Desporto

“The Last Dance”. O mito de Michael Jordan e a tal dança que faltava

A série documental sobre a última e histórica temporada dos míticos Chicago Bulls chegou ao fim, com audiências de peso e cumprindo um desígnio especial: dar-nos desporto numa altura em que este ainda escasseia.

São muitas as histórias que nos contam o quão incrível era Michael Jordan. Mas uma em especial permite uma série de segundas leituras. A dada altura de “The Last Dance”, a série documental de dez episódios da ESPN, exibida na Netflix, que tem dominado conversas e audiências por estes dias, descobrimos até que ponto chega Michael Jordan para ganhar.

LaBradford Smith, dos então Washington Bullets, tem a partida da sua vida contra os Chicago Bulls em 92-93. Faz 37 pontos (recorde de carreira), é o jogador da partida e, e no final do jogo, segundo reza a lenda, provoca Michael Jordan. “Nice Game, Mike”. Na noite seguinte há novo confronto entre as duas equipas e Jordan promete humilhá-lo. É dominador e, a meio do jogo, leva já 36 pontos. Ao longo da partida LaBradford Smith descobre como é ser espezinhado por um génio na sua arte. E eis o twist: a tal frase nunca terá sido dita. Jordan arranjou apenas uma nova forma de se motivar. E resultou.

“The Last Dance” conta-nos a última temporada dos Bulls, que terminou em 1998 com a conquista da segunda série de três campeonatos consecutivos. Mas a série vai mais longe, mostrando-nos como desde cedo Jordan se destacou, como se motivava (uma vitória, uma provocação, a simples vontade de mostrar que era melhor que qualquer um), como fez dos Bulls algo épico na história não apenas da NBA mas do desporto.

Ao todo eram cerca de 500 horas que estavam há mais de duas décadas à espera de ver a luz do dia. O espólio era tal que havia que fazer justiça ao que os Bulls de Jordan fizeram. Ainda que para tal fosse preciso fazer concessões.

Entre as produtoras da série, mesmo não figurando nos créditos, está a Jump 23, a produtora do próprio Michael Jordan, que tinha uma palavra a dizer na montagem final. Este facto tem levado a algumas críticas legítimas. A verdade é que como a NBA e o próprio Jordan teriam de ser convencidos e chegar a um acordo, estaríamos sempre suscetíveis a algumas orientações na narrativa. Ainda assim, mesmo com estes dez episódios a serem uma obra de celebração, houve polémicas que tiveram de ser abordadas.

Uma delas foi a forma como Michael Jordan se esquivou a dar a sua palavra sobre a corrida ao senado na Carolina do Norte, o estado natal do basquetebolista, onde o democrata negro Harvey Gantt desafiou o republicano Jesse Helms, conhecido por tiradas aberta e asquerosamente, passe o pleonasmo, racistas. A tal frase atribuída a Jordan de que “os republicanos também compram sapatilhas” volta para assombrar Jordan mas a verdade é que em 1990 a NBA, como a NFL dos dias de hoje, era ainda muito fechada ao direito de basquetebolistas terem voz política, como mostrou a história de Craig Hodges, mestre em triplos e campeão por duas vezes ao lado de Jordan, que mesmo assim foi afastado da NBA. Hodges, convém salientar, acabou por nunca ser entrevistado para um documentário para o qual foram entrevistadas cerca de uma centena de pessoas, incluindo dois ex-presidentes, Bill Clinton e Barack Obama.

A verdade é que, aqui entre comuns mortais, só conseguimos imaginar a pressão em torno de alguém que só quer ser, e consegue ser, o melhor no seu desporto. O contexto é outro mas basta pensarmos nas expectativas que poderíamos ter, muitos anos depois, sobre o que um Eusébio — cuja imagem foi explorada até ao tutano pelo Estado Novo — poderia ter dito ou feito então.

Se hoje em dia encontramos na NBA mais vozes politicamente ativas, a verdade é que a era em que ascendeu Jordan era diferente. E nesse aspeto vemos também como aquele rookie excecional muda uma equipa da treta nos anos 1980, chegando aos anos 1990 como campeão e uma estrela à escala planetária. Por cá, onde tínhamos pouco mais do que o “NBA Action”, como em qualquer outra parte do mundo, Michael Jordan era conhecido em todo o lado e ponde quer que andasse arrastava multidões. E atingiu um estatuto ímpar quando a Internet estava ainda longe de se expandir — quanto mais chegar à importância que tem hoje.

