Playtalks

Gonçalo Waddington: “Fui vaiado em palco por 600 velhinhos do Inatel. Queriam bater-nos”

Entre cinema e teatro, Gonçalo ainda não parou um segundo. Embora até haja quem pense que foi esquecido. Enganam-se. E muito.

Passou parte da infância perto de índios na floresta mas em Portugal nunca foi muito de coboiadas, embora tenha estado perto de ser linchado por um pelotão de velhinhos irados do INATEL. A apresentar “Patrick”, o primeiro filme em que se senta na cadeira do realizador, aos 42 anos, Waddington volta aos ecrãs de cinema lá mais para janeiro, na companhia de Bruno Aleixo.

O ator, encenador, realizador, autor e sabe-se lá mais o quê, chegou à entrevista com a PLAYBOY de raquete de padel à costas. Foi à mesa do café no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, que falou sobre o país sem poupar na ironia, da sociedade que ainda vê os artistas como “mamões” enquanto continua a salvar bancos e da malta muito moderna a usar GPS mas que agora acha que a Terra é plana.

Viveu parte da infância na Venezuela. Porquê?
Os meus pais trabalhavam em barragens, estiveram na Guatemala a trabalhar e depois foram para a barragem do Gúri, no interior da Venezuela. São obras onde começam por construir primeiro as casas das pessoas que vão para lá viver e trabalhar. Demoram anos. Estive lá praticamente desde que nasci até aos seis, sete anos. Era um país fixe.

O que é que ficou desse período?
As chuvadas tropicais, todos os dias. Vivíamos mesmo no meio da floresta. O empreendimento onde estávamos foi construído por americanos, estilo alphaville. Era casa, jardim, casa, jardim, tudo seguido. À volta era tudo floresta tropical densa. Tudo gradeado , até porque havia lá muitos animais. Visitávamos os índios Guaica, íamos ao rio Orinoco, passávamos numas ilhas fluviais, na ilha Margarita, que na altura ainda era abandonada, muito antes de ser turística.

E o regresso a Portugal?
Lá tinha andado no Colegio Positivo, que havia em vários países da América do Sul e tinha um ensino muito diferente, mais progressivo. Quando cheguei cá foi bastante estranho, mas habituei-me. Fazia era muito frio, isso foi um pouco chocante.

Manteve-se o contacto com a Venezuela?
Só pelas notícias e o cenário não é muito animador.

E em miúdo, portava-se bem ou partia tudo?
Tinha fases, não era nem tanto ao mar nem tanto à terra. Tive uma infância feliz.

E era namoradeiro?
Não, nisso era mesmo reservado. Pá, esta entrevista apanhou-me de surpresa [risos].

Não se preocupe, queremos saber mais coisas. Como é que se virou para a representação?
Não tenho ligação direta, embora em miúdo houvesse muita literatura e música lá em casa. Aos 17 anos estava num curso de jornalismo e vi que havia um de teatro na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Não tinha aquela coisa de “sempre sonhei ser ator”, mas fazia sentido para mim experimentar. E lá percebi que tinha tudo a ver comigo. Foi uma casualidade.

Percebeu logo que não ia ter um trabalho das nove às cinco?
Não, foi só o perceber que há qualquer coisa para eu fazer. Antes não tinha noção do que ia fazer. Não tinha nenhum desejo em especial nem aversão ao trabalho de escritório, até porque os meus pais trabalhavam assim e hoje em dia sento-me muitas vezes à secretária a trabalhar.

Muita gente conhece um lado mais cómico do Gonçalo, mas tem fez e faz papéis mais dramáticos.
É um problema que só me afeta a mim e na verdade não me afeta. É só que onde há mais exposição é na televisão e eu fiz bastante: telenovelas, “Os Contemporâneos”, depois “O Último a Sair”. Ainda hoje, e já não sei há quantos anos foi, ainda há muita gente que me conhece por causa disso.

O País é corrupto a dar com um pau mas os artistas é que são uns mamões

Isso faz-lhe confusão?
Não, mas é engraçado que há pessoas que vão pouco ao teatro ou veem pouco cinema português e me dizem “pá, tu já não fazes nada”, mas vivo bem com isso. Uma revista online tinha uma vez uma publicação sobre famosos que caíram no esquecimento. Havia lá uma data de malta e estava lá eu e até partilhei o artigo. “Fixe, não sabia que este gajo tinha caído no esquecimento” [risos].

