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António. “Em Israel há quem ache que qualquer crítica é antissemitismo”

O que faz um bom cartoon? Há técnica e argúcia mas o sentido de humor é essencial — especialmente num tempo em que a censura nem precisa de lápis azul para se fazer sentir. António sabe-o como ninguém.

António Antunes, ou simplesmente António, começou a deixar a sua marca no cartoon ainda antes do 25 de Abril. Por cá, é nome há muito consagrado na área mas no ano passado foi notícia em todo o mundo, quando o New York Times pediu desculpa por ter publicado um cartoon seu, optando depois por deixar pura e simplesmente de publicar cartoons. Para o experiente desenhador, a decisão amedrontada mostra a falta de apoio que o cartoon tem e a pouca tolerância de uns quantos à crítica. Em conversa com a PLAYBOY, António dá-nos a receita para o que faz um bom cartoon e deixa um conselho a quem sonhe fazer do cartoon carreira: não dependam só disto. Ele não o fez. E isso ajudou a que, na hora de se sentar a desenhar, pudesse deixar obra com impacto, como quando abalou as convicções de um certo Portugal conservador, que ficou muito zangado por ver um preservativo no nariz do papa João Paulo II.

Como é que começou como cartunista?

Estudei pintura e há duas coisas a ter em conta: uma é a interrogação que fazia sobre o papel da pintura num ambiente pré-revolucionário, em que já se sentia que o regime ia cair; a outra foi o acaso. Sou de Vila Franca de Xira e lá a Cooperativa Alves Redol organizava concertos de oposição ao regime e precisava de uns cartazes. Geralmente eram uns quatro ou cinco para serem colocados nas montras de comerciantes que tinham coragem para tal. Como eram poucos, não se imprimia, fazia-os com caneta de feltro. Um dia, o José Jorge Letria foi lá, gostou dos meus desenhos e convidou-me a mostrar alguns no República, um jornal oposicionista que infelizmente já não existe – os jornais são como as pessoas, também morrem. Eu fui e foi assim que foram saindo desenhos que deixei lá. O primeiro foi a 16 de março de 1974. Sei a data porque não é uma data qualquer: foi o dia do golpe falhado das Caldas, no mês antes do 25 de Abril.

Era já um prenúncio.

Sim, e o desenho curiosamente também era já um prenúncio de que alguma coisa se iria passar. Era uma BD de três quadrados, no primeiro há um boneco com um barrete e uma corrente com uma daquelas bolas de ferro de prisioneiro. No segundo quadrado ele está mais velho e a bola maior. No terceiro está ainda mais velho e a bola está tão grande que partiu a quadrícula que segurava o desenho. Eu queria muito participar, ter algum contributo [na oposição ao Estado Novo]. Era muito novo e assistir a um período revolucionário é qualquer coisa de único na vida.

Esse factor contou?

O que eu pensava é que, vindo da pintura, mesmo sendo improvável que me tornasse um pintor brilhante, os meus trabalhos iam estar na sala de alguém, que quando muito usufruiria com os amigos. Do ponto de vista social não teriam qualquer utilidade. Aí apareceu a ideia dos jornais, da reprodução em massa. Foi isso que me levou a isto do cartoon e depois percebi que tinha algum jeito e fui ficando.

Mesmo com o regime a dar sinais de fim, não teve algum receio?

Corriam-se alguns riscos. Nessa altura tinha um domínio muito indireto das coisas: era apenas a coleção de desenhos que deixei lá. Quando e quais se publicavam era a redação que decidia e nem tinham o meu número de telefone para me avisar.

“Há setores de Israel que parecem não ter problemas nenhuns em fazer o mesmo que fizeram a si ao povo palestiniano”

Quais são as grandes mudanças no cartoon de quando começou?

São as da própria sociedade e como isso se repercutiu na imprensa. Cá havia um entusiasmo grande. Estávamos a sair de meio século de estagnação, de paz podre cá e com um país pequeno envolvido numa guerra em três frentes em África. Era paz aqui mas a nossa juventude ia-se embora. Ainda hoje não se fez esse balanço todo, dos mortos, feridos e resultados traumáticos da guerra. O universo informativo também era muito diferente: não havia Internet, só a televisão do Estado. Os jornais eram a grande fonte de informação. Depois, o país estava a redescobrir os cartoons, tínhamos uma grande tradição na I República que o Estado Novo veio apagar e o que ficou era com pouca incidência política. Alguns autores que arriscaram mais sofreram com isso. O entusiasmo era grande e qualquer jornal ou revista queria ter o seu cartunista. Hoje seguimos o caminho contrário: muitos jornais fecharam, têm grande concorrência da Internet e das televisões, e contamos os jornais que têm um cartunista. Não sou muito otimista.

