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Luís Aguilar: “No estúdio chego a ter dois telemóveis ligados em contacto com as fontes”

É jornalista, escritor e comentador televisivo. Desta vez os papéis estão invertidos e coube ao nosso colaborador falar sobre si próprio.

1. O que é que o fez estudar Antropologia e depois abraçar o futebol?
Foi um bocadinho ao contrário. Comecei a escrever sobre futebol por volta dos 15/16 anos, para o jornal local da minha zona, o Montijo. Fazia umas crónicas sobre temas de futebol nacional, inicialmente, e depois mais tarde pediram-me para fazer crónicas do Montijo e do Alcochetense, os dois clubes ali daquela zona. Nessa altura, reúno alguns trabalhos, no sentido de começar a escrever para A Bola ou o Record. Fui à Bola primeiro, sem nada marcado, sem conhecer ninguém, lá me meti no barquinho e fui ao Bairro Alto. A Bola tem um segurança cá em baixo, não passei da porta. Dali fui para o Record, não tinha segurança, entrei no elevador e quando dei por mim, estou na redacção a mostrar alguns trabalhos. Passado uns dias, fui fazer um Sporting B-Imortal, o meu primeiro jogo para o Record, em que eles se esqueceram de mandar a acreditação, tive que pagar bilhete, pedir uma ficha de jogo a bater no vidro, mas lá fiz a crónica, com todas essas dificuldades e com os nervos de estar a fazer um trabalho para o Record. Em relação à Antropologia, entrei para o ISCSP numa altura em que nos dois primeiros anos as disciplinas eram iguais para todos os cursos. Portanto, não tinha média para entrar em Comunicação Social, entrava para Antropologia e ao fim de dois anos mudava. O que é que acontece? Nesse ano, já depois de entrar, muda a lei e Comunicação Social passa a ser um curso específico, tinha que se entrar directamente. Fiquei preso na Antropologia, mas ainda bem porque gostei. Acabou por me dar um saber diferente, que me ajudou muito mais tarde num jornalismo de investigação; para coisas relacionadas com a economia, corrupção, foi importante tudo aquilo que fui assimilando no curso.

2. E ficou a estagiar no Record?
Não, fui correspondente e todos os fins de semana fazia jogos da minha área de residência: Barreirense, Pinhalnovense, depois de vez em quando ia ao Vitória de Setúbal e já era assim um momento grande, a Primeira Liga. Depois comecei a querer escrever outro tipo de peças, temas nacionais, fazer entrevistas e a partir daí já não era correspondente, não era estagiário, era um funcionário, tinha uma avença, a recibos. Nunca cheguei efectivamente a estagiar, nem no Record, nem em lado nenhum. Felizmente, não precisei de ser mais um dos 98 ou 99% que são explorados dessa forma.

3. Antes disso, houve o sonho de ser futebolista?
Acho que nem chegou a ser um sonho, porque a falta de jeito era tão grande… Claro que nos jogos na tua rua, quando fechas os olhos pensas que tens o número 10 nas costas e andas a fintar toda a gente, mas depois percebes que não é bem assim. Ainda andei a dar uns pontapés na bola no Montijo e era basicamente isso que fazia, dava pontapés na bola numa terra que tem tradições de grandes jogadores de futebol. Depois ainda andei ali pelo futsal, naqueles torneios da terra que aconteciam duas a três vezes por ano, mas realmente não tinha muito jeito e jogava enquanto fazia outros desportos, artes marciais, sempre foi uma coisa que gostei muito e era um bocadinho menos mau do que no futebol. Fiz karaté, full contact, kickboxing, capoeira… também houve essa loucura na Margem Sul. E fiz natação, mas isso porque tinha bronquite asmática e foi recomendado que seria o melhor desporto. O sonho de ser futebolista, tive muito rapidamente. A verdade é que eu nem era o melhor da minha rua, portanto não podia sequer ambicionar algo mais no futebol.

4. Há algum momento que recorde a partir do qual começou a acompanhar o futebol?
Não me lembro do momento exacto, foi algo que esteve sempre muito presente desde que me lembro de mim próprio e da minha vida. Tive a sorte de nascer dentro de uma verdadeira biblioteca de futebol, por causa do meu pai, um adepto fervoroso de futebol. Tinha muitos livros, muitos vídeos de jogos, e então acabou por ser mais fácil por ter acesso a tudo isso.

