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Joker e as mil formas de um sorriso maquiavélico que nos desperta a atenção

“Joker” trouxe o seu icónico sorriso de volta aos ecrãs, dando-nos a percepção de que o hedonista diabólico nos continua a cativar mesmo sem o entendermos.

São os dentes à vista. Amarelados mas brilhando entre os lábios carnudos em forma de maçã. Cerrados e famintos. Cruéis. Não se chamaria sorriso à expressão do Joker — a menos que se estivesse a gozar. Há agonia no sorriso sanguinário do vilão. Há raiva por trás do olhar, lutando contra a dor para a dominar. Por vezes, existem vestígios de satisfação — afinal, o homem adora o seu trabalho — mas isso não quer dizer que seja obrigatoriamente feliz. Ele é mau.

Nas quase perto de oito décadas em que começou a ameaçar a boa gente de Gotham City, Joker assumiu muitas identidades e inúmeros nomes. Tal como o próprio diabo. Apesar dessas mudanças ele é facilmente reconhecido. Todos os Jokers compartilham um indesculpável deleite no caos só pelo prazer; as suas palhaçadas servem para atormentar os indefesos, e são sempre capazes de surpreender Batman.

A DC Comics, na sua primeira biografia sobre a personagem, apresenta Joker como “completamente imprevisível“. Isto alia-se na perfeição com o papel que deu o Óscar a Joaquin Phoenix. “Joker” gira à volta da mente distorcida de Arthur Fleck, um aspirante a comediante que tenta pagar as contas como palhaço nas ruas mal afamadas de Gotham. Uma doença mental e uma vida de abusos fizeram com que Fleck tivesse cada vez mais dificuldade em lidar com as derrotas da vida. Era um eterno saco de boxe até ao dia em que resolveu ripostar. Mas as revelações aparentes de cada filme só levantam ainda mais incertezas sobre o seu verdadeiro carácter. Phoenix diz à PLAYBOY que gosta “da ideia que algo desafie a audiência”.

“Cada vez que achava que tínhamos certezas sobre o que motivava as ações dele, ficava desinteressado. Tentávamos constantemente desafiarmo-nos. O maior prazer para mim, em fazer parte dele, residiu no facto de não haver respostas fáceis”. A família Wayne surge na história, mas aqui não existe nenhum morcego gigante; a vingança de Joker está sempre latente. Esta é a versão de DC Comics de “Taxi Driver” ou Norman Bates a protagonizar “The King of Comedy” em vez de Rupert Pupkin. Não é por acaso Robert De Niro ser o apresentador do talk-show que Fleck venera.

Arthur Fleck não é um nome reconhecido pelos fãs dos comics, é uma criação original de Todd Phillips (“A Ressaca”), que admite que podia ter feito o mesmo filme sobre um comediante que vira assassino sem a estrutura de DC Comics. Mas onde estaria a graça? “O mundo do cinema dos comics é uma máquina imparável, e este filme não o vai deter e de certeza que não o muda. Mas pegar nele e dar-lhe uma voltinha é mesmo à Joker”. O filme honra uma das tradições de Joker: não combina com nada feito antes.

“É uma personagem que os autores têm imenso gozo em trabalhar, porque não há regras” diz Phillips. “Esse é o objetivo: quais as normas que serão infringidas com Joker?”. Tal como em 1988, o vilão diz a Batman, na BD “The Killing Joke”, de Alan Moore, “se tenho de ter um passado, prefiro que seja de escolha múltipla! Ha ha ha!”. Ninguém precisa que lhe seja contada a história original de Batman. Já Joker foi sempre um enigma, um camaleão, um mutante.

Joker e as mil formas de um sorriso maquiavélico que nos desperta a atenção

Os autores sucedem-se na panóplia de histórias alternativas para este sarcástico vigarista. Nenhuma das histórias é mais credível do que as outras e a DC prefere que assim seja. “Tal como na maioria das personagens misteriosas, resulta porque não lhe conhecemos as origens — e é muitas vezes retratado como um narrador pouco fiável”, conta Jim Lee, nome lendário das comics. “Mesmo quando ele afirma, ‘é assim que eu sou’, nunca se sabe se é verdade ou mentira”.

Isso tornou-se uma forte aposta de Christopher Nolan em “The Dark Knight”, na qual Heath Ledger, que venceu o Óscar póstumo, usa uma voz de boneco ventríloquo a desbobinar histórias contraditórias sobre as suas horríveis cicatrizes faciais. Histórias trágicas do passado podem provocar simpatia na personagem, afirma David S. Goyer argumentista do filme que fez sucesso em 2008. Os cineastas estão mais interessados em aumentar o medo e a ansiedade e para tal não há melhor do que mentirem-nos descaradamente. “Achámos que não devíamos criar uma história original”, diz Goyer.

