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Ivo Canelas: “Não alimento muito o meu ego”

O ator sentou-se para uma longa e divertida conversa com a PLAYBOY sobre tudo. Bem, quase tudo.

Foi numa tarde em que o sol explodia sem aviso, que recebemos um dos actores que mais luz traz à cultura portuguesa. O fim do verão será aconchegado pela série Sul, a estrear na RTP, mas é o regresso do monólogo Todas as Coisas Maravilhosas ao Estúdio Time Out, a 27 de Setembro, que mais meteu lenha para a conversa com Ivo Canelas. Rompemos os cânones e tropeçámos em reflexões sobre sexualidade, (não) religião e aquilo que ainda insistimos em procurar: felicidade.

Tem dois irmãos mais novos e é o único actor. Tentou ser outra coisa por influência ainda após a fase de “quero ser astronauta”?
Perto dos 18 anos tornou-se claro, não havia mais nada que me motivasse. Há outras áreas que me interessam, mas também no universo de nos pormos no lugar do outro e das várias perspectivas da verdade. Por exemplo, Direito tem essa carga: não te vou julgar, vou defender o teu ponto de vista quer seja verdade quer seja mentira; o jornalismo também me interessa pelo lado da investigação e de transmitir à sociedade aquilo que viste, porque é muito semelhante ao trabalho que nós fazemos.

Ainda assim acha que fez o conservatório demasiado novo. Já era altura das instituições reverem o programa de sabermos o nosso futuro quando ainda nem sabemos quem somos?
Isso é interessante. Eu não tenho filhos, mas amigos meus têm-me contado que estão cada vez mais a surgir novas aproximações no ensino mais flexíveis. Coisas tão simples como os alunos não terem que estar todos sentados nas cadeiras. Eu era um aluno que na cadeira era muito chato, mas trabalhava muito bem no chão. Não há porquê, a não ser para uma certa transmissão de controlo. O Gonçalo M. Tavares diz sempre que a expressão grega «sentar», vem de sossegar e abrir a cabeça para ouvir informação. Todos os alunos têm a sua área para não comprometerem a energia dos outros, mas estas 3/4 energias são viáveis.

De um Texas com memórias embrionárias, passou boa parte nos subúrbios de Lisboa e voltou aos EUA com 27 anos depois de ganhar uma bolsa. Como é que não cedeu à tentação de ficar por lá mais 3 anos a servir às mesas e ver o que dava?
Sabes que enquanto cá estamos, a gente não sabe onde é que vai, portanto não escolhi nada. Eu gosto muito de Nova Iorque e da ideia de uma América que não é a que estamos a conhecer hoje; uma representação de um farol de democracia e liberalidade é a América que me faz querer lá ficar e voltar sempre. Se bem que até acho importante continuar a lá ir e contrariar, porque há que dizer em que campos estamos agora. Existe um hashtag #fucknazis de uma activista, que diz que “já não chega dizer que somos do bem, temos que nomear o mal”. Não há espaço para ambiguidade. Acho que a América que não cedeu à tentação de me querer. Assim que, ou se alguma vez eu conseguir, fixar-me do ponto de vista profissional, voltarei e manter-me-ei. Mas acho que é uma cidade maravilhosa para se estar por períodos, por tudo o que oferece, por tudo aquilo que nos obriga a questionar. Lisboa é mais especial e mais equilibrada.

Quando trabalhou na casa do terror e fez de preservativo roto para o La Féria, foi muito depois disso?
[risos] O preservativo roto foi embrionário da casa do terror, num desfile que houve na Avenida da Liberdade em que ia fazer uma figuração e calhou o preservativo e tinha que estar roto para poder ver o caminho. Foi um inferno. A casa de terror foi anos mais tarde, já tinha desistido do Conservatório.

Ainda faz alguns workshops. Sempre na procura de o próximo casting nos Estados Unidos ser um tiro certeiro?
Sim, acertar e ficar. Um casting é uma espécie de uma proposta, “Olhem isto é o que eu vejo para esta ideia, vejam lá se bate certo com a vossa” – até hoje poucas bateram e as que bateram foram pouco expressivas. Foram dois episódios em duas séries americanas, filmámos na Irlanda; mas eram duas cenas, três linhas.

