Desporto

Idalécio: “O nível do futebol português é igual ao que era há 20 anos”

O gigante defesa central fez carreira no Farense, Sporting de Braga e Rio Ave. Agora trabalha num dos restaurantes mais famosos de Londres.

Quem não se lembra do gigante Idalécio a fazer cortes de carrinho e a marcar golos de cabeça? O antigo defesa central de 1,96 metros disputou 321 jogos e marcou 13 golos, tendo passado os melhores momentos ao serviço do Farense, do Sporting de Braga e do Rio Ave. Acabou a carreira aos 36 anos, em 2010, ao serviço do Quarteirense.

A mudança do estilo de vida foi complicada e, durante três anos, não foi feliz profissionalmente, apesar de estar a trabalhar na formação do Quarteirense. Partiu à aventura para Londres em março de 2013, sem qualquer perspetiva de emprego. Hoje trabalha num conceituado restaurante e vive feliz com a esposa e as duas filhas. O ex-defesa central falou com a PLAYBOY a partir de Londres e diz que vive um dos períodos mais felizes da sua vida.

Quando e por que razão decidiu emigrar para Londres?
Cheguei a Londres em março de 2013, sem nada em vista e completamente à aventura, consciente de que seria muito difícil arranjar algo no futebol. A única ajuda que tive foi do meu cunhado. Foram tempos difíceis, até porque vim sozinho, sem a minha mulher Rita e as minhas duas filhas, Catarina e Francisca.

Foi fácil arranjar trabalho?
Sim. Poucas semanas depois de chegar, fui entregar o meu CV a um casino e consegui ficar lá a trabalhar. Era um casino no centro de Londres que não tinha mesa de jogo, apenas máquinas. A minha função era andar com maços de notas na mão e entregar o dinheiro aos clientes quando eles ganhassem um prémio. Ao fim de três meses, passei a supervisor e mantive-me no casino durante mais três meses nessa função.

Mas se as coisas estavam a correr bem, por que razão ficou tão pouco tempo no casino?
Já estava saturado do ambiente do jogo, é algo que não acho muito saudável. Mas possivelmente teria lá continuado por mais uns tempos se não tivesse tido uma grande sorte. Estava a voltar de autocarro para casa, após mais um dia no casino, quando fui abordado por um português, que me pergunta “olhe lá, você não é o Idalécio, que jogou no Braga?” Depois de falarmos um pouco percebi que ele era manager num café-concerto muito conhecido em Londres. É uma cadeia que tem 18, só na cidade. Disse-lhe que não estava muito satisfeito com o meu trabalho e ele perguntou-me se queria fazer um trial, como eles chamam aqui em Londres, ou seja, um treino de duas ou três horas, em que desempenho as funções que depois me vão ser pedidas, caso consiga o lugar. Avisei-o que o nível do meu inglês não era muito elevado, mas ele disse-me que não me preocupasse que me iriam ajudar.

Mas também não ficou lá muito tempo.
É verdade. Em maio de 2015 surgiu uma fantástica oportunidade no Novikov – um restaurante muito famoso em Londres – por influência do Décio Barroso, um antigo futebolista que tem excelente relação com o proprietário. Tive a possibilidade de fazer um trial e mais uma vez as coisas correram-me bem e fiquei. Sou Chef D’Pass, ou seja, a pessoa que faz a ligação entre a cozinha e os empregados de mesa. Tenho de estar muito atento a esquecimentos de algum prato por parte dos chefs ou se falta algo aos clientes. Enfim, assegurar que tudo decorre na perfeição.

“Calçava o 47 e não era fácil arranjar botas com esse número. Cheguei a fazer muitos jogos com sapatilhas”

Não está arrependido de ter escolhido aventurar-se em Inglaterra?
Sou muito feliz. Aqui os empregadores não se importam com a idade das pessoas e com o que elas fizeram no passado. O que interessa é o mérito e quem tiver vontade de trabalhar e estiver disposto a aprender consegue ter sucesso, conseguindo ser promovido.

Está nos seus planos voltar a Portugal?
Não, de forma alguma. Em Portugal já sabemos para onde o dinheiro vai. Poderia eventualmente ficar atraído por um projeto no futebol, mas não me parece que isso vá acontecer. Adoro Londres e a única coisa negativa são os ataques terroristas. Infelizmente, nunca se sabe quando algo pode acontecer.

Sente que deixou saudades entre os adeptos portugueses que o viram jogar?
Felizmente, tenho essa noção. Bem, em primeiro lugar, Idalécio é um nome muito fácil de decorar. Depois, tinha 1,96 metros, era sempre o jogador mais alto e com o pé maior naquelas revistas da pré-época de apresentação dos plantéis (risos).E já tinha cabelos brancos, o que não era muito normal. Muita gente ainda se lembra de mim e eu apercebo-me disso em Londres, pois sou várias vezes abordado na rua.

Marcou ao Benfica no seu jogo de estreia pelo Sporting de Braga, em 1996/97. Como foi marcar um golo e roubar pontos ao clube do coração (o resultado final foi 1-1)?
Foi sem dúvida marcante. Estrear-me com um golo naquele estádio foi espetacular. Era profissional e por isso fiquei muito feliz, mesmo tendo sido contra o Benfica.

Como surgiu a paixão pelo Benfica?
Essencialmente por influência familiar. Sempre ouvi falar da grandeza do Benfica em casa, através dos meus pais e dos meus avós. Alguns miúdos acabam por mudar de clube, para chatear os pais, mas eu mantive-me fiel ao Benfica e ainda recentemente fui ver os jogos na Emirates Cup, no estádio do Arsenal.

Em tantos anos como profissional terá vivido algumas peripécias. Qual é a primeira história que lhe vem à cabeça?
Tenho uma história relacionada com o tamanho do meu pé. Calçava o 47 e nos meus tempos de jogador não era fácil arranjar botas com esse número em Portugal. Cheguei a fazer muitos jogos nos juniores com sapatilhas, pura e simplesmente porque não tinha chuteiras. Mas nos seniores já era obrigatório usar chuteiras. Em 1995/96, quando representava o Farense, aproveitei uma viagem a Lyon, onde jogámos na Taça UEFA, para correr as lojas de desporto à procura de chuteiras com o meu número. Acabei por arranjar dois pares, que trouxe para Portugal. Felizmente, depois estabeleci um acordo de boca com o Paulo Araújo, responsável da Umbro em Portugal, para que nunca me faltasse calçado.

Tem acompanhado o futebol português?
Quando cheguei a Londres desliguei completamente. Estava magoado pelo facto de não ter conseguido trabalhar num projeto sólido ligado ao futebol, depois de um percurso tão bonito de muitos anos como futebolista. Mas pouco a pouco fui retomando o gosto e assisto a jogos com alguma regularidade. Comparando com a época em que jogava, registo a maior aposta nos jovens portugueses, mas acho que a grande diferença é que, hoje em dia, os jogadores são muito mais fortes fisicamente. Mas sinceramente, acho que o nível do futebol português é igual ao que era há 20 anos.

Chegou a ter a hipótese de jogar num dos três grandes portugueses?
Não, nunca tive essa hipótese, mas em 1999, depois de ter feito uma grande época no Sporting de Braga, tive convites de clubes importantes de Inglaterra, como o Coventry, o Bolton e até o Celtic. Infelizmente não se concretizou, mas estava escrito que iria viver em terras britânicas [risos].

Deixou amigos no futebol?
Sim, sim, sem dúvida. Eu sou uma pessoa que faz amizades com facilidade e não concordo com aquela tese de que é difícil fazer amigos no futebol.