Man cave

Miguel Oliveira: o puto que continua obcecado pelas cáries

Aos 22 anos, o piloto português é uma estrela mundial de Moto2. Mas mantém o sonho de ser dentista.

Miguel, fica-te pelas motas.

“A vitória de Valência foi muito importante, porque mete realmente medo tendo em vista a próxima temporada”. Foi desta forma que o jornal espanhol “AS” abordou a vitória de Miguel Oliveira, a terceira consecutiva, na última prova do Mundial de motociclismo, em Moto2. O piloto português acabou a época no terceiro lugar da classificação e já aponta a objetivos mais ambiciosos para os próximos anos.

“Passam por trazer o título de Moto2 para Portugal. Logicamente que também desejo muito competir em MotoGP e ser campeão do mundo, mas até lá tenho de esperar algum tempo. Uma coisa tenho bem vincada no pensamento: quero ser o primeiro português a entrar na categoria de MotoGP. Seria fantástico”, disse à “A Bola TV”.

Como acontece em muitas famílias, Miguel seguiu a carreira do pai. Paulo Oliveira, antigo piloto, colocou o filho em contacto com a sua primeira mota quando tinha apenas três anos. Nos seis anos seguintes, a diversão manteve-se. Primeiro com uma moto4 elétrica, depois passou para uma de 50 centímetros cúbicos.

No ano em que Portugal organizou o Europeu de futebol, já Miguel Oliveira dava os primeiros passos em competição, participando no campeonato nacional Mini GP. Tinha nove anos. Nessa época de estreia acabou no quarto lugar e não foi preciso esperar muito para que o jovem piloto conquistasse o seu primeiro título.

Em 2005, venceu o campeonato português de MiniGP e o World Festival Metrakit em Espanha, no qual bateu 192 pilotos, de 14 nacionalidades. No ano seguinte, revalidou o título nacional e, em 2007, subiu de categoria para voltar a triunfar. Desta vez no campeonato Mediterrâneo Pre-GP125.

Em 2009, passou a competir aqui ao lado, em Espanha, um país onde o desporto motorizado, seja em duas ou quatro rodas, tem outra importância. Na altura com 14 anos, o português deixou logo boa impressão nas pistas espanholas, terminado em terceiro lugar no Campeonato Nacional Espanhol. Além disso, conseguiu um honroso quinto lugar no campeonato da Europa. Na temporada seguinte, a evolução de Miguel Oliveira foi notória, vencendo cinco das sete provas do calendário, o que o levou a ficar apenas a 2 pontos do campeão Maverick Viñales — conseguiu ainda ser vice-campeão da Europa.

A primeira vez do hino português

Estávamos em 2011 quando Miguel Oliveira se tornou no primeiro português a participar em provas do mundial de velocidade, ao ser promovido, juntamente com o seu rival Viñales, à categoria 125cc, conhecida atualmente por Moto3. Foi uma época difícil e de aprendizagem para o piloto de 16 anos, que mesmo assim acabou o Mundial em 14.º, com 44 pontos — o melhor que conseguiu foi acabar uma prova em sétimo lugar. Mas 2012 já ia correr melhor. Montado numa Sutter Honda, da equipa da Estrella Galicia, o piloto subiu duas vezes ao pódio e acabou o campeonato no oitavo lugar.

Nos dois anos seguintes, Oliveira defendeu as cores da Mahindra Racing, acabando em sexto e em décimo na classificação final da competição. Em 2015, e fruto da saída de Jack Miller para o MotoGP, Oliveira tem a sua primeira grande oportunidade ao assinar pela equipa oficial KTM, onde iria ter condições para andar entre os primeiros e discutir os lugares da frente em todas as corridas.

Mas nem tudo correu bem. Logo nas provas iniciais, o português passou por quedas e desistências, mas Oliveira não virou a cara à luta e foi no Circuito de Mugello, em Itália, que pela primeira vez ouviu-se o hino português. Depois dessa primeira vitória, Miguel Oliveira subiu mais cinco vezes ao lugar mais alto do pódio, terminando a época com seis triunfos e três segundos lugares, acabando a época em segundo lugar, com 254 pontos, a apenas seis do campeão do mundo Danny Kent — o português chegou a ter menos 110 pontos do que o rival.

