados, muita gente a querer fazer propaganda baixa, propaganda low cost nas internets e não sei quê. Há muito esse lado baixo a acontecer. Comigo não, muito porque não respondo, também não me interessa.

A RTP já o tinha partilhado com a SIC, quando foi um dos jurados do Factor X, mas agora que sai do Trio de Ataque para a TVI, também deixa a Antena 1, onde já fazia parte da mobília. Foi uma consequência, se quer sair, sai de tudo?
Isso aí, estás a entrar em algo que eu nunca falei. É muito cedo se calhar.

Pareceu-me evidente.
Eu tive que sair da Antena 1. Não queria sair, tive que sair. Tive alguma mágoa no momento, isto é tudo muito recente, foi há meia dúzia de meses, mas eu optei por sair da RTP para a TVI acedendo a um convite do Sérgio Figueiredo, que já me tinha sido feito há dois anos, portanto foi uma renovação de um convite, e eu tive alguma capacidade de resistência, por vários motivos. Até que chega a um ponto em que tomei uma decisão da qual não me arrependo minimamente, estão a ser tempos diferentes e bonitos na TVI também. Estava no Trio de Ataque há 8 anos, mas estava num programa de rádio na Antena 1, portanto no grupo da RTP, há 14, e não querendo parecer saudosista, 14 são 14. Ainda por cima a rádio, onde a afeição tem mais ramificações, eu fiz rádio na rádio da Universidade de Coimbra quando andava a estudar e o bicho da rádio, é quase uma patologia, nunca deixas de querer fazer rádio, vais querer fazer. Portanto tinha esse programa de rádio, um bocadinho como a minha ligação quase amorosa à rádio. Fui fundador desse programa, começou por ser O Artistas da Bola, mas é o mesmo programa, com o mesmo moderador, à excepção do primeiro ano, quando havia moderação do Tiago Alves, que me convidou para o projecto. E portanto, sair ao fim de 14 anos, porque eu estava a sair da televisão, não me pareceu justo. Não me pareceu tão pouco equilibrado, nem equitativo em relação a muitos outros exemplos. Eles quiseram emoldurar a sala da administração com a minha figura, mantendo muitos outros quadros na arrecadação por pendurar. Acho que fico bem lá.

Mesmo fora da RTP, foi convidado para escrever um tema para o Festival da Canção. Era algo que já lhe tinha passado pela cabeça?
Desde que a RTP assumiu, e tão bem, o Festival da Canção há uns anos esta parte, que as hipóteses começam a aparecer. Eu via o Festival da Canção como toda a gente via, quando era miúdo, e o Festival da Eurovisão, fazia os papéis da votação com os meus pais e as minhas tias em casa e era uma dimensão familiar, era muito giro e tenho discos do Festival da Canção dessa altura. É algo que estava tão no nosso imaginário como a Fórmula 1 e os saltos de ski. Depois do Salvador ganhar, independentemente do que venha a acontecer de bom ou mau, ganhou um lastro de dignidade para alguns anos e a RTP está a tratar muito bem, penso eu, este produto. Mais uma vez convidou vários autores, convidou-me a mim e eu achei que era bom, gostava de o fazer e inscrevi-me. Resolvi fazer uma canção em português, coisa que eu nunca tinha escrito para que as pessoas ouvissem, então achei que era a altura. Chama-se Lava. É uma história de amor entre dois vulcões, uma canção simples. Neste caso tive a oportunidade de escolher o intérprete e escolhi um extraordinário, que se chama Daniel, mas assina artisticamente Dan Riverman, tem um EP já editado e uma voz, como diziam do David Sylvian, podia estar a ler a lista telefónica que eu estava bem a ouvi-lo.

E já começou a treinar para o próximo Dança com as Estrelas?
[risos] Eles não iam querer porque eu a dançar sou um triângulo invertido. Eu não gosto de dançar. Gosto muito de me abanar e de me mexer, fique claro, faço-o com muita prontidão. Mas não gosto de dançar, a dança é uma coisa muito séria. Acho que é muito vulgarizada por estes programas, nada contra o entertainment, se calhar a musica também é vulgarizada por concursos e eu acho que não necessariamente. A dança é muito mal tratada na televisão. Há muito programas sobre dança, mas não se consegue ver um espectáculo de dança, acho isso estranhíssimo.

