Playtalks

David Harbour: “Sinto falta do anonimato. Parece que estou no ‘Truman Show'”

O xerife mais famoso de Hawkins esteve à conversa com a PLAYBOY.

A revelação de “Stranger Things” abre o jogo sobre distúrbios mentais, vícios, ameaças de morte e outras paragens na viagem até Hellboy – a sua primeira (e certamente não última) missão como protagonista.

Apareceu em cinco episódios de Law & Order. Alguma vez pensou“A sério? Mais um?”
Espera, deixa-me contar: estive em dois episódios normais, depois outros dois em Law & Order: Unidade Especial e um em Law & Order: Intenções Criminosas. Eu chamo-lhe o subsídio para as artes performativas de Dick Wolf [o produtor da série], porque é o trabalho que toda a gente agarra quando está a fazer uma peça num pequeno teatro da Broadway e ganha 270 dólares por semana. Não há forma alguma de conseguires pagar uma renda num apartamento em Manhattan com esse tipo de ordenado, mas é um trabalho prestigiante e maravilhoso, por isso precisas de Law & Order todos os anos para equilibrares as contas. E o mais engraçado é que grandes estrelas que admiro reconhecem-me daí mais do que qualquer outro papel. Lembro-me de a Sarah Silverman me agarrar e gritar “LAW & ORDER!”. E até quando eu apareci nos estúdios de Stranger Things , o que a Winona Ryder adorava era a minha personagem no episódio de Intenções Criminosas . Por isso sim, houve um certo culto de David Harbour no Law & Order junto da comunidade hollywoodesca.

Qual foi o primeiro momento em que soube que queria ser ator?
Quando eu tinha cinco anos, fiz de Homem-de-Lata no Feiticeiro de Oz , e adorei. Depois, quando entrei no secundário, queria mesmo muito ser actor, mas não tinha nenhumas referências de pessoas que tivessem seguido esse caminho. Eu cresci em Westchester, em Nova Iorque, onde havia imensos gestores, advogados, médicos – uma comunidade recheada de classe média-alta. Não havia actores trabalhadores, por isso não sabia que tal era possível. Fui para a escola e tentei estudar outras coisas, mas quando cheguei a Nova Iorque percebi, assim que terminei os estudos, que tinha de dar o salto. E então, fui servir às mesas.

Fala abertamente da sua bipolaridade. O que é que a sociedade não conhece sobre esse distúrbio?
Epá, tanta coisa. Eu gostava de esclarecer alguns termos de modo a que as pessoas não vissem a loucura como algo alienígena. Há algo curioso na nossa cultura, em que temos de rotular as coisas como desumanas, porque temos pavor delas. É perigoso quando polarizamos a sociedade entre sanidade e insanidade, e eu sei que ultrapassei essa linha. Tenho muitas experiências num lado onde estou no asilo e a ser tratado como um bocado de lixo, e depois estou no outro mundo onde sou tratado como uma celebridade muito relevante rodeada de pessoas que fazem tudo por agradar.

Os seus pais internaram-no quando tinha 25 anos. Que impacto é que isso teve em si?
Foi um internamento voluntário. Tinha sido recomendado porque eu estava a ter um daqueles episódios psicóticos que muitos bipolares têm, que não é violento, mas é estranho, confuso e desconcertante. Acho que a melhor versão de uma pessoa bipolar que vi no ecrã foi a Claire Danes na primeira temporada de Homeland. Ela está apenas a falar sem fazer muito sentido, mas está mesmo no limite. É mais ou menos como isso. Bates numa parede e apercebes-te de que está lá uma parede, e percebes também que tens uma resiliência interior que vai muito além de tudo o que já conheceste. A ideia de eu ter perdido a minha mente e depois ter regressado e continuado a representar e a viver em Nova Iorque, revelou-me que tenho uma mente corajosa, e também me deu gratidão por cada dia que não estou enclausurado. Claro que ainda tenho problemas, mas consigo respirar com mais tranquilidade todos os dias e pensar: o Inferno existe porque eu estive lá, e todos os dias que estou a andar em Nova Iorque, mesmo que as pessoas não gostem do filme onde entrei, sinto que estou livre.

David Harbour: "Sinto falta do anonimato. Parece que estou no 'Truman Show'"

Andou na universidade de Darthmouth, conhecida como uma das mais alcoólicas da América. Fazia jus à sua reputação?
Sim. Eu bebia a toda a hora na universidade. E tinha um problema com Darthmouth. Eu queria ser actor, mas de certa forma sentia que tinha que ter um plano B. Entrei lá em grande parte para fazer a vontade aos meus pais, por isso fui com raiva e ressentimento. E bebia imenso, o que era fácil naquela escola. Estava frio o tempo inteiro, por isso passávamos bastante tempo na cave a beber cerveja merdosa. Mas eu assumo a responsabilidade pelo meu problema. Quando saí de Darthmouth, estava nos meus verdes 20 anos e fiquei sóbrio. Não voltei atrás.