“O Último a Sair” chegou a enganar uns quantos telespetadores que acharam que era tudo real.
O mais grave nem é isso, isso até tem piada. Logo no dia a seguir havia gente noutros canais a dizer “ah aquilo que se passou ontem na RTP é uma vergonha, fazerem com dinheiros públicos programas daqueles, não pode ser”. Muita gente apanhou aquilo a meio e se só viram momentos da tal casa, aquilo não é muito diferente da “Casa dos Segredos”. Na altura até víamos programas desses e comentávamos que aquilo tinha coisas tão estapafúrdias que parecia mais guionado do que “O Último a Sair”. O programa começava logo a chamar Teresa ou assim ao Miguel Guilherme. Quem não percebia que era uma sátira estava noutro planeta.

Chegou a mandar-lhe umas bocas na rua?
Sim, havia gente que me dizia “ah você é muito mal criado”. E houve quem me viesse perguntar: “Estavas a precisar de dinheiro para fazer aquilo, não é?” [risos].

Gonçalo Waddington: “Fui vaiado em palco por 600 velhinhos do Inatel. Queriam bater-nos”

Imaginamos que não tenha sido o momento mais delicado da carreira.
Em 2008 ou 2009, eu e o Tiago Rodrigues tivemos uma peça em que fazíamos de cozinheiros numa espécie de restaurante armado ao pingarelho gourmet. Em palco havia cozinha montada e cozinhávamos mesmo, sentia-se o cheiro na sala. E havia muita asneirada. Num espetáculo a sala do São Luiz foi toda comprada pelo Inatel. Quase 600 lugares só com pessoas idosas. Aquilo começou com uns 40 minutos de atraso, que era só autocarros a chegar, e desde o início estavam incomodadíssimos com as asneiras.

Como acabou isso?
Mais para o fim já havia pessoas a bater nas cadeiras, ouviam-se “buuus”, pessoas quase a subir para o palco, parecia que nos queriam agredir. A peça incluía um cameraman que depois foi lá para fora fazer um vox-pop. Fomos nós a escrever a peça mas havia idosos a dizer [imitando] “ah os artistas não têm culpa, quem tem culpa é quem escreveu” e “é por isso que os meninos andam nas drogas, o que lhes ensinam é isto em vez de ensinarem o A e o B às crianças”. Foi claramente do mais interessante que já me aconteceu em palco [risos].

Ser ator não é fácil. E realizador? Fez agora o seu primeiro filme, “Patrick”. Quando é que chega cá?
Em fevereiro ou março. Temos andado em festivais e o filme ainda vai continuar esse percurso, até porque nesta altura estreiam os blockbusters de Natal, os Pixars, no pós-Natal há os dos Óscares, e é difícil nessa altura o filme sobreviver.

Conta a história de um miúdo desaparecido que descobre as suas origens. O caso do Rui Pedro foi referência?
O filme é pura imaginação. Seria incapaz de incomodar as pessoas que ainda sofrem com esse caso por resolver, simplesmente é inegável que toda a gente acompanhou o caso desde 98. Vi muitos filmes em que o ponto de vista do rapto é dos pais que perderam a criança e eu queria o de quem é raptado. Que consequências há no dia a dia que passou por isso?

Como tem estado a ser recebido?
Muito bem. Já tem distribuição em França e Alemanha e estamos a tratar da do Brasil. É uma maneira também de vender para outros mercados. Há muitas vezes o erro da perceção do cinema português. Os 300 mil que veem um “Joker” cá nunca pagariam o filme. Isto não é como no Brasil, onde mesmo a minoria que pode ir ao cinema é uma brutalidade, são milhões de pessoas. Mas é interessante ver que em todos os grandes festivais há sempre cinema português. Consumimos muitos filmes de outros países, é da globalização. Da mesma forma, também temos de fazer com que os nossos sejam vistos lá fora e isso tem acontecido mais.

As pessoas vão pouco ao teatro e depois dizem-me ‘pá, tu já não fazes nada’

Em Portugal ainda há quem peça um cinema à Hollywood.
Esta coisa de criar uma cisão entre cinemas, como se não coexistissem, é um erro. Os americanos estão a debater-se com uma questão: já não há filmes de médio orçamento. O “Joker” foi uma exceção. Foi feito com 20 ou 30 milhões e nunca acreditaram muito no projeto. Tinham um grande ator mas era para maiores de 18 e gastaram pouco. E já vai com mais de 700 milhões de faturação.