Não por acaso, Jordan abriu caminho e mostrou o que era uma estrela do desporto dos tempos de hoje. Foi o rosto de marcas como a Nike e a McDonald’s. Fê-lo com a sua personalidade over the top mas acima de tudo com um talento inesgotável e uma vontade de vencer insaciável. Se hoje em dia ainda perdemos tempo a debater se o melhor é o talento natural de Messi ou a força de trabalho que é Cristiano Ronaldo, imaginem o que é um jogador ser ambos. E atuar num desporto de 5 para 5, onde a ação individual vem ainda mais facilmente ao de cima.

"The Last Dance". O mito de Michael Jordan e a tal dança que faltava

“The Last Dance” mostra-nos ainda um elenco de figuras inesquecíveis; Steve Kerr, modesto e trabalhador, que mesmo mais baixo do que a média provou poder jogar entre os melhores (ele que até se tornou o treinador campeão por outra equipa que fez história na NBA, os Golden State Warriors); Scottie Pippen, o Robin para o Batman que era Jordan, ele que noutra equipa poderia ter sido dos maiores rivais de Jordan mas que, ao seu lado nos Bulls, foi o único a estar lá em todos os seis títulos (e a ser consistentemente o segundo melhor jogador dos Bulls, muitas vezes da liga); Phil Jackson, o treinador papa-títulos que era a voz serena, firme e orientadora que permitiu tudo aquilo (e que viria a fazer história com os Los Angeles Lakers de Kobe Bryant); Dennis Rodman, o basquetebolista mais excêntrico que alguma vez vimos, e que entre noitadas de farra provava ser um defensor tão intenso quanto essencial; ou Jerry Krause, o diretor-geral que montou e desfez estes Bulls, ele que com o seu talento para negociar e para juntar aquela gente fica também com o ónus, merecido, de os ter desfeito. Pequeno, gordinho, com complexos de inferioridade, o dirigente desportivo falecido há três anos fica com um papel de que todas as grandes histórias precisam — o de vilão.

Em certos momentos, vemos também o lado mais obscuro de Jordan, algo curioso para alguém que fez toda a sua carreira debaixo dos holofotes como ninguém. Vemos a história do assassinato do seu pai, a sua pancada por apostas (por vezes pouco saudável, por vezes hilariante), as derrotas  e a aventura pelo basebol, bem com o regresso à NBA com um simples “I’m back”; e temos tudo isto na perspetiva do próprio Jordan. Sim, pode ser parcial. Mas é ele o génio e foi esta a forma encontrada para termos um novo olhar sobre ele. Com tudo o que há de criação de mitos, como de certa maneira é expectável em documentários sobre figuras do desporto.

São vários os jogadores que privaram com Jordan que dão conta do tipo exigente, bruto e implacável que era como colega. Há várias formas de liderar com sucesso — e a de Jordan não é necessariamente a mais bonita. Do nosso Cristiano Ronaldo já vimos a mesma sede de vitória e a mesma frustração de quando as coisas não lhe correm bem. Já o vimos frustrado com colegas mas teremos sempre na memória o tal “tu bates bem”, motivador e descontraído, que ajudou João Moutinho num penálti essencial. Mas o bom de “The Last Dance” é que também está lá o lado emocional, do gigante que não evita a voz embargada de quem justifica que fez o melhor que sabia, com o tal objetivo de sempre em mente: ganhar. E ganhou. Como ninguém.

“The Last Dance” chega ao fim e é objeto que há-de merecer ainda muitas análises. Mas para já teve o dom de nos concentrar na história de uma das equipas mais especiais que o desporto já viu. De resto, a ESPN sabia o que tinha em mãos em tempos de pandemia: e aproveitou para antecipar o lançamento numa altura em que os fãs de desporto por todo o mundo estavam desejosos de ver algo novo (ainda que antigo), num tempo em que campos e pavilhões se encontram encerrados. Foi a última dança de uma equipa rara, autêntico cometa que deixou a sua passagem impressa na história do desporto. Mas os cometas que nos fascinam são mesmo assim: surgem de muito em muito tempo, só para nos deixar especados a olhar para as estrelas a imaginar quando será que voltaremos a ver algo assim.