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Diogo Faro: “Sou feminista, defensor dos direitos LGBT, contra touradas e do Sporting”

Deixou um emprego certinho e aventurou-se na comédia. Antes do seu primeiro solo, passou pela PLAYBOY.

O mundo é um lugar estranho, tal como a cabeça deste Sensivelmente Idiota, de onde saiu Lugar Estranho, o seu primeiro solo de stand up, anos depois de ter largado um emprego certinho, daqueles que duram de manhã à noite, para se dedicar a mil e uma coisas. Em comum, têm a tentativa fazer rir, mas se ajudarem a pensar e mudar um pouco este mundo de merda, o Diogo agradece.

1. Vamos imaginar que o leitor, acabado de chegar a esta página, não é um dos seus quase 150 mil fãs no Facebook, nem sequer um dos haters. Como é que respondia à pergunta “Quem é este gajo?”
Para já sou comediante profissional, é assim que ganho dinheiro e pago a renda, portanto gostes ou não gostes, sou comediante. Sou um gajo bastante apreciador da vida boémia, uma coisa que as pessoas às vezes relacionam comigo – festas, viajar muito, beber às vezes um bocado demais e é essencialmente isso. Viajar, ler, ver documentários e beber muita cerveja.

2. E o que é que o levou a criar uma espécie de marca em vez de se assumir em nome próprio, quando criou a página Sensivelmente Idiota, há pouco mais de sete anos?
Trabalhava como criativo numa agência, estudei Publicidade e Marketing na ESCS e depois andei em vários trabalhos. Estive no Departamento de Marketing do Teatro Nacional de São Carlos, depois trabalhei na Bulgária, num estágio, e foi lá na Bulgária precisamente, tinha algum tempo livre e criei o Blog. Foi na altura que apareceram as páginas no Facebook, então criei logo página mas não deixava de ser uma brincadeira. Escrevia umas piadas para os meus amigos lerem e até como eu estava longe aquilo facilitava, às vezes contava histórias do que se passava lá na Bulgária e havia umas crónicas mais ou menos com graça, mas nunca me passou pela cabeça ser comediante. Sempre gostei de comédia, mas como espectador, não pensei que fosse fazer alguma coisa disso. Mas gostava muito de escrever e sempre tive algum jeito, pelo menos na escola tinha 19 e 20 a Português, enquanto que a Matemática e a Física era 12 e 13. Era por gosto, lia muito, gostava de escrever e aquilo juntou-se tudo. A brincadeira desenvolveu-se, até que passado para aí dois anos de página, já tinha alguns seguidores no Facebook, aquilo estava a crescer, comecei a ser chamado para trabalhos como speaker de acções de marca e comecei a ganhar muito mais dinheiro do que a trabalhar 12 horas como criativo numa agência, às vezes 14 horas, 16 horas, sei lá, aquilo era um massacre. Juntando a isso comecei a fazer stand up, aquilo também correu bem, gostei da cena, da experiência e pronto, tudo isso fez com que um dia chegasse ao escritório e disse-se, “João, vou-me despedir, vou ser comediante”. Ele riu-se mas apoiou. Foi logo a primeira piada enquanto profissional. Hoje dou-me muito bem com ele, na altura respondeu, “Fico com pena, fazes falta mas se é o que tu queres, vai à tua vida, filho”.

3. Antes disso tinha feito Erasmus, na República Checa. Foi a pornografia que o levou a optar por esse destino académico?
Por acaso não. Foi mais a cerveja barata. Primeiro, queria uma coisa diferente, não queria ir para Espanha, por exemplo, então escolhi um país de leste, com uma cultura diferente, língua diferente, comida diferente, com a cena de haver muitas mulheres bonitas lá. Quase nem conheci checas, na verdade, estava sempre com pessoas do mundo inteiro, mas essencialmente, para ser muito honesto, foi a questão do preço, sabia que ia ter uma poder de compra razoável com a bolsa que a escola dava. Foram seis meses incríveis.

