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Ana Moniz: “É preciso saber gerir o medo para que o pior de nós não venha ao de cima”

Em tempos de Covid-19, o medo é útil mas também nos afasta de algo essencial: a coragem. A psicóloga Ana Moniz lembra-nos de como é importante tê-la, não só em tempos excecionais mas também no dia a dia. E como a podemos trabalhar.

Nos anos 1960, numa tentativa de perceber como é que se atingira a escala de maldade organizada do Holocausto, em que tantos criminosos de guerra se defendiam com um “estava só a fazer o meu trabalho”, o psicólogo Stanley Milgram procurou perceber o que influenciava alguém a maltratar outra pessoa. Perguntou a colegas se tais atos seriam coisa de psicopatas. Muitos achavam que sim. Depois Milgram elaborou um texto que nos pôs a olhar para nós próprios de outra maneira. De um lado, atores que fingiam ser torturados, do outro, pessoas com o poder de torturar ou não. Entre ambos, alguém a insistir e a validar essa mesma tortura, Para choque de muitos, Milgram mostrou que por vezes somos mais fracos do que pensamos. Mesmo perante gritos de alguém que não conhecemos, a ser torturado por algo que não decidimos.

Este teste é apenas um dos pontos focados por Ana Moniz em “Este Livro Não é para Fracos”. Nas suas respostas à PLAYBOY, a psicóloga e autora fala-nos da dificuldade em dizermos não a algo, mesmo quando vai contra os nossos princípios. Mas também de como, no dia a dia, podemos encontrar sinais de coragem que devem servir de exemplo. Daí a importância de desafiar quem manda — e o nosso próprio conformismo.

Como é que podemos definir a coragem?

Como um “agir de acordo com os nosso valores e princípios morais”, no sentido do que achamos justo. Mesmo que implique desconforto ou consequências negativas.

Estamos habituados a associar os conceitos de coragem e heroísmo a situações excecionais, como guerras. Como é que os aplicamos ao nosso dia a dia?

Estamos habituados a admirar heróis e esquecer a coragem no nosso dia a dia, essa é a razão de a maioria de nós se definir como muito mais corajoso do que as nossas ações mostram.

Como assim?

A mensagem que me interessa passar neste livro é explicar porque é que agimos no nosso dia a dia com pouca coragem, apesar de admirar quem age de modo heroico. E depois a mensagem realista e otimista: é possível melhorar! Com esforço e aceitando riscos. Nos workshops que dou há muita discussão. “Então e se eu disser que não concordo ou denunciar algo injusto e perder o emprego? Quem é que me paga as contas?”. Não tenho respostas ingénuas como “persiga os seus sonhos e vai correr tudo bem”. Aliás acho essas mensagens irresponsáveis e perigosas. A resposta honesta é: “se perder este emprego as suas contas continuam a ser da sua responsabilidade. É a si que cabe pesar os prós e contras de ter menos dinheiro ao fim do mês ou agir de acordo com a sua consciência”. É importante dizer que estes argumentos não acontecem com pessoas que vivem com o dinheiro contado, falamos de classe média/alta com duas casas, dois carros e férias no estrangeiro. Eu só chamo a atenção para o que estão a ganhar e a perder com as escolhas que fazem. E repare como aos políticos exigimos independência e coragem. Mas é mais fácil exigir aos outros do que olhar criticamente para nós.

Há esta facilidade com que nos desresponsabilizamos. E todos os dias o fazemos, no trabalho, na nossa comunidade, em casa

Este Livro Não é Para Fracos” recorda as experiências de Milgram e da prisão de Stanford, que nos mostram como, em determinadas circunstâncias, a pessoa mais comum obedece a regras que chocam com a sua moralidade. Como é que atitudes que imaginávamos serem de psicopatas podem ser praticadas de forma tão banal por pessoas comuns?

Estas experiências são conhecidas há muitos anos. A mensagem que procuro passar é fazer a ponte entre o que se passa naquelas experiências e o que se passa no nosso dia a dia: É a mesma coisa! Estas experiências são amostras do nosso comportamento habitual, só está mais extremado.

Não foi certamente acaso: o primeiro ponto focado no livro é precisamente “desafiar a autoridade”. Porque é que era importante começar por aqui?

