Playtalks

André Henriques: “Ainda hoje me questiono se vou ou não conseguir viver disto”

Tem um défice de sono constante e, entre o Café da Manhã da RFM e os milhares de pessoas que faz dançar, considera-se um entertainer a tempo inteiro.
Foto: Pau Storch

1. Qual foi o primeiro disco que comprou?
Sabes que eu tenho um pai Disc Jockey que sempre colecionou vinis o que significa que, eu a vida inteira, cresci rodeado de vinis que acabei por herdar. Mas lembro-me que o primeiro disco que comprei, que não foi um mas foram dois, foram o Unplugged do Eric Clapton e o Human Touch do Bruce Springsteen. Juntei dinheiro de propósito para isso e depois ouvi-os tanto que viciei os discos até riscarem.

2. Quando é que percebeu que a sua vida ia ser a música?
Ainda hoje me questiono se vou ou não conseguir viver disto… [sorriso] Mas pelos 16 ou 17 anos recebi uma mesa de mistura que me deixou de tal forma enamorado que a minha mãe, ex-mulher de um DJ, apreendeu ao final de uma semana. Foi provavelmente a decisão mais importante da minha educação. No final da licenciatura levou-me ao banco e avalizou a compra de um crédito para uma mesa nova, pratos e CDs. No final paguei tudo com o meu trabalho. Bati à porta de um bar e perguntei se não queriam que fosse lá meter música. Gostaram e a coisa arrancou.

3. E se o teu filho, ainda com três anos, tivesse idade para lhe perguntar o que faz, dizia-lhe que é locutor de rádio que põe música na noite, ou é mais um DJ que trabalha na rádio durante o dia?
Acho que respondia que o pai é um entertainer de manhã à noite. Mas claramente te digo — e sem menosprezo pela profissão de DJ — que sou muito mais animador de rádio e hei-de provavelmente falecer sentado ao microfone. Comecei na Mega, estou na RFM e hei-de passar para a Renascença.

4, Como é que explica o fenómeno da rádio que ganhou uma dimensão brutal, com toda a gente a ouvir e comentar?
É giro ver o fenómeno, depois de terem começado a dizer que a rádio ia morrer nos anos 70. A verdade é que, enquanto na televisão vemos uma guerra de audiências com um declínio claro na qualidade, com uma maioria de reality shows em prime-time, a rádio continua fiel aos seus princípios. É honesta, é íntima… sou eu e tu num carro. E a isso adicionámos imagem e plataformas digitais. A maior vitória da rádio foi saber reinventar-se sem nunca perder a essência.

5. E como é que se prepara um programa como o da manhã?
Com muito trabalho. Aprendi logo no início que o melhor improviso é aquele que está escrito. Não temos tudo escrito, óbvio, mas a emissão do Café da Manhã é preparada de véspera, e esse é o caminho. Ao início é estranho. Chamam-te, sentam-te com uma série de outras pessoas e dizem-te “durante os próximos anos vão trabalhar todos juntos e vão ter de ser incríveis”. É uma transição estranha este ‘casamento’ entre animadores e produtores. Mas ao fim de algum tempo tudo começa a fluir e — no nosso caso — muito bem. A minha personalidade com as da Joana, da Mariana, do Nilton e do Salvador vão criando uma dinâmica única e muito real, e o ouvinte compreende isso e acompanha com entusiasmo.

6. Houve algum momento, alguma parte do programa que fez em que tenhas dito “epá, grande pinta, fiz uma coisa que faz a diferença”?
Ao longo destes 14 anos já fiz vários momentos de rádio que me emocionaram e disse “foi provavelmente o meu melhor momento de rádio”. O que mais impacto teve foi, há muito pouco tempo, o vídeo de um dia especial que fizemos para a Sandra, a miúda que distribuía jornais. A alegria com que trabalha todos os dias tocou-nos e é reconfortante passar a mensagem de que “há sempre alguém a reparar em ti e no teu trabalho”. Teve uma amplificação gigante e acabou por chegar a muita gente.

7. E já alguma vez teve um momento em que pensou “estou farto, isto não é para mim, vou mudar de vida”?
Há uma vez por semana. Nunca disse “isto não é para mim, vou mudar de vida” à rádio, porque sou completamente apaixonado por aquilo. Mas já disse várias vezes, quando me levanto da cama, uns quantos palavrões para o ar. Acordo a minha mulher e digo-lhe “que raio de horário este que eu fui escolher!” esse sim, nunca a profissão mas o horário.E eu que sempre achei que ia ser um criativo, que só ia acordar às horas que queria… saí da Católica para as Mega Manhãs (na Mega FM) e depois Café da Manhã (na RFM). São 14 anos de castigo.

8. Como é que funcionam os seus horários, é basicamente ao contrário?
Durmo pouco, o que me provoca um défice de sono constante. [risos] Ou seja, a qualquer momento, se tiver uma hora livre, deito-me e durmo essa hora. Se tenho um gig à noite organizo-me de forma a dormir um pouco e lá estar uma hora antes. E como sempre fiz manhãs, tenho o relógio biológico à velho: vou de férias, deito-me à meia-noite e às 6 da manhã estou acordado e não consigo dormir mais.

9. Um dos momentos mais vistos da sua carreira é, curiosamente, aquele em que a Jessica Athayde lhe rapa um bigode de cinco anos. Não pondo em causa a escolha da Jessica (também seria a minha escolha!) como é que se chega a esta encruzilhada?
Conhecia a Jessica através do Café da Manhã e porque ela ia muitas vezes dançar ao Rádio-Hotel, onde ponho música. Uma noite ela diz “um dia ainda te rapo esse bigode” e aquilo ficou. Uma segunda cheguei ao programa e disse “olhem, acho que está na altura de rapar o bigode”. Na realidade estava cansado dele e a frase “a Jessica Athaide quer-me rapar o bigode em directo” foi aprovada de imediato. Foi um gozo incrível e acho que lhe deu mais gozo a ela do que a mim.