António. "Em Israel há quem ache que qualquer crítica é antissemitismo"

Não há também o contrário? Há menos jornais cá mas também vemos mais cartoons de lá de fora.

Sim, é uma demonstração de liberdade que antes não tínhamos. Hoje em dia não temos problema nenhum em ter outros trabalhos num salão em Portugal, na altura teríamos.

Nota essa mudança, com a ligação que tem à organização do World Press Cartoon?

Sim. Recebemos um pouco de tudo, há coisas de países com mais liberdade e crítica política, outros com menos. Há países em que a única crítica política possível é a que corresponde à propaganda do regime. E depois há outras sociedades, mais parecidas com a nossa, que refletem uma maior multiplicidade de pontos de vista.

Muitas vezes com temas em comum, não?
Sim, na edição deste ano há quatro temas que transitam do ano anterior: o Trump, o Brexit, o Bolsonaro e as alterações climáticas. Recebemos à volta de mil cartoons, depois a exposição e o catálogo deverão ter à volta de 280, dos mais diversos países.

Em 2019 o António foi notícia por um cartoon com Donald Trump e Benjamin Netanyahu. O New York Times (NYT) desculpou-se pelo cartoon e depois deixou de publicar cartoons. Como responde a acusações de antissemitismo?

Hoje, qualquer crítica que se faça a Israel, os setores mais conservadores da sociedade judaica entendem sempre que é antissemitismo. Nada disso. É um cartoon antissionista. Israel e estes setores da direita em particular têm muita dificuldade em aceitar as críticas à política que Israel exerce neste momento e vêm outra vez com a
fatura do Holocausto. O Holocausto foi um crime hediondo, um momento miserável da nossa história comum, mas já foi. E há setores de Israel que parecem não ter problemas nenhuns em fazer o mesmo que fizeram a si ao povo palestiniano.

O tema também foi muito debatido nas redes sociais.

Com as redes sociais criam-se efeitos um bocado perversos, grupos organizados conseguem ser uma fonte de pressão enorme e, neste caso do NYT, concomitantemente com manifestações à porta do jornal, levou o jornal a ceder. Do meu ponto de vista erradamente, mas pronto. Cedeu. E ainda por cima não é um jornal qualquer.

No caso do NYT falamos de ceder duas vezes: primeiro no cartoon e depois ao deixar de publicar cartoons.

É uma decisão extremamente infeliz e desastrosa para a liberdade de expressão. É quase como dizer: vou proibir os textos todos. Não há mais textos. E isso não pode ser assim. Aceito a divergência de opinião mas não aceito que lhe chamem um desenho antissemita, porque o que está em causa é a política de um tipo, que está inclusive a braços com a justiça.

O cartoon tinha a tal metáfora do cão guia de Trump.

Sim, mas tudo isso serviu. Fui insultado, enfim. E há coisas de que falam que não consigo aceitar e tenho mesmo dificuldade em perceber.

Como por exemplo?

Entre os judeus, que temos como pessoas sofisticadas, do ponto de vista da leitura dos cartoons há quem mostre o primarismo do radicalismo islâmico: veem o que querem e não o que lá está. E o que lá está é uma história, de um cego conduzido por um cão guia e que tem uma estrela azul ao pescoço porque o Netanyahu cá não é
tão famoso quanto isso, preciso de um elemento identificativo. Os críticos dizem que a estrela é um símbolo religioso e é verdade. Mas também é político, porque foram eles que escolheram a mesma estrela para a bandeira de Israel. Depois era o kipá — mas eu lembro que o Trump quando foi a Jerusalém o usou e ninguém se ofendeu. Depois o cão. Tenho pena mas não há vacas nem elefantes guias.

António. "Em Israel há quem ache que qualquer crítica é antissemitismo"

Há cães-guia.

