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Madjer: “Quero aproveitar o tempo que estive ausente da família. Sofreram muito”

Aos 42 anos, João Saraiva retira-se do futebol de praia como campeão do mundo e melhor atleta de sempre da modalidade. No momento do adeus, o craque que conhecemos como Madjer conta-nos tudo.

São poucos os desportistas portugueses que se podem gabar de ter no currículo três títulos mundiais e uma carreira tão longa. Agora que os dias dos pontapés acrobáticos na areia terminaram, é hora de fazer as contas das duas décadas de sucessos. O momento do adeus não poderia ter sido melhor: com a terceira vitória da seleção num Mundial, conquistada em dezembro no Paraguai, Madjer achou que estava na altura de fechar o ciclo, precisamente no ano em que a revista “France Football” o elegeu como o melhor de sempre da modalidade. O percurso poderia ter sido bem diferente.

Apaixonado pelo futebol de onze como quase todos os miúdos, viu o sonho ser-lhe roubado por um acidente de viação. Recuperou e ainda ensaiou uma incursão nos relvados, sem sucesso. Sportinguista de coração, nome de ídolo portista e bom garfo, a PLAYBOY quis saber o que vai no coração do craque na hora da despedida.

Uma, duas três. Ser campeão do mundo a triplicar não é para todos. Esta foi especial?

Elas são sempre todas diferentes. Em 2001 foi a primeira vez que fomos campeões do Mundo com uma modalidade relativamente recente em Portugal, logo no país que detinha o título [o Brasil]. Em 2015 teve um sabor diferente porque conquistámos pela primeira vez já sob a alçada da FIFA e em Portugal. Desta vez foi muito mais especial porque foi o meu último jogo de futebol de praia e sair como campeão do mundo é, sem dúvida, um sentimento fantástico.

Porque é que sentiu que este era o momento para deixar de jogar?

Fazia sentido sair, dando algo a tanta gente que me apoiou ao longo da carreira, que me fizeram acreditar que era possível ser campeão e ganhar o título de melhor jogador do mundo. Em tudo na vida, quando terminamos algo, temos que o fazer de forma a sentirmo-nos realizados. Foi isso que aconteceu.

A idade também ajudou.

Além dos 42 anos, embora ache que a idade seja só um número, acho que acabo por servir de exemplo para outras gerações — e é este legado que quero deixar. Chegou a altura de passar para fora do campo.

E agora, o que vai fazer da vida?

Eu preparei esta saída, não foi uma decisão por impulso. Tenho os meus cursos tirados, já era instrutor da FIFA e dava palestras, tenho uma ligação ao Sporting como gestor da modalidade. E já recebi convites, resta-me tomar a decisão mais acertada e ver o que será melhor para mim.

Então vai manter-se ligado ao futebol de praia.

São 22 anos de carreira ligados a uma modalidade na qual deixei muitas portas abertas, aqui e lá fora, e não fazia sentido enveredar por outra área que não esta. A minha carreira não deixou de ser um investimento a nível de futuro. O meu principal sonho neste momento — e não é só um sonho, vai ser uma realidade — é o de tentar recuperar ao máximo o tempo que estive ausente da minha família. Eles sofreram muito. Perdi muitas etapas do crescimento dos meus filhos.

Madjer: "Quero aproveitar o tempo que estive ausente da família. Sofreram muito"

E a sua infância, como foi?

Foi uma luta muito grande porque os meus pais não tinham muitas posses e ensinaram-me a lutar pelas minhas coisas, porque ao contrário do que vejo hoje em dia — em que existe muito facilitismo em relação às crianças —, mesmo pais com dificuldades tentam proporcionar tudo do bom e do melhor aos fi lhos. Eu também gosto de o fazer, mas de forma equilibrada, até pelas dificuldades que passei. Os meus pais sempre me ensinaram a lidar com elas.

Dava-lhes muito trabalho ou era um rapaz pacato?

Dei algum, mas era um trabalho saudável. Os meus amigos de infância riam-se imenso porque eu andava sempre todo partido, ou era por andar de bicicleta ou por jogar à bola. A minha mãe andava sempre a correr comigo para o hospital. Dei-lhes muitas dores de cabeça.

Qual foi o pior acidente?

Foi sem dúvida quando tive o acidente de mota com 17 anos, altura em que somos teenagers inconscientes e achamos que somos super-heróis. Agora valorizo muito quando a minha mãe dizia que cada vez que eu saía de mota ela ficava com o coração nas mãos. Agora que tenho filhos revejo-me nas palavras dela, apesar de os meus filhos ainda não terem idade para ter mota.