A resistência ao impacto das audições sem sucesso vai aumentando com a idade e experiência?
Não, para mim não. Ninguém se dá bem com a rejeição. Se estivermos um dia cansados quando estamos a chegar a casa e alguém não nos segura a porta, pode magoar. E é só uma distracção. Numa rejeição uma parte é simbólica, uma parte é o que se faz. Dói sempre. Quando éramos pequeninos, achávamos que quando fossemos adultos ia ser tudo muito mais claro. Não é.

Ivo Canelas: "Não alimento muito o meu ego"

Crescemos e dói à mesma, se é que não mais, porque vemos os mais novos a avançar e isso provoca alguma frustração. E sente logo que não foi seleccionado?
Já fui surpreendido por gente muito generosa na forma como fazem o casting. Fazem-te sentir muito especial e valorizam o teu trabalho e tu sentes “Este gajo está a gostar de mim!”, e acho que é porque é uma pessoa que sabe valorizar o teu trabalho de forma a que tu naqueles 10 minutos dês o teu melhor. Eu estou tão habituado ao contrário, de chegar a sítio e “pumba, faz”, que já tive momentos em que acreditei que era ali, não foi e fiquei muito surpreendido. Confundi generosidade com um interesse real naquilo que eu estava a fazer.

Não gosta de forçar o futuro porque está no sangue de artista ou por o mercado ser tão volátil?
Nem tem a ver com artistas, nem tem a ver com o mercado. Tem mesmo a ver com “Oh pá, não vale a pena”, não sinto que valha a pena. Acho que temos que aplicar energia naquilo que fazemos, acho que temos de nos dedicar àquilo que fazemos, mas eu de todas as vezes que planeei mais do que os próximos 3 dias tive que trocar a minha agenda toda. Nunca nada é como a gente planeia. Ou é raro ser.

Além de participações nas séries norte-americanas Emerald City e Into the Badlands, fizeste parte do elenco principal da série de comédia canadiana Living In Your Car, que durou duas temporadas. Apesar de ser para a HBO de lá, estar do outro lado da fronteira faz com que seja uma realidade totalmente diferente da americana?
Gostei imenso de trabalhar em Toronto. As pessoas são uma mistura interessantíssima que eu acho que é o melhor da Europa e o melhor da América; tem uma certa excitação americana, mas uma coolness europeia. Não têm aquela drive de trabalho, saem imenso à noite e têm imenso sentido de humor. Do ponto de vista profissional, tu só podes voltar ao Canadá a fazer bom dinheiro depois de te tornares um actor americano famoso. Tens de conquistar a América e depois podes voltar para o Canadá pela porta de ouro.

Essa série também veio de um casting?
Foi convite e casting. Isso foi o Nuno Bernardo que co-produziu e o Canadá tem uma comunidade portuguesa forte, então mandaram dois portugueses que fui eu e a Lúcia Moniz. O meu inglês era aquele híbrido de estrangeiro imigrado, e ainda me pediram para dizer qualquer coisa na minha língua e eu “c’um caraças”. [risos]

Chega a ser incomodativa a associação a um único papel, como aconteceu com o Joca de Fura Vidas?
Sim e não. Como as pessoas são tão gentis e há um carinho tão especial, que acho que é minha obrigação e é sempre um prazer reagir. É giro como é sempre uma referência, mas também tem que ver com a referência da própria juventude, ou seja, diz mais sobre as pessoas do que eu.

Foi a primeira injeção de exposição mediática que teve.
Eu queria muito essa exposição, quando me disseram que era com o Miguel Guilherme e com o Canto e Castro, foi logo “Bora”. Portugal era mais pequeno, as 9h30 horas da noite eram mais importantes do que são hoje, depois aquilo saiu e foi muito chocante para mim, a falta de privacidade.