5. Também foi director de uma revista de cultura urbana e reportagem social. Era para impressionar alguma miúda?
[risos] Não, não era e as miúdas também não estavam muito a fim de cultura e reportagem. Essa descrição é engraçada, já nem me lembrava. Era a Inversus, foi feita numa garagem por mim, por um designer gráfico, que era o Virgílio e pelo Peres, um curioso de fotografia. Éramos três miúdos que queriam fazer uma revista, mas não tínhamos dinheiro e, na altura, soubemos que a Câmara Municipal do Montijo queria fazer uma revista para os jovens. Não era de todo uma ideia que nos agradasse muito, mas era uma promessa eleitoral, que eles não conseguiam cumprir, e foi aqui que nós aparecemos. Criámos uma revista temática com essa descrição pomposa, que inventei num momento qualquer, mas foi muito interessante. De repente, tu és um miúdo que é director editorial. Nós éramos três, e para ninguém ser o director, havia o director editorial, director gráfico e o director de fotografia. Depois começas a fazer aquilo com aqueles amigos próximos da terra, que têm jeito para escrever, do tipo “este aqui é bom para escrever sobre cinema”. Isto foi para aí com 20 anos, comecei a fazer entrevistas e reportagens, que me permitiam coisas fantásticas. Entrevistei uma ex-espia da CIA, por exemplo, com uma temática relacionada com a dificuldade em ter uma relação amorosa na sua vida, entrevistei pessoal da criogenia… Deu-me a possibilidade de fazer coisas muito diferentes e conhecer gente de todo o lado. Mas, ao mesmo tempo, nunca abandonei o futebol, o desporto. Estive sempre a escrever para jornais.

6. Em Portugal, há pouca tradição de revistas dedicadas ao futebol, mas mesmo nos dias de hoje aparecem projectos interessantes noutros países, como a Panenka. Falta-nos cultura desportiva para termos espaço para mais do que os diários desportivos?
Falta, sem dúvida alguma. É preciso dinheiro para que estes projectos possam existir e aqui em Portugal acho que não há muita vontade por parte de quem pode financiá-los, de dar essa possibilidade a quem idealiza esse tipo de projectos. E é pena. Aí realmente temos um atraso muito grande, comparativamente a Espanha, basta olhares para tudo o que é o império Marca, desde jornal, televisão, rádio, revista digital; só que lá está, a Marca além de trabalhar com um país maior, trabalha para todo esse universo da América Latina. E tu aqui não podes fazer isso, porque não trabalhas para o Brasil, que tem a sua própria indústria. Depois podes trabalhar para os PALOP, mas aí esse futebol não gera interesse para o teu público, ao contrário da Marca, que quando faz trabalhos sobre Argentinas e Colômbias, toda a gente quer saber disso, há ali grandes craques.

7. Começou nos livros com uma biografia de Fernando Mendes, continuando com Paulo Futre, outro homem da Margem Sul. Surgiram de amizades?
Sim, de certa forma. Conheci o Fernando Mendes quando ele deixou de jogar, foi para adjunto do Montijo. Na altura, fiz um trabalho para o Record sobre esse novo passo na vida dele. Conheci-o, fiz a entrevista, e a partir daí tornámo-nos amigos e ele contava-me muitas histórias sobre esse lado mais negro, mais oculto do futebol, relacionado com o doping. E eu dizia-lhe: “um dia tens que contar isso num livro, são histórias impressionantes e é bom que as pessoas tenham também conhecimento desse outro lado, contado por um jogador”. Fiz o livro do Fernando Mendes e depois, com o livro no mercado, torna-se mais fácil partires para outro tipo de projectos. Foi aí que começou a ideia do livro do Futre, porque sendo do Montijo, sempre ouvi aquelas histórias de rua que tu não sabes muito bem se são realidade ou ficção. Falei com ele e aceitou, o que na altura me surpreendeu. Porquê eu? É um nome enorme do futebol, podia ter o diretor da Marca a fazer-lhe o livro. Depois andava entre Lisboa e Madrid; ao fim de semana ia para lá e estava com ele, voltava, escrevia e no fim de semana ia novamente. Trabalhámos não só nesse livro, como em muitas outras coisas, o Paulo é quase família. Aliás, casei-me há bem pouco tempo e ele foi meu padrinho, é para mim um orgulho grande poder ter como amigo uma figura dessas.

