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Antifa. No seio de um movimento onde se contam episódios de violência mas também há avozinhas

Ainda antes de Donald Trump ter sugerido designar o movimento antifa como terrorista, a PLAYBOY falou com elementos e descobriu por dentro um grupo onde se contam episódios de violências mas onde também há avozinhas a tricotar em protestos.

Uma visão rara dentro do movimento antifascista da América — pessoas, métodos e luta para encontrar uma voz firme num mundo de surdos.

TEXTO: Donovan Farley

FOTOGRAFIA: Christie Hemm Klok

Quando telefonei a Gregory McKelvey e Kathryn Stevens estavam numa tarde típica de pais jovens, que alterna entre o silêncio e a algazarra. O casal interracial de Portland, Oregon, de vinte e muitos anos, planeava o casamento. Aliviada por um dos dois bebés estar a dormir, Stevens dá de mamar ao outro durante a nossa entrevista. Nenhum dos pais aparenta ser um terrorista.

Mas tanto McKelvey como Stevens estão envolvidos com o Antifa — um movimento descentralizado da esquerda representando vários sistemas de valores e táticas, só unidos pela oposição aos nacionalistas e supremacistas brancos — e como tal encontram-se na mesma categoria de Unabomber e Timothy McVeigh. Quer dizer, se os senadores Ted Cruz e Bill Cassidy no último verão tivessem conseguido denominar o movimento como um grupo de terrorista doméstico. Ainda antes de os querer proibir Trump já tweetava a “chamar ANTIFA a uma ‘ORGANIZAÇÃO DE TERROR’”).

McKelvey conta-me que apesar das frequentes ameaças à sua família, ele e Stephans sentem que têm de dar a cara pelas ações do antifa. “Penso que ajuda as pessoas verem uma família de sucesso defender os antifascistas, porque essas pessoas não se podem proteger a si próprias”.

Stevens acrescenta: “quando éramos só eu e o Greg, era fácil dizer ‘ameacem-nos com o que quiserem. Não temos medo de vocês’. Mas agora com dois bebés, não é nada bom. Nunca magoei ninguém, nem tenho intenção de o fazer, então porque é que hão-de ameaçar a minha família? É só por causa das nossas ideias políticas”. Talvez o problema esteja na maneira como essas ideias são apresentadas, como o movimento age com elas e, em primeiro lugar, por quem é que é constituído.

Essa confusão levou muitas vezes ao medo e à raiva, aumentados pelos uso do anonimato por parte dos antifascistas como defesas contra a prisão e o doxing, isto é, o ato de pesquisar e divulgar informações sobre pessoas ou organizações online — embora o doxing também seja uma das práticas do antifa. Apesar dos esforços feitos recentemente para levantar esta capa de secretíssimo, incluindo entrevistas identificadas nos meios de comunicação como à Rolling Stone” (e esta à PLAYBOY), o anonimato permitiu que um grupo com ligações com os ativistas fosse diabolizado pelos membros da extrema direita a que se juntam cada vez mais centristas e democratas moderados. À medida que se aproximam as eleições de 2020, o antifa encontra-se numa encruzilhada: será que pode ser bem sucedido ou mesmo sobreviver, sem utilizar as mesmas ferramentas que os seus opositores empunharam de maneira tão implacável?

Estudei a comunidade do movimento antifa de Portland desde que se destacou no inicio das eleições de 2016, e assisti a vários protestos e ações nessa altura. Não posso alegar imparcialidade total, maioritariamente porque muitos amigos e vizinhos meus participam no movimento, mas posso afirmar que testemunhei de perto vitórias e desaires do antifa. Foi a posição inédita do movimento na cultura americana — como trabalha, como é percecionado e os pontos fracos gritantes entre ambos — que decidi explorar.

Para este artigo entrevistei perto de uma dúzia de ativistas antifa, que me deram algumas perspetivas sobre o alcance dos seus métodos, que vão desde as campanhas eleitorais a, sim, confrontos de rua. Embora seja importante para o trabalho do movimento monitorizar online os grupos de extrema direita, estou mais interessado nos seus esforços desenvolvidos com os cidadãos — as tentativas de romper com o estereótipo do antifa, mostrar o que está por trás da imensa comunidade e o grito da mensagem que os une a todos: o ódio requer confrontação ativa e direta.

Mas querer conhecer o antifa requer uma viagem perigosa entre os seus desafios internos e externos. E não se pode obter uma melhor demonstração desses desafios do que uma série de eventos, de violência passageira e totalmente absurdos que aconteceram no verão passado.