As suas performances são sempre muito viscerais, algo aparentemente incompatível com alguém que se assume como tímido. É o gatilho das câmaras e palco que ativa aquela auto-confiança brutal que se tem que ter no mundo cão de Nova Iorque?
Quem me dera que houvesse mais. O que eu acho que é que gosto muito do que faço. E esta profissão tem esse lado de ser uma espécie de mergulho. No teatro usa-se a psicologia e a catarse, porque te permite dizeres palavras que não são tuas e todos estes exercícios psicológicos e mentais que te permitem pôr-te em posições que, acima de tudo, são um escape. Mas sim, às vezes acho que me faz um bocado falta esse “Saiam da frente que eu sou muita bom”. Eu gosto de fazer muita bem, mas não tenho a certeza que o vá fazer. Até acho que gosto dessa dúvida e isso tem-me forçado a fazer melhor do que eu acreditaria, mas gostava mais de ser a pessoa que o Mourinho é.

Vê-se a ocupar mais alguma cadeira, da realização à produção?
Teoricamente, interessa-me muito a direção de actores. Tens de ter a generosidade de trabalhar em condições estranhas, com pessoas que não conheces, de mudares todo o teu trabalho em prol dos outros. Não gosto de realizadores em que o ego deles parece ser maior do que a própria história. Sei que um realizador pode tramar uma equipa inteira e pode desfazer um actor só de dizer-lhe a coisa errada no momento errado. Nas minhas pouquíssimas incursões a dirigir o que quer que seja, o meu ego espreitou demais, coisa que eu acho que não acontece quando estou a representar. A minha energia deixa de ser fluida, eu tenho muita energia e fica um bocadinho impositiva. E isso não é fixe, porque detesto que me façam isso.

Ivo Canelas: "Não alimento muito o meu ego"

E a paixão pela fotografia, é de longa data ou potenciada pelo Instagram?
É potenciada pelo Instagram e pelos telemóveis. Lembro-me de em miúdo o meu avô tinha uma camara fotográfica e eu tinha muita curiosidade pelo objecto. Ou de o meu pai comprar uma Polaroid e aquilo fascinar-me, a magia daquelas coisas a aparecerem, e de ter tirado a primeira fotografia que eu achei que me despertou, que mostrou que a fotografia não era o objecto mas era a luz. Ou seja, a compreensão da luz que faz mudar o objecto. Era um castelo qualquer e estava um fim de tarde muito bonito. Depois na adolescência, já com a banalização das máquinas fotográficas e os rolos mais baratos, comecei a fazer umas coisas muito pirosas. Depois em Nova Iorque, começam-me a falar do Instagram, e numa noite em que não conseguia dormir, faço o registo e tiro uma fotografia a uma fotografia, sem interesse nenhum e aparece-me um coração e eu “Oi?”. O impacto do coraçãozinho vermelho realmente é uma festinha na tua solidão. Aquilo animou-me e o meu ponto de entrada nem foi a fotografia, foi realmente a solidão. E da solidão à fotografia foi rápido. Passei a interessar-me mais pelo que é esquisito, sujo, as barrigas quando estão gordas, a roupa desalinhada. Como um gloss generalizado de tudo o que está à nossa volta e de uma espécie de validação daquilo que eu estou a fazer, ou seja, parece que aquilo que eu estou a fazer sozinho não serve se não for visto.

E diz-se que os likes vão acabar. Será que a solidão se vai instalar na humanidade?
Estou muito curioso. [Mostra o ecrã do telemóvel]. Olhem a cor dos verdes, a força do vermelho. Cada coisa destas é um kick. Agora vejam isto [mete o ecrã a preto e branco]: já podemos ter uma vida agora. Já nada se destaca. A filha Steve Jobs, a filha dele não tinha Ipad até ser maior e vacinada. Por isso, ele sabia que a cocaína, a heroína, o nosso cérebro reptiliano, fome, sexo, estímulos, está tudo dentro do mesmo sítio, portanto não vou dar à minha filha, não quero que ela fique agarrada. Porque se para nós já não é fácil, nem quero imaginar o que é ter 12 anos e ter dois colegas a pôr likes nas minhas fotografias quando estou todo torto. Se o impacto que tinha na escola escreverem na carteira «puta», hoje vemos as ditas putas todas dos outros ampliadas para três mil.

