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Quando as dominatrix pousam os chicotes — BDSM em tempos de quarentena

Enquanto a América se aquartelava em casa, uma nova dinâmica emergia entre as dominatrix e os seus clientes. O que aconteceu no mundo BDSM quando as dominadoras tiveram de pousar os seus chicotes?
Créditos: Shutterstock

Texto: Jera Brown

O que eles compram é o tempero, não é o bife”.

Foi este o conselho que recebi de uma amiga quando estava a começar como dominatrix profissional. Os clientes não querem apenas ser açoitados, querem ser açoitados por uma dominatrix maior do que a vida, cruel e munida de cabedal.

Como em qualquer performance, manter uma experiência credível depende de estarmos enredados no momento, neste caso usando uma mentalidade dominadora que atrai os clientes. Mas estar envolvida no momento durante esta crise veio com todo um novo mundo de desafios.

“A energia emocional e psicológica escasseia a todos por estes dias e eu não sou exceção”, escreveu Lady Sophia Chase no seu site. Lady Sophia é uma dominadora de Chicago que usa a sua licenciatura em serviços sociais clínicos no seu trabalho. “Nesta altura não consigo entrar no modo dominadora nas minhas sessões online… em vez disso prefiro falar com vocês”.

Como muitas outras dominas profissionais, onde me incluo, Sophia tem concentrado as suas energias caseiras exclusivamente em ofertas digitais, como sessões de dominação por vídeo ou chamada e plataformas de subscrição como a AVN Stars e a OnlyFans. Mas quem contacta Sophia encontra uma dominatrix diferente daquela que encontrava na sua masmorra, porque nesta altura ela não está interessada em entrar na personagem.

A diferença pode ser subtil. Numa chamada recente com um cliente de longa data, Sophia deu-lhe instruções para que chupasse o strap-on — algo que não a excita naturalmente. “Mas como o meu cliente não estava lá a servir de distração física, fui capaz de me concentrar no que de facto me excita e casar isso com o que excita o cliente”, conta-me. “Sinto que eles [clientes] tiveram uma versão sexualmente mais genuína e entusiasta da minha parte, ainda que não o soubessem”.

Escolhemos esta linha de trabalho porque certas coisas são naturais para nós: não somos suscetíveis; gostamos de infligir dor ou desconforto; precisamos de estar a controlar. Isto é sempre verdade quer estejamos em “modo dominatrix” ou não. Mas durante as sessões, frequentemente damos por nós a interpretar o quão cruéis somos ou o quanto estamos excitadas e a esconder partes de nós, como a gentileza ou o lado brincalhão, que não se adequam à personagem.

Muitos dos meus clientes favoritos querem conhecer o meu verdadeiro eu e parecem compreender que sadismo e compaixão podem andar lado a lado.

As pessoas que me perguntam se sou uma “dominatrix a sério” ou “verdadeiramente sádica” não se apercebem de que só estão a olhar para metade do que posso oferecer. Muitos dos meus clientes favoritos querem conhecer o meu verdadeiro eu e parecem compreender que sadismo e compaixão podem andar lado a lado. Graças a isso, são recompensados com vulnerabilidade e com um ligação mais genuína. E no meio desta crise, muitas de nós descobrimos mais homens à procura desta ligação holística connosco (convém salientar que algumas dominadoras preferem não partilhar qualquer detalhe pessoal com os clientes, optando por manter a sessão inteiramente no mundo da performance e fantasia).

Eden Newmar, dominatrix profissional de Chicago que tem providenciado serviços pessoalmente ou ao telefone nos últimos quatro anos, descobriu clientes que em tempos só lhe ligavam para serem humilhados e que agora querem falar das suas vidas nesta era de pandemia. Falam-lhe do medo de perderem os empregos, ou queixam-se da falta de privacidade por estarem fechados em casa com as famílias. Eden acredita que estas chamadas dão uma profundidade emocional ainda maior às relações que tem com os seus clientes.

Por que razão mudaram as necessidades dos clientes? A minha teoria é que é tudo uma questão de controlo. Frequentemente vejo ou falo com homens com trabalhos exigentes que procuram um escape onde não tenham de estar a tomar conta das coisas e a tomar decisões. Por estes dias muitos homens não têm a tal sensação de poder. Não procuram nem controlo nem submeter-se; querem estabilidade.