Não parece um antigo membro da fraternidade de Darthmouth. Como é que isso aconteceu?
Esse é o enigma com que estava a lidar. Cresci numa comunidade que queria que eu fosse uma coisa, e a minha alma queria ser outra. Eu sentia que os seres humanos eram diferentes de mim, e uma maneira que me ajudava a compreendê-los era através desta coisa chamada de representação. Foi algo que me senti com o dever de fazer. Se eu estivesse nas minhas plenas capacidades, teria desistido da escola aos 16 anos e mudava-me para Nova Iorque a fazer audições e etc, mas eu estava no mundo das escolas preparatórias, do dinheiro e de um certo modo de ser, e eu não tinha coragem para enfrentar isso. Acho que em última análise, foi aí que a raiva e o alcoolismo começaram. Depois sais e apercebes-te com o tempo que até podes ser tu mesmo. Acho que é isso que se tem desenvolvido em mim – mesmo até hoje.

Vamos falar de Stranger Things. Qual é a sensação de passar de um ator trabalhador para fazer parte de um fenómeno cultural à escala planetária?
Foi super divertido, mas muito inesperado. Nós estávamos apenas ocupados a fazer a série, e eu era completamente neurótico com a incerteza de eu ser bom ou não, ou a qualidade da própria série. Não tenho mais ferramentas para avaliar a receptividade das pessoas. O fim de semana em que a série saiu foi totalmente diferente de tudo o que já tenha experienciado. Fiz muitos trabalhos ao longo dos anos, e geralmente o que acontece é que duas pessoas do meu passado mandam mensagem e dizem “Hey, estás óptimo no Rake”. Nesse fim de semana, centenas de pessoas com quem nunca tinha falado iluminaram-me o telemóvel: “Stranger Things, Stranger Things, Stranger Things”. E depois artigos da BuzzFeed saíram com coisas como “Que personagem és tu?”. E fiquei do tipo “Wow. Eu nunca fiz parte disto”. E estou tão feliz que tenha acontecido com esta série, porque adoro.

E o que sente ao ler artigos sobre o histórico de namoros e o novo estatuto de sex symbol?
É uma faca de dois gumes. É extremamente gratificante ser reconhecido tanto como um homem sexy quando estás nos teus 40’s, como bom no que fazes para as pessoas que admiram o teu trabalho. É isso que te faz sentir incrível. Eu comecei esta jornada para dinamizar pessoas, e claramente isso está a acontecer de uma forma positiva e é muito bonito. Nos primeiros três meses, estava numa nuvem, mas depois começou a ser um bocado bizarro. Na verdade, não gosto de sair tanto agora. O facto de as pessoas assumirem que te conhecem é muito estranho. Parece que estou no “Truman Show”. As pessoas já têm uma impressão de mim antes de eu as conhecer, mesmo na lavandaria ou no café, e isso é algo com que nunca lidei na maior parte da minha vida. E de certa forma, sinto falta do meu anonimato; algum carro quase te parte ao meio na rua e tu dizes “Otário!”, e ele diz “Ah olá! Tu és incrível”. E ficas do tipo… Merda, nem com gajos destes posso gritar!

David Harbour: "Sinto falta do anonimato. Parece que estou no 'Truman Show'"

Acha que enquanto miúdo seria amigo da personagem Mike Wheeler e a sua grupeta?
Sim, porque acho que eles são exactamente como o meu grupo. Eu nunca fiz parte dos miúdos populares na escola, mas também não era o nerd dos nerds. Havia uma espécie de grupo neutro que acho que é o lugar que o Mike [Finn Wolfhard] e o resto dos rapazes ocupam. As pessoas perguntam-me às vezes com que personagem é que eu me identifico mais, e é o Will [Noah Schnapp]. As pessoas achavam-me um miúdo esquisito e demasiado sensível, e por isso uma das razões pelas quais foi tão engraçado representar o Hopper foi que eu tinha de salvar esse miúdo. De uma certa forma, era como se me estivesse a salvar a mim mesmo.