É uma exceção?
Sim. Agora só têm filmes de pouco orçamento ou de 300 milhões. Aqui e noutros países há o ICA, que cobra uma taxa às operadoras e podes ter um cinema alternativo. Isso não implica que pessoas como o António-Pedro Vasconcelos, que faz filmes que neste momento são super comerciais e que tem sido uma das vozes mais críticas do ICA, mas é dos que tem beneficiado ao longo dos anos de subsídios. Pergunto-me como é que alguém pode dizer que isto está mal e tem de se mudar mas todos os anos recebe bastante dinheiro. O que não me parece bem são filmes que não precisam do apoio porque são feitos com orçamentos baixos, com pessoas conhecidas, alavancados por televisões que fazem publicidade, e depois vêm buscar dinheiro ao ICA. É como muitos outros investimentos em Portugal.

Como assim?
Em Portugal é muito fácil cascar nos artistas, mas quantos negócios em Portugal não dependem diretamente do Estado? Essa discussão de que as artes tiram dinheiro… A cultura é um serviço público. As pessoas têm a mania, como já ouvi uns comediantes, de dizerem que a malta do teatro usa subsídios para viver e não tem público.

Como reage a isso?
Convido-os a virem aqui [TNDM II], ali ao São Luiz, à Trindade, aos teatros aqui de Lisboa, do Porto, no Algarve, e digam onde não há público. Podemos ver obras por 14€ ou 10€ quando para certos espetáculos os bilhetes seriam 60€ ou 70€. Há uma oferta para tudo. É muito fácil cair em cima de certas pessoas. Não tarda nada estamos a pagar um Montepio e isso irrita-me um bocado.

O que falha?
Cabe-nos a todos contribuir para o mesmo e eventualmente alguns pagarem o que devem. Eu fartava-me de pedir faturas à Uber e deixei de a usar. Tenta pedir uma fatura da Ryanair. “Ah pois isso tem de mandar um mail e não sei quê não sei que mais”. Já para não falar das dívidas dos bancos. Mas ah, os atores, esses preguiçosos que andam na rua a exigir um pouco mais dinheiro para trabalhar. Sim, porque toda a gente sabe que ficamos com o dinheiro no bolso e não fazemos nenhum.

O artista é um alvo fácil?
É a velha frase do Churchill, que rejeitava cortes nas artes para o esforço da guerra. “Vamos lutar para quê?”. A cultura é das nossas matrizes identitárias. Somos um país que é corrupto a dar com um pau, vemos as histórias que aparecem, de autarquias, do outro que gastou 1,6 milhões a comprar joias e relógios, as golas, o outro não sei quê, o outro não sei que mais. De repente os artistas é que são uns mamões. Vá lá, chega.

Chega de cenas tristes. Vem aí uma nova peça, parte da tetralogia “O Nosso Desporto Preferido”. Que nome é este?
Tem alguma ironia. A ideia é um grupo de cientistas a pesquisar o que seria a evolução do próximo ser humano, sem esperar pela evolução natural. A dada altura, como trabalham juntos num laboratório, tem de haver distrações. Lembro-me de ler um artigo engraçado numa daqueles torres de prospeção no meio do mar e havia muito porrada. Os gajos estão lá a trabalhar, bebem, porrada. E instituíram lutas todas as sextas-feiras.

Um Fight Club, portanto.
Sim, com ringue e apostas, e nunca mais houve agressões. Foi uma maneira super inteligente de gerir um trabalho maioritariamente masculino. Estão ali isolados, o que vais fazer? Bebes, bebes, chateias-te, porrada. E a dada altura os cientistas decidem que para sermos substituídos por um ser humano mais evoluído a malta deve parar de se reproduzir.

Gonçalo Waddington: “Fui vaiado em palco por 600 velhinhos do Inatel. Queriam bater-nos”

Porquê uma tetralogia?
A ideia era fazer uma peça relativamente grande dividida em quatro partes, mas não tínhamos dinheiro para isso. Pensei que ia guardar na gaveta mas depois decidi fazer por partes. E ainda bem. Foi menos stressante. Numa parte tens os cientistas, noutra é tipo cem mil anos depois, para ver ver como seria o ser humano, noutra há os velhos a perguntarem-se o que andaram a fazer. Algo que acontece muito nas artes e ciências.

Como assim?
Proust morreu a achar que gastou a vida a escrever sete volumes de uma obra que quase ninguém leu. Einstein morreu a achar que estava quase a descobrir uma coisa e hoje em dia isso ainda se está a estudar. Tinhas um gajo como o Júlio Verne a falar de balões a gás a dar a volta ao mundo e veículos submergíveis e diziam-lhe que era cucucu. Mas há uns gajos que imaginam umas merdas.

E um dia têm razão.
Imagina há mais de cem anos uma família no interior dos EUA que viam uns gajos a pôr uns ferros na terra. “O que é aquilo!? Quando estiver a funcionar vais poder ir ao estado onde mora a tua família em três horas. O quê!?”. Pois, estes gajos são malucos e um dia aparece um comboio. Depois temos gajos como o Trump a negar a ciência e depois usa o Twitter. Quando eu era puto, se dissessem que com um aparelho vias o planeta, era “Ah tu és mas é maluco”. Mas hoje temos à mão tecnologias assim.