A 1 de Maio de 2019, Andy Ngo, um escritor, comunicador no Twitter e ocasional comentador da Fox News, foi filmado por um antifascista disfarçado que se infiltrou na organização de extrema direita Patriot Prayer. (Mais tarde, a justiça de Portland usou o vídeo para indiciar alguns membros do Patriot Prayer). Nele, Ngo aparece sorridente enquanto outros fazem planos para atacar uma fábrica de sidra conhecida por ser um ponto de encontro do antifa. De acordo com o que veio a público, o incidente que se seguiu deixou uma mulher com uma vértebra partida depois de um homem a ter agredido com um bastão. Ngo fez doxing a esta mulher enquanto ela estava internada no hospital; ela acordou no hospital para um torrente de ameaças de morte.

Por isto, e por outros episódios caracterizados como islamofobia e falsas informações nas suas contas sociais, Ngo tornou-se um alvo para muitos antifascistas. (Num artigo de opinião, ele descartou-se das alegações de islamofobia). Em Portland, a 29 de junho, numa manifestação organizada pela Patriot Prayer, antifascistas com roupas negras e máscaras esmurraram-no e pontapearam-no e em seguida roubaram a câmara de filmar do atordoado escritor. Da noite para o dia, Ngo emergiu duma figura marginal para um caso de simpatia nacional que recebeu perto de 195,000 mil dólares duma organização GoFundMe promovida pelo comentadora conservadora Michelle Malkin.

Se ao menos isso fosse o fim da história.

Antifa. No seio de um movimento onde se contam episódios de violência mas também há avozinhas
Effie Baum

A manifestação começou no final do Pride Month, e o grupo antifa PopMob (abreviatura de Popular Mobilization) organizou uma enorme festa de dança para as pessoas queer e seus aliados em oposição aos Proud Boys e outras organizações que se tinham juntado com os Patriot Prayer. Inspirando-se em recentes ações antifascistas no Reino Unido, o PopMob decidiu trazer batidos vegan de côco. Ativistas antifa atingiram Ngo com vários batidos e a Polícia de Portland, ao ter conhecimento, escreveu no Twitter que a polícia recebeu informação de que alguns dos batidos arremessados continham cimento. Este tweet ainda se encontra online com milhares de likes sem uma única prova a confirmá-lo.

Não defendíamos atirá-los às pessoas”, afirma Effie Baum, uma estudante do quarto ano de pós graduação e membro do PopMob, “mas não éramos ingénuos ao ponto de pensar que isso não pudesse acontecer”. Baum, que usa os pronomes eles/deles, solta grandes gargalhadas ao ouvir a sugestão dos batidos conterem alguma espécie de substância endurecida. Salientaram, tal como muitos outros, que o PopMob podia ter arriscado a morte de centenas de pessoas se tivessem misturado as bebidas. Isto não impediu a Fox News de reportar que “os chamados ‘batidos’ supostamente continham cimento de secagem rápida, gás pimenta e ovos crus”. Como resultado disto, Baum recebeu centenas de ameaças violentas de todo o país.

Sair para a rua é só 10 por cento do que nós podemos fazer

Não é surpreendente que o incidente com Ngo tenha desempenhado um papel importante nas audiências da Fox, mas Jake Tapper da CNN encarregou-se de retweetar um vídeo de Ngo a ser atingido com a legenda “Antifa ataca regularmente os jornalistas; é condenável”. (Os “ataques” que apresentou incluíam um ovo a ser arremessado, o cabo de uma câmara a ser cortado e estudantes da University of Virginia a gritar com um jornalista). Joe Berman, colega de Tapper, convidou Ngo para o seu programa. Nenhum dos pivôs relatou os episódios passados de Ngo a partilhar informações falsas.

Assim — uma tentativa de levar a cabo um protesto pacifico foi comprometido por um momento de violência nas mãos de pretensos aliados; essa violência foi aproveitada pela oposição e exponenciada por autoridades e grandes meios de comunicação.

Antifa. No seio de um movimento onde se contam episódios de violência mas também há avozinhas
Margaret “Peggy” Zebroski

Os antifascistas envolvidos não possuíam os meios de comunicação necessários para combater a desinformação (embora Baum tenha tentado) nem a oportunidade de corrigir a informação — para explicar que os antifa não são um grupo de hooligans extremistas — que se perdeu num nevoeiro de tweets e declarações. Os ativistas antifascistas que entrevistei para esta peça estavam ávidos de mudar a visão que se tem do movimento e falaram comigo sabendo que receberiam uma enxurrada de ameaças por o fazer. Contaram-me que a maioria do trabalho dos antifascistas não consiste em máscaras negras, desordens nas ruas ou batidos armadilhados mas em trabalho de retaguarda e passar horas infindáveis a observar os canais de comunicação da extrema direita.