Soldado Milhões, Liberdade 21, Filha da Lei… Como é que são as coisas por cá, estão sempre a enviar-lhe argumentos?
Era bom que estivessem sempre a ser feitos argumentos, depende muito das fases do trabalho. Também acho que há momentos em que as sinergias todas se juntam.

Recebe muitas coisas que estão no zero e que pode querer empurrar para a frente?
Coisas muito embrionárias, projectos já fechados e acabados e muitos projectos que parecem estar prontos e acabados e estão longe disso – não levaram o amor máximo, aquela coisa de partir aquilo tudo até chegar à essência. Num projecto precisas de 40 ou 50 revisões. Há uma imagem que eu às vezes uso dos escultores africanos: os gajos escolhem uma pedra para trabalhar, mas não vão logo esculpi-la; é colocada embrulhada num saco dentro de uma panela com água a ferver e fica lá até se tornar pequeníssima, com muito menos probabilidades de estalar. Às vezes sinto que nós não fazemos isso, tudo começa cheio de coisas a mais.

Vai entrar também como bispo na série a estrear na RTP, Sul, que retrata uma Lisboa crepuscular através de um drama policial.
É um bispo de uma igreja alternativa. Nunca fui fã de religiões. Interessa-me o que a religião deu cabo da nossa cabeça. Sou completamente agnóstico. Acho que estamos sozinhos e é assim que se deve estar. Interessa-me a nossa necessidade de acreditar porque acho que há ali mundos e mundos. Nós não vamos a lado nenhum sem a espectativa de nos divertirmos. Nisso a igreja católica tem perdido imensos adeptos porque não é fun, provavelmente quando deixaram de queimar pessoas nas fogueiras. Essas igrejas alternativas o que nos trazem é entretenimento puro. É como nós irmos ao NOS Alive e pagamos 140€. Vais a uma igreja destas onde estás perto de tua casa e vais gastar igualmente, talvez não por 3 dias mas por 5/6 horas onde estás a curtir, a ouvir cenas profundas sobre ti, sobre os outros, entrar em estados alterados sem consumires coisíssima nenhuma e veres deuses e demónios ali ao teu lado, a cantar. É por isso que não enganam ninguém. O Elvis não fez dinheiro? Porque é que esses gajos não podem ficar ricos, estão-nos a entreter.

A série entrou no circuito da Berlinale e o Ivo Ferreira apresenta-a como um grande filme desconstruído. Acha que o preconceito com o produto português vai-se dissipando cada vez mais?
Acho que o preconceito é ignorância. Eu tive a sorte de ter participado em alguns projectos que que subiram níveis, mas desde que surgiu a série do Marco Martins, a Sara, acho que o paradigma mudou. Aquilo tocou-me em tudo o que todas as séries internacionais me tocam. Eu acho que exportar é uma consequência de uma explosão interna. Eu acho que o pastel de nata só chega lá fora quando toda a gente come o pastel de nata cá dentro. A Casa de Papel, isso para mim é uma exportação. É uma explosão. Eu tenho uma amigo que é o Enrique Arce, o “Arturito”, que foi para Espanha triste de não ser uma série internacional e de repente tornou-se. E eu acho que quanto mais nicho o produto é mais se torna universal, a curiosidade é maior. O espectáculo que estou a fazer, Todas As Coisas Maravilhosas, o boca-a-boca vai-me encher o resto da casa toda os dias todos.

E algo que parece também estar para finalmente para sair é o filme Do Outro Lado do Mundo que gravou há 12 anos, que passou na tv espanhola mas em Portugal teve uma série de vicissitudes. Há algo mais frustrante enquanto ator do que este tipo de cenários?
Ai vai sair? [risos] Nem eu, nem o país, nem provavelmente o filme terá a dimensão para provocar essa dor toda. Por exemplo, o Apocalypse Now: nem imagino o que é que será tu filmares com o Copolla e com aquela malta toda aos 20 anos, o filme demorar um bocado de tempo a sair e quando o filme sai tu vais ver e não estás lá. É a tal questão das expectativas que é tramada nesta profissão. Mas nunca tive a sorte ou azar de estar num projecto que me fizesse sentir essa pena toda.