É o que há [risos]. E depois há outra mais hilariante: a raça de cão alemã. É um salsicha porque tenho um desenho horizontal e é muito comprido e eu não quis um cão particularmente feroz, para não ser o centro das atenções. O salsicha é um cão sem história. Nem me lembrei que era alemão, pensei apenas que me permitia esticar o desenho até onde pudesse. Depois esta decisão teve efeitos multiplicadores.

Como assim?

Um NYT tomar esta decisão drástica tem sempre efeitos. A censura não começou ali mas acentuou-se depois disso: houve vários despedimentos, desenhos censurados. E voltou a repetir-se recentemente com o Vasco Gargalo e com a Cristina Sampaio, que fez a tal transformação do símbolo do CDS.

A do Vasco Gargalo teve o mesmo alvo: Netanyahu.

Sim, mas agora com uma agravante: é Israel a reagir. No meu caso houve associações e indivíduos mas não o Estado. Agora com o Vasco Gargalo, o Estado de Israel, na pessoa do embaixador em Lisboa, escreveu uma carta ao Presidente da República, ao Primeiro-ministro e ao diretor da Sábado e ao do Correio da Manhã pedindo o despedimento do cartunista. Pedindo que aquele homem não tenha mais espaço para fazer desenhos. Isto é grave e desproporcional. Como é que um Estado pode reivindicar o despedimento de um cartunista?

Há dificuldade em lidar com o humor?

Há aqui problemas novos. Um cartoon feito em Portugal para um jornal e público específicos, noutro contexto pode ter outras leituras. Isso pode sempre alterar qualquer coisa mas a questão de fundo é este virar à direita a que assistimos em todo o lado, de atitudes persecutórias, autoritárias, que vemos nos EUA, na Turquia, no próprio Brasil, para não falar nos do costume, como a Rússia ou a Arábia Saudita. É algo que temos sentido muito na pele.

“O New York Times deixar de publicar cartoons foi uma decisão desastrosa para a liberdade de expressão”

Tem alguma figura preferida que goste de trabalhar?

A cada momento vão aparecendo personagens muito apetecíveis. Agora temos o Trump e o Boris Johnson. São apetecíveis porque eles próprios são excessivos, são já um pouco caricaturas. O Mário Soares também em tempos o foi porque todo ele era excessivo. Isto vai mudando, todos os tempos têm as suas personagens. Um cartunista com a atualidade vai arranjando novas musas.

E por cá, já teve algum cartoon que lhe tivesse dado dores de cabeça?

Tive dois casos, o do papa João Paulo II é o mais conhecido mas há um outro para trás que é logo no meu início, de quando comecei no Expresso. Na ressaca da tentativa do golpe de 11 de março de 1975 fiz um cartoon em que punha o Costa Gomes a dizer “ganhe quem ganhar, eu ganho sempre”. O ministro da Justiça na altura, o Almeida Santos, resolveu pôr-me um processo por abuso de liberdade de imprensa. Comentei isso na altura no jornal com um amigo meu a dizer que estava frito: era militar. Mesmo que ganhasse o processo civil o Presidente da República era o comandante das Forças Armadas. Um amigo meu que já faleceu, o João Isidro, propôs-se ajudar: “tu não és conhecido, podemos dizer que eu é que sou o autor e que António é um pseudónimo”.

O que aconteceu?

Apresentámos na altura a solução ao Francisco Pinto Balsemão, que na altura também era diretor do jornal. Ele aceitou a ideia e disponibilizou o dinheiro da caução que o tribunal exigia para os dois. Como aquele era um período de grande ebulição política, logo de seguida fomos amnistiados. Aí o Balsemão pediu o dinheiro de volta, mas o dinheiro, como vocês sabem, é uma coisa extremamente volátil, e de vez em quando evapora-se. O João propõe na altura ao Balsemão o pagamento em tranches, o Balsemão não aceitou, achou que era abuso de confiança e despediu-o. É uma história que não acaba bem mas de uma grande solidariedade, própria daquele tempo. É uma das características dos períodos de revolução: acontecem coisas que não acontecem noutros períodos da vida.

O outro caso foi o do cartoon do preservativo no nariz do Papa.

