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Blaya: “Há muita gente que acha que canto a música do “Eu Tou Bem” só porque é com sotaque brasileiro”

Após o enorme sucesso com Faz Gostoso, Blaya tem o seu álbum de estreia mesmo ao virar da esquina.

Pelo caminho ainda aproveitou para lançar Mulheres, Sexo & Manias, um livro de contos eróticos que é apenas um dos temas de uma conversa descontraída com esta brasileira criada no Alentejo.

1. Acha que toda a gente já percebeu que a brasileira que canta o Faz Gostoso é a Blaya?
Agora muita gente pensa que eu também canto aquela música do “Eu tou bem”, só porque é com sotaque brasileiro e bateu cá em Portugal. Mas o Faz Gostoso, acho que a maior parte das pessoas, se calhar 80%, sabe que sou eu. Aquelas pessoas dos sítios mais do interior, pessoal mais velho, talvez não percebam que seja eu porque também não me conhecem de lado nenhum. E muitas gente não tinha a noção que eu também cantava e muito menos que era brasileira. Então às vezes é por aí, ficam tipo, “Mas é a Blaya? Mas está a cantar com sotaque brasileiro? Ela também canta?”.

2. E é em português do Brasil porque era o que estava a bater?
Também. Neste álbum que vou lançar há músicas com sotaque brasileiro, outras com sotaque português, basicamente quis fazer uma mistura de todas as minhas influências e visto que eu nasci no Brasil, fazia todo o sentido fazer músicas com sotaque brasileiro. Quem escreveu a primeira parte do Faz Gostoso foi o MC Zuka, ele é que pensou no tema, por isso tinha que ser assim com um sotaque brasileiro.

3. Lançou recentemente mais dois singles. Num canta no nosso português, no outro mistura os dos dois lados do Atlântico. É como encaixar melhor?
Sim, sim. Há músicas que fica melhor com sotaque brasileiro e outras com sotaque português. Inglês é que não ia fazer, porque para já o meu público, o que quero atingir mesmo, é com a língua portuguesa. Não só cá e no Brasil, também na América Latina, México, Colômbia, Espanha!

4. Como foi ver outra artista, poucos meses depois de lançar o Faz Gostoso, a dançar a sua música num palco como o Rock in Rio?
Por acaso eu soube porque uns colegas meus que também são bailarinos iam dançar com ela e disseram-me, senão nem sabia. Fui vê-la mesmo de propósito, mas um artista em cima do palco muda o alinhamento como bem entender. Então eu pensei, “É provável que ela ainda vá mudar o alinhamento e não vá passar esta música” e fiquei à espera, à espera, até ela passar a música. É fixe da parte dela, porque teve a inteligência, a esperteza, de perceber quais eram as músicas que estavam a bater aqui em Portugal e a minha estava em primeiro lugar no Spotify, então ela puxou por aí.

5. E o álbum é para quando?
Supostamente era no final de Outubro, mas algumas coisas estão atrasadas, algumas participações e então espero bem que no início de Novembro. Porque senão, como eu digo, cabeças vão rolar no chão. Eu espero bem que sim, não sei. Isto de lançar álbuns e quando fazemos músicas com outras pessoas às vezes acaba por atrasar, mas espero bem que seja muito em breve. Ainda por cima é o meu primeiro álbum, já tive EPs, mas álbum é o meu primeiro e é uma coisa mesmo a sério.

6. Tinha dito em entrevistas nos últimos anos que queria voltar ao rap. O que mudou?
Neste meu novo álbum eu tenho rap, tenho dance music, tenho balada, tenho músicas com sotaque brasileiro que são para o lado mais pop, ou seja, é uma mistura. Eu também aprendi que posso fazer rap, mas se calhar não posso voltar àquele rap que fazia há muitos anos, que era três minutos sem respirar. E também gosto de variar o meu flow. Estivemos num writing camp da RedMojo e fizemos estas músicas todas que ficam no ouvido. Eles convidam vários songwriters e produtores, o artista chega lá e diz, “Quero isto, isto e aquilo” e então são dois songwriters aqui, um que é melhor nos flows, nas melodias, outro que é melhor na escrita, mais um produtor. Depois vamos rodando. No final da noite juntamo-nos todos dentro de um estúdio e ouvimos as músicas que fizemos. É muito engraçado! Fizemos 21 músicas em dois dias, no entanto o álbum vai ter 14. É um álbum eclético, com vários estilos.

