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Michael Imperioli: “Gostava de simplesmente vaguear por Lisboa. Sentar-me no café e ver a cidade passar”

O eterno sobrinho de Tony Soprano conta-nos como foi viver em Lisboa, fala de Muhammad Ali, Lou Reed, Spike Lee, o 11 de Setembro e muito mais.

1. Em que é que se inspirou para a personagem em “Cabaret Maxime”?
Uma parte da história foi inspirada por The Killing of a Chinese Bookie, de John Cassavetes. E o Ben Gazzara, o protagonista, era um dos meus actores preferidos, com quem pude vir a trabalhar e me tornei amigo. Eu nunca uso outras interpretações como inspiração, mas aqui achei apropriado. Não tanto pela personagem dele no filme, mas o significado do Benny para mim enquanto pessoa e actor teve, de facto, uma influência na minha personagem.

2. É de Nova Iorque. Existiu lá alguma coisa semelhante a este cabaret?
Houve alguns sítios ao longo dos anos, mas mais na parte das performances, do que no burlesco. O Cabaret Maxime será sempre a referência tradicional desse tipo de espectáculos.

3. O Bruno de Almeida já fez vários filmes consigo. Como é que nasceu a amizade?
Eu já tinha trabalhado com o Bruno há 20 anos, em On the Run. Já temos um longo percurso juntos. Quando ele vivia em Nova Iorque, foi quando nos conhecemos. Trabalhámos juntos e temos sido amigos desde aí. E há cerca de 10 anos, começámos a pensar em ideias para este filme, que passaria pelo Cais do Sodré. Mas nunca chegámos a algo fixo, queríamos mais ideias, diferentes escritores. O Bruno tinha uma emoção e uma conexão maior com este conceito. E há uns anos, teve a ideia deste clube e desta personagem a tentar ter a sua família e o seu trabalho, juntos de alguma forma. E estava relacionado com o processo de gentrificação que tem vindo a ocorrer em Lisboa, com as mudanças e o mundo inteiro a desaparecer.

4. Já tinha contracenado com a Ana Padrão em “Lovebirds”. Neste novo filme, em que vivem uma relação depressiva, como é que gere a emoção com a representação?
Adoro trabalhar com a Ana. Tenho uma grande admiração por ela, é uma actriz apaixonante, muito comprometida e empenhada nos seus papéis. A emoção é universal, portanto o objectivo é encontrar os paralelismos. Algumas das cenas foram muito difíceis, um pouco violentas. Mas como já trabalhámos antes, eu respeito-a imenso e acho que ela também confiou em mim. Tínhamos que trabalhar com uma forte proximidade, e conseguimos ir a alguns desses lugares negros com um pouco de segurança.

5. Quanto tempo esteve em Lisboa e o que é que fazia além de filmar?
Vivi em Lisboa dois meses, mas já cá tinha estado muitas vezes. Gravei bastante, mas quando não estava a trabalhar, gostava de simplesmente vaguear pela cidade. Explorar um pouco, sentar-me no café e ver a cidade passar. É uma cidade muito, muito bonita. É só andar pelas ruas e sente-se logo a beleza. Adorei gravar na Rua Cor de Rosa, foi muito divertido. A primeira vez que tinha lá ido foi há cerca de 12 anos e mudou muito. Ainda tinha aquela vibe mais negra, que agora parece que deu lugar a algo mais cosmopolita e moderno.

6. Não é grande fã de conduzir. Alguma vez se aventurou por cá?
Nunca conduzi aqui. Conduzo em Roma e Palermo, e aí já é um verdadeiro desafio. E conduzi muito em Nova Iorque, portanto já não vivo intimidado por isso. Não conduzi até aos meus trintas, mas desde que comecei já tive que aceitar um pouco.

7. Em 2006 a estreia mundial da sua banda La Dolce Vita foi no Maxime. Ainda está ativa?
Não temos estado ativos nos últimos anos, por variadas razões. Mas tenho esperança que voltemos no futuro. Mas sim, o nosso primeiro concerto foi no verdadeiro Maxime. E dois anos depois, regressámos ao Musicbox. Ainda está lá na rua do Cais do Sodré, não está? Óptimo.

