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Joana Marques: “Recebi mensagens de ódio por ter dito que não queria ter animais de estimação”

Em entrevista à PLAYBOY, revela a paixão por podcasts e confessa que há pelo menos três grupos em Portugal que vão, de certeza, torcer o nariz às suas piadas.
Foto: Alexandre Azevedo

Mulher dos sete ofícios com o humor como elemento unificador, até mesmo no que diz respeito à vida pessoal: Daniel Leitão, o seu parceiro no programa Altos & Baixos, também o passou a ser numa relação que dura desde esses dias, no Canal Q. E nos raros momentos livres da sua vida atarefada, que começa bem cedo na Rádio Renascença, escreveu Vai Correr Tudo Mal, um livro de anti-ajuda.

1. Já é guionista desde 2007, mas no último ano parece difícil encontrar um projecto em que não esteja envolvida. O que é que se passou para tanta procura? Passou a ser representada pelo Jorge Mendes?
Coincidência. Eu, ao contrário da Margarida Rebelo Pinto, acho que há coincidências, e calhou surgirem todos os convites praticamente ao mesmo tempo, no espaço de poucos meses. É como os os fins de semana: há uns em que não temos absolutamente nada para fazer e depois outros em que temos convites para sete programas diferentes e não podemos ir a nenhum… Neste caso foi mais ou menos assim, tive mais convites do que poderia aceitar, mas acho que aceitei os melhores.

2. Quem a ouvia a ser Extremamente Desagradável, na Antena 3, dificilmente acreditaria que a próxima casa seria a Renascença. Mesmo após o convite, demorou a processar a ideia?
Não. O director da Renascença foi muito convicto e entusiasta quando me fez o convite, e foi meio caminho andado para ficar com muita vontade de aceitar. Explicou-me a ideia global que tem para a rádio, e tive vontade de fazer parte do plano. Talvez agora que me vê a dar uma entrevista para a Playboy, mude de ideias e me despeça. Apesar de tudo, dentro do leque de coisas que podem fazer-se na Playboy, creio que esta é a menos má.

3. Já ter lá a Ana Galvão, com quem tinha feito As Donas da Casa, foi meio caminho para aceitar?
Sim, tornei-me ouvinte da Renascença quando a Ana Galvão deixou a Antena 3, ouvia várias vezes o programa dela, e fui tomando contacto com a realidade da RR. Por isso o convite já não me pareceu assim tão absurdo, já que fui acompanhando a forma como a Ana se adaptou e gostou da Renascença.

4. A Renascença já não é só para velhinhos?
Já não. Embora não queiramos também excluí-los. Mas a Renascença é, cada vez mais, para pessoas mais novas, a quem interesse estar a par do que se passa no mundo. É uma rádio de informação, agora também com espaço para humor, coisa que não tinha (de forma oficial) há muitos anos, e isso também foi um desafio extra para mim. Acho que a rádio, e em particular o nosso programa, As Três da Manhã, é sobretudo dirigido às pessoas que, naquele horário, vão para o trabalho, ou levar os filhos à escola.

5. Qual é o segredo para estar bem disposta logo às sete da manhã?
A grande vantagem aqui é que não tenho de estar. Se não estiver, assumo que não estou. Sendo conhecida como “extremamente desagradável” já ninguém se surpreende se eu assumir que dormi mal ou que me apetecia estar na cama. Felizmente isso não acontece na maioria dos dias. Gosto de facto de acordar cedo e de trabalhar de manhã, o que facilita o processo. Caso contrário, acho que seria muito infeliz. Como aconteceria se tivesse que trabalhar de noite. O meu ideal de vida era jantar às seis e meia e ir para a cama às oito. Tipo Noruega. Infelizmente, por enquanto, não é possível, mas é um sonho que mantenho.

Os podcasts são o meu maior vício. Estou sempre a ouvir

6. Já percebemos que não é necessário ser batizado para trabalhar na Renascença, mas tem alguma restrição por ser uma emissora católica?
Nenhuma. Foi, aliás, a minha primeira pergunta quando me desafiaram a deixar a Antena 3 e a integrar a equipa da Renascença. Não faria sentido ter entraves ou proibições. O único limite que tenho é o meu bom senso, mas esse é imposto por mim, seja na Renascença ou na Orbital…

7. E há sempre alguém a ouvir o que a concorrência está a fazer em tempo real, ou fazem a vossa vidinha e depois logo se vê?
Nada disso. Aliás, à velocidade a que corre um programa da manhã, seria impossível alguém estar a ouvir outras rádios ao mesmo tempo. Nem sei bem qual é a nossa concorrência direta. Não ligo nada a isso. Mas ouço tudo o que posso. Quando vou no carro estou em constante zapping, e ouço as estações todas.

