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Diane Guerrero: “As pessoas precisam umas das outras. Isso é que é a porra do sonho americano”

Ganhou nome em “Orange is the New Black" e entretanto destaca-se em "Doom Patrol". Em paz com o seu lado sensual, em conversa com a PLAYBOY, Diane Guerrero combina beleza, inteligência e uma preocupação de longa data pela justiça social.
Créditos: Kelia Anne

O que faz um super-herói? Uma voz, uma causa e a vontade de mudar o mundo. A atriz-ativista, com manchetes por altura da estreia de “Doom Patrol” na HBO Max, tem essas três características e não recua.

Texto: Samantha Helou Hernandez

Fotografia: Kelia Anne

“Orange is the New Black deu-lhe o seu papel mais notável até hoje”, Maritza Ramos, presidiária na Litchfield Penitentiary. Na última temporada da série, que se estreou no verão passado na Netflix, Ramos é deportada para a Colômbia, refletindo o que aconteceu com os seus pais 14 anos antes. Como se preparou para essas cenas?
Não precisei de muito para me preparar, para compreender como seria para a minha personagem voltar a estar presa outra vez, de ser repatriada. Sei como isso é. A minha mãe foi levada algemada para o aeroporto e levada de avião. É algo com que vivi toda a minha vida. É desesperante! De uma solidão enorme. Por isso tentei voltar a esse tempo. Na verdade, passo a vida a reviver isso constantemente pelo trabalho que estou agora a fazer, é libertador.

Diane Guerrero: “As pessoas precisam umas das outras. Isso é que é a porra do sonho americano”
Créditos: Kelia Anne

Então não voltou a ser um trauma?
Não, não, não. O que voltou a ser traumatizante foi saber que um parvalhão entrou num Walmart e disparou contra pessoas por achar que tinha havido uma invasão de mexicanos na sequência do que tinha sido dito pelo nosso presidente. Isso é que volta a traumatizar. Isso causa-me pânico por pensar que a minha vida pode ser roubada a qualquer momento. Retratando [a experiência] de maneira artística, ou mesmo recontando a minha história, por muito difícil que seja às vezes, é um meio para atingir um fim. Isso não traz novo trauma.

A deportação dos seus pais em 2014 foi artigo de opinião no Los Angeles Times, e em 2016 divulgou as suas memórias no “Country We Love” sobre como foi crescer sem eles nos EUA. O que a motivou a partilhar a sua história e tonar-se numa ativista para a reforma da imigração?
A minha carreira estava a avançar muito depressa, mas sentia que não estava a ser honesta. Sentia-me falsa por não contar o que tinha sido para mim tão real. O assunto da imigração era comentado de maneira imprópria, e Trump estava a usar a comunidade imigrante como bode expiatório. O que fazer quando a nossa comunidade é constantemente apelidada de violadora e assassina, e as pessoas vão atrás dessas narrativas? Não posso dar uma resposta geral enquanto pessoa de cor, ou como uma mulher de pele escura. Tinha de ser algo do tipo: “eu, como criança de uma família separada… como criança vinda de uma comunidade marginalizada que muitas vezes sofreu experiências de incarceração… falo-lhes como uma criança que viveu isto tudo”. Queria que as pessoas olhassem para mim e soubessem de que merda estou a falar.

A minha carreira estava a avançar muito depressa, mas sentia que não estava a ser honesta

Como se conseguiu encaixar a viver neste país?
Se as tuas circunstâncias te levam a um lugar em que precisas que alguém seja caridoso contigo, desenvolve-se o hábito de querer ser invencível pela necessidade de apaziguar as pessoas. Cheguei ao ponto de me querer matar; era essa invencibilidade que eu queria atingir. Tive de ir a um terapeuta que me explicou que era normal querer coisas e ter sonhos. Tive de mudar o modo como tinha sido programada recitando afirmações de que eu era uma pessoa digna. Foi então que aos poucos comecei a ganhar o meu espaço outra vez. É um trabalho contínuo. Trabalho todos os dias para não me deixar anular, para me permitir falar abertamente em lugares onde receio falar.