Em termos meramente sensoriais, prefere um trabalho mais cirúrgico ou algo com mais improviso e descontrolo como ter uma erecção numa cena de sexo?
Tudo depende do projecto e das pessoas, mesmo em cinema de autor. Em relação à erecção, isso foi na escola há muitos anos onde a cena pedia tudo isso. E isto pode ser muito discutível, mas acho que agora vivemos um momento muito mais assexuado no cinema, o que é natural numa série de acontecimentos de abusos. A malta tem que criar as defesas e fizeram com que ninguém queira filmar sexo neste momento. Nós vivemos num país muito liberal e todo o trabalho que eu tenho do ponto de vista físico, seja homem, mulher, cão ou gato, digo sempre: “Vou fazer a cena com tudo o que tenho, se houver alguma coisa que em algum momento for esquisito, pára logo”. Já me aconteceu cenas de beijos que não curti, pela forma como foi feito. Acho que passa mais pela questão do consentimento. Se ambas as partes estiverem com força igual, acho que se pode ir longe. Mas não chamo descontrolo, eu chamaria crença: o teu trabalho é mandar lenha para a fogueira e há uma altura que começa a mandar fumo – não há fumo sem fogo. Isto também é sinónimo de confiança naquela pessoa e é sintomático de liberdade.

Confessou que o estimula o espírito de groupie quando ouve artistas como o Conan Osiris, mas também esteve doutro lado com a sua banda Cosmic Joke. Chegaram a gravar alguma maquete?
[risos] Achas? Isso foi noutra vida, noutra reencarnação passageira. Há 20 anos talvez. Era uma banda de garagem.

É um assunto arrumado para sempre numa gaveta ou estamos perante um potencial Ricardo Carriço?
Enterrado para sempre. O Todas as Coisas Maravilhosas vive muito da música e eu canto, mas é do tipo se quiserem cantar comigo cantem, que pior não pode ficar. Eu sou afinado e adoro cantar, mas não tenho qualquer pretensão.

Um projecto como Os Filhos do Rock dá um gozo especial e há outros que são essencialmente para pagar as contas?
É muito bom conseguires pagar as contas com o que gostas de fazer e acho que essa é a situação ideal. Ou seja, eu não preciso de ficar rico. Para mim isso é um grande sinónimo de felicidade. Normalmente tenho tido essa sorte de ser envolvido em projectos onde as duas coisas são possíveis. Uns mais especiais, uns mais bem pagos, mas a felicidade profissional para mim é mesmo isso.

Pela curta duração de cada projecto que aceita, apesar da novidade constante, não é depois doloroso apegar-se e abandoná-los logo de seguida?
Não. É óptimo. São oportunidades, são momentos. Eu gosto desse começar e acabar. Gosto de um determinado tempo de maturação dos projectos, acho que têm ali um tempo de validade, pela minha experiência. Se nós em 3 meses gerarmos tudo o que conseguirmos gerar é genial. Nunca tive uma série a fazer quatro temporadas, mas gosto desse mudar de página, desse trocar de cartas. Por exemplo, ao tempo que o Sul está a ser desenvolvido, mas há toda uma pré-preparação e pós-produção que um actor não está envolvido, o nosso trabalho é mais incisivo.

E este regresso à tua peça Todas as Coisas Maravilhosas já tem um sabor diferente?
Fomos tão surpreendidos. Fizemos o monólogo o ano passado, no Estúdio Time Out, onde vamos voltar agora de 27 de setembro a 13 de outubro. Porque é que vamos voltar? Quase uma semana antes de aquilo estrear tínhamos para aí 4/5 bilhetes vendidos, foi muito assustador. Na estreia normalmente são convites a familiares, amigos e enchemos aquilo muito bem. E a minha reacção foi como eu nunca tinha tido, absolutamente rock-n-roll, e teve um feedback incrível. E imediatamente fomos record da Ticketline. Papámos os Scorpions… foi impressionante. Não chegámos ao primeiro lugar, acho que foi ao quarto, mas se ficássemos dois meses, comíamos aquilo tudo. Fizemos Porto, Almada e agora voltamos a Lisboa porque há montes de gente que quer ver. Vamos levá-lo ainda a Leiria, talvez Guimarães, Algarve, Loulé. A ideia é fazer até ao princípio do outro ano, e depois gostávamos de tentar fazer uma incursão pelos países com expressão portuguesa.