Agora com a TVI tem de vir pelo menos uma vez por semana a Lisboa. Precisava de um desafio ou a parte financeira por vezes comanda a vida?
Precisava sobretudo de me experimentar em sítios diferentes. Repara, a minha vida é feita disso, fazer várias coisas em simultâneo e ter esse desafio quase como um imperativo. Ter respeito por mim e pelas pessoas e não fazer discos iguais. Tentar não repetir fórmulas de concertos, tentar não repetir fórmulas de todo. Tentar não escrever da mesma maneira, falar sobre temas diferentes, acho que isso faz parte dos desafios que me mantêm vivo. O projecto é aliciante, também financeiramente com certeza, mas o facto de sair do Porto tem coisas boas e coisas más. Passo a ter ainda menos tempo para mim, mas pronto, experimento a ponte aérea. Está a ser um desafio infernal. Estou feliz a fazer o que estou a fazer, acho que o programa é recente e tem ainda muito por onde ir. As pessoas já estão a ver-nos com alguma química, sendo que temos uma dimensão de respeito pela opinião uns dos outros que eu acho que é fundamental e insubstituível para que eu possa fazer um programa desses. Não faria outro tipo de programas.

Já disse que, “depois descobrem que por trás de um portista há um ser humano”. A divisão Norte-Sul provocada pelo futebol é algo que está entranhado para as próximas gerações?
A rivalidade é algo que nos move e é fundamental, sobretudo num desporto colectivo. Tomares a parte dos teus, encarares o desafio para além do futebol, há mais coisas que se jogam num jogo de futebol, por vezes. É desporto mas é às vezes a identidade, a identificação, a permanência, é um afecto enorme que passa a tecnicidade, a táctica, a beleza, é emoção pura. Com isto eu não quero dizer que não estejamos a viver patamares de absoluta irrazoabilidade no que é o discurso sobre futebol e o que é a violência gratuita, às vezes até física, inacreditavelmente por causa do futebol. Mas isso é um legado de educação. O futebol não tem nada a ver com isso. Isso tem a ver com a educação que transcende o desporto.

Apesar de não receber recados por parte de ninguém sobre as opiniões que exprime na televisão, é possível que por vezes se auto-censures para não ferir o clube?
Não há nenhuma cartilha no Futebol Clube do Porto, há cartilhas no Benfica, é sabido, são evidentes. E são duas formas de ver a vida. Sobretudo quem as recebe, acho que o clube enquanto associação desportiva pode fazer o que entender. Eu tenho acesso a qualquer canal de informação no Futebol Clube do Porto, posso falar com as pessoas e falo com as pessoas, quando quero, e eles falam comigo quando querem e mal seria. Não recebo, não recebi e nunca admitiria na minha vida receber informação sistematizada semanal permanente com frases textuais sobre o que devia ser dito. Era mais o que faltava! Há coisas que têm a ver com o nosso afecto, que eu quero discutir dentro do meu clube, não cá fora. Como há coisas da minha família que eu posso transportar para alguns amigos próximos, mas não transporto para todos os meus amigos. É sempre essa dimensão, no fundo para fazer bem aos nossos. Portanto sim, há coisas que acho do meu clube e não digo na praça pública. Mas digo sempre que posso àqueles que considero que devem ouvir o que quero dizer. Sempre.

Consegue ir além do natural e politicamente correcto “espero que ainda esteja lá por muitos anos” e imaginar um FC Porto sem Pinto da Costa?
Tenho muitas dificuldades em descobrir portistas que não tenham uma enorme dívida de gratidão em relação ao Presidente Pinto da Costa e até na sua dimensão humana, que é muitas vezes relativizada, fruto da vontade de confundir futebol com pessoa. É muito conhecido o seu sentido de humor e eu acho que ele devia ser mais conhecido pela sua enorme inteligência e perspicácia e atenção para o que o rodeia, sensibilidade. Nesse sentido é um homem ímpar. Depois, o clube é maior que toda a gente. O Pinto da Costa não pensará outra coisa e já o disse. Ele está sempre a pôr o clube à frente de si próprio. Mais alto que si próprio. Acho que o segredo é esse. Ele tem essa noção e obviamente que quando sair, espero que demore bastantes anos, o FC Porto só poderá ser ainda maior, porque é esse o legado que ele deixa, é fazê-lo crescer.