A grande maioria das pessoas que se dedicam ao trabalho antifascista não são participantes do chamado black bloc, cujas máscaras e muitas vezes presenças agressivas nos comícios são uma atração para a atenção dos media. Os antifascistas são médicos, pais e empregados de bar. São vizinhos nossos. Só em Portland há tantas avós participantes em ações antifascistas que já têm a sua própria organização, com encontros mensais e página no Facebook. Em junho passado, nos protestos no Occupy ICE PDX, mesmo em frente a agentes federais vestidos com equipamentos anti-motim e com espingardas, estava um grupo de avozinhas. Uma delas fazia tricot.

Então porque é que o antifascismo foi diabolizado pela direita e evitado pela esquerda? Muitas das respostas estão no anonimato do movimento e no desprezo pelas figuras de destaque. Grupos como Patriot Prayer e Proud Boys, juntamente com os seus admiradores nos media e em Washington, cultivaram uma frente de personalidades importantes e um jeito especial para transmitirem mensagens que lhes deu muito jeito para lidar com Trump, permitindo-lhes moldar o seu próprio discurso ao do antifascismo. Na era das redes sociais, enquanto a informação (e a desinformação) viaja pelo mundo num piscar de olhos, o empenho de transmitir as mensagens é muitas vezes tão importante como a própria mensagem. Não basta estar do lado certo da história; tem de se estar do lado certo daqueles que leem e escrevem essa história. Enquanto a extrema direita prosperava, os antifascistas encurralaram-se num canto solitário, evitando a imprensa e os centristas.

Sorte para eles, a imprensa não é a única ferramenta ao seu dispor.

Na verdade sinto a responsabilidade de mudar o discurso público sobre o antifascismo”, diz Sarah Iannarone, uma candidata a Mayor de Portland em 2020. (A sua campanha é conduzida por McKelvey). Iannarone é uma mãe que passou a sua vida profissional a tentar tornar os espaços urbanos mais verdes e mais habitáveis, tendo viajado pelo mundo para discutir as suas táticas. Está consciente de que o seu apoio ao antifascismo a faz tornar-se um alvo para ameaças e violência — e possivelmente lhe custará a sua carreira política — mas sente-se na obrigação de apoiar a causa.

Para mim é muito frustrante a falta de sensibilidade e compreensão da nossa sociedade sobre este problema”, afirma. “Porque este problema existe dentro do sistema, somos obrigados a usar táticas radicais — embora, eu ache, sem dúvida nenhuma, que a política eleitoral é importante, e essa é a razão do meu envolvimento.

A convicção de Iannarone de que o antifascismo deveria estar interligado à política convencional é compartilhada por muitos dos ativistas que entrevistei. Estas atitudes representam uma mudança nas táticas dentro dum movimento que tradicionalmente desconfia do processo eleitoral. A par com o início de abertura à imprensa, esta aproximação terá de ter de percorrer um longo caminho para corrigir a desinformação desenfreada existente.

Nos protestos no Occupy ICE PDX, em frente a agentes armados com equipamentos anti-motim, estava um grupo de avozinhas. Uma delas fazia tricot

Iannarone menciona que o PopMob de Baum representa uma pressão contraditória sobre as “táticas radicais”. Durante o último ano, o PopMob e os seus aliados tentaram combater tanto as iniciativas da extrema direita como os problemas das mensagens do antifa através de encenações de resistência, usando bandas de marcha para abafar os altifalantes e mais recentemente lançando o “Banana Bloc”, em que cerca de 40 ativistas vestidos com fatos de banana e munidos de instrumentos de sopro lideraram um desfile de cerca de 100 pessoas para protestarem num comício dos Proud Boys.

Baum salienta que a construção e organização da sociedade é o objetivo principal do PopMob. Em Março de 2019, depois de uma série de ataques ter atingido a comunidade LGBTQ de Portland, o PopMob rapidamente organizou um evento com cerca de 600 participantes, dando lições de autodefesa e esclarecimento da comunidade. Os organizadores tinham mais de mil apitos, lanternas e correntes para legítima defesa.

Apresentei-me como voluntário porque queria promover uma alteração nas posturas” diz Baum. “Sair para a rua corresponde só a 10 por cento do que fazemos”.