Em agosto do ano passado disse à “Vanity Fair” que tinha receio de se tornar “um poster infantil da deportação”. Acha que isso aconteceu?
Acho que não. Pensava que as pessoas estavam a tentar enfiar-me num canto. Na verdade, só nós podemos enfiar-nos nós próprios num canto. Só nós podemos permitir aos outros que nos ponham numa determinada caixa. Sou quem sou. Importo-me com o que quero. Sou forte nas minhas convicções. Sou eu que dito o meu futuro. Sou eu que determino o passo seguinte. A deportação, o que aconteceu à minha família, tornou-se um pedaço que faz parte de mim e do que me aconteceu. Tenho muito mais para dizer, muito mais para contribuir.

Em 2015, foi nomeada para o grupo inaugural de Embaixadores Presidenciais para a Cidadania e Naturalização da administração Obama, que tinha como objetivo a promoção da naturalização de oito milhões de pessoas qualificadas. Mas alguns grupos de imigrantes chamaram a Obama “chefe da deportação”. O que é que agora está a acontecer de diferente com a administração Trump em relação ao que se passou com a administração anterior?
Não é a mesma retórica. Repare, a administração Obama deportou muitas famílias, mas Obama também tentou implementar uma reforma para a imigração, mas foi barrado. Não tinha o Senado e a Câmara com ele. Tentou promulgar um decreto mas foi bloqueado pelos tribunais. Estava sozinho. Entendo-o. Não estou de todo a afirmar que separar as famílias seja correto. Ele não teve ajuda.

O seu contributo inclui ser voluntária no Immigrant Legal Resource Center e ter lugar no conselho executivo de Mi Familia Vota, uma organização que promove a participação cívica. O que é que são para si medidas de imigração de bom-senso?
Atualizar o sistema dos vistos. Tentámos estabelecer um caminho para a cidadania das pessoas que vivem cá, que estão cá há anos e que ajudam a sustentar a economia? Não. A reforma envolve a anulação de leis que atingem as pessoas. Isto significa avançarmos com os meios necessários para proteger as nossas fronteiras o que também origina um novo caminho a ser seguido. Isto não significa deportar 11 milhões de pessoas e fazer colapsar a nossa economia. A ICE [polémica agência dos EUA para questões de imigração] é relativamente nova. Não precisamos da ICE. Não precisamos de mais uma agência a ir atrás das famílias, a colocá-las em prisões unicamente para acabarmos com mais mortes. Não precisamos de pôr dinheiro nessa agência. A imigração não é um crime.
Muitas famílias imigrantes estão a tirar vantagem disso porque não conhecemos os nossos direitos. Juntei-me ao Immigrant Legal Resource Center porque está focado na educação. Quanto mais cedo eu me educar, mais poderosa me sinto. Posso dar informações às pessoas e direcioná-las para um caminho seguro. Compare isso com os meus pais, que contrataram o primeiro palhaço que se ofereceu para os ajudar com os vistos. Os sistema de imigração está em convulsão e feito para as pessoas o interpretarem mal. Tento ser um veículo para a informação e fazê-la chegar a quem mais precisa.

Diane Guerrero: “As pessoas precisam umas das outras. Isso é que é a porra do sonho americano”
Créditos: Kelia Anne