4. Quem o segue sabe que, quando não está a fazer as outras coisas todas que fazes, normalmente é porque anda a viajar. Ainda é só uma paixão ou já caminha para uma obsessão?
[risos] Obsessão é um bocado exagerado. Por outro lado não é assim tão exagerado, porque sinto mesmo necessidade. É uma paixão, claro, mas quando tu gostas muito de uma coisa, depois começas a sentir falta. Se ficar dois meses sem viajar, nem que seja ir passar quatro dias a visitar os meus amigos que moram em Londres ou em Paris, começo a ressacar. Não tem de ser sempre ir para a Índia cinco semanas, mas tenho de sair um bocado, limpar a cabeça, ir ver coisas diferentes, ir a um restaurante diferente em Londres, preciso mesmo disso. Depois, as viagens grandes são muito importantes para mim, tenho de fazer pelo menos uma ou duas de várias semanas, num sítio completamente diferente, por várias razões, seja gastronomia, conhecer pessoas… Gosto de ir sozinho ou com uma pessoa. Agora há pouco tempo fomos a Moçambique e éramos um grupo gigante, mas mesmo assim nos últimos dias fiquei sozinho e também foi uma experiência incrível. O grupo era de amigos, amigos muito chegados e aquilo resultou muito bem, mas pode não resultar bem viajar com grupos. Ao viajar sozinho, uma coisa que gosto mesmo muito é estar num país onde não percebo absolutamente nada da língua, que é como estar em silêncio. Para mim é uma forma diferente de silêncio, uma forma muito bonita até. Estar no Sri Lanka e eles todos a falar cingalês à minha volta e eu não percebo nada do que estão a dizer, acho aquilo um silêncio lindíssimo para mim. É uma coisa muito importante, a que dou muito valor.

5. Outra das suas paixões, além da cerveja, de que já falaremos mais em detalhe, é o Sporting. Arranja sempre maneira de ver os jogos, mesmo nos locais onde à partida parece missão impossível?
Depende. Honestamente não sou doente do Sporting, nem há nenhuma época que veja todos os jogos. Se for um Sporting-Benfica, Sporting-Porto, tento mesmo ver. Se for um Sporting-Paços de Ferreira, e perdoem-me os adeptos do Paços de Ferreira, e os adeptos do Sporting, se estiver na Índia vou-me estar um bocado a cagar. Agora é diferente, porque escrevo para o Expresso as crónicas humorísticas dos jogos do Sporting, por isso tenho de ver os jogos mesmo quando não me apetece muito. Mesmo que esteja em Moçambique, como aconteceu estarmos lá a meio de uma viagem e eu tive de gastar dados, mas que se lixe. Mas em circunstâncias normais não faria um grande esforço, a não ser que fosse um jogo importante. Gosto do Sporting, quero que ganhe, que seja campeão, vai ser difícil outra vez mas não sofro com isso, nem perco muito tempo. Mas agora é fixe, isto do Expresso é giro, estou a escrever sobre o Sporting, com piadas.

6. Nunca ponderou levar consigo alguém para filmar e transformar o prazer num produto?
Já. Já ponderei, tive algumas ideias mas quando fizer uma coisa relacionada com viagens, que quero muito fazer, tem de ser muito bem feito, tanto visualmente como de conteúdo. Isso vai requerer dinheiro, portanto não quis fazer ainda nada para não ser às três pancadas. Levar comigo um amigo que filme bem e fazer uma espécie de reportagem de mim na Índia, o que é que isso traz de novo às pessoas, percebes? Não tem grande interesse. Quando fizer, e hei-de fazer nos próximos tempos, vai ser uma coisa bem feita.