Acha que pode ser filmado?
Completamente. Pode ser filmado e editado de várias maneiras, fizeram lá umas misturadas e é tentativa e erro. Normalmente são todos muito interessantes e não é por minha causa, é pela experiência humana. Aquilo é uma coisa do momento.

Consegue converter as pessoas com menos predisposição para interacções?
A maioria das pessoas reage sempre muito bem. Se viessem pedir-me para fazer o que quer que seja, eu fugia. Tanto que eu não peço nem a colegas nem a amigos, é estranho. Só peço a pessoas desconhecidas e às que querem. Não obrigo ninguém e as pessoas que não querem, depois no final dizem-me “Queria tanto!”. Lá em cima no Porto é mais claro, a malta é mais desconfiada no início mas muito mais generosa; os homens começam o espectáculo de braços cruzados e aos 10 minutos a maior parte está lavada em lágrimas. É impressionante. E então este lado mais conservador, mais fechado, quando aquilo abre… F*da-se. Quanto mais macho, mais aquilo quebra.

É o seu primeiro monólogo. Houve alguma revelação sobre si, não só enquanto ator, nesta nova forma de exposição fora da zona de conforto?
Hum, isso é giro. Acho que… tentei sempre não correr para o efeito. Quando tentei fazer isso não correu bem. E este espectáculo tem validado isso cada vez mais. Eu eu sei os picos e sei que aqui normalmente a malta cai toda, pela forma como é interactivo, pela dose de improviso. Já me aconteceu chegar ao final do espectáculo com umas 3 frases onde tu teoricamente estiveste a construir o espectáculo inteiro para chegar àquele momento, e afinal é telefones a tocarem e pessoas a falarem. E só tem mal se eu quisesse outra coisa que não aquela que está a acontecer naquele momento. De repente, aquilo que me parecia ser um bom momento de teatro em que as pessoas vão estar concentradas e a ouvir-me, é interrompido e a magia esvazia-se por todos os lados e eu tenho que sair sem dizer “Desligue lá o telemóvel, se faz favor”. E volto e parece que nada quebrou. Porque é a vida, a verdade que temos é esta. Só seria estranho se eu quisesse voltar ali àquele sítio e já não existisse. Portanto, tenho aprendido que não vale a pena mesmo querer muito nada.

Esta peça desafia o conceito de felicidade, com o deslumbramento a diminuir com o avanço da idade. Quais são as coisas que mudaram mais na sua perspectiva numa janela de 15 anos?
Tudo isto é passageiro, cada dia isso é mais claro para mim. Eu agora ando de mota e aumenta mais essa sensação; cada metro em que não levo com um carro em cima está ganho. A minha avó vai fazer 99 para o ano que vem e ela diz “Estou um bocado cansada, o que é que vou fazer, chegar aos 100?”. E cada hora que passa é uma vitória. Eu cada dia que não a vejo, penso “Tenho que ir vê-la”, e é essa noção de finitude e volatilidade que está mais clara em mim. Mas é realmente um exercício que a gente esquece. Eu estava lá quando as torres caíram no 11 de Setembro e achei que nunca mais me ia esquecer daquilo. Dez anos depois já não me lembrava bem. Isto também é uma coisa maravilhosa que temos: a nossa capacidade de esquecer. Mas por outro lado, se esquecemos muito… voltamos a repetir o erro.

O que é que contribuiu mais para o seu sucesso?
Não me cabe a mim medir quanto é que é de cada mas um bocadinho de talento, trabalho e muita sorte. Esta profissão, vive muito da sorte. Sorte de estar no sítio certo, de ter uma determinada energia, na educação que tive e também nos pais que tive e naquilo que me foi transmitido.

