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João Miguel Tavares: “Escrevi obsessivamente sobre Sócrates. Já nem a minha família me aturava”

Dá para descrever João Miguel Tavares em números: quatro filhos, três vitórias sobre sócrates, duas cidades a marcá-lo e um amor muito próprio pelo debate público. Mas é com palavras que o entendemos melhor.

Há um momento ainda cedo na entrevista em que João Miguel Tavares hesita por momentos em dizer um palavrão. Depois, descansado por estar nas páginas da PLAYBOY e não em direto na televisão ou a discursar, o palavrão saiu e João Miguel Tavares volta ao seu modo próprio: com muito para dizer, sem hesitação, e pouca preocupação com quem não gosta do que diz. Na verdade, o próprio admite ter o gostinho por irritar o que descreve como uma certa elite. O debate público, insiste, é mais saudável quando se discorda. E só tem a ganhar com um pouco de picante à mistura.

Como é que era o João em miúdo?

Os meus pais queixavam-se de quando era bebé berrava que me fartava. Mas na adolescência era muito reservado, até porque tinha os dentes tortos. Os aparelhos eram uma coisa muito sofisticada e um gajo que nascia ali na década de 70 e 80 não tinha. Parecia um tubarão, não tinha grande sucesso entre as miúdas. A falta de vida amorosa teve a bonita consequência de me deixar mais dedicado aos livros, o que foi positivo. Por isso é que o mundo hoje em dia é dos nerds [risos].

Que idade tinha quando veio para Lisboa?

Vim com 18 anos, para estudar Engenharia Química. Não entrei logo em Ciências da Comunicação e só depois de grande infelicidade no Técnico é que fui fazer as específicas para entrar na Nova.

E em Lisboa, já ia mais a festas?

Sempre detestei festas. Nas discotecas era o tipo que ficava a guardar os casacos de quem dançava. Se calhar hoje em dia até gosto mais de dançar mas continuo a ser muito caseiro. Era daqueles miúdos que os pais queriam meter fora de casa. “Pá, arranja uns amigos”.

Já leva mais anos de Lisboa que de Portalegre. É mais lisboeta ou alentejano?

Tenho 46 anos. São 28 aqui contra 18 em Portalegre mas serei sempre portalegrense. São os teus anos formativos, é o que te define. A minha primeira namorada, que se transformou na minha mulher, já vem desses tempos. Ela é de Castelo Branco e muitos amigos meus são do Interior.

Começou a namorar com a sua mulher ainda antes da faculdade.

Ainda tive um namoro por carta com a Teresa, parece coisa do séc. XIX. Ainda lá tenho em casa caixas de sapatos cheias com cartas nossas. Foi a minha sorte, foi através da palavra que a consegui enganar. Ela era muito acima do meu campeonato. Namorámos, casámos, é uma história daquelas que já não se usam muito nos dias de hoje.

Mas há todo esse universo. Gosto muito de Lisboa, mas Portalegre é a minha terra e tem muito a ver com o que sou. Ainda por cima na minha escrita há um lado de luta de classes, algo que sinto muito, do gajo da província que veio para a cidade. Continuo a ser essencialmente um provinciano.

Costuma criticar o que chama de elite de Lisboa.

Estamos numa época em que o PS está muito no poder. O PSD está mais disperso pelo país enquanto o PS sempre foi um partido republicano e de elites lisboetas. E para quem intervém na política, e sobretudo vem de Portalegre, há pessoal de uma certa elite que te coloca à parte, ou porque não pegas nos talheres da mesma maneira, ou porque falas demasiado alto e eu sempre tive muito isso. No meu discurso de 10 de junho isso foi evidente. Foi acolhido com muita generosidade mas numa segunda fase houve muitas críticas dessa elite lisboeta. E acho que se não tivesse sido eu, e tivesse sido um Sampaio da Nóvoa a dizer o mesmo, alguns diriam “ah, magnífico”. Até porque tive preocupação em fazer um discurso pré-ideológico, não era de esquerda ou direita.

Sócrates? O estranho não é eu ter visto. É como é que tanta gente não viu

Mas são quase 30 anos de Lisboa. Ainda sente isso?

Sinto. Até podes dizer que existe uma parte minha que também cultiva isso. Mas acho as elites portuguesas particularmente pobres, há uma espécie de amiguismo. Mas no meu caso tenho um certo estilo, isso tem a sua originalidade e favoreceu-me. Mesmo que tenhas mais trabalho a chegar a um lugar da fala, depois a tua voz é mais singular. Desde pequeno que tenho o gosto de ser diferente e isso é algo que peço aos meus filhos: têm obrigação de ter cabeça própria. Mesmo em miúdo tinha essa mania de ser opinativo e mandar muitas bocas, nisso não mudei.