10. Se hoje ainda o tivesse, quem é que gostava que lhe rapasse o bigode?
Quem é a tua playmate? [risos] Gostava que me rapasse a minha mulher… ela trata tanto, tanto, tanto de mim que merecia também tratar do meu bigode.

11. É daquelas pessoas que toda a gente gosta, sempre afável e bem disposto, uma espécie de “bom-rapaz”. Houve aquela altura da sua vida em que eras um malandro de primeira? Ou ainda é um malandro e disfarça bem?
[Risos] Sou por natureza bem disposto e tento ser simpático com todos e todas. Sempre gostei de ser atrevido e tenho muito mais amigas que amigos. Já fui obviamente muito malandro, mas agora sou pai de família, casado e com um filho. E por ter sido mais malandro sei bem onde está a linha e não a piso.

12. Como é estar em frente a milhares de pessoas num festival Marés Vivas ou na primeira parte de um concerto no MEO Arena (Alicia Keys, Miley Cyrus, Anselmo Ralph)?
Antes de mais podes escrever: “É do caralho!” É provavelmente das sensações mais fortes de uma vida. É uma sensação absolutamente incrível quando tu cresces o suficiente enquanto artista para poderes enfrentar um palco desses e, cada vez que o enfrentas, achas que foste melhor que na anterior. Preparo todos os gigs de forma séria, mas estes são especiais.

13. Consegue sentir solidão num gig com milhares de pessoas?
Sim. Profunda solidão. Começo por ficar mais nervoso na semana que o antecede. Depois, 2 ou 3 dias antes, começo a falar menos e fico mais introspectivo. Em seguida vem a parte mais difícil de todas. Fazes o soundcheck duas horas antes e vais esperar para o camarim. E essa espera é realmente um momento de enorme solidão. És tu, um espelho, um relógio e a tua ansiedade. No fim chamam-te e carregas pela primeira vez no play a tremer como varas verdes mas, lá pela segunda ou terceira música, já estás em alta rotação. Adoro tocar para milhares de pessoas!

14. Como é que se prepara um gig deste tamanho? Leva o alinhamento todo?
Levo um pré-alinhamento feito e cerca de 90% das vezes vai ao ar. Como podes imaginar, tenho milhares de músicas no computador e quando vais para um concerto do Enrique Iglesias ele é claramente diferente do da Alicia Keys, ou seja, olho como um publicitário olha para um produto: tenho este target, tenho “aquele” público, tenho “aquele” segmento. Depois é diverti-los sem desvirtuar muito aquilo que eu sou.

15. Acha que o André Henriques vale porque tem um vasto conhecimento musical, capaz de se enquadrar em qualquer registo?
Acho que sim, acho que o André Henriques vale muito para os promotores porque, antes de figura pública que põe música, é um DJ que faz a festa em qualquer circunstância, e por acaso também é figura pública que se diverte imenso!

16. E como é depois voltar à terra e pôr música para algumas dezenas de pessoas, no Rádio-Hotel?
Olha numa semana fiz o Somnii e na semana a seguir fui abrir o Bliss. Ia no carro para a segunda e ainda estava a receber mensagens de parabéns do primeiro, que para mim já tinha sido. Há uma antecipação e uma expectativa. Depois cumpres, gozas umas horas aquele momento e passas a pensar no próximo. É bom não ficares muito preso naquilo, não há coisa pior do que ouvir outros DJs que tiveram um gig bom há 3 anos, e todas as noite falam “o dia em que eu…”.

17. Foi colega do Vasco Palmeirim que, ironicamente, está à mesma hora na maior concorrente da RFM. Isto é uma espécie de Benfica-Sporting diário… Qual é o sentimento?
Fui colega do Vasco durante a faculdade e sou um gigante amigo do Vasco. Desde que fui para o Café da Manhã começámos a comunicar cada vez menos. Neste momento lutamos pela liderança os dois e quase não falamos. É normal, para não haver “deslizes” de estratégias ou estados de espírito. Mas não estamos afastados de coração. Acompanho a carreira dele e fico feliz com o que ele tem feito, especialmente na televisão. É um rapaz com um talento inacreditável e um comunicador com muita piada.

18. E vê-se a fazer televisão também?
Sim, mas não sei nem quando nem como. Nunca tivemos grande paixão um pelo outro. A verdade é que, ao contrário da rádio, na televisão estou horas à espera para entrar 2 ou 3 minutos no ar, a papaguear textos de outros. Não és tu quem está ali. Gosto de ter o controlo sobre o que faço e digo. Gostava de fazer um talk show, sim, mas onde também assumisse a produção. Pode ser que as coisas em televisão venham a acontecer, mas será a seu tempo, naturalmente.

19. Faz rádio, fará televisão (eventualmente), tem uma empresa… quando for mais velhote, por onde acha que irá acabar?
Pela rádio, gostava de um dia ser director da RFM! [sorriso] Sei que o meu Director está a ler isto, mas gostava de um dia estar no lugar dele. Tenho de me esforçar para isso, estudar mais, mas também acho que o meu caminho é esse… gostava muito de ser director da RFM.

20. Já tem preparada a iniciação do seu filho à música?
O meu filho já é absolutamente viciado em música. É claro que é cedo para dizer muito, mas a música é aquilo que mais o entusiasma: seja a cantar, seja a ouvir, seja a dançar, seja a tentar tocar a bateria, piano, ou guitarra. E na escola todos dizem “nós não sabemos, isto ainda pode mudar muita coisa, mas ele é completo com música”.