Para abanar a estrutura. Desde a faculdade que acho a experiência do Milgram apaixonante. Está lá tudo sobre a natureza humana: a nossa capacidade de obedecer a uma ordem e pôr a vida de outro em risco “só” porque uma figura de autoridade nos disse para o fazer. O aspeto mais importante é a facilidade com que nos desresponsabilizamos. E todos os dias o fazemos, no trabalho, na nossa comunidade, em casa. Repare no pormenor de no fim da experiência, nenhum participante ter ido ver como estava a pessoa que tinha “recebido” os choques elétricos. Ninguém se quis confrontar com as consequências do que tinha feito.

É comum essa desresponsabilização?

Trabalho bastante em liderança em organizações e este desresponsabilizar é típico. É grave e comum quando quem tem um papel de liderança tem uma mentalidade de obediência cega. Por outro lado, não podemos exigir a quem assume um cargo de liderança o que não exigimos a nós próprios. A mudança começa por dentro.

O que é que torna tão difícil no momento dizer não?

São fatores emocionais, como medo e vergonha, e fatores sociais que servem de barreira à ação assertiva: obediência cega à autoridade, pressão do grupo, efeito espetador… Todos estes mecanismos servem para nos proteger de situações em que podemos ser atacados, criticados ou rejeitados. Depois temos um mecanismo que nos permite não agir sem nos sentirmos mal connosco: arranjamos boas desculpas. Só que por vezes é impossível ficar quieto e calado e agir de acordo com a minha consciência. Para ser corajoso é preciso conseguir aguentar tudo isto: ser criticado, ser rejeitado, ficar sozinho contra um grupo. É preciso desenvolver a robustez emocional de que falo no livro. O que me parece importante reforçar é que não há coragem sem tolerar desconforto nem evitar as situações difíceis.

Esta coisa de o português ter alguma dificuldade em dizer não ao patrão, a quem manda, ainda é resquício de quase 50 anos de Estado Novo?

Há características da natureza humana que todos partilhamos e há a nossa personalidade. A cultura é uma camada intermédia entre estas duas. Alguns fatores têm a ver com a nossa história. Mas é preciso olhar para a nossa cultura como um ponto de partida e decidir o que mudar, porque a cultura evolui. A cultura é um conjunto de comportamentos de um grupo, não é o ADN português, uma expressão infeliz porque desresponsabiliza — afinal a culpa é do “ADN”. Essa desresponsabilização das ações nota-se naquela ideia de “eu não sou chefe” ou “eles é que sabem”. Noto também, talvez consequência de uma ditadura, a visão das forças policiais como se ainda fossem forças que representam uma ditadura. É nestas ações que me parece existir um modo ainda um pouco infantil de assumir o nosso papel como cidadãos.

E como é que se educa quem manda? Em Portugal ainda falta esta noção de que a liderança não é simplesmente mandar?

Educam-se pessoas, umas vão mandar, outras não. Todos temos influência em quem está à nossa volta. Não me parece que o foco deva estar em educar quem manda mas sim em educar para a coragem desde crianças. E aqui os pais e os professores têm um papel fundamental. Mas há um problema estrutural: nós não conseguimos ser melhores educadores do que somos como pessoas: educamos pelo exemplo. Queremos melhores líderes? O primeiro passo é cada um de nós ver o que anda a fazer.

No livro realça que é possível educar jovens corajosos. Ser pai é também ter este receio constante de errar perante alguém que a crescer depende de nós. É esse receio que muitas vezes os pais acabam por transmitir mesmo que não o queiram?

Aparecem muitos livros agora sobre como ser pai e mãe. Ainda bem, mas é importante não aligeirar a mensagem: uma pessoa ansiosa e impulsiva não consegue “educar com mindfulness” a não ser que trabalhe na sua estrutura como pessoa. E para isso muitos de nós precisamos é de psicoterapia, não de livros e palavras novas que nos vendem a ideia de que é fácil e imediato fazer estas mudanças.

Considero muito pouco úteis essas ideias de ‘tudo é possível”. Não é. Todos temos limites

O que a levou a interessar-se sobre este tema?