Antifa. No seio de um movimento onde se contam episódios de violência mas também há avozinhas
Jacob Bureros

Jacob Bureros, um ativista cujas participações em manifestações e operações junto da imprensa o sujeita a constantes ameaças de morte, realça que o trabalho da comunidade é raramente divulgado — tal como a ajuda aos residentes mais vulneráveis de Portland durante a brutal tempestade de gelo em Janeiro de 2017. Os ativistas distribuíram cobertores e bebidas quentes aos sem abrigo da cidade e ofereceram-lhes transportes para os abrigos. Depois de vários ataques contra os sem abrigo em 2018, os antifascistas montaram patrulhas nos vários campos de abrigo por toda a cidade.

Para Susie Anglada Bartley e Pedro Anglada, a organização e participação em ações conjuntas é uma faceta essencial da vida em família. “Nos últimos verões, a nossa cozinha estava cheia de computadores, e nós trabalhávamos juntos para conseguir um equilíbrio entre a pesquisa, a organização, estarmos na rua e sermos pais”, conta Anglada Bartley, professora numa escola pública e escritora premiada.

Anglada, escritora e assistente social que trabalha junto de famílias imigrantes, assinala outra frente da batalha antifascista: os centros de detenção de imigrantes. “Muitas destas instalações operam sob a alçada de organizações não governamentais associadas a tratamentos de saúde mental e aos serviços sociais; isto permite a essas organizações trabalharem sigilosamente, diz. “Estou interessado em trazer a lume estas práticas, sobretudo quando os chamados políticos liberais se empenham publicamente a defender estas organizações ao mesmo tempo que também proclamam ser contra os campos de concentração na fronteira. O resultado destas práticas é fascista, embora por vezes a ótica retrate o oposto”.

O que é triste para mim é a polícia agredir idosos. Estávamos a protestar a morte de Quanice Hayes. Ele morreu; eu só parti o nariz

Aqui surge Margaret “Peggy” Zebroski, uma avó e assistente de medicina reformada de 69 anos. Em Fevereiro de 2017, participou num protesto contra a morte de Quanice Hayes, um jovem de 17 anos afro-americano que foi fatalmente alvejado por um polícia branco de Portland com uma AR-15 depois de Hayes ter alegadamente usado uma arma de brincar num assalto. No protesto, um oficial da polícia de Portland — com equipamento anti-motim apesar de só haver cerca de 50 manifestantes — imobilizou a cabeça de Zebroski contra o chão com o joelho, partindo-lhe o nariz.

Bem, tenho de dizer que para mim, no contexto das coisas, foi um acontecimento sem significado” conta-me Zebroski. “Desde a minha adolescência que participo em manifestações. Fui agredida na cabeça em São Francisco durante os protestos contra a guerra do Vietname. O que é triste para mim é a polícia agredir os idosos. Mas nós estávamos a protestar a morte de Quanice Hayes. Ele morreu; eu só parti o nariz”.

Mesmo no contexto de grande desobediência civil, a questão de confrontos físicos mantém-se. Se o antifascismo dá prioridade à vigilância e à criação de uma comunidade em relação aos punhos, porque é que alguns dos seus partidários dão à extrema direita o que ela quer, ao combaterem violência com violência? Porque, para melhor ou pior, algumas vezes isso resulta a favor da esquerda.

David (nome fictício) é um homem de família de trinta e tal anos e membro do Rose City Antifa, um dos grupos antifascistas mais antigos. Ele cita Richard Spencer, o nacionalista branco que alcançou fama depois de ter sido esmurrado na cara com as câmaras a rolar. A afirmação de Spencer de que o black bloc fez com que aliados seus tenham medo de aparecer em eventos públicos, sugere que confrontar com violência a extrema direita pode ser uma tática eficaz. David explica: “se não conseguem encontrar nenhum manifestante do black bloc para lutar então vão a um centro comercial bater num jovem afro americano que não está de modo algum envolvido em nenhum protesto. Eles vão atacar qualquer pessoa que vá simplesmente a andar pela rua”.

Mas a ameaça de violência vai para além de cidadãos das extremidades do espectro político. E para Bureros, um descendente de Filipinos e com dois filhos, o perigo real não vem dos extremistas das ruas.

De todas as ameaças que recebo, tenho mais medo da polícia estatal e do que podem fazer”, diz. “Quando se tem uma polícia que nos pode fazer o que quer com impunidade, isso é muito mais aterrador”.