7. Teve uma educação diferente de quem a rodeava em Ferreira do Alentejo?
Não, sempre tive um crescimento muito alentejano e muito português, apesar de que em casa ouvia música brasileira e comia coisas brasileiras que os meus pais faziam. Acho que o facto de os meus pais terem saído do Brasil muito cedo também me deu a mim uma liberdade mais cedo que o normal, saí de casa aos 16 anos para morar com o meu primeiro namorado, fui morar para Sines. E eles sempre foram excelentes, tudo ok, “Tudo bem, se quiseres ir, vai”, “Queres-te focar na dança, foca”, “Queres focar na música, foca” e então eu acho que só pelo simples facto de eles terem viajado mais cedo que o normal, há muitos anos atrás, fez com que eles me dessem uma liberdade, mas doseada. Nunca fiz merda e então foi uma boa liberdade.

8. O que é que lá chegava, foi a Internet que a salvou?
Sim, sim. Recebia as músicas pelo mIRC. Entrava lá no canal de hip-hop tuga, hip-hop Alentejo e conhecia o pessoal daí. Ouvia Xeg e só fiquei a saber que o Xeg não era black numa revista, acho que era a Hip Hop Nation. Porque, na minha cabeça, o Xeg era black. Depois também conheci a Dama Bete e vinha a Lisboa para estar com ela. Ia às festas de hip-hop ladies que havia na altura, eram só rappers femininas, e pronto. Mas conhecia tudo pela Internet, pelo mIRC. Por acaso cresci numa boa fase, em que tinha Internet e foi o boom do mIRC, senão é possível que tivesse filhos mais cedo, visto que não tinha nada para fazer.

9. Ser mãe condicionou-a de alguma forma?
No meu caso não, porque tenho um parceiro ao meu lado que está sempre com ela. Ou seja, eu estou aqui neste momento e ele está com ela em casa. Faço as minhas entrevistas, vou às minhas aulas de dança, quando tenho concertos eles vão os dois comigo, por isso acho que o facto de termos ao lado uma pessoa que nos apoia a 100% facilita muito mais as coisas. A nível físico ou mental, não muda nada. Até se calhar me dá mais ideias para fazer música.

10. Chegou aos Buraka meio por acaso, com um convite para um casting como bailarina. Proporcionou-lhe uma experiência de vida que nunca imaginou?
Sim claro, foram oito anos de aprendizagem. Passei por palcos, por países, por pessoas que eu nunca imaginei que ia passar. Aprendi a ouvir outro tipo de música sem ser o rap, mais virada para coisas dançadas. Aprendi a fazer música, foram os Buraka que me ensinaram a escrever uma música. “Não estejas três minutos sempre a cantar, a cantar, a cantar”, a música precisa de respirar, tem de haver um refrão, o refrão tem que ficar no ouvido. São essas as pequenas coisas que aprendi durante esses oito anos. Eles começaram em 2006, eu entrei em 2008, foi quando a Pongo Love também entrou, foi o boom do Kalemba, do Wegue Wegue. Depois passados para aí dois anos, em 2010, é que acho que o grupo se tornou assim mais pop. Mas um pop que toda a gente ouvia e não se tornava cliché, nem se tornava pimba, nada disso. Até a nível de concerto, o concerto era mesmo muito energético, muita luz, muita dança, muita energia, muita música e depois começámos a crescer, crescer, crescer e em 2016 é que parámos mesmo. Quando me meto numa coisa, não penso no sucesso em si. Penso que tenho que trabalhar e dar o que há de bom às pessoas e assim elas vão-me retribuir com o que há de bom. Por exemplo, quando entrava num palco não pensava na quantidade de pessoas que lá estava, pensava assim, “Uau, vou estragar isto, as pessoas vão todas ficar malucas”, entendes?

11. E tem saudades de Buraka?
Claro! Claro que tenho saudades. Buraka tinha um trabalho de equipa em palco que poucas bandas têm. O público ia ao rubro desde o primeiro minuto até ao último minuto, que é uma coisa difícil de se fazer agora. Hoje em dia, nos meus concertos eu tento, mas no entanto é diferente. É completamente diferente. A música que faço agora não é tão electrónica, então é normal que às vezes as pessoas fiquem só assim a ver o que é que se está a passar em cima do palco.

12. Investiu em luzes, guarda-roupa, bailarinos. O espetáculo está acima do lucro?
Sim, sim. Acho que faz um bocadinho falta em Portugal. Eu até em Buraka tinha as minhas roupas, eles estavam sempre de t-shirt, calções ou calças, eu gostava de fazer uma boa performance, de ter o meu outfit e basicamente é isso que faço nestes meus espectáculos. Gosto de ter um bom outfit, roupa para os bailarinos, porque a minha maneira de ser, a minha maneira de entreter as pessoas é mesmo assim, não é só cantar. É dançar, é visualmente, as pessoas olham para mim e vêem uma performance, um espectáculo de luzes, de roupa, de músicos, que faz falta cá em Portugal. Se há no resto do mundo, porque é que não há de haver aqui?