Merriam-Webster publicou um GIF seu no Twitter como uma definição visual de “redondinho”. Tem tido bastante desportivismo, mas nunca magoa um pouco?
Magoa, mas estou a gostar da ideia de expandir o conceito de «sexy», porque penso que a nossa cultura é quase anorética no modo como vê a sensualidade. Para mim, o ser humano é sexy. Se queres explorar o facto de que o meu corpo não é perfeito, mas consideras-me sexy – se for usado nesse contexto, que às vezes é – então ok, estou tranquilo com isso. O que quer que te faça ampliar a tua visão e encontrar o teu próprio Hopper no teu mundo – aquele rapaz ou aquela rapariga no café que tem uma alma lindíssima mas é um bocado gordinho(a) ou sei lá – é o que eu quero massificar no mundo. Eu sou todo a favor de fazer exercício e ser saudável, mas esta obsessão com a perfeição, especialmente a física, é ridícula e uma batalha perdida. Eu não quero saber do quão bonito és, vais atingir os 60, se tiveres sorte, e já não vais parecer tão incrível. Mais vale desfrutares da tua existência e a de outras pessoas de um modo que transponha a aparência física.

E que tal foi passar de ter o título de “redondinho” para treinar com o personal trainer de Ryan Reynolds com a missão de ficar em forma para o Hellboy?
Eu não pude treinar muito, porque aquilo é tudo próteses. Muito do que eu fazia era treino de força e energia, e isso transforma a tua mentalidade. Quando estou a trabalhar uma personagem, o meu subconsciente começa a assumir vida própria e começo simplesmente a fazer as coisas e a tomar decisões como se fosse a personagem. Quando faço de Hopper, as coisas acontecem num caminho delineado, quando eu faço de Hellboy… entra num domínio bestial. O treino com pesos e todas essas coisas alimentavam de certa foma esta besta gigante – e esse tipo de mentalidade ousada que eu adorava.

Vai até ao infinito e mais além no que respeita às interacções no Twitter: foi à sessão fotográfica de final de ano de um fã e oficializou o casamento de outro. Faz qualquer coisa pelos fãs?
[Risos] Não faço tudo… Mas, cheguei a um lugar onde as redes sociais se tornaram uma espécie de eco. Nada de bom saía dali, mas eu tinha muitos sentimentos à flor da pele, por isso foi do tipo: “O que é que eu posso fazer que realmente faça as pessoas sentirem-se bem e que me coloque um bocadinho lá fora?”. E mergulhei nestes desafios do Twitter. Para mim, que passei por tudo com os media, sinto agora que é um jogo duplo, onde eles querem que eu vá para cima da mesa e dance como uma galinha. Qualquer coisa que eu possa fazer para proporcionar um pouco mais de alegria neste mundo estranho em que vivemos no momento, que seja simples e de divertimento puro, eu faço.

Por falar em desafios do Twitter, já teve retweets suficientes para o Greenpeace o mandar para a Antártida. Tem esperança nas capacidades da humanidade para reverter a alteração climática?
A resposta imediata é não. Acho que estamos num cenário mesmo mau, e não sei com o tipo de egocentrismo que existe, se há alguma saída. Por isso sim, fico deprimido. Mas acho que é importante, mesmo durante a depressão, continuar a enfrentar as coisas que te assustam. É realmente a preocupação mais aterrorizadora das nossas vidas, e é a questão que conduz todas as outras. Se tens um problema com caravanas migrantes ou imigração ilegal, isso é mudança climática: a escassez de alimentos está a acontecer em diferentes áreas e terras estão a ser destruídas, e por isso as pessoas têm de se mudar. A maioria das discussões políticas no mundo inteiro provêm das alterações climáticas. Se nós pudéssemos tornar a Terra um lugar mais agradável para se viver, haveria menos guerras territoriais, mais recursos e outras coisas do género. Mas mesmo no meio da inevitável derrota, ainda tens que tirar proveito da batalha, certo? É mais ou menos como a ideia do romance A Peste [1947], de Albert Camus: ainda temos que acordar todas as manhãs para ir trabalhar, mesmo sabendo que não vamos travar a peste.

Quer ter filhos um dia?
Ainda tenho que decidir. Para ser sincero, não quero ter um filho se em 15 anos o planeta morrer quando eles ainda mal estão na adolescência. Além disso, temos um traço na nossa cultura que é endeusar o conceito de família. Quando alguém tem um bebé, toda a gente fica do tipo “oh meu Deus!”. Ficam tão felizes por eles. Eu gostava que as pessoas que decidem não ter filhos fossem acarinhados com o mesmo entusiasmo, porque a coisa mais sustentável que podes fazer pelo planeta não é procriar. É o que tenho feito por 43 anos – mas vocês todos podem chamar-me hipócrita e mau ecologista quando tiver um filho ou uma filha daqui a cinco anos.