Um editorial de 2017 numa edição da “Pax Century”, a publicação oficial de uma associação de polícias em Boston, informa os seus leitores que num encontro com antifascistas “a única forma de combater esses selvagens é combater o fogo com fogo”. O artigo prosseguia a comparar o anti-fascismo com o nazismo.

Aqueles empenhados em participar têm de mudar a retórica, porque neste momento facas para lutas de espingardas

Claro que o problema está nessa declaração generalizada”, diz Norm Stamper, chefe da polícia de Seattle durante os protestos da World Trade Organization em 1999, que estão na origem do Occupy Wall Street e da maioria dos atuais movimentos de protestos. (Stamper manifestou várias vezes o seu pesar pela força desmedida com que o seu departamento respondeu ao gigantesco protesto). “Foi completamente errado, e é perigoso e ridículo pensar dessa maneira”.

A aplicação da lei envolve a responsabilidade de num protesto — ou contraprotesto — proteger todos — seja o que disserem ou aquilo em que acreditam”, acrescenta. “Há ocasiões em que é muito difícil, mas faz parte do trabalho que escolhemos”.

Sobre a designação de terrorismo doméstico nacional e a sua ligação à polícia, afirma, “existe uma ameaça fascista que faz o seu trabalho através do poder político, e Donald Trump é o líder da claque. Os seus seguidores fanáticos usariam sem sombra de dúvida essa designação para obrigar a aplicação da lei na ajuda à sua causa política, o que é contraditório com o verdadeiro significado de aplicação da lei”.

Claro, que o quase-fascismo da “Pax Century” não fala por todas os polícias e as raras vezes que os simpatizantes antifascistas arremessams projéteis afasta-se cada vez mais da principal mensagem do antifa. (O slogan antifa “todos os polícias são sacanas” — ou ACAB, all cops are bastards – embora não sejam equivalentes às afirmações da “Pax Century”, também não ajudam nada). Os ativistas dizem que a sua fúria acontece por uma boa razão e quase sempre são abandonados quando sofrem ataques. Em Portland, exemplos de excesso policial podem chegar a disparos com balas de borracha para as multidões de protestantes pacíficos, resultando num enorme número de cabeças feridas; cargas indiscriminadas contra grupos do black bloc, cidadãos comuns e jornalistas (incluindo eu próprio); atacar civis com bastões ao mesmo tempo que os vão conduzindo na direção ao trânsito do centro da cidade; e prender manifestantes da esquerda em número desproporcional.

Isto traz-nos de volta ao black bloc — uma pequena facção muitas vezes desorganizada mas íntegra. Em Janeiro de 2019, o grupo Patriot Prayer tentou atacar uma reunião no escritório do sindicato dos Socialistas Democratas pela América, em Portland. Olivia Katbi Smith não se encontrava presente nessa noite, mas testemunhou inúmeras outras incursões lideradas pelo Patriot Prayer.

É super frustrante quando fazem coisas como tentar invadir os nossos encontros”, diz Kabti Smith. E ao refletir sobre a grande importância do black bloc, acrescenta: “as pessoas ainda perguntam qual a razão de precisarmos do black bloc lá fora. Esse é precisamente o motivo. Eles expõem os corpos na primeira linha por nós “.

Quando questiono McKelvey sobre o futuro do movimento, ele responde sem excitação.

Tenho a certeza que o antifascismo tem um problema de relações públicas”.

Ele continua, e as suas palavras sugerem um esboço do modo como o movimento pode ter finalmente encontrado a maneira de fazer frente à extrema direita: “esses elementos que Trump inspirou a que saíssem da toca não vão a lado nenhum seja o que for que aconteça no ano próximo ano, por isso os antifascistas também não vão a lado nenhum. Temos de o fazer com que seja normal as pessoas dizerem que apoiam o antifascismo, incluindo as pessoas que estão em todos os níveis do poder executivo. Vamos precisar sempre de pessoas nas ruas, mas aquelas que estão empenhadas em participar têm de mudar a retórica, porque neste momento levamos facas para uma luta de espingardas”.

Mesmo que o antifa consiga agrupar-se numa força com poder suficiente para afastar a cultura americana do medo e do ódio que continuam a avançar no meio da cultura dominante, não posso deixar de pensar no efeito que toda essa visibilidade poderá ter na família de McKelvey e Steven.

Mesmo com as crianças”? pergunto

Os nossos filhos são uma das razões de nós sairmos à rua”.

Publicado originalmente na edição do inverno de 2020 da PLAYBOY norte-americana.