Man cave

O mundo louco da fandomination

Deixaram as plataformas tradicionais e assumiram-se como estrelas em empresa própria, no sempre competitivo mundo da pornografia.

Quando Elsa Jean irrompe pelo estúdio com os cabelos e maquilhada, perguntamo-nos qual a razão de ela ali estar. Cada minuto que ali gasta fá-la perder dinheiro. “Faço cerca de 30 a 40 mil dólares por mês na minha conta OnlyFans”, comenta Jean (na fotografia), cujas ondas louras platinadas e os enormes olhos não deixam dúvida sobre o fenómeno animado que inspirou o seu nome artístico. “Tive de deixar o trabalho de estúdio porque não tenho necessidade de o fazer mais. Levo 30 minutos a filmar uma coisa qualquer enquanto que no estúdio levo horas”.

Embora só tendo 23 anos, Jean já está há cinco anos nesta indústria para adultos — é uma porn superstar (1,5 milhões de seguidores no Instagram, sempre a aumentar) e é agora uma influenciadora no OnlyFans, uma plataforma social que aloja o conteúdo de mais de 100 mil criadores para mais de 8 milhões de subscritores. Lançada em 2016, a OnlyFans, embora não sendo exclusivamente para performers adultos, atrapalhou a indústria porno ao facilitar aos trabalhadores de sexo a rentabilização dos seus conteúdos, afastando-os dos principais estúdios de casting, produção e distribuição. Cada vez mais influente numa altura em que a procura dos consumidores por conteúdos amadores está em tendência crescente (os vídeos apresentados nesta categoria no Pornhub possuem a maior média de visualização dum site: 15 minutos e 25 segundos), sites pagos como o OnlyFans, FanCentro ou o JustFor. Fans estão a aliciar uma nova geração de self-made homens e mulheres. E muitos deles são adultos que trabalham a partir de casa.

“Faço 30 a 40 mil dólares por mês no OnlyFans. Já não tenho necessidade de fazer trabalho de estúdio”

Estes sites pagos são só uma parte de plataformas cujo serviços principais sustentam os trabalhadores de sexo que lutam por independência económica. Para quê trabalhar por conta de outrem quando se pode vender diretamente a uma audiência, nos nossos horários e nos nossos próprios termos? É a pornografia a tornar-se mais remota. As possíveis repercussões — e o que está a deixar os principais gigantes de porntube ansiosos — é o envelhecimento dos estúdios que produzem entretimento para adultos.

Se os trabalhadores de sexo podem ganhar o seu dinheiro diretamente ao mesmo tempo que aumentam as audiências com promessas de pedidos on-demand, como é que o Pornhub, cuja biblioteca digital é composta maioritariamente por produções de estúdios, pode refrescar a sua oferta? Jean oferece um exemplo real que explica as vantagens da difusão digital grátis: “Não faço sexo anal a não ser que seja no meu OnlyFans ou no meu Snapchat”, diz. “É dessa maneira que eu prendo os
meus admiradores”.

A maioria das versões das assinaturas dos sites inclui um pagamento mensal para acesso a imagens privadas, vídeos e sessões de conversas que são típicas mas não exclusivamente pornográficas. Dependendo da subscrição, também são pagos vídeos de exercício físico, análises de produtos feitos por modelos em vários estados de nudez e selfies de mulheres a maquilharem-se. Os criadores dos conteúdos pagam uma taxa, na forma de uma percentagem, para usar a plataforma. O FanCentro, que opera na plataforma Snapchat mas que não está associada com a aplicação Snap Inc., recebe 25% das assinaturas pagas; em troca fornece modelos com os seus próprios sites, bem como serviços de pagamentos online – o que é importante dado que a PayPal, Venmo, Square, Cash App e praticamente todas as outras empresas deste setor não permitem transações para serviços de sexo.

As estrelas porno profissionais têm o próprio website desde o advento da Internet e o Pornhub permite a todas descarregar conteúdos da sua cada vez maior base de dados. Mas do mesmo modo que os músicos se queixam dos pagamentos do Spotify, os performers também acham as devoluções do Pornhub insuficientes: em média, 64 cêntimos por mil visualizações. A própria Jean não possui um website pessoal; depois de falar com outras atrizes chegou à conclusão que é “no OnlyFans e no Snapchat que está o dinheiro”.