MotoGP apontado para 2019

Depois de quatro épocas a correr em Moto3, tinha chegado o momento de mais uma nova fase na evolução natural da carreira do jovem piloto. Em 2016, rumou à Leopard Racing, ao serviço da qual se estreou no Moto2. Uma fratura na clavícula direita, na sequência de uma queda nos treinos livres para o GP de Aragão, levou Miguel Oliveira a falhar quatro grandes prémios — terminou o Mundial na 21.ª posição, com 36 pontos e tendo como melhor classificação um oitavo lugar no Grande Prémio da Catalunha.

”2016 foi um ano que me permitiu aprender todas as necessidades que esta categoria exige e passar por todas as dificuldades que o estatuto de rookie [novato] significa. Não ter uma estrutura que me pudesse guiar de forma a ter o crescimento esperado fez que tudo fosse ainda mais difícil”, disse o piloto ao DN, no rescaldo dessa época difícil.

Para a temporada que agora chegou ao fim, Miguel Oliveira foi convidado para integrar novamente a equipa KTM Red Bull Ajo, tendo terminado o Campeonato do Mundo no terceiro lugar, a apenas dois pontos do segundo classificado. Naquela que foi uma temporada brilhante na estreia da equipa em Moto2, somou três vitórias, nove subidas ao pódio e duas pole positions.

Paulo Oliveira, pai e manager do piloto, acredita que o filho pode chegar à elite das duas rodas em 2019. “O que está previsto para o próximo ano é o Moto2 e, depois, vamos ver. Em 2019 vão estar de novo lugares abertos no MotoGP e penso que pode ser uma boa oportunidade para o Miguel subir ao MotoGP em 2019”.

Miguel está à procura da próxima estrela

Fora das pistas, Miguel Oliveira também dá nas vistas com um projeto pedagógico pioneiro em Portugal e que arrancou este ano. Chama-se Oliveira Cup, é dirigido a jovens dos 10 aos 14 anos e pretende encontrar o sucessor de Miguel Oliveira. Este ano contou com 12 jovens pilotos, os quais disputaram sete provas, sempre sob o olhar atento de Paulo Oliveira, o pai do piloto.

“Para poder continuar a sua evolução, o Miguel teve de ir para Espanha. Aquilo que oferecemos aqui aos pilotos é uma forma de se iniciarem no motociclismo quase sem custos e que no tempo do Miguel não existia. Temos um conhecimento adquirido ao longo da carreira do Miguel que podemos partilhar com os meninos e com os pais deles. Este é o nosso principal objetivo e, quem sabe, no futuro encontrar aqui um piloto que possa ser o sucessor do Miguel”, explicou o pai aos jornais.

Por enquanto, como Miguel só há um e, aos 22 anos, o piloto tem ainda muitos anos pela frente para dar a conhecer “A Portuguesa” aos rivais, seja no Mundial de Moto3, ou entre a elite do MotoGP.

O dentista mais rápido de sempre?

Miguel Oliveira tem conciliado os estudos com a carreira de piloto, mas essa situação é cada vez mais difícil por causa da constante evolução que a carreira do jovem piloto tem tido. Aluno do segundo ano de medicina dentária, o português confessou que atualmente as corridas estão em primeiro lugar, mas os estudos nunca serão esquecidos.

“A prioridade agora é competir, sem dúvida. Estou agora no segundo ano do curso, o programa é muito intenso. Os dois primeiros anos têm as mesmas disciplinas que medicina. Basicamente temos de estudar toda a teoria primeiro, é a parte aborrecida. Estudamos muitas coisas que nunca vamos usar no dia-a-dia, mas tem de ser tudo feito até podermos chegar onde queremos. Para já faço um pouco a cada semestre, e só assim consigo fazer isto”, disse em entrevista ao site Motorcyclesports.

Mesmo que chegue ao MotoGP, e tenha sucesso na categoria rainha das duas rodas, a ideia de Miguel Oliveira sobre a importância de ter um plano B não muda.

“Tive sempre a ideia, passada pelo meu pai, de que devia de estudar. Devia aprender algo e ter um trabalho normal. É que nunca sabemos o que pode acontecer no futuro. Hoje lembram-se de ti, mas amanhã já não és ninguém. É fácil para as pessoas esquecerem-se de ti”, disse na mesma entrevista.