Sempre me interessei por histórias de heróis e ao mesmo tempo sempre fui bastante suscetível ao medo e à vergonha. Tornar-me psicóloga e psicoterapeuta ajudou-me a perceber que as pessoas não são a preto e branco. Depois o trabalhar com pessoas para se tornarem mais assertivas, fazerem escolhas, aceitarem ser criticadas e rejeitadas sem ver essas situações como algo que as destrói foi-me mostrando os mecanismos por trás do comportamento corajoso. Eu própria tenho muitos anos de terapia pessoal onde fui aprendendo e experimentando este modo de estar, apesar do medo e apesar da vergonha. Este livro para mim foi um “unir os pontos”.

Como é que se trabalha algo como a autoconfiança?

Se calhar é melhor começar pela definição de auto confiança. Há algumas correntes de pseudo psicologia ou espiritualidade light que advogam ideias como “tudo é possível” ou “podes ser tudo o que quiseres”. Considero estas ideias muito pouco úteis. Não podemos ser tudo o que quisermos e todos temos limites. A autoconfiança de que falo é o direito que podemos dar a nós próprios de nos esforçamos e apoiamos no processo de nos desenvolvermos, aceitando perder, falhar e perceber onde estão os nossos limites. Para isso é preciso desenvolver a robustez emocional de que falava antes. Não imagina a quantidade de pessoas que não tenta, não fala e não arrisca por medo de fazer ‘figuras tristes’. Trabalha-se a autoconfiança arriscando gradualmente e expondo-se a situações em que pode falhar em frente a todos, só assim percebe que é tolerável e pode valer a pena correr esse risco.

Todos conhecemos o exemplo de Cristiano Ronaldo e de como assumiu sempre que queria ser o melhor no que fazia. Por que razão muita gente assume o seu discurso como arrogância? Há algo de “arrogante” inevitável quando se quer ter autoconfiança?

Arrogância para mim é outra coisa, é aquela postura competitiva e maçadora, as pessoas que estão sempre em bicos de pés a mostrar o que conseguem. É uma sobrecompensação da falta de autoconfiança. As pessoas arrogantes não assumem erros nem conseguem lidar bem com o sucesso dos outros. Aliás uma das características dos melhores líderes é desenvolverem pessoas que serão ainda melhores do que eles. Refiro o Cristiano Ronaldo no livro pelo exemplo de liderança em ação no momento em que diz ao Moutinho “Vem marcar o penálti, se perdermos que se foda”. É nesta atitude que se desenvolve a autoconfiança dos outros. É um exemplo para tantos pais, treinadores e líderes: aceitar o erro.

“Com o medo focamo-nos apenas numa ameaça. Se lhe obedecermos cegamente dá-nos um lado exagerado da realidade”

E o medo em tempo de pandemia?

O medo é uma emoção valiosa para nos protegermos. Incentiva-nos a tomar medidas e resistir à frustração que estas ações provocam. Tenho notado em mim e nas pessoas à volta reações que seriam exageradas em contexto normal: alguma ansiedade antes de lavar ou desinfetar as mãos, monitorização constante de onde tocamos, do que pode ser fonte de infeção, até suster a respiração quando estamos muito próximos de alguém. Este é o lado útil do medo. Mas se reparar, agora anda menos preocupado com outras ameaças, que não desapareceram. O medo leva-nos a focarmo-nos apenas numa ameaça. Se lhe obedecermos cegamente dá-nos um lado parcial e exagerado da realidade. Também alimenta ideias simplistas como a procura do culpado, ações egoístas e tribais: açambarcar, reações agressivas e controladoras dos outros, discriminação de pessoas.

O que podemos fazer?

Cabe a cada um de nós gerir o seu medo para que o pior de nós não venha ao de cima. No livro falo também da coragem do altruísmo, do cuidado com os outros, e de como se pode passar por situações difíceis conciliando o medo com agir de acordo com os nossos princípios e valores. Temos assistido a várias correntes de apoio solidário por exemplo de ir fazer compras a vizinhos para que quem está em maior risco possa estar menos exposto, ou a atitude de muitos profissionais de saúde e segurança pública. Isto é que é coragem. E está ao nosso alcance.

Ana Moniz: “É preciso saber gerir o medo para que o pior de nós não venha ao de cima”