7. Começou por ganhar fama quando criou um formato de talk-show ao vivo. Foi um conceito que surgiu quando ainda trabalhava em publicidade?
Não. Já era comediante profissional, já me tinha despedido e já fazia stand up, só que houve alguns vídeos que fiz de vox pop, ir para a rua entrevistar pessoal, que me fizeram crescer bastante em notoriedade e uma coisa que sempre estive à vontade é a conversar com pessoas, seja no vox pop, seja sentado a entrevistar. Então quando quis fazer o meu primeiro espectáculo a sério, foi no Villaret, não quis só fazer um espectáculo de stand up, montei um talk-show com banda, um bocado de stand up, entrevistas, e música no fim. Convidei o Agir para cantar, convidei a minha avó e ainda lhe fazia uma espécie de entrevista onde ela lia os piores comentários que os meus haters tinham feito e foi por aí. Foi para fazer uma coisa diferente do que só um espectáculo de stand up.

8. Jogou com o facto de que o interesse nos entrevistados faria ultrapassar o problema de o apresentador ser desconhecido?
A sala tem 300 e tal lugares, nem sequer havia muito esse stress, já esperava que conseguisse encher uma sala razoável. Acho que o facto de a minha avó ser convidada despertou muito mais interesse e curiosidade do que ir o Agir. Ele na altura era muito pouco conhecido, apesar de que já tinha alguns vídeos na net assim a bater. Claro que ajuda porque montei um cartaz fixe, talk-show, que já era curiosidade, uma banda, convidado Agir, avó, foi o Carlos Costa, portanto tudo junto acho que resultou. Resultou tão bem que os produtores no final do espectáculo vieram falar comigo a dizer, “Temos já que marcar outra data” e passado umas semanas fiz com outros convidados, foi muito giro.

9. O que é que o fez perceber que podia largar o emprego e dedicar-se exclusivamente ao humor?
Tenho um histórico familiar que me permite muito isto. Eu fiz o Conservatório todo como músico, a minha mãe é cantora de ópera, o meu pai é maestro e faz mais umas quantas coisas, entretanto a minha irmã também trabalha com música, os meus primos, tudo. Quando penso um bocado no meu percurso, uma coisa importante foi no 9º ano, estávamos a estudar em História os anos 20 e a professora pediu um trabalho final de ano, uma coisa mais complexa e toda a gente da turma fez uns powerpoints e umas composições, mas eu não. Eu escrevi uma peça de teatro e depois peguei em duas turmas, na minha e noutra, encenei, era um dos actores principais, toquei clarinete, montei um espectáculo inteiro para a escola toda. Foram pais assistir e foi uma cena que pensei, “Gosto disto, gosto de criar, gosto de fazer merdas diferentes”, e tinha eu 14 anos quando fiz isto tudo. Agora, quando olho para trás, foi uma coisa marcante. Acho que esse foi um clique importante na minha vida sem eu ter dado conta na altura, porque não pensei logo em ser artista. Aliás, na altura estava a pensar ser músico.

10. E do clarinete, gostava mesmo, ou foi uma coisa que aconteceu na sua vida?
Não, gostava mesmo. Já tocava bastante bem e estava a pensar ir para a Escola Superior de Música, quando acabei o Conservatório. Os meus avós sempre me apoiaram muito na música, tanto psicologicamente, como até financeiramente, pagaram-me o Conservatório e essas coisas. Mas por outro lado, havia sempre uma preocupação normal da geração deles, “É importante tirares um curso primeiro, tens de ter um canudo na mão, depois logo voltas à música”. E eu, muito influenciado por isso, porque os meus avós são muito importantes na minha vida, acabei por ceder. Porque é que os meus avós eram assim? Porque os meus pais são profissionais e apesar de nunca terem sido pobres, nunca passaram fome, nada, mas sempre tiveram que trabalhar milhões de horas por semana para ter uma vida só estável e normal. Mas a fazerem realmente o que gostam e são felizes nas suas profissões. Foi só uma preocupação, isso dos meus avós, que me afastou da música profissional e a paixão pelo clarinete era a sério, não foi nada imposto.