Mas não são as necessidades de toda a gente que estão a mudar. Muitos dos meus clientes regulares por telefone continuam à procura das mesmas fantasias pelas quais me têm ligado ao longo dos anos. Não perguntam como estou nem querem que lhes pergunte como estão porque não querem suspender a fantasia. Não me querem ver como uma pessoa para lá da fantasia e estou em paz com isso.

Como dominatrix que se especializou em fetiches de boxe e tareias, a maioria das minhas chamadas são de homens que querem brincar com cenários em que uso a minha incrível força para os raptar e manter como escravos ou então humilhá-los no meu ginásio de boxe com outros pugilistas, musculados, com as pilas prontas para lhes questionar a bissexualidade.

Estas chamadas muito raramente representam aquilo que faço com os meus clientes em pessoa. Em sessões similares podemos simular um rapto mas só após estabelecermos palavras de segurança. O boxe geralmente é unidirecional mas nunca ao ponto de arriscarem danos permanentes. E estas sessões são sempre em privado — que eu saiba não existem ginásios de boxe prontos para orgias.

Ainda assim as sessões virtuais não são menos autênticas ou genuínas. Em muitas chamadas, noto que os homens me estão a mostrar um parte secreta deles a que poucos têm acesso. Do mesmo modo, mostro diferentes aspetos de quem sou. Isto segue nos dois sentidos: quando vejo clientes em pessoa, eu e outras que providenciam serviços de BDSM tendemos a usar janelas de segurança, o “seguro, são e consensual”, encorajando assim limites e consentimento verbal. Mas ao telefone este tipo de serviços sexuais não dão margem para debater limites. Em chamadas ou mensagens, já espanquei esposas e raptei, violei e até matei clientes enquanto estes se masturbavam e me incentivavam. Estou constantemente a questionar a responsabilidade que tenho pela saúde mental dos meus clientes. Também questiono o porquê de, mesmo quando me sinto desconfortável nestas zonas morais mais cinzentas, por vezes também me excitar. Tudo isto leva-me a uma maior introspeção — e, parafraseando a Sophia, acontece quer os clientes o saibam ou não.

Quanto melhor te conheço enquanto pessoa, melhor me posso entregar a ti

Por vezes a vulnerabilidade implica sermos mais honestos com a nossa vida quotidiana e por vezes requer mais exposição às fantasias para as quais escapamos — tanto para quem domina como para quem é submisso.

Pela minha parte, considero os serviços online e os serviços em pessoa igualmente importantes, mas outros, como a Mistress Hecuba, estavam ansiosos por ver clientes em carne e osso. Como dominatrix profissional, Hecuba equilibra o medo e brincadeiras de humilhação com um trabalho de cura que se foca na perceção somática. Para ela, as conexões online simplesmente não bastam, “Falta qualquer coisa”, diz-me. “É íntimo mas desligado de maneiras que não preenchem tanto como as fantasias em pessoa”. E mesmo assim também ela descobriu que as sessões online providenciam um tipo diferente de oportunidades para estabelecer uma ligação.

Recentemente, Hecuba passou uma hora ao telefone com um dos seus clientes regulares simplesmente à conversa sobre a sua relação. O seu submisso teve uma epifania sobre qual deveria ser o seu papel enquanto cliente. Ele tinha andado a sentir-se negligenciado por Hecuba e percebeu que na raiz desta dor estava a sua incapacidade de aceitar que a sua relação tanto era pessoal como profissional — uma questão comum com que nos debatemos com muitos clientes.

Para as pessoas que vemos pessoalmente, estas conversas sobre intimidade podem ser raras, mas quando acontecem resultam em melhores ligações e melhores cenas. “Para mim, é a forma ideal de fantasiar”, explica Hecuba. “Quanto melhor te conheço enquanto pessoa, melhor me posso entregar a ti”.

Esta intimidade traz um nível de confiança maior e uma maior capacidade para acarinhar, embora da forma sádica que os seus clientes procuram.

“Eu sei de onde vens”, diz Hecuba aos seus clientes, “e sei que estás a passar um mau bocado com tudo isto, mas ainda vais ter que enfiar a tua língua no meu cu”.