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Luís Filipe Borges: “Só me arrependi de um convidado no ‘5 Para a Meia Noite'”

O Boinas largou a boina mas não a escrita. Foi ela que o salvou de andar à procura de estágio num escritório de advogados. A mãe teve pena. Ele nem por isso.

Sentamo-nos à conversa com Luís Filipe Borges na esplanada da Cinemateca, em Lisboa, para um almoço em modo de conversa. O apresentador, guionista e humorista tem histórias para contar e nós perguntas para fazer. É culpa nossa o prato dele já estar bem frio nas últimas dentadas. Não tem mal. Bem-disposto, o tipo que começou por ser o Boinas há muito que já não liga à boina. “Não queria ser um Pedro Abrunhosa”, explica-nos. Dos recatados Açores até à liberdade em Lisboa, do curso que nunca quis exercer, ao acaso que o levou à televisão, Luís Filipe Borges fala-nos de tudo um pouco. E até revela quem foi o único convidado que se arrependeu de ter no “5 para a Meia-noite”.

Cresceu nos Açores. Como é que era esse tempo?

Acho que o que descreve melhor a minha infância açoriana, que adorei, é os meus pais serem tão conservadores que eu e o meu irmão vivíamos no nosso sótão, a criar os nossos mundos. Desporto era tudo caro e perigoso. Ainda hoje temos centenas de bonecos dessa altura, dávamos-lhes nomes e vida. Havia casais, cidades com clubes de futebol, a Patópolis, feita com livros da Disney, e a Omega, porque o meu pai tinha um relógio e gostei da palavra. O estádio ficava entre as cidades, a corda era um rio, maços de tabaco vazios eram carros de Fórmula 1. Foi muito divertida e solitária ao mesmo tempo.

Não era fácil sair à noite na adolescência, certo?

Até aos 18 anos saí à noite cinco vezes. Lembro-me das cinco mentiras que contei, era sempre um “trabalho de grupo” ou assim. O meu irmão tem menos três anos e acabou por usufruir dos meus choques frontais com os meus pais. Sofri um bocadinho na adolescência mas foi bom para a criatividade.

E como foi a mudança para Lisboa?

Por um lado foi horrível. O meu pai é tão forreta que pôs-me num lar de seminaristas na zona das Laranjeiras. Viviam lá sete putos que estudavam na Católica, três freiras, o padre e eu. Passei as três primeiras semanas a chorar sozinho no quarto. “Estou aqui sozinho, não conheço ninguém”. Ao fim de três semanas foi: “espera, estou aqui sozinho, não conheço ninguém, posso fazer o que quiser”. Foi um delírio. Foram cinco anos de Direito na Clássica a conhecer a cidade a pé, a sair à noite, a fazer amigos. A malta que vinha de fora unia-se muito e fiz um grupo muito fixe e também me apaixonei no segundo ano do curso, o que ajudou. Costumo dizer que sou imigrante. É o mesmo país, é certo, mas uma realidade muito distinta. Na altura era mais caro voar para os Açores do que para muitas capitais europeias. Ias a casa no Natal e no verão.

Luís Filipe Borges: "Só me arrependi de um convidado no '5 Para a Meia Noite'"

Foi tempo de muitas festas?

Foi. Não festas universitárias, nunca liguei a tunas e nada disso, mas com os meus amigos houve um período em que só não saíamos à segunda-feira porque ao fim de quatro saídas concluímos: “pá, se calhar às segundas descansamos, que não se passa nada”. Houve assim um período louco mas faz parte.

Experimentou alguma coisa?

Não gosto de perder o controlo, tenho até amigos que brincam comigo por isso, mas o que se possa fumar, sem dúvida. Coisas mais químicas é que já não é a minha cena, até porque tive amigos com problemas mais chatos e isso também serve de aviso.

Como é que foi parar a Direito?