11. Faz isto porque gosta de provocar um sorriso nos outros, ou esta foi a melhor forma que encontrou para ganhar dinheiro e conseguir fazer tudo aquilo de que gosta?
És rato, és rato! [risos] É as duas coisas. Também tenho vindo a crescer como comediante e a levar mais a sério a profissão. Começou um bocado mais assim, uma maneira fixe de ganhar dinheiro mas agora e principalmente com este espectáculo que vou fazer, quero colocar-me noutra posição enquanto comediante. Portanto, sim, continua a ser uma maneira incrível de ganhar dinheiro para viajar, mas dou alguma importância a fazer rir os outros e seja ao vivo ou até na net, é uma coisa que me satisfaz. Até é um bocado do ponto de vista egoísta, parece sempre que é um altruísmo dos comediantes, “Ah, ah, adoro fazer rir”, adoro fazer rir porque quando temos feedback de nos acharem engraçados, acharem-nos inteligentes, o nosso ego agradece imenso. Funciona para os dois lados, não vamos estar aqui com falsos altruísmos, “Eu gosto tanto de pôr um sorriso na cara das pessoas”.

12. Não tem patrão nem horários, provavelmente joga FIFA até perceber que já é de dia… Depois de ter passado por um escritório sentes-se a viver uma segunda adolescência?
Por acaso não jogo FIFA, gosto mas perdi o hábito há uns anos. Mas percebo o que estás a dizer. Para mim, das coisas mais maravilhosas é não ter chefe, não ter horários, a rigidez. Eu estava a trabalhar muito, muito, muito na agência e Portugal tem uma cultura de trabalho que acho muito errada. Não é uma cultura de produtividade, é uma cultura de estar à frente do computador, ou de estar a fingir que se trabalha, não é de fazer as coisas bem feitas no mínimo tempo possível, é trabalhar o máximo possível e não podes sair da empresa antes do patrão, isso tu deves conhecer e conheces mais pessoas que trabalham assim. Portanto, para mim é mesmo um luxo. Mas por outro lado há instabilidade, não tenho nenhum contrato, não sei o que é ter um pagamento fixo há cinco anos. Posso ter um mês ou dois com muitos trabalhos e correr muito bem e depois posso estar três ou quatro sem fazer nada. Mas depois, como também dependo de mim para pagar a minha renda, tenho de ir trabalhar, de arranjar maneira. Se as pessoas já estão fartas de ver um espectáculo qualquer, então tenho de criar outro, ou tenho de ter um projecto novo na televisão, ou escrever outro livro, portanto depende de mim e isso é bom. É muito bom.

13. Fez recentemente mais uma tatuagem, desta vez o nome do podcast, Traz Cerveja, no pulso. É a partir deste ponto que colocou de lado qualquer tipo de emprego sério?
Boa pergunta, avó! [risos] Já tinha colocado há muitos anos. Mentira. Há dois anos tive uma fase criativa muito negativa, em que não estava com trabalho, estava frustrado com várias coisas, profissional e pessoalmente, o meu dinheiro estava a chegar ao zero e tendo apoio familiar eu nunca iria passar fome, nem nunca iria deixar de pagar uma renda. Mas ter de pedir ajuda… Uma coisa é a minha mãe oferecer-me uma camisola de vez em quando ou os meus avós comprarem-me livros, mas ter que ir pedir à minha família para me pagar uma renda porque eu como comediante não estava a conseguir pagar, era uma derrota gigante. Isto foi em Dezembro de 2016, eu estava na merda e a ponderar, “Se calhar vou ter de ficar por aqui, vou ter de voltar às agências, ser um criativo, ser um copy”, mas depois pensei, “Não, eu quero isto, eu quero isto”. E torna-se um ciclo vicioso, quanto mais frustrado estava, mais difícil era para mim ter graça, mesmo na net as minhas piadas estavam uma merda, nos vídeos. Era tudo horrível. Até que eu já estava mesmo para não conseguir pagar a renda e um amigo meu ator ia fazer um espectáculo qualquer numa empresa e não podia. Perguntou se eu podia ir e era o valor da renda, era o que eu precisava, 350 ou 400 euros, qualquer coisa assim, e eu “Claro, claro”. Fui e fiz meia hora de stand up, correu muito bem e a partir daí mudei o chip. “É isto que eu quero, portanto tenho de mudar, não posso estar triste, frustrado e depressivo porque as piadas vão ser uma merda e se as piadas são uma merda não vou ter trabalho e vou continuar assim”. Depois as coisas em Janeiro começaram a correr melhor, em Fevereiro também e voltei a estar bem e a querer muito isto.