Muito do seu trabalho evoca os homens líderes cheios de alma e feridas dos anos 70. Quem são os seus heróis na representação?
Sem dúvida, Jack Nicholson, Gene Hackman, Harrison Ford, Roy Scheider, Richard Dreyfuss. Todos estes homens desses filmes dos anos 70, que foi onde aprendi o que era ser homem. Quando Stranger Things surgiu e eu pensei que podia ser o veículo disso para outra geração, foi super gratificante. Não sinto que mostremos cenas assim tão gráficas no ecrã – ou se mostramos, damos alguma relevância aos danos da personagem, mas não insistimos muito. Este tipo de vulnerabilidade é demasiado desagradável para o entretenimento comercial e demasiado indulgente para o entretenimento independente. É difícil um equilíbrio com um herói danificado.

Em 2017, Stranger Things ganhou um prémio nos SAG Awards e fez um discurso incendiário contra os bullies e a defender a empatia. De onde é que isso surgiu?
É engraçado, esse discurso foi interpretado por mil e uma pessoas de diferentes maneiras. Eu recebo ameaças de morte de pessoas que pensavam que era sobre os defensores de Trump. Para mim, foi genuinamente uma declaração cultural. Pensei para mim mesmo: O que é que o Hopper faria? Eu tenho sido um marginalizado de Hollywood durante anos, mas quis tecer um pouco de crítica cultural sobre o narcisismo para o qual contribuímos, numa cultura que faz as pessoas sentirem-se sozinhas, em oposição ao principal objectivo da arte: promover a inclusão. Uma das coisas que tenho imenso orgulho sobre Stranger Things é que, tal como a cena do “redondinho”, as pessoas podem sentir-se incluídas. Podem sentir que não precisam de um corpo perfeito; não precisam de ser tão espirituosas, inteligentes e fortes. As pessoas não sentem um deslumbre pelos personagens; ao invés disso, identificam-se com eles e depois vêem que aqueles personagens podem fazer coisas heroicas. De uma certa forma, nós éramos os miúdos totós que se sentavam nas mesas do refeitório, por isso pensei em subir ao palco e dizer: “Vamos fazer isto juntos. Vamos contribuir para uma cultura que cria empatia e destrói o narcisismo” – em contraste com aperaltarmo-nos todos e sermos Kardashian nisto tudo.

O que é que foi mais intenso, os comentários online ou os da vida real?
Acho que estive na primeira página do Reddit ou lá onde foi, mas também houve umas ameaças de neo-nazis: “Sabemos onde vives”, “temos as armas todas” e “vamos apanhar-te, seu merdas”. Muitas pessoas abordaram-me a dizer que adoraram o discurso. Nunca tive ninguém que se chegasse ao pé de mim e dissesse: “Aquele discurso que fizeste foi uma merda, seu otário”.

Nesse discurso, falou sobre afastar os bullies . Sofreu bullying de alguma forma na escola?
Acho que, provavelmente, quase todos sofremos. Mas não acho que o bullying acabe quando saímos da escola. As pessoas são bullies de todas as formas e feitios. Até eu tenho características de bully que odeio. Por isso, esse discurso aplica-se tanto a mim como a outras pessoas. É um lembrete das coisas que quero neste mundo, ideais que não pratico necessariamente.

Se tivesse atingido este nível atual de sucesso nos seus 20, como é que acha que teria lidado com isso?
Teria sido horrível. Seria um parvalhão. Teria sido desagradável para os argumentistas. O meu narcisismo teria transbordado. Mas a grande questão sobre o sucesso acontecer aos 40 é que tu realmente não sobrevalorizas. Se existe algum tipo de divindade que guiou a minha vida, foi nas coisas que foram impedidas de acontecer. Eu queria esse tipo de sucesso nos meus 20 anos, e fui travado; e depois quis novamente nos 30, e fui travado. Finalmente, quando fiz 35 anos, desisti completamente desse sonho e pensei que estava demasiado velho. E, de repente, o sonho veio ter comigo. Do tipo, OK, já percebi – quando eu não me preocupo, é quando acontece.

Disse que se sentiu despedaçado e sozinho a maior parte da vida. O sucesso ajudou?
Sim. Sinto-me mais seguro e confiante. O sucesso não influencia as questões fundamentais com que me deparo, como as relações humanas, mas quando estou envolvido nesses sentimentos depressivos, sinto que me posso apoiar em coisas como “Bem, pelo menos tenho um bom apartamento”. Mas, as questões centrais são uma longa jornada de terapia e auto-compreensão, e isso ainda existe e é apenas o resultado de estar vivo. Como seres humanos, somos estas criaturas loucas e interessantes que têm demasiada consciência para nosso próprio bem. Somos estas coisas estranhas carnudas que deambulam e ficam confusas. E eu não estou longe disso, de todo.

Artigo publicado na edição de junho de 2019 da PLAYBOY PORTUGAL. Pode comprar a edição impressa na loja online.