8. Nasceu no Entroncamento. Como é que foi para a Margem Sul e acha que isso fez de si quem é hoje?
Diz-se que o Entroncamento é a terra dos fenómenos e eu costumo dizer que sou um fenómeno de contrafacção. Porquê? Eu não nasci no Entroncamento, nasci em Tomar, só que fui registado no Entroncamento. Os meus pais viviam lá e na altura havia muito esse hábito, registar a pessoa na área de residência, para não ter que andar depois a fazer quilómetros. Devia ter para aí um ano, vim para Lisboa, onde vivi até aos seis anos e depois fui para a Margem Sul. Acho que essa parte de ires à procura do teu lugar e lutar pelas coisas vem da Margem Sul. Estás muito perto de Lisboa, mas estás muito longe ao mesmo tempo. A nível das oportunidades, a nível da cultura, a nível do acesso a tudo. Toda a vida tens que vir procurar profissionalmente e até antes disso a nível de estudos, fazes em Lisboa e como ali ninguém nos dá nada, somos um bocadinho mais atrevidos, mais malandros. Estamos um bocadinho segregados e isso faz com que, quando saímos de lá e temos uma oportunidade, queremos mesmo lutar por ela e não a perder.

9. Existem outros craques que davam um bom livro?
Existem várias figuras que davam um bom livro, mas houve uma altura em que quis entregar-me a outro tipo de histórias. E é aí que aparecem depois os livros da FIFA, dos resultados combinados e mais algumas coisas que fiz. Primeiro, porque tinha essa vontade a nível intelectual, depois porque as biografias deram-me essa possibilidade. Sobretudo a do Futre, deu-me alguma projecção e a possibilidade de ir a uma editora e dizer “tenho aqui esta ideia, quero fazer um livro, com o meu nome apenas, sem estar associado a uma grande figura, sobre esta temática”. E a partir desse momento, fiz.

10. Acha possível um livro de futebol voltar a vender tanto como o que conseguiu com o Futre?
Acho, embora aquele livro fosse em circunstâncias muito especiais. Foi aquele fenómeno do chinês, o Futre tornou-se viral todo aquele Verão. Curiosamente, nós estávamos a fazer o livro há quase um ano, antes de tudo isso do chinês, portanto não foi dali que nasceu o livro e foi feito em dois ou três meses, como cheguei a ouvir na altura. Há quem faça livros em dois ou três meses, eu não sei fazer esses livros de ir à casa de banho e voltar com o livro escrito. Também, a nível de livros de futebol, não há uma cultura grande em Portugal. Aqueles que venderam mais foram em situações específicas como essa ou, antes disso, um livro que não tinha nada a ver com futebol, o da Carolina Salgado. Mas, há figuras no futebol português, umas mais óbvias do que outras, que têm um tremendo potencial de venda, depende do que queiram ou não dizer.

11. A corrupção no futebol foi um dos temas que abordou nos seus livros. Com estas novas revelações do “Der Spiegel”, com implicações directas no que se passa em campo, corre-se o risco de um dia as pessoas deixarem de levar o jogo a sério?
A corrupção é o maior risco que se pode correr no futebol ou em qualquer desporto de competição. O futebol não é wrestling, não é algo teatral em que as pessoas vão apenas para ver aquela narrativa. A magia do futebol é não saberes como é que acaba, é a possibilidade de surpresas quando vês um grande perder com um pequeno. Depois tens outra coisa também perigosa, que é a disparidade financeira que existe e quando olhas para o futebol como um fenómeno completamente global, a globalização é cada vez mais e só dos adeptos, vais perdendo uma certa cultura local. Já começas a ter miúdos que são do United, Real Madrid, Barcelona, já não são sequer do Benfica, nem do Sporting ou Porto. Há um fosso enorme que notas quando vês as nossas equipas a jogar na Liga dos Campeões, ou mesmo na Liga Europa, e isso é perigoso. E vês que ao mesmo tempo foi criada uma coisa chamada fair-play financeiro, que como muitos instrumentos desses, aplica-se mais a uns do que a outros, porque depois é muito fácil violar. Vai conduzir para um futebol cada vez mais desigual e daqui por uns tempos perdes a cultura local dos adeptos, e passas a ter seis, sete equipas que jogam entre elas e, ao fim de um tempo, torna-se aborrecido.