13. Presumo que existam dias em que até a Blaya não se sinta sensual. É fácil encarar o público de um concerto num desses dias?
Mas a gente mete assim uma maquilhagem, uma boa roupa e sentimo-nos bem. Fica logo tudo bem. E é como eu digo, é tipo, “Ok, vou subir ao palco e vou partir aquilo tudo”. Posso estar com a cara toda torta mas vou partir aquilo tudo. O objectivo é sempre partir e depois a maquilhagem claro que resolve o problema.

14. As redes sociais são naturais ou planeia as coisas?
Eu vou sempre metendo. Não vou é postar um monte de fotografias no mesmo dia porque uma pessoa tem de dividir os likes. Não publico muitas fotografias no mesmo dia e também não gosto de postar fotografias, a não ser de concertos, que já tirei há dias atrás. Gosto de publicar logo, não vou postar uma fotografia que tirei há três dias.

15. Criou um grupo secreto no Facebook onde esclarecia dúvidas sexuais. Depois passou para um canal de YouTube, Late Night Blaya. Fazia isso apenas por gostar de ajudar o próximo?
Sim, fazia. Ao início era só para partilhar coisas de dança, movimentos sensuais, mas no entanto as mulheres começaram a fazer perguntas um bocadinho mais complicadas e eu comecei a pesquisar, eu no Google a ver tudo, “o meu namorado ejacula muito rápido, o que é que posso fazer?” e eu no Google. Mas gosto de ajudar as pessoas a sentirem-se bem com elas próprias e basicamente foi isso que quis fazer quando criei o grupo secreto. Era ajudar as pessoas nas dúvidas, sejam elas quais forem e depois entre elas também falarem, desabafarem e contarem algumas coisas. Segredos, dúvidas, sei lá, tanta coisa.

16. Gosta de provocar?
Em cima do palco, quando estou a fazer a minha performance, acho que a minha pessoa faz isso, as minhas danças fazem isso. Em cima do palco, não ando aí na rua a provocar! [risos] E provoco o meu namorado, em cima do palco, mas é o meu namorado. Acho que o meu tipo de dança faz isso mesmo, eu olho, mexo, faço caras e acho que isso faz tudo parte de um artista.

17. Ainda tem tempo para dar workshops de dança pelo mundo?
Agora não tenho dado, mas em Dezembro vou à Jamaica, em Janeiro vou a Paris, sempre que não tenho assim muitos concertos. Vão aparecendo convites. Agora não tenho feito muito porque também não tenho viajado e publicado muitas coisas, mas quando começo a publicar mais coisas de dança, aí começam outra vez, sempre a viajar.

18. Vai a casa das pessoas dar aulas de dança. Alguma vez foi muito estranho?
Não. Eu sou uma pessoa muito à vontade, então nada me choca, basicamente. Nunca me aconteceu nada. Tipo que lá chegasse e fossem homens, não, nada por aí além. Sempre tudo muito normal. Agora também não tenho tempo, no entanto as minhas substitutas vão sempre. Dei uma aula a uma amiga, por exemplo, que também dança comigo. “Tens que fazer isto, tens que fazer este movimento”, então ela vai lá e dá esses movimentos e depois no final dá uma coreografia. Está tudo pensado.

19. E o que é que a levou a lançar um livro?
Sempre gostei de escrever e quando estava grávida comecei a escrever contos eróticos e a publicar no grupo secreto. As mulheres que lá estavam, as seguidoras, começaram a dizer “Está muito bom!”. Escrevi dois ou três e depois pensei assim, “Era fixe escrever um livro”. E aconteceu. Tive a ideia de fazer contos de segunda a sábado e o domingo é para os leitores escreverem o seu próprio conto, são o que eu chamo contos eróticos de bolso, que se lêem em meia-hora. Gosto que uma pessoa na segunda-feira vá para o trabalho de metro, está ali durante meia-hora e lê aquilo tudo, ou seja, é muito mais fácil uma pessoa imaginar o que é que se está a passar e muito mais intenso em pequenas leituras do que um livro de mil páginas, que nunca mais acaba. Claro que fiquei com vontade de escrever mais. Agora, por exemplo, quem sabe Janeiro, Fevereiro, Março, ou Outono, Inverno, Primavera, Verão… Gosto de coisas assim, de brincar com isso.

20. E podemos esperar vê-la ainda em mais algum ofício?
Não sei. Mas se calhar alguma coisa assim para crianças, porque depois eu também tenho o meu lado de criança, gosto de ensinar crianças, de estar com crianças. Já apresentei um programa no Panda Biggs, que era de dança para crianças, por isso gosto dessa área, gosto de apresentar, por exemplo. Nunca se sabe. Mas actriz não tenho muito jeito porque começo-me a rir. Apresentadora talvez.