Qual foi o segredo para se conseguir manter relevante, estando longe das das novelas e imprensa a elas dedicada, ainda por cima sem as linhas diretas para os fãs que as redes sociais hoje oferecem?
Há um gajo muito interessante nas redes sociais que é o Gary McVee, um daqueles entrepreneurs histéricos. Ele diz que estamos a viver um momento da nossa sociedade onde se és apaixonado por chapéus, vai falar sobre chapéus que tens mil milhões de pessoas interessadas naquilo que vais dizer. A relação directa entre a tua paixão e o teu público na altura não estava assim, mas não interessa. Eu acho que a dedicação é sempre algo mais abrangente que reconhecemos. Podes até nem fazer tudo muito bem, mas há um investimento e essa paixão traz uma vibração. Hoje estamos a vender cada vez mais isso. Antigamente se calhar dava aquele “fake until you make it”, mas hoje ou é mesmo genuíno ou vai aparecer logo no post seguinte outro gajo que tem essa paixão verdadeira e vai-te comer.

Há sempre alguém que vai querer mais.
Exactamente, e isso também me dá pica. Dá-me pica sentir malta muito mais nova com uma energia do caraças e uma visão que eu não tenho, e sentir o calor dos carros atrás de mim a quererem passar.

E o impacto do seu sex appeal sempre o acompanhou ou foi reforçado com a chegada dos 40?
Gosto de acreditar que o impacto junto das espectadoras, dos espectadores, animais, crianças e de algumas plantas existe e sempre existiu em várias fases da minha vida. A sedução para mim é algo que é importante e faz parte da minha natureza. Existe em mim essa capacidade de gerar interesse (espero eu). Sinto muitas vezes grande feedback que vem dos sítios mais inesperados: uma miúda de 9 anos no final do monólogo veio ter comigo e acho que estava apaixonada. Eu fiquei a olhar para ela assim “Ok, vamos ter que esperar 10 anos”. [risos]

Consegue ser transversal a várias gerações.
E do mesmo sexo. Há um feedback muito curioso e eu tenho a sorte de ter perdido a homofobia muito cedo. Isso permitiu-me aceder à colheita de energias de todos os lados muito cedo, o que me deu um reforço porreiro. Cada vez mais interessam-me as questões todas da fluidez de género, acho curioso ver a malta irritada com a complexificação do tema. Nós, o homem dito branco europeu, estivemos muito habituados a sermos os que mandávamos durante séculos. Não havia mais nada, éramos nós e “os outros”. O que é maravilhoso na evolução é que vamos aprendendo que existem mil variações e todas merecem ter um nome. E é bom que saibas o nome porque um dia vais ser a minoria. O ser humano tem a capacidade de ser múltiplas coisas, provavelmente dentro de um só corpo. Tudo o que temos que nos diz “Eu sou isto ou aquilo” foi-nos imposto, é cultural e é a nossa forma de termos um bilhete de identidade. Experimenta lá ir à tropa em 1985 ou 90: “Sou ator”, “Uiiii, estou a ver”. [risos]

Ganhou dois globos de ouro com Call Girl (António-Pedro Vasconcelos) e O Mistério da Estrada de Sintra (Jorge Paixão da Costa), que estão com os seus irmãos. Não se pode dar ao luxo de ser um ator nostálgico?
O Bruce Springsteen explica isso muito bem no Glory Days. É difícil. Mas a nostalgia ainda não faz muito parte da minha natureza. A pergunta que devia fazer a mim próprio era “Então e se fosse um Óscar, será que também dava ao meu irmão?”. [risos] Posso estar enganado, mas acho que tinha que dar a alguém ainda mais longe do que família. Algo tão poderoso como isso acho que é difícil não te fazer mal à cabeça. Estes prémios são, acima de tudo, uma forma de gerar interesse para a indústria, são formas de termos carimbos nos filmes. Isto vale o que vale. Se calhar tenho medo de me instalar, de deixar de ser pertinente e então vou-me armadilhando. Não vou alimentando o meu ego muito e vou-me colocando sempre no sítio onde tenho fome criativa, de querer furar. Fome de mais.