12. Acha inevitável que venha a surgir a tal Superliga Europeia, matando o futebol como o conhecemos nas últimas décadas?
Acho. Essa vontade já existe há muito tempo, mas é uma visão muito pequena de maximização dos lucros. Porque isso o que permite é um encaixe muito grande num curto espaço de tempo, mas depois não permite mantê-lo por uma razão muito simples: se os outros são todos pobres e se uma discussão é apenas entre cinco ou seis, vai chegar a um ponto em que isso também gera um declive financeiro. Chegas a um momento em que estás absolutamente estagnado. Há aqui outra parte que não nos podemos esquecer, os jogadores continuam a ser de carne e osso. Tu podes ter muitas competições, mas aqueles que continuam a vendê-las são os Messis, os Ronaldos, os Neymares desta vida, e esses não esticam. Por melhor que seja o treino, por melhores que sejam as coisas, não duram para sempre. Isso vai contribuir para quê? Para que tenhas muitas competições, mas muitos jogos maus, fracos, cansados.

13. É mais importante a origem dos documentos ou o que eles eventualmente revelam?
Percebo a profundidade da tua pergunta, com a situação em Portugal no caso dos e-mails que foram tirados ao Benfica e que podem realmente revelar outro tipo de comportamentos e de práticas menos correctas. Há aqui duas questões distintas: eu não sou favorável a que se roube documentação ou correspondência; no entanto, isso é uma coisa, e que tem que ser punida, outra coisa é realmente esse tipo de informação quando é conhecida, não pode ser mascarada ou ignorada apenas pela forma como foi obtida, porque se nesse tipo de documentação se provar realmente que houve ilegalidades ou tentativas de ilegalidades, as mesmas têm de ser punidas.

14. Para fechar o capítulo dos livros: só se dedicou uma vez à ficção, logo nos primeiros tempos como escritor. Pensa repetir?
Nem sei se repetir é a palavra certa, porque não sei bem se aquilo que fiz é ficção, se lhe posso pôr o nome de romance. Não sei se tem qualidade sequer para isso. Penso, claro que penso e estou a escrever um romance há algum tempo, ainda não o acabei por causa de todo o outro trabalho que tenho que fazer e não me dá tempo. Na altura que fiz esse livro, para teres uma ideia, eu não tinha vontade de fazer ficção. A minha editora na altura perguntou-me se tinha interesse em fazer uma ficção que de certa forma tocasse no futebol, como pano de fundo. Eu disse que tinha interesse, mas mais à frente na minha vida, nem tão pouco me sentia preparado para fazê-lo. Entretanto, ela disse-me aquilo que estaria disposta a pagar e eu mudei de ideias no minuto. Fiz algo completamente diferente, comecei a escrever sobre aquilo que me apeteceu e então arranjei ali uma ou duas personagens que tinham sido jogadores de futebol no passado e a própria personagem principal ambicionava ser jornalista desportivo e deu ali para colar aquilo. Não era bem o que me tinham pedido, mas depois gostaram e não tive que lhes devolver o dinheiro. Também já não o tinha. [risos]

15. Escreve no Record, um diário, na Sábado, semanal, e na PLAYBOY, que é mensal. A imprensa escrita continua a ser importante, apesar do domínio cada vez maior do vídeo em todos os formatos?
É e também sai no online. Na Sábado é mesmo só online, não sai no papel. Isso é muito importante também. Hoje em dia, muito sinceramente, apenas em papel semanalmente, não faz muito sentido, acabo por não chegar a muito público. A força do online e a forma como podes também depois aliar essas crónicas às tuas redes sociais e à própria comunicação que fazes do teu trabalho é fundamental. Acima de tudo, é uma forma de comunicar com o público, podendo falar de outros temas nessas colunas que não sejam sempre os temas da actualidade, dos quais tenho que falar na televisão.

16. O plano sempre foi chegar à TV?
Não. Nunca tive planos concretamente. Antes do primeiro livro, o do Fernando Mendes, não esperava escrever um livro tão novo. Comecei a ir à TV porque escrevi livros sobre determinadas temáticas e comecei a ser convidado para ir falar dos livros. Depois, havia um ou outro que gostava de mim e dizia “olha anda cá para a semana se quiseres, falar do campeonato, lançar a jornada”. Até que chegou a uma altura que eu estava a fazer isso com muita frequência, sentia-me bem a fazê-lo, e não queria continuar a fazê-lo de borla. Estava em todos os canais e depois comecei mesmo só a querer ir à TVI, porque me identificava mais com a forma como estavam a fazer lá o desporto naquela altura, e comecei a ir depois com maior regularidade, até que o Sousa Martins me fez uma proposta. Isto foi há quase três anos, basicamente.