8. Quando encontra colegas dos “Sopranos” num novo projeto, como acontece em Cabaret Maxime, a nostalgia aparece?
Oh se aparece. Os Sopranos foi uma grande parte das nossas vidas. Há algo ali com os actores, David Proval, John Ventimiglia, Arthur Nascarella, que todos partilhamos. Vai sempre ser algo muito forte para nós, entre memórias e conexões especiais.

9. Uma boa parte da sua vida foi enquanto “sobrinho” do James Gandolfini. Qual foi a principal coisa que aprendeu com ele?
Muitas coisas. O James era um actor muito empenhado, quando ele representava penso que dava 110%, o tempo inteiro. Ele trabalhava imenso, trabalhou bastante naquela personagem, naquela série. Mas quando gravava, nunca tomava nada como garantido. E isso era impressionante. A outra coisa que me marcou foi a grande generosidade que ele tinha com todos os actores e colegas. E ele era a personagem principal, portanto também era o líder do grupo de certa forma e isso era uma responsabilidade. Se estiveres de mau-humor ou não tão animado, isso afecta toda a gente. E agora no Cabaret Maxime, em que eu fui o protagonista, claro que o Bruno é que era o líder de tudo, mas eu acabava por assumir um bocado a gestão das coisas com os actores. Ser profissional e fazer com que as pessoas experienciassem boas sensações, fazê-las sentir úteis, que não são apenas contratados. O Jim foi uma grande influência nesse aspecto.

10. Ficar ligado para sempre a uma personagem, como lhe aconteceu com o Christopher, dos “Sopranos”, tem aspetos negativos?
Sim, tem um lado negativo. Mas a parte positiva é que profissionalmente as oportunidades que são dadas numa série como essa, que tem tanto sucesso e respeito, são muito boas para a carreira. Só que claro que as pessoas te podem confundir com a personagem; elas identificam-te como aquele tipo de pessoa, em que só há uma parte de ti. Mas às vezes, o mundo dos espectáculos pode ser um pouco limitado na forma como te vê.

11. Quando está envolvido num projeto de grande sucesso como esse tem receio de ser morto no ecrã e ter que abandonar aquilo tudo?
Também pode ser cancelada. Isso escapa completmente ao teu controlo. Eu tento não ficar muito preocupado com isso.

12. Como foi cancelada a série que estava a fazer agora, “Alex, Inc”. Trabalhar em TV por vezes pode ser cruel?
Sim, mas eu olho para as coisas de outra forma: fazer uma temporada completa é, na verdade, um óptimo trabalho. A representação é uma carreira muito difícil e se fazes alguma coisa para televisão, vai-te dar mais trabalho. Portanto, eu olho para uma só temporada mais como um sucesso, do que qualquer outra coisa. Estou tão habituado a seguir em frente, que é o que nós todos temos de fazer, que não levo essas coisas a peito. Tem de se avançar.

13. Sabe o que vai fazer a seguir a “Primal”, o filme que tem estado a gravar com o Nicholas Cage?
Terminei mesmo a semana passada as gravações. Eu escrevi um romance e ainda estou a lidar com toda a promoção nos Estados Unidos. Vai ser publicado em Itália, em Junho, portanto vou até lá para um Festival de Literatura. Também vai ser publicado em francês, e por isso irei até Paris. E é principalmente nisso que estou focado agora.

14. Sim, “The Perfume Burned His Eyes”. Nesse livro, a personagem principal torna-se amiga de Lou Reed, com quem criou uma amizade depois de o ter conhecido num jogo dos Knicks. O Madison Square Garden é um excelente local para conhecer pessoas?
Claro. Mas quando o conheci aí, não ficámos logo amigos, foi uma rápida troca de ideias. Acho que ele nem sabia quem eu era. Cerca de cinco anos depois disso e de Os Sopranos estar no ar, fui a um concerto dele e fui convidado para o backstage. E tornámo-nos amigos desde desse momento. Mas sim, o Madison Square Garden é um óptimo sítio para conhecer gente, porque todos os tipos de pessoas do mundo do espectáculos e os media estão nos jogos dos Knicks; portanto, nunca sabes ao lado de quem é que podes vir a ficar sentado, é um espaço muito entusiasmante.