O mundo louco da fandomination

Em vários setores, as novas tecnologias ajudam a vender os produtos a audiências específicas. Esta é a estratégia que está por trás daquelas mensagens patrocinadas de roupas de desporto ou encomendas de refeições preparadas intercaladas com bonecas e comida porno no Instagram. Mas quando se trata de conteúdos para adultos, os performers têm de operar em áreas cinzentas da legalidade quando se aproveitam do gosto dos consumidores, sempre conectados a serviços personalizados de subscrições (Netflix, Trink Club) e marcas dirigidas diretamente ao consumidor (Kylie Jenner’s Lip Kits, Casper).

Stephanie Michelle, uma atriz de inspiração hentai, focou-se no OnlyFans em detrimento das outras plataformas. Nelas perdia 20% do que ganhava com o seu trabalho, todo escondido em pagamentos paywall. Diariamente, coloca vídeos de duração de 30 segundos a um minuto enquanto fala com os fãs. Este envolvimento ajuda-a a entender qual o conteúdo de que mais gostam. Por seu lado, os fãs sentem-se satisfeitos e pagam mais tempo pelos serviços.

Até as figuras principais do Pornhub estão no OnlyFans, incluindo Riley Reid, a estrela porno de Los Angeles que recentemente registou mais de mil milhões de visualizações no Pornhub. De facto, ela está praticamente em quase todos os sites e assim as pessoas podem encontrá-la onde quer que seja o que estiverem a pesquisar. “Rentabilizo-me melhor se estiver a trabalhar por conta própria” afirma ela. “Penso que muitas raparigas estão a chegar à conclusão que podem obter mais para si se venderem o corpo online e ganharem diretamente para si”.

Reid não perde uma oportunidade de vender os seus conteúdos. As pessoas estão continuamente a comprar subscrições e acessos a vídeos e ela nem sequer precisa de se publicitar. O seu foco principal são o FanCentro e o seu site pessoal, ReidMyLips.com, onde oferece conteúdos com qualidade de estúdio por cerca de 9,99 dólares por vídeo ou passes mensais de 34,99 dólares.

Para aqueles que não têm audiências tão fidelizadas, construir um site personalizado pode ser mais trabalhoso do que rentável. Hoesha, proprietária de uma conta do OnlyFans no Arizona, tentou vender conteúdos para adultos na sua própria plataforma, com resultados mistos. Responder a mensagens individuais de fãs nem ocupava muito tempo; no entanto, recolher o dinheiro dos clientes tornou-se complicado, dado que o serviço que processava pagamentos a baniu depois de muitos seguidores terem escrito mensagens explícitas nas notas dos pagamentos. Também estava farta que os fãs regateassem o preço.

“É no OnlyFans e no Snapchat que está o dinheiro”

“Os meus preços são os meus preços. Posso dizer sem rodeios o que estou a vender e ser o mais específica possível com os meus subscritores”, diz do OnlyFans. A taxa de 20% frustra-a mas ganhar por conta própria é uma vantagem. “No fim de contas, é tudo para mim. Temos os direitos dos nossos conteúdos, enquanto isso não acontece no Snapchat ou quando enviamos diretamente os clips. Se o meu negócio tiver saída, o OnlyFans consegue facilmente localizar a fonte”. Em menos de meio ano na plataforma, Hoesha, cujas ofertas no ano passado incluíam uma review nua a uma sanduíche de frango do Popeye que se tornou viral, já tem quase os assinantes necessários para sobreviver sem ter um emprego de dia.

Danny Labito, um criador amador de fetiches gays de Detroit, levou os seus fãs do Pornhub’s Modelhub, onde ganhava pouco, para o OnlyFans. Ocasionalmente, alguns dos seus leais seguidores no OnlyFans mandam-lhe mensagens com comissões privadas. Ele negoceia as taxas dos conteúdos personalizados no Twitter, Instagram e por e-mail e os clientes pagam-lhe por PayPal ou Cash App. A venda de conteúdos sexuais viola as leis destes dois processadores mas ele usa-os na mesma. “Não existem muitas outras opções de pagamento para os trabalhadores de sexo”, diz. Nos primeiros três meses, fez sete mil dólares com as subscrições do OnlyFans, complementando o trabalho full-time que mantém enquanto acaba a universidade.

