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Bordalo II: “O lixo é o material certo para fazer o retrato da vítima”

Artur Bordalo, aka Bordalo II, anda a deixar pelo mundo as suas esculturas de animais. Do lixo cria arte que não pede licença para ser ouvida. E ainda bem.

Encontramos Bordalo II no seu estúdio em Xabregas. Cá fora, ouvem-se pancadas ruidosas. Lá dentro, o cenário ganha a forma de um sonho surrealista, com rostos de animais de cores vibrantes a fitarem-nos. São esculturas a ganhar forma. Seguimos caminho atentos aos pés para não estragar nada. Ali, há tralha à fartazana e lixo amontoado. Para Bordalo II, a palavra certa é material. Com o mesmo plástico que o homem larga no mundo, o artista cria obras animalescas que nos interrogam. Começou num edifício abandonado por Lisboa e espalhou-se. Hoje, várias cidades pelo mundo contam com obras de Bordalo II. Os animais representam a natureza. As obras, essas, são um retrato das vítimas feito com a arma do crime.

Era um miúdo quando começou no graffiti. Alguma vez teve problemas?
Tinha uns 11 anos quando comecei a riscar a escola. Mas problemas? Bem, não sei se são problemas mas… algumas questões [risos]. Sabes que andar na rua e andar nas aventuras faz ter problemas, entre aspas. Faz parte. Mas o graffiti já não tem nada a ver com o que faço hoje.

Entrou em Belas Artes mas não terminou o curso, o que é que se passou?
Ainda estive lá para aí uns oito anos mas acabei por me perder em disciplinas de escultura, que não davam para progredir no meu curso de pintura só que eram mais interessantes. Obviamente que tirei muitas coisas positivas de lá, mesmo as que achava, como puto estúpido que era, uma chatice. Estamos sempre a aprender e a escola é isso. Por isso é que a educação é tão importante, mesmo quando somos miúdos e achamos que não tem interesse. O raciocínio, a cultural geral, tudo isso é que nos faz ser um bocado mais do que os macacos. Sendo que às vezes somos piores. Temos visto isso ultimamente com algumas personagens que chegaram ao poder.

Banksy, Vhils, Bordalo II. Falamos de nomes que foram da street art para as galerias e exposições. É uma tendência?
Há uma abertura para se fazer outras coisas. As pessoas usam o termo street art ou arte urbana mas isso é tentar meter um grupo de artistas numa caixa. É tudo arte contemporânea. Mas sim, há uma corrente, de há 30, 40 anos para cá. Começou mais forte com o graffiti mas tem também a ver com a evolução da sociedade, das tecnologias, de tudo. A rua tem uma parte ligada ao graffiti, que está ligado à publicidade, ao design, à ilustração e a uma série de coisas que foram entrando no mundo das marcas e de tudo isso que passou a estar muito presente no último século. Um miúdo que nasceu nos anos 80 ou 90 cresceu a ver publicidade em todo o lado e há um bocado essa coisa de estar presente de uma forma grandiosa para se ser alguém e nós, o comum mortal, não somos ninguém, limitamo-nos a comprar a porcaria que nos estão a impingir e que está escrita por todo o lado. Está tudo ligado à atualidade.

Bordalo II: "O lixo é o material certo para fazer o retrato da vítima"

E como é que é a sua relação com as redes sociais?
Se dissesse que o meu reconhecimento não estava ligado a elas seria hipócrita. Haver uma rede que vai pelo mundo fora pode abrir imensas portas aos artistas. Mas as redes sociais em si assustam-me um bocado. Critico-as e uso-as no meu trabalho mas não ando a filmar o que como, os ténis que comprei ou o perfume que me ofereceram. Acho isso surreal. Até porque tendo esta hipótese… Imagina: sou um artista, ganhei reconhecimento trabalhando num sítio abandonado em Lisboa e as minhas obras correram mundo. É fácil colocar algo no mundo sem ter de viajar. Isso existe e há quem faça um trabalho brutal a chamar a atenção para coisas relevantes. Mas muita gente usa a visibilidade só para vender ténis, perfumes, cremes e porcarias. Se podes chegar ao mundo – e o mundo precisa de vozes para não se encaminhar para um abismo – acho isso tão poucochinho.