Isso acontece num tempo em que se voltou a debater se a terra é redonda.
Vivemos um tempo de extremos. Já vimos isso nas nossas eleições. No Brasil temos um Bolsonaro mas também malta que trabalha para a Embraer a fazer aviões. Então se o avião anda em frente quer dizer que a terra é plana? [Irónico] Claro. Houve uns gajos há centenas de anos que  perceberam que os barcos lá ao fundo desapareciam no horizonte para baixo. Será que caíram? Depois houve uns iluminados que lá disseram: na volta esta merda é redonda. Deve haver gajos a andar de Tesla, com Waze e GPS no carro, a dizerem que a Terra é plana.

Há comediantes a dizerem que a malta do teatro usa subsídios para viver e não tem público. As pessoas têm a mania

Como vê as redes sociais?
Estou curioso para perceber como vai evoluir na malta que tem agora 12 ou 13 anos. Depois há um conceito tramado: a ironia. É um bocadinho como discutir o bom senso, é fodido porque o que é para aquela pessoa pode não ser para outra. A ironia tem disso. Às vezes dizes uma coisa e é difícil sem estar a olhar para a cara da pessoa perceber se é ironia. Mas se há problema grave é o da desinformação. No outro dia li comentários de pessoas a dizer que a Joacine Katar Moreira se faz passar por gaga. Meu…

A própria Associação de Terapia da Fala rejeitou isso.
Sim, mas isso não chega a tanto lado. O que se dissemina é o “ah aquela gaja é uma aldrabona”.

É a era das fake news.
No outro dia vi um vídeo que tinha dois Trumps a falarem no mesmo sito, o de 2018 e o de 2019. No primeiro “nós não podemos abandonar o povo curdo” e logo a seguir “o que é que nos temos com o povo curdo!?”. Ele a dizer que é mentira coisas que estão gravadas. Meu, temos o acesso todo mas se não é gerido, e por nós também…

Como é trabalhar com a sua mulher, a atriz Carla Maciel?
Não há esforço nenhum. Há muitos anos que é assim. Conheço a Carla há uns 20 anos, sempre trabalhámos juntos, faz parte. Também é normal que pessoas da mesma área se conheçam. É até mais fácil do que difícil.

Que outras coisas gosta de fazer?
Jogar Padel, como podem ver [apontando para a raquete], filmes e teatro é o que curto. E gosto de comer e beber. Vinhos, provar cenas, é da idade [risos].

No [restaurante] do Berasategui ofereceram-nos os melhores pratos e vinhos. Foi o expoente máximo da minha vida de comensal

E histórias de copos?
Com o Tiago, à pala do espetáculo dos cozinheiros, fomos a Espanha entrevistar chefs com estrelas Michelin. Tentámos o El Bulli. Estivemos na net no dia em que abriam reservas mas era impossível. Mas falámos com o Berasategui e o Arzak no país Basco e em Barcelona com o Santi Santamaria e a Carme Ruscalleda, quatro cozinheiros na altura com três estrelas.

Como é que conseguiram?
Explicámos e responderam todos o mesmo: “Já apanhámos de tudo, mas atores a querer fazer um espetáculo de cozinha a cozinhar nunca. Venham”. E fomos. Ofereceram-nos jantares. Estás a falar de refeições fora deste mundo, caríssimas, eu não tinha dinheiro para aquilo. São experiências incríveis. No do Berasategui sentávamo-nos na mesa do chef e todos os dias comíamos os melhores pratos e bebíamos os melhores vinhos. Só bebia Cava, o espumante lá deles. Nunca mais vinhos daqueles me passaram pelo goto. Foi o expoente máximo da minha vida de comensal [risos].

Entra também no filme do Bruno Aleixo. Dá para adiantar alguma coisa?
Ainda não o consegui ver todo mas vi partes e contaram-me outras. Não vou dar spoilers mas é à volta de um produtor que os convida para fazer um filme. Eles acham aquilo muito estranho à medida que tentam decidir que filme vão fazer vão mudando de género e acabam a fazer um filme sobre o processo de fazer cinema. Tem a lógica do Bruno Aleixo, com as personagens todas, mas como cena cinematográfica, e isso é fixe. É muito bom trabalhar com eles porque é sempre um fartote. É uma sorte ter estado nesse projeto. Espero que façam mais coisas com atores e não só com bonecos para um gajo pode fazer com eles [risos].