“Tínhamos apenas de o fazer existir e irmos lançando dúvidas. Quando, após o sucesso de “Batman Begins”, confrontámos a Warner Bros sobre isto, eles estranharam: ‘Qual destes é o verdadeiro?’. Nós respondemos ‘Nunca terá uma resposta’. Essa é uma coisas que o torna aterrador”.

Na primavera de 1940, Joker aparece em Batman Nº1 sem uma explicação, deixando um rasto de assassinatos, roubos e caos em Gotham. Batman começara um ano antes em Detective Comics Nº27. Com a subida da popularidade do combate ao crime, Joker tornou-se a maneira que os criadores Bob Kane e Bill Finger encontraram para espicaçar o herói contido e sem graça usando este acutilante e extravagante cómico.

Logo desde o primeiro confronto, Joker consegue despertar-lhe o sentido de humor. “Podes ser o Joker, mas eu sou o rei de paus”, diz Batman, lançando um gemido com um rápido soco direito na face de Joker. Onze anos após o início do Joker, em Detective Comics Nº168, Finger cria um enredo em que o identifica como sendo Red Hood, um ladrão de smoking com o rosto escondido num capuz escarlate, que ficou desfigurado após cair num tanque de químicos num assalto falhado.

Trinta e sete anos depois, em “The Killing Joke”, surge a história de que Joker começou de forma esforçada na stand-up comedy antes de, financeiramente desesperado, se tornar Red Hood. As séries de comics Endgame propõem uma versão ainda mais excêntrica de Joker, quase a lembrar o Pennywise de Stephen King em “It”.

Joker e as mil formas de um sorriso maquiavélico que nos desperta a atenção

Algumas coisas permanecem para sempre, outras não

Em 1989, “Batman”, de Tim Burton, cria outra identidade para a personagem. Jack Nicholson interpreta Jack Napier, um gangster de segunda linha que assassina os Wayne durante um assalto. Não há Red Hood, mas o filme sugere que foi a desfiguração de Napier no banho químico que o levou à loucura. A partir daí Napier tornou-se violento. Obtém o que quer. Destrói todos no seu caminho.

“Isso é que torna o Joker de Jack Nicholson uma das versões mais fortes que analisámos”, afirma Andrea Letamendi, psicóloga clínica na Universidade da Califórnia , que estuda a psicologia atrás das histórias dos super-heróis no podcast Arkham Sessions. “Esta é a sua verdadeira natureza, é a maneira de se expressar e pôr em prática os impulsos de caos e destruição. Dá-lhe imenso prazer”. A descarada falta de remorsos de Joker é a razão da inquietante combinação de atração e repulsa que ele nos inspira. “Não nos sentimos seguros perto desta personagem”, diz Letamendi. “A nossa tendência natural é temê-lo e evitá-lo. Mas somos atraídos por aquela sensação de liberdade e prazer”. Chamem-lhe carisma tóxico.

Existe um traço comum no poder de sedução de Joker, tanto em Cesar Romero no seu papel irónico e sarcástico nas clássicas séries de TV dos anos sessenta, como na versão vil e destruidora de 1990 de Mark Hamill em Batman: The Animated Series. “Essa é a razão porque para nós Jared Leto perdeu o carisma”, explica Letamendi sobre o chamado Joker de “Suicide Squad”. “Criava imensa ansiedade, mas não tinha charme nem sedução”. A maleabilidade do Joker tornou-se uma fonte inesgotável para a DC. Lee explica que ele pode surgir sob várias formas porque é o bicho papão dos nossos dias. “Os seus modos exagerados cativam toda a gente”. A editora está tão confiante no poder de sedução de Joker que, com o filme, lançou três comics, cada uma com um mito diferente.

Quando perguntaram a Phoenix a razão de Joker fornecer material tão vasto para os criadores de histórias, ele aponta para a maldade que irradia dos olhos do palhaço. “Quando nāo existe um enredo preciso e definido, podemos lançar as nossas ideias nele. Isso envolve-nos. A personagem leva-nos a analisarmo-nos”. O actor esboça um grande e sinistro sorriso. “O filho da mãe tem um ar tão simpático”.

Joker fascina não só por ser aberrante mas também por ser uma daquelas casas de espelhos dum parque de diversões. Todos nos cruzamos no caminho com pessoas assim. O maior problema não é sermos suas vítimas mas tornarmo-nos nele próprio. Nas suas várias criações, Joker é sempre alguém que perdeu a humanidade. Completamente egocêntrico. Só se livra da dor quando a inflige aos outros. Sabemos que é impiedoso. Narcisista. Sentimos o tormento que o despedaça. Quase que podíamos ter pena de Joker, se ao menos não se estivesse a rir de nós.

Joker e as mil formas de um sorriso maquiavélico que nos desperta a atenção
Ilustração de Billy Butcher

Texto: Anthony Breznican

Ilustração: Billy Butcher

Artigo publicado originalmente em PLAYBOY US e na edição impressa da PLAYBOY Portugal. Pode adquirir exemplares anteriores na nossa loja online.