O excesso de consumismo é crítica muito presente no seu trabalho. Como chegou aí?
No início, quando comecei a usar lixo, entre aspas, estes materiais, não pensava na relação que podia ter. Foi aleatório. Era uma chatice arrumar aquilo tudo e comecei a utilizá-lo. Mas é bom interrogarmo-nos sobre o que fazemos para uma peça não ser só estética, uma coisa bonita sem cérebro. É importante sentar-me, olhar para a peça e interpretá-la, sendo que qualquer pessoa pode olhar e interpretá-la como quiser. Eu olhei para as minhas e interpretei-as da forma que achei que tinham mais potencial para serem divulgadas. O conceito foi pensado um pouco depois das primeiras experiências. Depois, se crias um conceito com preocupação ambiental, é óbvio direcioná-lo para a natureza. E criou-se um novelo a partir daí.

A cultura geral é o que nos faz ser um bocado mais do que os macacos. Sendo que às vezes somos piores

Como funciona, vê algo abandonado que inspira ou costuma saber exatamente o que procura?
Há coisas que sei que uso. Pára-choques, caixotes de lixo partidos, todo este plástico de alta densidade que apanhamos em fim de vida. Mas acontece ver algo ao lado do caixote do lixo e pensar “pá, isto é brutal, levo”. Também acontece trazer coisas que ficam aí dois ou três anos no estúdio e das mil vezes que arrumamos pensamos “ah isto não vai servir para nada”, mas vai ficando. E um dia dá para usar. Mas atenção: não é como aqueles velhos acumuladores. Fazemos uma triagem.

E estas grandes criações com animais, de onde vieram?
São uma imagem muito direta. Acho que o mais fácil para representar a natureza são os animais. Estão muito próximos de nós. Têm olhar, conseguem transmitir emoções, sentimentos. E utilizar o lixo, a poluição, a contaminação, o que destrói a natureza no geral, é o material certo para fazer o retrato da vítima.

Por um lado, o meio ambiente é mais debatido. Por outro, há governantes como Trump e Bolsonaro que torcem o nariz à ideia de alterações climáticas. Como vê esta dicotomia?
Temos um grande problema de educação. A história já nos ensinou que esse tipo de personagens não nos trazem coisas boas. A educação e cultura são a base de uma sociedade sustentável. Às vezes perguntam-me “não achas que agora é moda falar do ambiente”. Pá, que seja. Que comece aí e se entranhe porque é necessário.  Durante anos não liguei nada à política como muitos jovens. Mas a política é a nossa liberdade de escolha. Se eu, tu e mais dez gajos votarmos naquela personagem que defende os nossos ideais é mais provável acontecer algo do que se não votarmos e outros escolherem por nós. Seja um Trump ou um Bolsonaro, sendo que cá estamos longe desse tipo de personagens e os que há parecidos são fantoches a quem ninguém liga. Mas o dizer presente na política é importante. Por cá, um partido pequeno falou muito sobre o ambiente e nas europeias teve uma presença que ninguém esperava. Às vezes os partidos guiam-se pelo que traz votos e lembram-se: “Ah isto afinal é importante”. Que seja. Só por isso já fez um papel importante. Agora está nas mãos dos partidos com mais votos fazerem algo.

Nem todos os miúdos vão a museus ou galerias mas há cada vez mais arte na rua, não é?
É uma das partes interessantes da arte pública. Já não é obrigatório ir a uma galeria ou a um museu para ver arte. Podem coabitar com peças diariamente. Isso estimula a criatividade. O mundo às vezes é quadrado e cinzento, a arquitetura são casas para viver e lojas na parte de baixo e é só. Imagino sempre uma cidade com muitas peças, aquela ideia da cidade futurista com umas coisas estranhas e gigantes que nem se percebe o que são. É a arte a romper com a arquitetura de uma cidade em grande escala, como uma torre Eiffel. Isso dá carácter às cidades. Se as pessoas viverem num sítio bonito, harmonioso, com peças grandes, acho que são mais felizes.