14. E qualquer cerveja serve, ou é mesmo um apreciador e pode deixar-nos aqui uma recomendação?
Não sou dos maluquinhos da cerveja, que percebem imenso e só bebem cerveja artesanais, não. Eu gosto muito de cerveja, pode parecer mas não sou alcoólico, gosto muito pelo convívio. É muito raro beber uma cerveja em casa sozinho. Posso beber uma ou outra, se estiver calor. Mas o que gosto mesmo é estar com os meus amigos à conversa e a beber cerveja. Não é de ir para um sítio desconhecido beber cerveja sozinho e pensar na morte. Claro que também já bebi cervejas óptimas e diferentes, gosto mesmo de cerveja e de experimentar. Mas esta minha cena de eu parecer que falo muito nas redes sociais sobre cerveja e o podcast chama-se Traz Cerveja, tem muito a ver com o que está por trás do beber cerveja, o estar com amigos, conhecer pessoas, é muito mais o contexto social.

15. Agora avança para o primeiro solo de comédia, Lugar Estranho. É Portugal no geral?
É o mundo no geral e pode ser a minha cabeça em particular, porque o espectáculo vai reflectir muita coisa desde esse período em que estive mais frustrado. Entretanto surgiram muitos solos de comédia, a comédia está a crescer bastante em Portugal e ainda bem. Eu não queria fazer nada que já tivesse sido feito, os assuntos para mim têm sido muito repetidos. Eu próprio, o último espectáculo que fiz tinha corrido muito bem, foi o talk-show no São Jorge e era uma coisa um bocado mais leve, sobre betos e mitras e assim, embora tivesse uma mensagem: não interessa muito a maneira como te vestes porque vamos todos morrer. Mas o segmento que se andava a fazer e que ainda se faz muito é um bocado leve e não quero ser pretensioso, que isto vai ser espectacular, super diferente e muito melhor, mas quis fazer pelo menos diferente. Andei durante estes dois anos a ler muito e a ver muitos documentários, e este espectáculo é o culminar disso tudo: a forma como vejo o mundo em relação à sexualidade, seja heterossexualidade, homossexualidade, bi, poligamia; a questão de identidade de género; o que é ser homem em 2019, o que é ser mulher; quais são as coisas que nos são dadas à partida pela sociedade e a maior parte não se dá ao trabalho de pensar. Porque é que as mulheres tem um estigma tão grande de ser mães, quase uma obrigação, só porque nascem biologicamente capazes de ser mães? Acho absurdo, quando uma mulher diz “Não quero ser mãe”, é legítimo, mas ainda é olhada de lado. Coisas mais básicas, quando és homem é expectável que gostes de carros e de bricolage. Eu estou-me a cagar para carros, não sei montar uma prateleira, nem quero saber. É suposto que gostes de estar no churrasco a virar frangos, não gosto, estou-me a cagar. Todos estes estereótipos e preconceitos, que quero tentar desmanchar um bocado e outros que não quero revelar, mas são a parte mais engraçada do espectáculo. Depois conto a minha história. Acaba com a perspectiva sobre a morte, é uma coisa que também me aflige um bocado, por várias questões, mas uma coisa nova são as redes sociais e a morte. As pessoas morrem e os perfis continuam no activo, é uma coisa que acho super macabra. Alguém morre e depois as outras pessoas marcam a pessoa que morreu, “Descanse em paz, @Ruben Franco.” Isto é super macabro, estão à espera de quê? Que a pessoa responda, “Pois eu realmente era mesmo boa pessoa, mas agora estou morto”. Não vai responder. E acaba o espectáculo.