Como é que isso depois mudou a sua relação com as motas?

As motas são outra das minhas grandes paixões. Claro que depois de termos filhos temos que fazer uma reorganização mental. Tenho perfeita noção de que é perigosíssimo e tendo filhos, se eles começarem a pedir… É o caso do meu filho mais velho, que fez agora 16 anos e já anda a namorar-me para me pedir uma mota. Como é óbvio, não vou dar-lhe uma mota, mas amo motas. Depois de me tornar jogador de futebol de praia profissional, assinamos contrato que proíbe fazer desportos radicais e tive que deixar a paixão de lado. Continuo a ter a minha mota para dar umas voltinhas perto de casa, mas só para isso, nada mais…

Madjer: "Quero aproveitar o tempo que estive ausente da família. Sofreram muito"

E algum dos seus filhos também quer imitá-lo na profissão?

O Bernardo, que tem 16 anos, já joga futebol no Belenenses. É apaixonado por futebol de praia, mas também acho que nunca fui aquele pai que diz ‘porque fui jogador, eles vão ter que seguir as minhas pegadas’. Sou aquele tipo de pai que quer que eles sejam felizes e realizados. O futebol de praia a nível de formação ainda é muito escasso, não existe muita formação e por isso enveredou pelo futebol tradicional. Mas tendo em conta que ele viu o meu sucesso e que também na escola já lhe chamam de Madjer, claro que ele me vê como exemplo e quer seguir as minhas pegadas.

Graças ao futebol de praia alcancei coisas impensáveis, como ser campeão do mundo ou ser o melhor jogador do mundo.

É natural não é? O Madjer provavelmente também sonhou em fintar nos relvados.

Como muitas crianças, sonhava ser jogador de futebol. A vida trocou-me as voltas, embora me tenha mantido ligado ao futebol, ao de praia, e não ao de onze. Na relva, joguei nas camadas jovens do Estoril, também joguei no Atlético, mas depois o acidente de mota retirou-me esse sonho. A verdade é que depois, quando voltei — porque estive dois anos parado —, já não tive a capacidade para voltar aos relvados. Fisicamente tinha perdido muita coisa e então optei por fazer outro tipo de vida, reorganizar tudo e recomeçar a trabalhar. É aí que surge o futebol de praia na minha vida, a convite do Carlos Xavier e do Sotil, que foram meus ex-colegas. É daqueles casos que é para dizer que há males que vêm por bem.

O futebol não foi profissão única, pois não?

Sou um homem dos sete ofícios. Trabalhei numa discoteca, em bares, numa bomba de gasolina, na Companhia das Sandes. Esta foi a educação que a minha mãe me deu: a de lutar pelas minhas coisas, nunca me neguei a fazer nada para ter o que precisava. Como tive que reorganizar rapidamente a minha vida depois do acidente, surgiram outras profissões que pouco têm a ver com o desporto, mas que foram necessárias.

Madjer: "Quero aproveitar o tempo que estive ausente da família. Sofreram muito"

Curiosamente, mais tarde chegou mesmo a estar perto de concretizar o sonho de se tornar jogador profissional de futebol, embora não tenha resultado…

Jogava futebol de praia há relativamente pouco tempo e a minha consciência dizia que aquilo era só uma experiência, até porque a modalidade não era muito profissional em Portugal. Não sabia muito bem como ia ser o futuro. Surgiram dois convites, um do V. Guimarães na altura e um do Paços de Ferreira mais tarde, e eu agarrei a oportunidade. Tentei e agradeço às pessoas que me deram essa possibilidade novamente de tentar, mas rapidamente percebi que tinha perdido muito tempo afastado do futebol e se calhar não conseguiria voltar a jogar ao mais alto nível como poderia pensar. Os meus colegas motivaram-me, porque sabiam o impacto que teria um jogador de futebol de praia passar para um clube da primeira divisão — poderia significar que muitos outros poderiam fazer essa passagem. Os colegas do futebol de onze receberam-me de braços abertos, mas alertaram-me para as dificuldades que eu iria encontrar, até porque eles tiveram carreiras sem interrupções no futebol. Eu estive parado, passei para o futebol de praia…mas pelo menos tentei.

Sou um homem dos sete ofícios. Trabalhei em discotecas, bares, bombas de gasolina, até na companhia das sandes.

Falhou na relva, brilhou na areia. Alguma vez sonhou, enquanto miúdo, que poderia conquistar algo assim?