Falando na ICE, no primeiro dia de escola, em agosto, as autoridades prenderam 680 pessoas suspeitas de trabalharem ilegalmente em sete unidades de alimentação processada. Vídeos de crianças a chorar espalharam-se pela Internet e desencadearam debates sobre esse assunto. Alguns argumentam que é importante para o público ter conhecimento dessas imagens. Outros acham um abuso e uma exploração dos abusos. Como vê esta questão?
As pessoas precisam de ver. Confesso que foi a primeira vez que vi uma imagem daquilo que senti quando regressei a casa e os meus pais não estavam lá. Não sei se me senti validada, porque é difícil dizer isso; mas sei o que essas crianças estão a sofrer. E sinto que é isso que tenho tentado contar às pessoas. É isso que sinto. É o nosso primeiro dia de escola. Amamos os nossos pais. Gostávamos que estivessem connosco. Temos de continuar a divulgar imagens como essas. Passei por muito por não ter os meus pais aqui. Estão a envelhecer. Estou a envelhecer. Perdi muitas das etapas importantes deles, e eles perderam as minhas. De certo modo, isso inibiu o meu crescimento. As pessoas precisam umas das outras. Precisam das suas famílias. Isso é que é a porra do sonho americano.

Adoro cantar. Ainda não o faço num ambiente profissional, mas lá chegarei. Foi a música que me salvou

Ainda acredita no sonho americano?
Claro que sim. Há tantas coisas grandiosas neste país e tantas oportunidades para alcançar. Igualdade e justiça para todos: esse é o sonho americano em que quero viver, onde todos sejam tratados igualmente, onde as famílias podem estar juntas, onde seja providenciado o que é prometido a todas as famílias — não só ás brancas e às que estão no topo. É para isso que eu trabalho. Quer dizer, que outra coisa posso fazer?

 

Será possível os seus pais voltarem legalmente aos EUA?
Adorava que viessem. Foi aqui que tudo começou. Foi aqui que o início da nossa vida teve lugar e gostava que acabasse aqui junto deles.

Faz o papel Crazy Jane na série de televisão da DC “Doom Patrol”, cuja segunda temporada se estreia este mês de junho na HBO Max. A Crazy Jane passa por um trauma na infância e desenvolve super poderes por causa disso. Que poderes especiais você desenvolveu?
Tornar-me noutra pessoa. Eis um exemplo: na universidade, eu contava que os meus pais eram donos de uma empresa, que estavam na Colômbia num negócio conjunto e eu estava aqui a estudar ciências políticas e que estava interessada em justiça social e queria ser advogada. A verdadeira razão de eu querer ser advogada era para poder trazer os meus pais de volta. Comparando com a Jane, quando ela começa a trabalhar com outros e com a comunidade que a rodeia, ela encontra uma luz nisso. É idêntico ao que sinto quando me entrego aos meus sentimentos e trabalho com os outros e com a minha comunidade.

Alguma vez sentiu na sua carreira que era escolhida pelas suas características, como uma espécie de esterótipo de uma comunidade?
Sim, nas audições de “Drug Dealer Girlfriend Number One” e “Maid Number Two”. Isso ainda acontece. É por isso que entrar no “Doom Patrol” no papel de Crazy Jane significa tanto para mim. Termos uma latina num papel geralmente reservado a pessoas brancas? Os latinos não têm licença para ser super-heróis. É a coisa mais estranha não podemos ser vistos em histórias de fantasia. Só os brancos podem entrar em histórias de fantasia? Só os brancos podem ser super-heróis? É completamente irracional.

A Crazy Jane sofre também de um transtorno dissociativo de personalidade. Não costumamos ter representações na cultura pop de figuras latinas com problemas de saúde mental. Lutou contra uma depressão, não foi?
Hey, nós temos problemas de saúde mental. Acontece na nossa comunidade. Tem de ser estudado. Se isso for negligenciado, uma pessoa vai perder muito tempo a tentar percebê-lo. Quem sabe onde poderá acabar? E se os meus pais tivessem visto um espectáculo ou filme que abordasse isso? Somos muito informados pelo que podemos ver e por aquilo que nos é acessível. É essa a razão porque temos de estar nestes espaços.