Com 16 anos os meus pais perguntaram-me se já sabia o que queria fazer. “Quero ser ator”. Pensaram longamente durante 1,5 segundos e responderam em uníssono: “nem pensar”. Até os compreendi, que o meu sonho era voltar aos Açores mas sobreviver como ator nos Açores é impensável.
Estupidamente, fui para Direito porque achei que era o mais parecido. Gostava muito de séries e filmes de advogados. Via as cenas das alegações finais e pensava: “isto é uma pessoa, com o seu texto, a convencer uma plateia. É um monólogo”. Mas o Direito português não tem nada a ver [risos]. Estava lá há pouco tempo e na aula de Introdução ao Direito o professor diz “quem vem para aqui a achar que isto é como na América, desengane-se”. Olho à volta em choque mas a turma estava toda calma. “I made a big mistake” [risos]. Mas fui ficando, apaixonei-me por Lisboa, fiz coisas fixes na faculdade, fundei uma revista literária com dois amigos e o que mais realizou foi o Cénico, o grupo de teatro da faculdade. Os meus melhores amigos e aventuras foram aí. Foi o tempo mais feliz no curso, de tal maneira que tirado o curso há quatro anos e ainda lá estava. Tive que me forçar a sair.

Ainda assim conseguiu terminar o curso, não foi?

Era bom aluno e tudo. Também é preciso de dizer que Direito não é o bicho de sete cabeças que as pessoas gostam de fazer que é. Há dois mitos: um é que é muito difícil, não é. O outro é que marras imenso, mas no primeiro ano é que tens de empinar mais. Os testes são casos práticos. Não decoras leis, o que tens de saber é a que código se ligam, até há um ar de jogo. Com estudo suficiente e algum instinto consegues. Cheguei a dar aulas em História do Direito mas percebi rapidamente que, advogado, nem pensar. Até hoje não sei dar um nó numa gravata. Acho que é o meu cérebro a transmitir uma mensagem.

E como é que se deu o salto para a televisão?

Antes de começar o último semestre do curso, a malta toda já mandava o curriculum para escritórios para ter um estágio no fim do curso. Eu não. Não disse nada aos meus pais, que tinha medo, mas com os dois amigos com quem criei a revista escrevemos uma carta, à antiga, com ideias para um programa, para o Luís Osório, um jornalista de quem gostávamos e que tinha aberto uma produtora. Incrivelmente, ele respondeu e convidou-nos para uma reunião, onde nos explicou educadamente que a nossa ideia era uma merda. Mas houve qualquer coisa naqueles putos que ele curtiu e fomos reunindo todos os meses e daí surgiu uma ideia. No dia em que acabo o curso fiz a prova oral de Direito do Trabalho de manhã, e na minha última refeição na cantina da cidade universitária ele liga-me a dizer que vendeu uma ideia à RTP. Comecei a trabalhar nessa tarde.

” O curso de Direito não é o bicho de sete cabeças que as pessoas gostam de fazer que é. “

 

Não tem sotaque dos Açores. Foi algo que trabalhou?

Primeiro, há muitos sotaques dos Açores. O pessoal cá quando pensa no sotaque pensa no micaelense, que é muito giro e o mais comum. São Miguel foi colonizada por alentejanos, algarvios e belgas franceses. Ouve-se mais os “uh”. Já a Terceira foi colonizada por gente da capital e belgas flamencos e ali come-se os “r” no final das frases. [Exemplificando] “estamos a conversá, a comé, a fotografá”. De resto o meu pai também era muito rigoroso com o português. Acho que quando saí de lá já me restava pouco sotaque terceirense.

Como foi explicar aos pais que não ia seguir Direito?

Foi difícil. E só se resolveu quando os meus pais perceberam que eu conseguia pagar as contas e os vizinhos começaram a dar aquela palmadinha nas costas “vi o seu filho na televisão”. Mas já trabalhava há uns três ou quatro anos e a minha mãe ainda insistia: “agora se calhar fazias um estágio, não?” [risos].

Luís Filipe Borges: "Só me arrependi de um convidado no '5 Para a Meia Noite'"

A boina foi a primeira imagem de marca mas desapareceu. Que se passou?

Tenho psoríase e dava jeito quando havia crises. Já na faculdade, gostava de chapéus. Foi rebeldia juvenil. Achava aquela sociedade muito normatizada, putos daquela idade já de pastinha. E depois foi útil. Quando fui apresentar “A Revolta dos Pastéis de Nata”, o Bruno Santos, brasileiro que foi diretor de programas, disse-me “isso se chama Revolta, você tem um chapéu à Che Guevara”. Estás no zapping e aparece-te um tipo de boina e se calhar páras para espreitar. Tornou-se uma imagem de marca. Depois, com 35 anos, já fazia o “5 para a Meia-noite” há uns anos e a certa altura muitos comentários resumiam-se àquilo. Era Sansão e o seu cabelo, o Borges e a sua boina. Chateava. Estava numa frase de refresh de mim próprio e fez sentido libertar-me do adereço. Não me arrependo. Não queria acabar como o Pedro Abrunhosa. Tem 60 anos e apetece dar-lhe uma estalada: “Tira os óculos, pá”. Há uma idade para tudo.