É muito diferente explicar aos filhos o que valoriza de Portalegre quando eles já são deste tempo e de Lisboa?

Sim. Estou a criar quatro betos, não tenho dúvidas disso [risos]. Isto tem coisas boas e más. Há um lado que tens pena, porque muitas das coisas de que gosto em mim têm a ver com o sítio de onde venho. Às vezes esta conversa parece que tenho uma existência neorrealista. Nada disso. Os meus pais eram funcionários públicos de Portalegre, que tinham uma boa vida. Tive uma vida modesta no sentido daquilo que era uma vida modesta nos anos 80, só que a vida na província da altura não era o mesmo que em Lisboa. Com os meus filhos é diferente. A mãe é médica, o pai é jornalista, aparece na televisão. Não andam em colégios privados, mas andam nas Avenidas Novas, onde as escolas já são de algum privilégio. O que podem ter que eu não tenho é que a minha vida foi marcada pela ideia do “tem cuidado, não percas o emprego que um dia podes ser pobre”.

É uma questão de liberdade?

Esse medo de arriscar, de mandar tudo para o caraças que amanhã encontro outra coisa qualquer, isso aos poucos tenho-me libertado mas ainda pesa e vejo isso também na minha mulher. E depois há aqueles que eu chamo os filhos dos betos, são da minha idade mas o facto de terem pertencido a um bisavô que foi aristocrata não sei do quê dá-lhes uma maior liberdade, que invejo. É a de quem nunca passou privação nem tem memória de os pais as terem tido. Isso dá liberdade, que é o que interessa nesta vida.

Supreendeu-o o convite para discursar no 10 de junho?

Não me passava pela cabeça. Vês o historial e o meu perfil não encaixava. Só o Marcelo se podia lembrar de uma coisa daquelas. Pedi uns dois ou três dias para pensar e acabei por aceitar. Não vi qualquer razão para ser convidado, para além de ser de Portalegre e ser de lá. Mas também não via nenhuma razão para recusar o convite. E só de pensar na quantidade de gente que ia ficar furibunda…

Serviu de motivação.

Claro, tenho esse prazer de irritar os outros, sobretudo a tal elite.

João Miguel Tavares: “Escrevi obsessivamente sobre Sócrates. Já nem a minha família me aturava”

Por cá temos poucos discursos de que nos lembremos, mas nos EUA não é assim. Houve alguma inspiração?

Nem era inspiração. Era a minha mais valia: acreditava que conseguia desempenhar bem a função. Sei escrever. Um discurso escrito para ser lido era algo que imaginava que podia fazer bem. Claro que nem nos meus melhores sonhos imaginava a reação que houve mas estava convencido que era capaz, até porque os discursos em Portugal são uma m…erda. É para a PLAYBOY, pode-se dizer, não é?

Pode.

[risos] Mas são maus. Parece que cá nem existe o lugar de speechwriter. E tu cresces com aquele imaginário dos EUA, com aquele entusiasmo pelos discursos, do Martin Luther King, de Gettysburg… E sou grande fã do Obama, vivi intensamente o facto de ser o primeiro presidente negro dos EUA e ele era incrível nos discursos. Entre o Obama, que é muito difícil chegar àquele nível, e o que se faz em Portugal, apesar de tudo há-de haver um meio termo. De resto, tenho costela de pregador. Gosto de homilias.

O “deem-nos algo em que acreditar” marcou o discurso.

Todos os países precisam de uma dimensão inspiracional, é isso que dá cimento a uma comunidade, e acho que isso não há em Portugal.

O que nos falta?

Cá há a doutrina do presentismo: parece que hoje em dia só tens presente, e António Costa foi extremamente hábil a gerir isso, mas não olhas para o país e pensas “qual é o futuro disto, o que queremos ser?”. O algo em que acreditar é isso. Claro que nos desenvolvemos e o país está muito melhor mas também sentes que é uma oportunidade perdida. Vais a Londres, a Nova Iorque e percebes: tu não és aquilo. É uma falta de ambição estrutural na sociedade que os políticos assimilaram. É a política da cristaleira: “não toques que se parte”. Então tiras um pouco aqui, mudas um pouco ali, mas coisas mínimas. Disse isso no discurso: pela primeira vez os meus filhos correm o risco de viver pior que nós. E isso muda muita coisa.