Acho que é importante sonharmos e termos a noção se os nossos sonhos são possíveis ou não. Eu acreditei que era possível e que podia atingir um patamar como tinha sonhado no futebol de 11. E acho que inconscientemente acabamos por traçar objetivos na nossa vida e o meu era chegar o mais longe possível. Ainda por cima vendo ídolos do futebol e referências, eu queria ser como eles, queria chegar lá. Nunca pensei que podia ser o melhor do mundo isso, vou ser muito sincero, nunca passou pela minha cabeça. Mas sonhei atingir um patamar alto. A verdade é que através do futebol de praia alcancei coisas que eram impensáveis, como ser campeão do mundo ou ser o melhor jogador do mundo.

Curiosamente, começou a carreira em Itália.

Fui o primeiro jogador estrangeiro a jogar no campeonato italiano, numa equipa que se chamava Cavalieri del Mare. Foi a partir daí que comecei a minha caminhada no estrangeiro, joguei cerca de seis ou sete anos em Itália e foi a minha primeira porta internacional, esse clube a quem devo muito. Claro que em termos familiares era mais complicado porque estava muito ausente e custava-me imenso.

Madjer: "Quero aproveitar o tempo que estive ausente da família. Sofreram muito"

Uma carreira tão longa deve estar cheia de histórias bizarras.

Tive várias, mas há uma que vou recordar para o resto da vida: foi a primeira vez que fui jogar para a Rússia. Os russos são muito desconfiados e lembro-me que o primeiro contrato que assinei com o Lokomotiv de Moscovo incluía um prémio de assinatura. Estava hospedado num hotel e quando cheguei contei o prémio e estava lá dinheiro a mais. No dia seguinte cheguei à beira do presidente e disse: ’Presidente, está aqui dinheiro a mais’. E ele, mesmo do tipo mafioso, deu-me uma chapada na cara e disse: ‘Agora sim, bem-vindo à família’. Devemos ser íntegros e honestos naquilo que fazemos porque, se calhar, outra pessoa tinha agarrado no dinheiro, não dizia nada e tinha queimado um bocado o filme. Essa é a minha educação, a minha mãe sempre me disse para ser honesto e correto com as pessoas. Acabou por ser um teste que fizeram à minha fidelidade e passei.

Diziam que eu era parecido com o Madjer a jogar. Passaram a chamar-me puto Madjer.

Poucas pessoas sabem que o Madjer é, afinal, um senhor chamado João Saraiva. Como é que surgiu a alcunha?

É um contrassenso sendo eu sportinguista e tendo o Madjer sido um grande jogador do FC Porto. Quando tinha dez anos, em 1987, o Madjer estava no auge da carreira e o FC Porto tinha acabado de ser campeão europeu. Os meus amigos de infância diziam que eu era muito parecido com ele a jogar, que a minha fisionomia era muito parecida – apesar de eu ser canhoto e ele jogar com o pé direito — e então começaram a chamar-me puto Madjer. A verdade é que pegou o nome e agora se me chamarem João na rua raramente olho porque adotei o nome de Madjer.

E isso foi bem aceite, já que é sportinguista?

Foi bem aceite porque era um nome que já me acompanhava. Vim para o Sporting com a carreira firmada, então era um nome que acabou por não ter grande impacto aqui. As pessoas no Sporting até achavam que eu me chamava Madjer, aliás, ainda há muita gente que acha que tenho Madjer no nome, algures ali pelo meio.

Como é que se aguentam as exigências do desporto profissional aos 42, quase a fazer 43?

Sempre tive a preocupação de, conforme os anos foram passando, ter que trabalhar mais do que os outros. Poderá ser esse o segredo, mas acho que também temos que nascer com algo que nos faça ter uma longevidade tão grande. O acumular das duas coisas e, a partir de uma certa altura, trabalharmos com profissionais que nos conseguem direcionar e potenciar o nosso organismo ao máximo, independentemente da idade, ajuda bastante. Sempre comi de tudo. Controladamente, claro, mas sempre comi de tudo. A única coisa que não como é fígado, mas isso é porque não gosto mesmo. Nunca fui daquelas pessoas que dizem que agora não comem carne porque as toxinas da carne podem não potenciar o atleta. Nunca fui disso. Sou um bom garfo.

Há alguma coisa a que não resista mesmo?

Eu e a minha mulher somos um pouco suspeitos porque gostamos muito de petiscos, então não resisto a um bom petisco como chouriço ou caracóis. Nessa parte sou o típico português.