Pedro Fernandes, Jel, Filomena Cautela… Entre os dois programas houve ali muita malta que se tornou conhecida, não foi?

Às vezes em copos com amigos digo meio a sério, meio a brincar, que sou uma espécie de Júlio Isidro mais novo [risos]. É com orgulho: há uma data de gente que começou nestes projetos e fez um caminho fantástico. É uma mistura de acaso, talento dos próprios e boa química dos projetos. Foram castings bem feitos, mérito do Bruno Santos. Ele escolheu-me por causa de crónicas que escrevia n’A Capital. Não me conhecia de lado nenhum. É um bocado american dream. Eu podia ser um perfeito desastre, sem experiência nenhuma, com mais peso do que a média, mas ele teve um feeling.

Com tantas entrevistas no “5 para a Meia-noite”, houve alguma que correu pior?

Só me arrependo de uma pessoa. Nós fizemos largas centenas de diretos, o país é pequeno, mas não queria repetir convidados. Há uma fase em que recebes sugestões e uma produtora falou no Luís Esparteiro. Acho que é a primeira vez que vou dizer isto publicamente mas que se foda. Até achei interessante porque conhecia o filme que inspirava a peça, o “Boeing, Boeing”. É sobre um playboy a namorar com  três comissárias de bordo ao mesmo tempo e um dia há greve e as três, que não sabem umas das outras, vão ter com ele. O Luís Esparteiro tinha feito esta mesma peça uns 25 anos antes e agora repetia o papel. Até fiquei surpreendido por aceitar o convite. Lembrava-me de ter feito uma piada sobre ele, a dizer que o Luís Esparteiro é o melhor ator do mundo a fazer de Luís Esparteiro. Nesse dia tinha outro convidado, o Armandinho, um músico brasileiro, e quando chego ao estúdio ele está na guitarra, a ensaiar. Nesse dia estava com lata e até cantei a música com ele. No guião entrava o Esparteiro primeiro. Começa o programa e a primeira pergunta até acho que era fixe, sobre interpretar o mesmo papel mais de duas décadas depois. E ele responde: “passaram 25 anos”. Continuámos e as primeiras três respostas são “sim, não, talvez”. Claramente não queria vir e devia estar fodido com qualquer coisa do passado. Dei um toque à régie para o Armandinho entrar mais cedo e caguei para o Luís Esparteiro porque percebi que a atitude dele era muito negativa. No final ainda falámos civilizadamente e ele de facto estava chateado porque tinha feito umas piadas sobre ele. Claramente não queria estar ali. Se não queria, respeito, mas não venha.

“Não me arrependo de me ter libertado da boina. Não queria acabar como o Pedro Abrunhosa.”

Entre escrita, TV e humor há algo que se destaque?

Fazer várias coisas dá-me algo raro: liberdade. Talvez por sermos um país pequeno, somos muito dados a rótulos. Acontece-me frequentemente haver uma espécie de desformatação com quem estou a falar. Estou a fazer um documentário sobre o Manuel Cargaleiro, talvez o maior artista plástico da nossa história, tem 93 anos e vive há muitos anos em Paris. Tivemos uma reunião com uma instituição que poderia vir a apoiar o projeto e o diretor da instituição estava sempre a olhar para mim, come se tivesse encontrado o Wally e este fosse persona no grata. Um gajo por fazer comédia parece que não pode ter outros interesses culturais. Esta coisa dos rótulos é tramada mas dá-me liberdade. A chatice de se fazer uma coisa só em Portugal é que ou és muito bom e tens sorte ou a vida pode correr-te mal. Por isso gosto desse malabarismo entre áreas que têm em comum a criatividade. Mas se só pudesse fazer uma coisa, era escrever. É aí que tudo começa.

Houve algum programa seu que tenha terminado cedo demais?