Ninguém esperava que Centeno terminasse os quatro anos de governo como o ministro mais popular

Já falou sobre as previsões sobre a geringonça terem sido as que lhe correram pior. Mas e agora, que previsões tem para estes quatro anos?

Agora já não me arrisco muito [risos]. Já me enganei algumas vezes mas, e orgulho-me disso, nunca me enganei sobre o caráter das pessoas. Bati imenso no Santana Lopes e acho que foi merecido, a partir de certa altura bati imenso no José Sócrates e era merecido, mas não bati no Passos Coelho, porque acho que o trabalho que fez era imprescindível, e também não bati no Costa de todo no sentido em que embora não seja da minha ala ideológica, reconheço-lhe imensas qualidades.

Que falhou na previsão sobre a geringonça?

Ter acreditado no que Costa e Mário Centeno estavam a dizer. Achei que não ia ser sustentável, que orçamentos apoiados por PCP e BE iam levar o país ao charco. Também demonstraram responsabilidades que talvez não esperasse mas sobretudo Centeno arranjou com as cativações uma maneira habilidosa de dizer “dou isto, isto e isto” e depois não dava. Devolveu rendimentos, cativou investimento a um nível superior ao Passos e esse movimento foi uma habilidade a que tiro o chapéu. Ninguém esperava que Centeno terminasse os quatro anos de governo como o ministro mais popular.

Vou recordar aqui uma frase sua que deu muito que falar. “Ver José Sócrates a apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte da Cicciolina”. Houve um antes e um depois dessa crónica na sua carreira, não?

Essa introdução é a minha resposta [risos]. Não era ninguém antes disso, era um modesto colunista do DN, e esse processo teve um impacto gigantesco. Depois, como felizmente Sócrates foi perdendo sucessivamente, nunca sequer fui a tribunal, foi 3-0 para o meu lado. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Quando olhas para trás, escrevi obsessivamente sobre o Sócrates durante anos, ao ponto de já ninguém me aturar, incluindo a minha família, mas a única coisa que eu gostava é que às vezes houvesse um bocadinho de memória. Hoje em dia olhas à volta e já não há um carapau que acredite no Sócrates. Mas houve um tempo em que não foi assim. Claro que a acusação do processo Marquês dá-te uma ideia da profundidade das coisas, não dava para adivinhar aquilo tudo, mas a personalidade dele era evidente, não fui eu que fui um génio. O estranho não é eu ter visto, é como é que tanta gente não viu. Vês a quantidade de gente que o defendeu até à última…

O país colapsou diante dele e quem o atirou pela janela foi a troika, porra. Sócrates ganhar em 2009 é o momento mais vergonhoso do povo português em democracia. E mesmo em 2011 foi por poucos votos que perdeu. De tudo o que já se via, com ele a dar um pontapé no rabo a Manuela Moura Guedes da TVI a um mês das eleições, o fascínio português pelo animal feroz, pelo gajo que fala grosso e parece que sabe para onde vai, embora não faça patavina, é uma coisa que me desespera. É um país ainda muito sensível a líderes autoritários.

Portugal é pequeno. Nunca encontrou Sócrates pelo caminho?

Não, não. Houve um tempo em que no Observador me chatearam para o entrevistar. Ainda lhe fizeram o convite mas não. Mas atenção, não tenho nada contra José Sócrates, acho-o até uma personagem de romance, fascinante, o fenómeno político Sócrates é do mais interessante a que hei-de assistir na minha vida, mas que seja feliz longe da política.

O que me preocupa não é o Sócrates, é a maneira como o país reagiu. Mostra a estupidez de muita gente que anda a comentar nos jornais e na televisão e mostra a fragilidade: ele teve o país na mão e não pode ser. Parece que tinha a justiça controlada, a comunicação controlada, o sistema económico controlado, as PT, as EDP, as CGD, os BES, os BCP… Que raio de país é este que fica nas mãos de um homem daqueles durante seis anos?

Não leio pessoas para concordar com elas. O que me chateia é gajos que antes de abrirem a boca já sei o que vão dizer

Estamos habituados a vê-lo em debates no espaço público e alguns dos seus críticos escrevem no mesmo jornal. Se o Público organizar um jantar fica preocupado ao lado de quem se vai sentar?