A inocência perde-se com o conhecimento do contexto político-ambiental etc, mas é no futuro o lugar onde se sente melhor. O método que tem de ter enquanto ator ajuda no treino para ser feliz?
A vida está para a frente. Havia um jogo de computador em que criavas bactérias e desenvolvia-las. Aquilo dava uma liberdade criativa… Quatro olhos, 27 pernas e não tinha grandes elementos de construção. É muito engraçado que os nossos olhinhos estão para a frente, mas também podiam estar para trás. Os caranguejos andam para o lado. Isto com certeza irá influenciar a forma como nós percecionamos o que é que é verdadeiramente importante. O meu espelho retrovisor dá-me o passado; os meus olhos estão para o futuro e eu estou no presente. Aquela analogia num carro… queres ir para o passado metes marcha-atrás e parece que é uma tentativa de enganarmos o espaço-tempo. E com mais facilidade sobes uma montanha do que a desces, numa descida a correr não podes travar, tens que te mandar. A nossa espécie humana tem esse design, evoluímos no sentido de trepar. Acho que somos construídos para o futuro, para apontar para a esperança, para a vida. Depois é que fazemos aqui umas coisas mais complicadas.

E tem alguma resolução de estimação que nunca cumpre?
[risos] Tenho a minha guerra pessoal com os cigarros que a estou a ganhar há uns anos, mas é para a vida. Uma das resoluções determinantes foi deixar de fumar e estou a consegui-la. Aqueles clichês parvos de beber água e continua a rir muito. sorri, sorri, sorri. Enquanto actor eu tenho muita auto-disciplina, apesar de tudo. Aprendo sempre alguma coisa nova, mais um skill qualquer. Acho que isso é sempre uma mais valia. Vai mantendo a cabeça aberta.

Não necessariamente para trepar ao topo da auto-realização senão não há mais nada que o mova?
Não. Sabes o que dizia uma amiga minha? “Tu se alguma vez lá chegares acima, vais-te aborrecer”. É muito giro isso. Chegamos a casa à noite e estamos tristes, mas o que é facto é que as pessoas todas felizes que eu conheço são aquelas que estão a tentar. Vale o que vale, se calhar nem é bem isto, mas há uma coisa no conseguir que é a questão de manter. Eu agora consegui, vou ter que trabalhar o manter. Enquanto que quando pouco ou nada tens, só tens de trabalhar o ter. E isso é muito fixe. Só tens de lidar com o caçar. Depois de o ter já tens que lidar com outras coisas. O que é difícil é manteres-te rico.

Este monólogo começa com um miúdo de sete anos a fazer uma lista de coisas maravilhosas. Se com essa idade lhe pedissem o oposto, uma lista de coisas terríveis, o que é que lá escrevia?
Substituírem o Alf pela tourada. Por favor, não. O fim do mundo, acabou tudo, não faz sentido. “O quê? 15 dias sem…? Estão doidos, não dá.” Isso seria uma catástrofe. Estamos a falar de apocalipse.

E hoje?
Substituírem o Alf pela tourada? Não, há limites! Não! [risos] Hoje há um pragmatismo maior. Eu não saber bem responder a essa pergunta é que estou a achar graça. A primeira coisa que me apareceu na cabeça foi a morte. Mas para parecermos interessantes [risos], em vez da morte linear, vamos falar da morte do espírito. Vamos falar daquilo que o Jacques Brel fala como o ser velho sem chegar a adulto. Qualquer um de nós está nesse perigo constante e acho que é terrível porque, provavelmente, quando nos apercebemos já pode ser tarde demais. Essa morte é aquela que ocupa espaço. E há muita gente aí assim, não estão cá a fazer muito mais do que ocupar espaço, porque por dentro não há vida. Acho que a morte de espírito associo também à falta de capacidade de sonhar e de verbalizar esse sonhos, e aí voltamos ao Mourinho: quando ele diz “Eu vou ganhar” nós interpretamo-lo como “F*da-se, que convencido de merda“ e não; ele está a pôr o sonho cá para fora. Se calhar, vamos descobrir que ganhou também assim.

É a lei da atração. Pode-se condensar aí a felicidade.
Sim, a capacidade de sermos felizes com nada ou com pouco. Acho que apesar de tudo, Portugal tem uma boa tradição nisso. Quanto mais porrada os povos levam na vida, ou individualmente levamos, ou o osso parte e já não volta ao normal, ou sais de lá com uma capacidade um bocadinho mais forte de curtir.