Bordalo II: "O lixo é o material certo para fazer o retrato da vítima"

O Bordalo II recupera lixo, reinventa-o e coloca-o de novo na rua como arte. Mas na rua há sol e chuva. Com o tempo irá destruir-se. Como vê isso?
Há peças feitas em edifícios que vão ser deitados abaixo um dia para se construir outra coisa qualquer. O lixo durante um tempo passou a ser uma peça para depois voltar a ser lixo. Só isso já é interessante. Sendo que lixo não é uma palavra boa. É material. A obra, quanto mais tempo durar, melhor. Há peças que podem ser restauradas e duram muito tempo mas nada dura para sempre. Eu não duro para sempre.

Há aquela ideia do artista fechado no seu mundo mas a escala do trabalho do Bordalo II implica mãos extra. Como funciona?
Funciona bem. Toda a gente que trabalha comigo faz parte do meu grupo de amigos desde sempre e vem do mundo de pintar na rua, do graffiti, etc., o que nos dá uma estaleca fixe. Estão habituados a usar o corpo sem medos, a improvisar, a arranjar soluções em bruto. E o meu trabalho é assim: tudo tem que ser ponderado mas às vezes há decisões para tomar rapidamente. Uma pincelada com muito toque pode ficar forçado. Há coisas que têm de ser cortadas em bruto para terem o tal toque. Nós pensamos em conjunto e não precisamos de comunicar muito. Agarramos nas coisas e andamos ali feitos formigas.

É neto do pintor Real Bordalo. Foi uma influência?
Foi, por vários motivos. Para já ter um artista na família significa que se pode ser artista. Depois, ensinou-me montes de bases relevantes, mesmo que possam não parecer. O meu avô inspirava-me até como pessoa. As primeiras peças que fiz eram interpretações de peças dele. Eram temas mais cliché, da cidade com os elétricos e monumentos. Comecei a fazer à minha maneira os mesmos planos só que aquilo são aguarelas, é pintura mais clássica e isso no meu tempo já está descontextualizado. Foi aí que comecei a introduzir personagens a interagir. Se temos um elétrico e a Sé de Lisboa lá atrás, o que é que falta aqui do meu tempo? Talvez uns carteiristas a roubar turistas ou uns polícias a bater num puto que faz graffiti. Foi uma forma de ter um contraste entre uma paisagem clássica, interpretada de forma diferente, e ter lá personagens à bulha, a interagir.

E qual é a maior influência?
O meu artista-barra-ativista-barra-whatever o que lhe quiseres chamar é o Sebastião Salgado. É um grande homem do mundo e um bom exemplo do que um artista pode fazer e como pode estar presente. Diz-me muito. É um ótimo fotógrafo e tem aquele exemplo de vida de ter plantado uma nova floresta. Como é que é possível!? Uma pessoa só! É ótimo exemplo para ver como, mesmo quando as coisas estão mal encaminhadas, dá para dar a volta. Nada melhor do que alguém com visibilidade como ele para dizer “Eu faço, pode-se fazer assim”. Pá, acho que isso é melhor que vender champôs [risos]. E o Banksy. Hoje em dia quase que se ignora porque se torna uma ideia mainstream mas não é. É provavelmente o artista que mais portas abriu. Sem ele, provavelmente não estávamos aqui hoje. Eu e muitos outros.

Uso as redes sociais mas não ando a filmar o que como ou o que comprei. Acho isso surreal

Houve algum animal que não tivesse conseguido fazer?
Nada fica por fazer. Às vezes é um projeto que achava que demorava três dias mas demora duas semanas. Mas não consigo largar uma peça enquanto não achar que está a 95% daquilo que tem de estar. É difícil dizer que adoro tudo o que faço, isso não existe. Há peças de que gosto mais, outras que acho que ficam mesmo no ponto e outras que quando estão quase prontas olho e não é nada disto. E ando ali de volta, corto, tiro, corto, tiro, desfaço e faço de novo. Mas tem de ficar algo de que me orgulho. Todas as peças têm uma solução, é a conclusão a que chego.