[risos] O Público sempre teve uma tradição muito grande de liberdade. Gosto de polémica, para começar. Gosto de discutir no espaço público. É divertido como exercício de escrita e mostra uma sociedade civil saudável. O espaço público é para as pessoas debaterem, às vezes com algum picante. E tenho fair-play: não tenho nenhum problema em um gajo dizer que sou imbecil e depois dar-lhe um bacalhau no meio da rua. Isto se for alguém que considero inteligente. É do confronto de ideias que nasce o debate democrático. Não queria um país em que toda a gente tivesse opiniões de direita. Seria uma chatice do caraças.

João Miguel Tavares: “Escrevi obsessivamente sobre Sócrates. Já nem a minha família me aturava”

Como responde a quem diz que trata de forma leviana certos assuntos?

É inevitável. Escrevo três vezes por semana no Público e até podes dizer que todos os meus textos são escritos de forma leviana. Sobre qualquer assunto é possível fazer teses de doutoramento. É impossível perceber sobre tudo e mesmo do que se possa perceber muito, não é em 3.500 caracteres que vais esmifrar um problema. O papel do colunista é estimular o debate público. Se daquela crónica algum estímulo intelectual, isso é suficiente. Não é ali que vais ter a chave para os segredos do universo. Também não é para apresentar soluções para os problemas do país. No discurso de 10 de junho tive gente a dizer “ah ele não apresenta soluções”. Mas eu tenho alguma solução para Portugal? Tenho ideias mas há gente que acha que se estivesse no lugar do Costa fazia melhor. Eu não fazia. Só desconfio que seja melhor cronista do que ele.

Sendo de direita, também tem posições que divergem à direita. Costuma desiludir leitores?

Estou sempre a desiludir toda a gente, à esquerda e à direita [risos]. Mas isso é normalíssimo, é pensares pela tua cabeça. Não quero ser nem profeta nem guru de ninguém. Estou-me nas tintas. Quero ser simplesmente um gajo que exprime as suas opiniões no espaço público. Parece que há quem esteja sempre à espera de uma voz que possa seguir e depois desilude-se. Estou com a minha mulher há 28 anos, temos quatro filhos, e discordamos imenso. De resto, esquerda e direita depende de onde estás.

Como assim?

É como te perguntarem se preferes água quente ou fria: depende. Eu sou de direita em Portugal porque acho o país muito mais virado à esquerda, nos EUA seria de esquerda, porque é um país muito mais virado à direita. Obamacare? Claro que sim, os EUA precisam de mais Estado na saúde. Tens aquela cena do documentário do Michael Moore em que o tipo corta dois dedos com a serra.

O “Sicko”, não é?

Sim. E depois o tipo tem de escolher qual é o dedo que quer salvar, porque só tem dinheiro para um. Pá, um país assim precisa de mais Estado. Mas quando mais de 50% da riqueza de um país vai para alimentar o Estado, aí já pensas “se calhar não”. Isso depende do país e da época. Gosto de acreditar que no tempo do Estado Novo seria um gajo de esquerda. O Salazar fez um esforço para ter as contas certas mas tem tudo o que odeio: aquele paternalismo, beato, horrível, do respeitinho é que era bonito e que ele é que ia cuidar de nós. Odeio essa merda. Depois há gente a queixar-se “coitadinho do senhor de Oliveira Salazar, que tanto fez por Portugal”, pá não, não sou dos teus, não tem nada a ver. Gosto muito de democracia. Ser de direita não tem nada a ver com o Estado Novo. Essa minha posição irrita algumas pessoas da elite.

A tal elite de esquerda?

É a questão classista, de pessoas que vieram da província e de uma classe social média e depois são de direita, isso faz um choque cerebral numa certa elite de esquerda. A esquerda portuguesa vive muito de uma hipocrisia insuportável. Vês um BE, da esquerda caviar, com um Francisco Louçã em posições de absoluto privilégio armado em revolucionário. Para o caraças, andas numa vida capitalista desde que acordas até que te deitas e depois andas a pedir o fim do capitalismo.

Tem algum cronista de esquerda que admire?

[com sorriso trocista] O Pacheco Pereira, que é um cronista de esquerda. Não, mas há pessoas de quem discordo muitas vezes e gosto de ler: o Miguel Sousa Tavares, a Clara Ferreira Alves, o Rui Tavares, provavelmente o único gajo próximo da extrema-esquerda que admite méritos da direita, o Daniel Oliveira. Mas atenção, não leio pessoas para concordar com elas. O que me chateia é gajos que enchem quatro mil caracteres de babuja e que antes de abrirem a boca já sei o que vão dizer.

2020 começou com o anúncio da passagem do Ricardo Araújo Pereira e do “Governo Sombra” para a SIC. Como aconteceu?