A menina dos meus olhos é o “Conta-me História”, de 2013, numa fase espectacular da RTP em que a direção lança uma grelha nada tradicional, com programas de verdadeiro serviço público. O programa era um pouco caro mas estava em estado de graça. Todas as pessoas da produção eram super competentes e estavam apaixonadas pelo projeto. Era eu a apresentar com o historiador, o professor Fernando Casqueira, éramos o aprendiz e o mestre. Ele tinha o dom de nos pôr nos momentos da história, com reconstituições. Numa noite gravámos em Alfama, com ruas fechadas para nós. Era sobre a notícia de a corte ir para o Brasil porque vinha aí o Napoleão. Eram uns 80 figurantes, vestidos à época, toda a gente a tentar fugir. Tínhamos chuva feita por bombeiros com mangueiras, era preciso mudar de roupa a cada take. Acho que nunca me diverti tanto a filmar. No dia a seguir vários membros da equipa estavam com gripe mas valeu a pena. Só tenho pena que não tenha havido mais.

Em 2010 deu uma TEDTalk em Aveiro sobre a falta de risco na TV nacional. Como vê esta questão 10 anos depois, com a chegada do streaming e tudo o mais?

Houve um grande shift no mercado, com a chegada das plataformas. Em traços largos, na TV generalista ainda há um certo conservadorismo. Estou curioso em ver o que o Nuno Santos fará na TVI. Admiro-o. Apesar de tudo o acesso rápido do streaming mitigou um pouco o conservadorismo. Há oportunidades. “Não dá ali, fazemos por nós”. Tens um Maluco Beleza, do Rui Unas, o Falta de Chá. Há cada vez mais nichos, com o cabo e o online, e o caminho é esse. A RTP tem feito um bom trabalho com o RTP Lab. Espero que os orçamentos melhorem um bocadinho. Há miúdos a fazer coisas muito boas, autênticos milagres. Portugal é um mercado pequeno mas pode ser que haja novidades. A Netflix, por exemplo, nos sítios onde está tem tido produção própria.

“Só vejo dois géneros possíveis para um guião do futebol português: ou comédia negra ou terror.”

Além de argumentista, é um conhecido benfiquista. Conte-nos: o futebol português, entre suspeitas, broncas e violência, dava um guião, não?

É muito provável e só vejo dois géneros possíveis: ou comédia negra ou terror. Mete um bocado de nojo, basicamente, e aqui meto os gabinetes de comunicação, incluindo do meu próprio clube. Vê-se os países onde há ligas civilizadas e não se escrevem peças com o que dizem os Francisco J. Marques. Cá há um líder de uma claque que dá entrevistas. Não faz sentido. Temo pelo pior. Às vezes dá medo ir ao futebol. Uma vez em Alvalade uns skinheads ameaçaram-me de morte. Tenho amigos portistas e não conseguia garantir “vem à Luz que não te vai
acontecer nada”. As multidões são perigosas. Já tivemos tragédias e algumas tristemente associadas ao meu clube mas acho que estamos à espera de uma tragédia maior, como aconteceu em Inglaterra, com dezenas de pessoas a morrer num estádio, para se fazer algo.

Como é que é um dia livre do Luís Filipe Borges?

Já não jogava FIFA há muitos anos e no Natal ofereci o FIFA20 a mim mesmo e ao fim de uma semana desapareceu [risos]. A minha mulher percebeu que ia ser despedido de todos os trabalhos se continuasse com aquele vício. Mas o que gosto de fazer mais é viajar e ler, de preferência juntas. Quando vou de viagem dias antes já escolhi os livros que vou ler.

Costumam meter-se consigo na rua?

Desde que perdi peso e deixei de usar boina a coisa ficou mais tranquila. Acontecem é muitas situações do género [imitando] “você… é parecido com o Boinas”. Eu vario as respostas. “Sim, é o meu irmão” ou “Quem?” e depois as pessoas explicam [risos]. Se estou um bocadinho mais chateado e entram a pés juntos sem dizer bom dia, “És muito parecido com o Boinas”, aí digo “pá, odeio esse gajo”. Às vezes há quem me reconheça pelo nome e isso é carinhoso. São menos hoje e dou-lhes mais valor. Ainda para mais se sabem coisas que escrevi. Fico derretido.

Luís Filipe Borges: "Só me arrependi de um convidado no '5 Para a Meia Noite'"