E não há aquele receio de mexer demais e ficar pior?
Pá, volta-se a pôr tudo como estava. O processo é livre. Quando muito é uma chatice e vou estar um dia ou dois a refazer o que desfiz. Quando há uma grande dúvida sobre uma peça às vezes pensa-se “isto parece-me incompleto, mas está bem”. O que é melhor fazer? É não estragar. Pões para o lado, agarras noutra tela idêntica e voltas a fazer tudo. Estrago, entre aspas, até ao ponto em que achava que era a parte final. Isso aconteceu-me com uma peça. Fiz duas idênticas mas uma parecia estar a meio, o que é interessante. Não há uma maneira fixa de fazer. Aliás, começar a fazer peças que não são pintadas surgiu de uma dúvida desse género.

O que é que aconteceu?
Foi para aí em 2015 ou 2016. Fizemos uma peça em Hamburgo em que por acaso os plásticos que usámos tinham cores super interessantes. Olhámos para a peça e dissemos: está fixe, não precisa de mais. Mas na altura tinha de a pintar, não me sentia confortável em deixá-la por acabar. Fotografei, pintei, mas fiquei com aquele bichinho. “Pá, um dia deixo uma assim”.
A dúvida ficou e esperei por um dia em que não me mandei logo de cabeça e fiz um half, a série a que chamamos halves, em que metade é pintado e a outra fica em bruto. Esse contraste deixa o espetador entender o que estava por baixo e abriu-me a porta. Fiz um e decidi “o próximo passo é fazer um que não é pintado”. Fiz alguns para ganhar genica porque o trabalho é diferente. Os plásticos em bruto têm que dar um shape geral da coisa mas com a tinta dás 60% da peça. Quando é só em plástico tem de ser à primeira, não vai haver a batota da tinta. Quando senti que dominava a outra metade do half, passei a fazer peças só com plásticos.

“Attero” foi a primeira grande exposição a solo por cá. Foi decisiva para haver o reconhecimento que já tinha lá fora?
Sim, mas não vou apontar o dedo ao nosso país por isso. Muitas vezes isto tem a ver com o facto de sermos um país pequeno. Era impossível fazer tantos projetos dentro de portas como pude fazer pelo mundo fora, com outro tipo de recursos. Acho que é mais fácil andares pelo mundo, fazer muita coisa e ganhar esse reconhecimento, e depois fica mais fácil fazer coisas cá.

Tens festivais, encomendas. É uma agenda muito cheia, não?
Sim, quase que é uma algema se não temos cuidado. É fácil ter trabalho sem parar. Mas é importante para mim arranjar tempo no estúdio para trabalhar coisas novas. Gosto muito do que faço mas chega um ponto em que sinto que estou a fazer uma peça e já quero estar a fazer outra diferente. E eu não quero de maneira nenhuma sentir-me obrigado a nada. Quero fazer as minhas coisas, procurar coisas novas e ir por aí além.

Não aponto o dedo a Portugal. Era impossível fazer tantos projetos dentro de portas como pude fazer pelo mundo

Já trabalhou com figuras humanas?
Em peças mais pequenas, mas pouco. Na exposição aqui em Lisboa havia uma cara em que um lado era uma caveira e o outro uma silhueta feita com vegetação. Mas tenho dúvidas em relação à parte humana. Com os animais temos inúmeras espécies que podem ser feitas com inúmeras técnicas. Olho para os humanos e têm menos para explorar. Tens algumas especificidades clássicas por continente, os olhos em bico, o nariz mais abatatado, a pele mais escura ou clara, homem, mulher, velho, criança, não sei. Acho a parte dos animais mais abrangente. Excita-me mais. Além de que os humanos já estão presentes no meu trabalho por causa disto [aponta para entulho]. Foram os homens que fizeram.

O lixo é quase uma dualidade do Bordalo II, não é? Incomoda mas é útil.
Sim, é um bocado amor-ódio. “Ah este plástico não devia estar aqui, ah mas é tão lindo, vou levar para o estúdio” [risos]. Estou a gozar, mas este tipo de material, mesmo quando está fora de sítio, eu quero levá-lo comigo para fazer qualquer coisa com ele. Infelizmente não existe a utopia do “então imagina que um dia deixa de haver lixo no mundo”. Opa, por amor de deus, infelizmente isso está tão longe de acontecer que vou ter sempre material para fazer. Mas, se acontecesse, era o primeiro a agarrar noutro material qualquer.

Artigo publicado na edição de novembro de 2019 da PLAYBOY PORTUGAL. Pode comprar a edição impressa na loja online.