15. Participou em seis filmes do Spike Lee, provavelmente o mais famoso adepto dos Knicks, chegando até a co-escrever o argumento de Summer of Sam. Foi simplesmente acontecendo?
O primeiro filme que eu fiz com ele foi o Jungle Fever, no ano a seguir ao Goodfellas. Demo-nos muito bem, e ele disse que íamos trabalhar juntos outra vez. Ele é um homem muito leal, contratou muitos dos mesmos actores em diferentes projectos. Um pouco como o Bruno faz, que trabalha com muitas das mesmas pessoas. E eu acho que o Spike faz a mesma coisa. Ele sempre foi bom para mim, muito leal e adoro trabalhar com ele.

16. “Goodfellas” abriu-lhe as portas para futuros papéis. A sua vida tinha sido completamente diferente se não tivesse conseguido esse papel?
Sim, já tinha estado em três outros filmes antes, com papéis pequenos, que não foram muito memoráveis. A questão com o Goodfellas é que todas as pessoas viram e toda a gente na indústria, do cinema e da televisão. Foi a primeira vez que eu de facto dizia às pessoas para irem ver um filme. E isso realmente ajudou a fazer disto uma base diária de trabalho, muito boa para a minha carreira.

17. Mas, mesmo depois do “Goodfellas”, ainda servia às mesas. As adversidades nos primeiros anos de carreira são as mais difíceis de enfrentar?
A questão é que na representação é tudo muito duro. Há muita competitividade, e tu tens simplesmente que te aguentar e não desistir. Fazes um filme com o Martin Scorsese, mas não quer dizer que possas fazer já vida como actor. É um desafio manteres a mente positiva num lugar em que acreditas que a situação vai mudar e que vais conseguir fazer uma carreira. Não há garantias, portanto é mais um compromisso contigo próprio, para assegurar que podes sobreviver a isso tudo.

18. Uma vez levou Muhammad Ali para dentro do set e apresentou-o a Gandolfini. Por vezes parece que está numa Disneyland para adultos?
Isso foi incrível. O manager dele contactou com o meu, para conhecer o James, o que eu achei muito estranho. E quando ele entrou, literalmente toda a equipa parou de trabalhar. Aplaudiram-no, as pessoas começaram a chorar… Ele tirou fotos com toda a gente, com todos os membros da equipa. Foi muito emocionante, muito tocante. Havia imenso respeito e admiração por ele. Mas eu tenho sido um sortudo, tenho tido experiências extraordinárias com grandes personalidades. Mas, ao mesmo tempo, ainda tens de sair à rua e procurar trabalho, tenho períodos de desemprego, em que não sei quando terei o próximo trabalho, fico inseguro e depois volto a trabalhar. É como um jogo psicológico, pelo qual muitos actores passam. E cada vez que consegues um trabalho, tens de novamente provar a ti mesmo que és capaz, e volta tudo outra vez.

19. Estava bastante perto das Twin Towers no 11 de Setembro. Sentes-se mais seguro na América de hoje?
Hum… Isso é uma pergunta muito boa. Acho que ninguém se sente seguro, em lado nenhum. Penso que a América tem um grave problema com as armas. Há muitos sítios no mundo que não as têm. Vimos em Paris, na Alemanha, actos terroristas em países que têm políticas restrictivas de armas. É a realidade em que estamos a viver. Eu espero mesmo que a geração mais nova mude as coisas. Nós tivemos um tiroteio horrível na Florida, há poucos meses, e os adolescentes, as pessoas jovens, estavam muito bem organizados a dar voz a isto; manifestaram-se não só na Florida, mas também em Washington e todo o país. E são estes miúdos que vão herdar e tomar conta da nossa sociedade. Eles são espertos e querem viver num mundo diferente, portanto eu até tenho mesmo muita esperança no futuro. Estes miúdos vão poder votar em breve, e acho que vão fazer escolhas inteligentes e promover a mudança das coisas para melhor.

20. Parece que é desta que os “Sopranos” estão de regresso, com uma prequela no cinema. Acha que é boa ideia voltar a mexer num universo tão elogiado que é quase sagrado?
Do que eu ouvi, o David Chase está a escrever um filme que ocorre em 1968; e em Newark (New Jersey), havia nessa época muitas rebeliões racistas entre negros e brancos. Não sei se o filme vai ser mais sobre isso, ou apenas sobre personagens que serão versões anteriores de Os Sopranos. Eu tenho um feeling que vai ser mais um novo episódio da série. Mas tenho de colocar a minha fé no David Chase, que ele sabe o que está a fazer e vai escrever algo muito bom.