8. A popularidade dos podcasts veio dar ainda mais força à rádio?
Acredito que sim. Agora todos os programas de rádio são também podcasts, e há ainda conteúdos criados nas rádios propositadamente para a net. Acho que o futuro passará por aí, e temos planos na Renascença também nesse sentido. É engraçado porque depois os podcasts profissionais misturam-se com os amadores e muitas vezes a qualidade é equiparável, há quem tenha pequenos estúdios caseiros com a mesma qualidade que a rádio, e quanto aos conteúdos também há óptimos programas independentes. É o meu maior vício neste momento, acho que troquei a minha adição à televisão pelo vício dos podcasts. Estou sempre a ouvir. Portugueses ouço quase todos. Quer dizer, alguns ouço só uma vez e não repito… outros, mesmo não gostando, ouço como guilty pleasure, e há ainda aqueles de que gosto de facto.

É mais fácil dizer mal. Quando gosto de alguma coisa tento elogiar. Como é mais raro, as pessoas percebem que não é graxa

9. É desagradável de segunda a sexta e ainda faz uma paragem semanal para debitar Irritações, na SIC Radical. Sabe bem dizer mal?
Não só sabe bem, como é mais fácil. É-me mais natural. Embora no resto da vida (na pouca que resta) goste de dizer bem! Quando gosto de alguma coisa tento elogiar. E como é mais raro, acho que as pessoas percebem que não é graxa.

10. No meio disto tudo, como foi parar à casa da Cristina?
Foi mais um convite inusitado. Ligaram-me um certo dia, meses antes do programa arrancar e pediram-me para ir a uma reunião, ainda a casa estava em obras. Sendo a Cristina, nem fiz grandes perguntas. Pensei “ela lá saberá o que está a fazer e por que raio acha que faz sentido eu participar”. E assim foi.

11. Também faz parte da equipa de Gente Que Não Sabe Estar, na TVI. A RTP não fica com ciúmes por não a ter a colaborar em qualquer coisinha?
Já estive na RTP muitos anos (na Antena 3 e em mais dois ou três programas). De facto, é estranho estar em dois canais ao mesmo tempo porque há dias em que o meu trajecto é Carnaxide-Queluz de Baixo. Mas na verdade, eu trabalho é com as pessoas, com o Ricardo Araújo Pereira (e o Miguel Góis, Zé Diogo Quintela, Manuel Cardoso, Guilherme Fonseca, Cátia Domingues e Cláudio Almeida) de um lado, com a malta do Irritações e do Programa da Cristina do outro. Não me lembro se estou neste ou naquele canal.

12. Ainda teve tempo para escrever mais um livro. Foi durante as pausas do Ricardo Araújo Pereira para ver os jogos do Benfica?
Na verdade, o livro já estava escrito. E o lançamento foi adiado por causa do futebol, mas não do Benfica. Surgiu no ano passado um outro convite, para escrever um livro relacionado com o FC Porto, e eu escrevi-o, um bocadinho em contra-relógio, para o lançar mesmo no fim da época. Como tal, e porque não fazia sentido lançar dois livros ao mesmo tempo, deixei este mais um bocadinho na gaveta e lancei-o agora, um Verão depois. E até faz sentido, em termos futebolísticos. Enquanto que o do ano passado se chamava O meu coração só tem uma cor, e relatava feitos incríveis do Porto, o deste ano chama-se Vai correr tudo mal, o que parece um prenúncio do que viria a acontecer ao meu clube esta época. Mas na verdade não tem nada a ver com bola, é um livro de anti-ajuda, que satiriza os tão populares manuais de auto-ajuda.

13. Já teve um prefácio de Jorge Nuno Pinto da Costa. Alguém esteve à altura para lhe suceder neste Vai Correr Tudo Mal?
Como não havia ninguém acima disso, este livro não tem prefácio. Mas teve o Nuno Markl a apresentá-lo. Achei que fazia sentido, por ser uma pessoa que parece estar bastante em paz com o facto de correr tudo mal.