Diane Guerrero: “As pessoas precisam umas das outras. Isso é que é a porra do sonho americano”
Créditos: Kelia Anne

Descreva um momento em que tenha tido a perceção do que é ser um latino em Hollywood.
Basta ir lá e tentar arranjar trabalho. Temos um trabalho e então temos de tentar ser tão bem pagos como os nossos colegas. É então que tomamos consciência que não estamos no mesmo barco. Ou pensamos ter uma oportunidade de trabalhar com um realizador que diz estar interessado na nossa história, ou interessado em contar mais histórias da imigração ou histórias que afetam a comunidade latina, e então recebemos um e-mail dessa pessoa que começa com “Hey, babe”. É nessa altura que te apecebes: “Oh, sou uma mulher. Sou uma mulher de pele escura”. Isto ainda acontece e é isto que tenho de combater.

Cantar, não representar, foi a sua introdução ao mundo das artes. O que é que a música significa para si?
É como me mantenho viva. Adoro cantar. Ainda não o faço num ambiente profissional, mas lá chegarei. Foi a música que me salvou. É através dela que me sinto ligada aos meus antepassados, à minha família. Todos os domingos, a minha família costumava pôr música, tirar os móveis e dançar na sala. O que diziam aquelas cantigas tinha algum significado.

Como muitos latinos que nasceram na década de 80, cresceu a ouvir Selena. O que é que ela representa para si?
Representou a nova América Latina, não é? Uma pessoa que estava tão ligada à sua cultura e que se expressava tão intensamente mas que ao mesmo tempo era tão americana — uma mistura de duas coisas bonitas. É assim que sempre me senti: uma fusão de tudo o que é maravilhoso. Posso falar espanhol. Posso beneficiar de todas as coisas belas que a minha cultura oferece, tal como música, alimentação e língua. Mas também posso beneficiar da música americana, comida americana e hábitos americanos. Posso juntá-los todos e tornar-me uma super-heroína.

Qual é a sua música preferida de Selena?
“No Me Queda Más”, claro. A mais intensa e louca canção emo.

Contou que ao crescer tentou ser a rapariga boazinha a ponto de se magoar a si própria se achava que tinha pecado. Agora é vista como um sex symbol. Quando é que abraçou a sua sexualidade?
Guerrero: Só muito recentemente. Liguei sempre muito ao sexo, mas era coisa que tentava esconder por medo de cair naquele estereótipo da latina sexualizada que acha que consegue tudo e ir a todo o lado e safar-se de qualquer situação fodendo. Poderia ter recorrido a isso num par de situações, mas isso não sou eu. O meu modo de agir é recorrer à minha cabeça e ao meu coração e o que aprendi com a minha família e com a minha comunidade. Foi assim que cheguei aonde cheguei.

Liguei sempre muito ao sexo, mas era coisa que tentava esconder por medo de cair naquele estereótipo da latina sexualizada

Acha que o seu ativismo foi alguma vez desvalorizado pelo seu sex appeal?
Sobretudo as latinas não têm autorização para serem sexy e inteligentes ao mesmo tempo. Só depois de ter escrito o meu livro é que me permiti sentir-me sexy e dizer “foda-se, estou-me nas tintas para o que dizem sobre os meus seios. Não quero saber do que dizem sobre a minha aparência”. Sentir-me confortável com a minha sexualidade faz parte de mim e da mensagem que quero transmitir aos outros sobre gostarem de si próprios. Passa tudo pela maneira como encarei a minha pele morena enquanto crescia, e sentir-me feia ou inferior. “Um nariz grande — o nosso nariz indígena — é feio. Os nossos olhos castanhos não são tão interessantes como os azuis”. Abafem esse barulho que diz que não somos suficientemente bons ou suficientemente brancos, que o nossa sensualidade é má, que é de alguma forma um desastre.

Quando se sente mais viva?
Guerrero: Quando estou a cantar ou a dançar. Quando sinto a música através da minhas veias. Quando como a comida da minha mãe. Quando aqueles feijões me chegam à boca e penso “sei exatamente o que isto é”. É a vida, sabe? Uma força vital para o coração.

Diane Guerrero: “As pessoas precisam umas das outras. Isso é que é a porra do sonho americano”
Créditos: Kelia Anne