Em França vi coisas muito mais cáusticas e agressivas e nem sequer fundamentadas em atitudes do Papa. Esta não, era uma resposta a um discurso que ele tinha proferido sobre o uso do preservativo numa altura em que a SIDA atingia picos astronómicos. Achei, e acho, que o discurso era perfeitamente criminoso, e reagi com esse cartoon.

Mas cá houve quem não gostasse, não foi?

Vínhamos de uma tradição muito religiosa, em que a religião católica tinha tido sempre um peso na sociedade, e ninguém até então tinha ousado fazer esta heresia no nariz do supremo dirigente da Igreja. Há um setor mais conservador que reage e exerce o direito de petição, na altura ainda recente, levar o assunto ao Parlamento. Recolheram assinaturas à saída das missas e o chefe desse grupo chegou a declarar à imprensa que esperavam
um milhão de assinaturas. Atingiram as 29 mil [risos], um bocadinho menos. Se tem tido um milhão, seguramente as coisas iam ser vistas de outra maneira e até a lei de imprensa haveria de ser alterada. Com 29 mil, não aconteceu nada e ficámos assim. Mas são dois casos em muitos anos de carreira. Também não é assim tanto quanto isso.

Que aconselha a um jovem que queira seguir esta carreira?

Eu, mesmo nos períodos em que o ambiente era relativamente melhor em relação ao cartoon, nunca vivi exclusivamente do cartoon. Sempre desconfiei um bocado.

Contava-nos há pouco que era militar.

Sim, e quando acabei o serviço militar fui designer gráfico o resto da vida. No fundo, tinha duas profissões. Nunca confiei muito no que a imprensa me podia dar. Acho que o pior que pode acontecer hoje a um jovem é tentar viver exclusivamente do cartoon. Hoje em dia paga-se tão mal, é tudo tão periclitante, que obrigará um autor a multiplicar o número de desenhos. Vai fazer uns 500 para pagar a renda da casa…e a quantidade não é amiga da qualidade. Eu cheguei a trabalhar para cinco jornais ao mesmo tempo e é um desgaste maluco e a qualidade vem por aí abaixo quando não temos tempo para nos dedicar às coisas.

Que cartunistas admira?

Tenho alguns heróis. Gosto muito do inglês Ralph Steadman, que acho um desenhador fantástico, e um americano, o Brad Holland, que estão aí vivi- nhos. No passado foi o David Levine, para muitos considerado o melhor cartunista da segunda metade do século XX e tive oportunidade de o conhecer aqui em Lisboa. Estava à frente dele a jantar e apetecia beliscar-me. Era um tipo normal, afável, bem-disposto. Foi um prazer conhecê-lo. Mas gosto de outros, estrangeiros, e… depois há quem não sendo cartunista editorial faz excelentes desenhos e caricaturas, como o caso do André Carrilho, da Cristina Sampaio. Há uma série de autores que aprecio.

Há algum tema para si que seja sagrado?

Há assuntos mais melindrosos. A morte, por exemplo. Pode-se fazer um comentário sobre uma morte específica, até já fiz cartoons de homenagem a figuras que morreram ou mesmo cartoons sobre a forma como morreram. Mas
é sempre um assunto que tem de ser tratado com muita delicadeza.

O que faz um bom cartoon?
Tem de ter três coisas. Tem de ser um desenho escorreito. Costumo dizer que é preciso não dar erros de ortografia no desenho: se a nossa forma de escrita é o desenho, não temos de ser Da Vinci mas tem de ter alguma técnica e interesse plástico. Outro é jornalístico: trata-se de uma crónica, em que o autor tem de ser capaz de interpretar através do desenho. Por último, mas não em último lugar, tem de ser feito de uma forma inusitada: tem de nos fazer sorrir. É ter humor. A dificuldade de encontrar um bom cartoonista é que não há escolas que deem isto. A maior parte dos cartunistas vem das escolas de arte. A parte de desenho vão resolvendo e depois percebem que têm alguma intuição para o jornalismo e juntam estes dois tipos de conhecimento. Mas este terceiro é muito mais subjetivo. Já vi tipos a desenhar fantasticamente que depois não têm sentido de humor nenhum. Não há escola nenhuma que o dê. É preciso tê-lo.

António. "Em Israel há quem ache que qualquer crítica é antissemitismo"