14. O que é exatamente um livro de anti-ajuda?
É um livro que desmonta os clichés dos livros de auto-ajuda. Li muitos antes de escrever (foi um trabalho duro, mas alguém tinha de o fazer) e percebi que há de facto muitos elementos comuns. Tentei pegar neles e virá-los ao contrário. Se os livros de auto-ajuda servem para nos convencerem de que tudo é possível, de que querer é poder, etc, diria que o livro de anti-ajuda é uma espécie de “wake up call”, a lembrar que não é bem assim. No fundo é um livro que diz coisas desagradáveis, que ninguém quer ouvir, portanto se vender mais do que um exemplar será um sucesso!

15. Está preparada para as críticas do Gustavo Santos?
Ansiosa, até. Mas duvido que me cheguem, só se for por carta, visto que Gustavo abandonou já há muito tempo (a mim, pelo menos, parece-me uma eternidade) as redes sociais.

Somos uma nação de jovens YouTubers, adeptos loucos e apoiantes do PAN

16. Entre futebol e YouTubers, qual é o tema mais sensível para se fazer humor?
Diria que são ambos sensíveis, para públicos diferentes. Mas são, sem dúvida, dos temas que mais me fazem receber mensagens de ódio. Juntava-lhe, talvez, os animais. Parece estranho mas recebi bastante hate mail de amigos dos animais, por ter dito no Irritações que não tenho animais de estimação nem pretendo ter, porque tenho medo (e que não entendo pessoas que dormem com os cães na cama, etc…). Foi talvez a onda de fúria mais inesperada, por serem pessoas aparentemente tão bondosas, que recolhem animais da rua e os ajudam, e de repente têm ali uma raiva acumulada. Descobri assim mais uma área em que o fanatismo abunda. Já fomos o país dos 3 Fs, agora aparentemente somos nação de jovens YouTubers, adeptos loucos e apoiantes do PAN.

17. E porque é que continuam a existir tão poucas mulheres a dar a cara no humor?
Acho que existem cada vez mais. E a tendência será ir aumentando. Não pela criação de nenhuma quota (espero), mas porque acredito que à medida que essas mulheres aparecem servem de exemplo e referência para as gerações seguintes.

18. Sente-se mais confortável a escrever para os outros ou para vpcê própria interpretar?
Sinto-me confortável das duas maneiras. Até porque não há nada mais confortável do que escrever, uma das poucas actividades que tenho hoje em dia que pode ser desempenhada de pijama, no sofá. Por um lado, quando escrevo para mim, controlo todo o processo, do início ao fim, e tenho a certeza que vou perceber exactamente o que está ali escrito. Por outro lado, se escrever para outros desfruto depois da performance do comediante/actor, que tem capacidades que eu não tenho! Por isso adoro poder fazer as duas coisas, até porque tenho a sorte de escrever apenas para pessoas que admire e não fazer fretes.

19. Stand up está fora de questão?
Nada está fora de questão. Quer dizer, abrir um restaurante, por exemplo, está. Mas nunca eliminei peremptoriamente nenhuma hipótese, da mesma forma que não planeei nada. Não planeei fazer rádio, muito menos televisão, e aconteceu. Mas não eram propriamente objectivos. Por isso não declino já essa possibilidade, mas certamente não começarei agora uma carreira de stand up a sério, com não sei quantas actuações em bares, e por aí fora. Não é coisa que me fascine. Pode acontecer tipo acto isolado, mas nunca me levarei muito a sério nisso. Sou humorista e estou disposta a experimentar várias formas, mas sei que a que me dará sempre mais gozo é escrever.

20. Mesmo após Altos & Baixos ter terminado no Canal Q, a Joana e o Daniel ainda o levaram para a estrada. É uma daquelas coisas que nunca se sabe se poderá voltar, ou já tiveram essa conversa lá em casa e vão enterrar de vez o conceito?
Na verdade fizemos os dois primeiros espectáculos, em 2016, em jeito de encerramento do programa. A coisa acabou por correr muito bem e como as pessoas pediam o regresso do programa, e isso era impossível, pensámos que uma forma de as recompensar de alguma maneira era fazer um Altos & Baixos anual que colmatasse de certa forma a falta daquele resumo semanal que fizemos durante quatro ou cinco anos no Canal Q. Conseguimos fazer isso em 2018, com uma série de datas, mais até do que esperávamos, e talvez voltemos a fazê-lo no futuro, porque nos divertimos e porque nos parece que é um formato diferente de todos os outros, mas, também temos ideias para fazer outro tipo de espectáculo, já sem os típicos vídeos causadores de vergonha alheia.

Artigo publicado na edição de julho de 2019 da PLAYBOY PORTUGAL. Pode comprar a edição impressa na loja online.