17. O imediatismo permitido pelos telemóveis, que permanecem ligados em estúdio, mudou radicalmente a forma de atuar dos comentadores?
Sim, hoje nos estúdios todos os comentadores têm telemóveis, tablet, há momentos em que chego a ter os dois e claro que estás em contacto muitas das vezes com as tuas fontes ou mesmo a ver se há alguma actualização sobre este ou aquele tema, enquanto o outro está a falar, tu estás a ver se há alguma novidade. Claro que depois é preciso ter aqui um certo cuidado, para não estares a atravessar-te com coisas que ainda não estão confirmadas. Se disser, tenho que fazer essa ressalva, não posso dar ali a informação como uma grande verdade universal. Há quem o faça, mas isso cada um sabe de si e o caminho que quer traçar.

18. Como é ser comentador e lidar com os comentários nas redes sociais?
A televisão dá-te um mediatismo grande, continua a ser realmente o veículo que te mediatiza mais. No caso concreto das redes sociais, se perderes tempo a ver aquilo que escreveram sobre ti, o bom e o mau, não fazes mais nada. No início, confesso que ainda ficava incomodado quando via certas mentiras, certos ataques sobre mim. Chegas a um ponto que não podes ligar a isso, porque odiar é muito fácil. O problema é quando isso é alimentado pelos próprios clubes, que definem alvos dentro da comunicação social e mentem abertamente. Já tive isso, de diferentes formas, em diferentes momentos, com o Porto Canal, blogs que eram afectos à direcção de Bruno de Carvalho e com blogs do Benfica. Claro que eu tenho um clube, como todos os meus colegas, como os árbitros. Depois há os párias. E vão sempre aparecer virgens ofendidas. Depois, também é um pouco ingrato quando pessoas dentro dos clubes dizem “este tipo está ao serviço do clube tal”, o que faz com que saltem para dentro do campo não sei quantos adeptos desse clube a insultarem-te. Os clubes têm esse poder e tu não tens, és só um. Se vais levar isso muito a peito, é uma luta perdida. A única forma é continuares a fazer o teu trabalho tranquilamente e esperares que com o tempo essas pessoas mudem de opinião e percebam a tua independência.

19. Mesmo com o ambiente incendiário dos últimos anos, anda-se à vontade na rua depois de fazer comentários na TV?
Ando, nunca tive nenhuma situação desagradável, no sentido de vir alguém tentar agredir-me ou algo assim. Já ouvi uma ou outra vez um insulto, eu próprio dirigi-me à pessoa e ao fim de 15 minutos estávamos a beber uma cerveja. Depois tens pessoas na rua que realmente sentes que olham para ti com uma certa raiva, não vêm dizer nada, mas são aqueles olhares que até te queimam nas costas. Tens que viver com isso, pronto.

20. E em direto, é fácil manter o controlo quando as conversas ficam mais acaloradas?
Por norma é. Há uma coisa que me irrita muito: eu faço parte de programas e de painéis em que estamos a comentar e a analisar o futebol de forma independente, e depois há outros painéis em que há um adepto do Benfica, um adepto do Sporting e um adepto do Porto. Todos os canais os têm e muitas vezes as pessoas tendem a fazer uma mistura entre as duas áreas de comentários. Isso é incorrecto, é essa a expressão. Se se está a ver programas de adeptos, é uma coisa, que até tem uma vertente grande de entretenimento, porque não dizê-lo. Outra é estar a ver um programa de comentadores, que independentemente de terem a sua opinião, estão a baseá-la numa análise que nada tem a ver com paixões clubísticas ou discussões de cafés. Dentro disto, claro que uma conversa de futebol, mesmo neste tipo de programas dos quais faço parte, acaba muitas das vezes por subir alguns decibéis. É aquele confronto humano e, isso sim, já me aconteceu, como a todos que trabalham nisto. Mas lá está, e era importante que todos os comentadores de uma forma ou outra percebessem isso, deve haver um respeito por quem está em casa a ver e isso tem que prevalecer e ser prioritário à vaidade ou a tu quereres ser mais ouvido do que os outros que estão ali. Há espaços e momentos para isso, há quem faça esse tipo de conteúdos, eu por vezes também os vejo, nesse sentido de entretenimento, claro, e toda a gente os vê, não vale a pena dizerem que não, é mentira. Isso faz-me lembrar o Big Brother, que ninguém via mas era sempre líder de audiências. É um estilo e não é isso que eu faço. E não estou aqui com isto a dizer que sou melhor do que os outros, apenas são coisas diferentes.