Apesar de nunca ter desejado qualquer cargo no clube, quando a cadeira dele estiver vazia não é de sonho para qualquer portista?
Qualquer portista tem a ideia de poder fazer algo pelo seu clube. Eu não faço planos, sinceramente, de nada, nunca fiz planos a longo prazo na minha vida, sempre deixei que ela acontecesse, nunca criei condições, nunca tive cunhas, nunca tive padrinhos, nunca tive cenas, nunca procurei nada, nunca procurei fazer construções da base, nunca pensei nisso. Já tive muitos convites para política, já tive muitos convites para fazer coisas que não fiz, que recusei.

Não se sente tentado pela política? Na faculdade chegou a estar envolvido.
Sim, pertencia ao Comité Central do PSR. O PSR é o Partido Socialista Revolucionário, um dos partidos que esteve na origem do que é hoje o Bloco de Esquerda, depois com a UDP e o Manifesto XXI. Eu sempre estive na luta contra a PGA, quando era miúdo, estive na luta estudantil na faculdade, sempre estive próximo do Bloco de Esquerda, dou a cara por muitas pessoas dentro do partido, já fui mandatário do Francisco Louçã para a Presidência da República, quando me pedem para dizer umas palavras, em comícios ou em sessões, raramente digo que não, só se não puder. Tenho convicções políticas muito fortes e tenho muita confiança em gente daquele partido. Sou muito próximo do Bloco de Esquerda, sim, e acredito nas causas. Mas isso não quer dizer que queira fazer uma coisa que ache que não vou fazer bem. Acho que a política, como cargos desportivos, implica uma dedicação quase inequívoca mas unívoca. Uma dedicação inteira. Não me sinto capaz de abdicar do meu mundo plural. Acho que não o faria bem nesta fase.

Quem assistiu de perto à governação de Rui Rio no Porto fica ansioso pelo que poderá fazer em todo o país?
Fui um dos ferozes opositores de tudo ou de quase tudo, da forma como o Rui Rio tratou a cidade do Porto nos seus anos de mandato autárquico. Acho que foi tenebroso, o Porto empalideceu. Isso por outro lado também criou condições para aparecer um imenso deserto onde começaram a nascer flores e depois notou-se, quando o Rui Moreira assume a Câmara, também com a enorme mundividência do Paulo Cunha e Silva, o vereador da cultura na altura, entretanto falecido. A forma como o Porto mudou. Mas também mudou porque havia condições para mudar. As pessoas estavam profundamente enterradas na areia, mas já com as flores e com a cabeça de fora, a dizer, “Nós fomos trabalhando debaixo da terra”. Houve muito trabalho, muita resistência. O Porto é uma cidade de resistência, que se prende ao Coliseu para que não seja tomado pelos evangelistas, é uma cidade que protesta para que o Rivoli seja uma coisa e não outra. O Porto prende-se à sua identidade permanentemente e por isso a conserva e catapulta e ultra-dimensiona. Esta é a cidade que eu prezo, esta é a cidade que eu amo, que não quero abandonar nunca. Esta é a cidade que nunca vou admitir que se perca. E por isso, sempre tive para com Rui Rio um enorme desalento de perceber que tinha a governar a minha cidade um contabilista com uma folha de Excel, que não percebia o que era a cultura, nem grande parte das forças vivas daquela cidade. Com alguns méritos certamente, que ele acaba por ter agora como líder do PSD, curiosamente porque olhando para o PSD actual, não vejo melhor que o Rui Rio. Não o quero para o país, mas acho que pode fazer uma purga no partido, que o PSD tanto precisa depois de tantas negociatas, tanta ala liberal, tanta Santanada. Talvez seja o homem ideal para não demorar muito tempo a fazê-la.