16. Quando fala sobre esses temas como o feminismo ou a homofobia, sente que consegue ser levado a sério?
Sim. Há muitos comediantes que defendem que só servem para fazer rir. Sim, o primeiro objectivo do comediante é sempre fazer rir, mas não gosto de me demarcar da minha responsabilidade de, se puder usar a minha influência para fazer as pessoas pensar… Não estou aqui para mudar a cabeça a ninguém, nem com o meu espectáculo, com as minhas crónicas, nada. Mas por exemplo, se alguém for ver agora o meu espectáculo, alguém que acha que os transgender são uma aberração e que os gays são uma coisa anti-natural e que as mulheres são meio frias, se sair de lá a pensar “Realmente, além de me ter rido, isto faz algum sentido, qual é o mal de ser transgender? Ou o que é que afecta a minha vida se dois homens estão apaixonados e querem casar e adoptar?”. Se fizer alguma pessoa pensar assim um bocadinho, melhor. Os comediantes também podem ter esse papel. Acho fixe. Não se devem demarcar disso só porque, “Não, não, eu estou aqui para fazer rir e o meu único objectivo é fazer rir”. Se pudermos ajudar um bocadinho que este mundo de merda fique ligeiramente menos merda, acho fixe.

17. Sentiu que este era o grande passo que faltava dar?
Sim, porque estive a acumular tanta coisa, que achei que a melhor maneira de agora me expressar seria através de um solo de comédia. Sem talk-show, sem bandas, sem amigos actores a fazerem sketches comigo, não. Só eu e o público para falar sobre estes assuntos que me revoltam de alguma maneira e tentei canalizar toda esta revolta e coisas que acho que estão erradas no mundo e que devem evoluir, fazendo as pessoas rir disso. Às vezes a rir as pessoas pensam mais do que se for só um activista normal que vai fazer uma manifestação.

18. Porquê começar logo por Lisboa e Porto?
Anunciámos essas por questões comerciais. Na verdade, vou começar em Palmela, dia 7. É a terra da parte da família da minha mãe, e depois entre Lisboa e o Porto haverá Braga, Guimarães, Coimbra, Viseu e mais umas quantas. Depois do Porto continuaremos a marcar. Foi uma estratégia de comunicação, como eu não fazia nada há muito tempo queriam ver se tinha público. E como as vendas estão a correr muito bem, “Ok, isto é para se fazer”.

19. Conta que os haters, sempre presentes nos comentários das suas redes sociais, também vão ver para poderem dizer mal?
Não, as pessoas não vão gastar dinheiro nisso. Acho que tenho menos haters, nem é ter menos, dão-se menos ao trabalho. Ao longo dos tempos acho que se foi limpando. As pessoas foram percebendo que há uma coisa simples que se chama “Não seguir”. E já perceberam que sou feminista, defensor dos direitos LGBT, contra touradas, que sou do Sporting. Se as pessoas odeiam isto tudo, então não têm de estar a levar comigo. Tenho tido muito menos stresses e ainda bem, que aquilo é cansativo. As pessoas são tão burras, às vezes.

20. Onde é que se vê daqui a dez anos?
Daniel Oliveira, vieste? [risos] Não sei, hei-de ser comediante mas quero fazer outros projectos em que tenho andado a pensar. Vou escrever mais, lançar mais livros, de certeza que vou ter projectos relacionados com viagens, isso vai ser certinho, e muito antes de dez anos. Talvez também projectos relacionados com a sexualidade em Portugal. Hei de fazer mais espectáculos de stand up de certeza, se calhar um por ano, de dois em dois, depende da cadência dos outros projectos. Mas uma das coisas que mais gosto da minha profissão é precisamente poder fazer muitas coisas. Tanto vou fazer um programa de televisão, como faço rádio, escrevo um livro, faço stand up, talk-shows, tenho podcasts e não cansa, estou sempre a pensar em coisas diferentes para ir fazendo. Isso é excelente.