Man cave

Streaming vs cinema. Será que o grande ecrã ficou pequeno de vez?

No lugar certo à hora certa. Poderia ser este o resumo do sucesso do streaming em tempos de pandemia. Será uma mudança de paradigma ou ainda voltaremos a ir ao cinema?
Créditos: Freepik

James Bond foi dos primeiros a dar sinal. “007: Sem tempo para morrer” ia estrear em abril se tudo tivesse corrido como previsto. Mas os tempos que vivemos não são nada como o previsto. Quando foi adiado, as preocupações com o novo coronavírus ainda se centravam na China. Mas a pandemia não abrandou. Pelo contrário. No espaço de semanas, um terço da população mundial via-se a viver sob alguma forma de confinamento.

Palavras como isolamento ou distanciamento deixaram de ser coisa de eremita e tomaram conta do léxico de todos nós. Os estádios fecharam, os centros das cidades ficaram às moscas e os cinemas passaram a ser apenas salas escuras, sem gente nem filmes, com estreias adiadas e festivais cancelados. As plataformas de streaming eram já setor a crescer. Mas, com tanta gente fechada em casa, chegara a sua hora. Será que daqui a uns tempos o que viermos a chamar de normalidade ainda terá semelhanças com o que havia antes?

Ou estamos mais predispostos do que nunca a trocar os sapatos e a sala escura por umas pantufas e o sofá na hora de ver um filme? Hoje em dia já não vemos televisão como antigamente, presos a horários e programas específicos. E se a tendência destas plataformas era de crescimento, a pandemia parece ter acelerado o processo.

Os números da Netflix, uma bandeira neste setor, mostram isso mesmo: nos três primeiros meses do ano juntaram mais 16 milhões de novos subscritores, tendo já passado a barreira dos 180 milhões em todo o mundo. Mas também a HBO, a Amazon Prime ou mesmo a Filmin, esta com uma boa oferta de cinema independente, cresceram. A própria Netflix admite que o fim das medidas de restrição poderá trazer um abrandamento. Mas sobra a dúvida sobre se há aqui uma mudança de hábitos que veio para ficar.

Um tempo de escolhas

Como nota Miguel Patinha Dias, jornalista de tecnologia, “a conveniência e rapidez dos serviços são fatores importantes” para explicar o sucesso. Mas há aqui outros fatores a ter em conta, nomeadamente sociais. “Se antigamente as conversas entre familiares, amigos e colegas se baseavam nas mais recentes estreias de cinema, no último episódio da novela ou num participante de reality-show, hoje em dia os assuntos são estreias de novos conteúdos nestas plataformas”. “As pessoas”, prossegue, “procuram um sentimento de pertença e comunidade, algo que é amplificado nesta época de distanciamento social onde grande parte das interações com outras pessoas acontece em plataformas digitais.

Há também o facto de, ficando mais tempo em casa, as pessoas têm agora mais tempo”, o que tanto dá para espreitar uma novidade como para finalmente ver aquela série há anos em lista de espera. Players gigantes, como é o caso da Disney, já refletem este momento de escolhas. De clássicos de animação ao facto de ser dona de franquias como “Star Wars”, a Disney tem no cinema em sala uma aposta essencial. Mas também já compete no streaming com a Disney+. “Hamilton”, musical cuja estreia nos cinemas foi adiada, viu agora a sua estreia antecipada. Não será, no entanto, nos cinemas mas na Disney+.

Estas novas plataformas contam com uma biblioteca digital com uma oferta muito maior do que o que qualquer cinema terá em cartaz. Ao mesmo tempo, a opção de estrear um filme diretamente em streaming não sofre do preconceito do tempo em que filmes de baixa produção e qualidade iam diretamente para vídeo. “Roma”, de Alfonso Cuarón, foi das primeiras apostas da Netflix a merecer atenção de Óscares. Vimos o mesmo com ‘O Irlandês’, de Martin Scorsese. E se há realizadores por quem vamos ter de esperar, cineastas como Spike Lee e David Fincher vão regressar em breve, mas no streaming. “Esta é uma tendência que não abrandará num futuro próximo”, prevê Miguel Patinha Dias. Não se pense, no entanto, que a pandemia é um fechar de claquete para o cinema.

Também já se tinha dito o mesmo sobre a Blockbuster, entretanto falida

Este é um setor que, especialmente em Portugal, vive desafios de longa data. Numa conversa recente, Pedro Fernandes Duarte, produtor de cinema da Primeira Idade, uma produtora apostada em talentos emergentes, salientava-nos com humor que apesar de a pandemia ter tido impacto, a verdade é que “fazer cinema em Portugal já é tão difícil” que mesmo com o coronavírus “não se nota muita diferença”.

Mais recentemente, e já a pensar neste artigo, perguntámos-lhe se o fenómeno das plataformas de streaming seria uma última estocada nos cinemas tradicionais. O produtor lembrou-nos que esta é uma conversa que já nos antecedeu por diversas vezes. Foi assim com a chegada da emissão regular de televisão. “Também já se tinha dito o mesmo sobre a Blockbuster, entretanto falida”, recorda. Na verdade, “foi este tipo de raciocínio que levou o primeiro agente de Amália Rodrigues a proibi-la de gravar discos, supondo que o público deixaria de a vir ver ao vivo”. E a verdade é que Amália brilhou tanto em palco como em disco. “Contudo, é inegável: a maioria das pessoas vê hoje mais filmes em casa que no cinema”. Porquê? O produtor responde recorrendo a números de Marshall Sahlins, autor de “Economia da Idade da Pedra”, que concluiu que na pré-história cada adulto trabalhava cerca de 2 dias por semana num total de 15 horas.

“Tendo de acordar às 7 de manhã, é natural que um casal opte por ficar em casa a ver streaming, poupando a hora de sono que ia perder a deslocar-se. Mas, se em todas as ruas houvesse um cinema como há um café, será que não íamos lá mais vezes? Por outro lado, quem tem duas horas por dia para dar a um filme?”, questiona, lembrando um dos trunfos das séries. “Se hoje não vamos mais ao cinema — e consequentemente a viabilidade económica destes está ameaçada — a razão é outra: é porque não temos tempo”, remata o produtor.