Em primeiro lugar há um negócio prévio, o do Ricardo. Nós vamos de atrelado. Ele estava em negociações, falámos, houve as nossas negociações, mas no nosso caso foi relativamente simples.

A possibilidade de a Cofina comprar a TVI foi um acelerador para o Ricardo mudar?

Como se diz em política, para veres que já aprendi umas coisas [risos], isso terás de perguntar ao Ricardo. No meu caso não tenho nenhum preconceito, já escrevi no CM e ao contrário de outros jornalistas acho que desempenha um papel fundamental. “Ah é populista, podia fundamentar melhor”. Poder, podia, mas aqueles gajos estão montados em cima de muito dinheiro e é pelas pessoas que compram o jornal. Isso dá-lhes uma independência e uma agressividade noticiosa que não encontro noutros lados. Escrevo na última página do Público, o espaço mais privilegiado da comunicação portuguesa, com muito orgulho, mas isso não significa que não reconheça o papel que o CM tem.

Os r’s pelos g’s é daquelas coisas em que passas a infância a chatear-te com isso mas torna-te mais forte

Entre Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira, com quem tem mais picardias?

Nós somos todos muito amigos e aí podes juntar o Carlos [Vaz Marques], que não é muito de picardias porque ele finge que é moderador [risos], mas cá fora discutimos bastante. Curiosamente, poder-se-ia pensar que seria com o Ricardo, por ser de esquerda, mas tenho mais com o Pedro, porque em última análise a questão mais importante cá não é tanto ideológica mas de classe, e embora ele esteja mais na minha zona ideológica, acho que está mais afastado de mim do que o Ricardo em termos de uma certa mundividência.

Hoje em dia costuma brincar com a tal questão de trocar os r’s pelos g’s mas em miúdo era muito gozado?

Toda a gente gozava comigo. E continuam mas hoje em dia chateio-me menos com isso, quero lá saber.

Ficou algum complexo?

Não. É daquelas coisas que enrijecem. Há uma canção do Johnny Cash, “A Boy Named Sue”. É história do tempo dos cowboys de um homem que deu o nome Sue, feminino, ao filho e abandonou a família. O rapaz toda a vida foi gozado, sempre à porrada, e um dia diz que vai matar o pai. Anda à pancada com ele, tira a pistola e prepara-se para o matar e o pai olha para ele com ar feliz e diz: “sabia que te ia abandonar e tinha que garantir que ficavas rijo”. “You had to be tough or die”. E ele aí percebe porquê o nome Sue. Os r’s pelos g’s é daquelas coisas em que passas a infância a chatear-te com isso mas torna-te mais forte. Hoje em dia, nesta civilização às vezes muito acolchoada, parece que tens de ser protegido de tudo e eu não tenho pachorra para essas merdas. Mas já me sugeriram fazer terapia da fala, até para o 10 de junho.

Nunca fez?

Fiquei tentado só para perceber se era possível, mas não ia fazer isso. Os r’s pelos g’s também faz parte da figura.

Tem quatro filhos. Como é que se organiza o tempo? Calculo que António Costa não esteja sempre disponível para dar uma ajuda.

Pois não [risos]. É uma aventura, ainda tenho a Cinco Um Zero, para desenvolver projetos em papel no Observador. Mas os miúdos agora estão maiores, houve uma fase mais dura mas à medida que crescem há um tempo de respiração maior. O problema é que gosto de fazer demasiadas coisas e adorava perceber de mais. Mas se fizesse só uma coisa ia aborrecer-me de morte.

E planos para o futuro?

Há os profissionais, que tenho ideias para três vidas. Desde que não perca capacidades não vai acontecer aquela coisa de ficar a olhar para uma parede sem saber o que fazer. Mas falo muito com a Teresa sobre voltarmos para a província. Agora não, por causa dos miúdos, mas quando crescerem. A Rita é a última, está com sete anos, isto é em countdown [risos], daqui a uns 15 anos gostava. Portalegre tem a desvantagem de estar muito longe, mas uma coisa assim, no Alentejo, a uma hora de Lisboa, gostava. Tenho também dois terços de um livro sobre o Sócrates para ser fechado há 500 anos, mas faço tanta coisa que nunca arranjo tempo.

João Miguel Tavares: “Escrevi obsessivamente sobre Sócrates. Já nem a minha família me aturava”

Artigo publicado originalmente na edição impressa da PLAYBOY Portugal. Pode adquirir exemplares anteriores na nossa loja online.