Para alguns como Reid, controlar as vendas dos conteúdos e assinaturas pode tornar-se quase impossível. É essa uma das razões que a levou, depois de anos a tentar integrar o circuito premium do Snapchat, a decidir juntar-se ao FanCentro — plataforma que compromete a fazer “todo o trabalho sujo”.

Juntar-se ao tal serviço premium implicava adicionar e retirar manualmente os utilizadores das suas contas — provavelmente a parte mais aborrecida quando se usa os serviços premium do Snapchat. Se alguém cancela uma subscrição, o acesso tem de ser removido manualmente ou, então, Reid arrisca-se a enviar conteúdos de graça. Para se ter noção de escala, Reid afirma que atinge regularmente o limite máximo de cinco mil seguidores por conta, tendo de criar contas paralelas — as quais acabam por distribuir o mesmo conteúdo. A operação é tão vasta que Reid usa três smartphones, em exclusivo e em simultâneo, só para não ter fazer de log in e log out sempre no mesmo aparelho.

À medida que estas ferramentas externas se multiplicam, com o argumento de que podem ajudar os trabalhadores de sexo a chegar até aos cem mil dólares mensais (e Reid diz que esta é a quantia que o FanCentro estima ela poder atingir), o trabalho de sexo está longe de ser autónomo ou sequer à prova de falhas. Uma vez que o FanCentro funciona com o Snapchat mas não está associado com o Snap Inc., os criadores que violarem os termos gerais da aplicação descarregando “conteúdos pornográficos” poderão ser expulsos. O Snapchat de Jean já foi desativado três vezes.

“Não faço ideia do que vai acontecer quando o Snapchat apanhar e remover toda a gente mas, como está agora, encorajo todas as raparigas, incluindo eu própria, a tirarem todo o partido possível dele”, diz Reid. Pergunto a Jean se os sites por subscrição podem contribuir para uma normalização do trabalho do sexo. “Mesmo que nem todos o façam, todos querem fazê-lo”, conta-me. “Quando estou online, vejo outras raparigas que não estão neste setor. São modelos do Instagram. Os seus seguidores seguem-nas porque dizem ‘eu queria ver aquela miúda nua’”.

Isto não faz delas estrelas porno, pelo menos de acordo com Reid: “Não sei se elas compreendem como é ir para um estúdio e fazer sexo com alguém desconhecido, em que está lá outro tipo com o material”.

“Para se ter sucesso é preciso visibilidade. Manter o negócio em segredo não traz mais vendas”

A realidade é que, com as opções agora disponíveis, provavelmente nunca mais o terão de fazer. No entanto, romper a consciência mainstream através do OnlyFans e do FanCentro não significa necessariamente que se seja aceite pela maioria. Afinal de contas, os botões de subscrição não mudam leis nem acabam com a discriminação. Isto não se faz da noite para o dia. Nem em muitos anos.
O problema é que, hoje em dia, a auto promoção online — e, consequentemente, a aceitação pessoal— é uma necessidade. Para se ter sucesso é preciso ter visibilidade nestes chamados sites de fãs. Afinal, manter o negócio em segredo não traz mais vendas. Isto significa que legiões de trabalhadores de sexo estão constantemente a publicitar para milhões os seus serviços na média social, pagando todos os dias para mostrar que estão ativos.

Com todos os transtornos, estes sites tem ajudado pouco na progressão do movimento dos direitos dos trabalhadores de sexo. “O trabalho sexual é trabalho”, lá diz o grito de guerra. No entanto, com estes sites foram criadas oportunidades para os trabalhadores de sexo de construírem uma comunidade e terem mobilidade financeira. No meio deste êxodo dos estúdios tradicionais, a terra prometida continua a mesma de há décadas: validade, direitos e respeito através dos sistemas legais. Afinal, como argumenta Reid, “é perfeitamente normal as pessoas venderem os seus corpos na Internet”.

O mundo louco da fandomination

Texto: Lina Abascal

Fotografia: Charlotte Rutherford

Artigo publicado originalmente na edição norte-americana da PLAYBOY.