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Weed Warriors: Quando Hugh Hefner e um jovem advogado desafiaram as normas

Hoje em dia a canábis é cada vez mais estudada e menos demonizada. Mas houve um tempo em que nos EUA um simples charro podia valer anos de cadeia. Um jovem advogado fez muito para mudar isso. para tal, contou com a preciosa ajuda de Hugh Hefner, fundador da PLAYBOY.
Ilustração de Tara Jacoby

A erva que fumamos, vaporizamos ou ingerimos deve o seu crescente estatuto legal a uma mão cheia de pioneiros — e, num caso em particular, a uma plataforma e a um pequeno manancial de ‘armas’ providenciado pela PLAYBOY.

“Por favor, PLAYBOY, continuem a vossa luta contra as nossas barbáricas leis da marijuana”. Esta carta de janeiro de 1969, de um leitor da revista, era a propósito de um homem no estado do Texas que apanhou 50 anos de cadeia por vender uma caixa de fósforos com erva por 5 dólares. Foi apenas uma de três dezenas de cartas sobre marijuana que a PLAYBOY publicou nesse ano.

Num outro caso, um leitor tinha sido detido por terem sido encontradas 0,87 miligramas de marijuana em sua casa. O marido de outra leitora arriscava 10 anos de cadeia por posse de 20 miligramas. Na altura, vender erva a um menor no estado da Georgia podia valer pena de prisão perpétua. Se fosse uma segunda ofensa, a pena era a pena de morte. A simples posse de erva no estado de Luisiana? Podia valer 99 anos de cadeia.

Para a maior parte dos observadores, estes castigos claramente não se adequavam ao tipo de crime. Eram liberdades pessoais que estavam em jogo e isso foi o suficiente para atrair a atenção da PLAYBOY – embora, claro, os aspetos recreacionais da erva também se enquadravam naturalmente no vasto mundo de interesses que a revista cobria.

Pelo menos desde 1960 que a PLAYBOY cobria temas relacionados com marijuana, altura em que juntou um painel de ilustres do jazz, incluindo Duke Ellington e Dizzy Gillespie, para falar sobre narcóticos e música. Mais tarde, na mesma década, a PLAYBOY publicaria um texto científico, “Pot: A Rational Approach” [Erva: Uma Abordagem Racional]. “Perante todas as evidências, não só a marijuana é comparativamente inofensiva”, escreveu o psiquiatra Joel Fort, “como há razões para acreditar que em certos casos é benéfica”.

O título podia muito bem descrever a abordagem que o publisher Hugh Hefner sentia que a revista deveria ter em relação à droga. Não iria apoiá-la mas, ao invés, iria explorá-la, chamando a atenção para as leis injustas e o pensamento datado de então. Apoiar a prerrogativa americana de se poder escolher era algo natural para Hefner, que cedo declarou isso mesmo no Playboy Philosophy, onde defendeu “o direito de, irreverentemente, se marimbar para vacas sagradas e defensores de tabus e tradições estupidificantes”. Depois, em 1970, Hefner conheceu um aliado. E a perceção da erva na América nunca mais seria a mesma.

Weed Warriors: Quando Hugh Hefner e um jovem advogado desafiaram as normas
Ilustração de Tara Jacoby

Keith Stroup, um jovem advogado de Washington que se tinha radicalizado com a guerra do Vietname, estava a tentar criar o primeiro grupo de lobbying no país a favor dos consumidores de marijuana — uma ideia revolucionária, bem adequada à época. A recém criada Fundação Playboy poderia dar-lhe esse apoio de que necessitava.

Stroup candidatou-se a fundos da fundação e eventualmente foi convidado para uma reunião com Hefner, em Chicago, onde explicou que, com a organização que criara, a Organização Nacional para a Reforma das Leis da Marijuana [NORML, na sigla original], iria fazer campanha contra a proibição da marijuana e defender uma legislação e um tratamento justos para os consumidores. Dias depois, recebeu um cheque de cinco mil dólares e uma ‘porta aberta’ para possíveis novos fundos, caso a organização conseguisse mostrar trabalho merecedor disso mesmo. Foi o que rapidamente aconteceu. “Meses depois, a PLAYBOY tinha assegurado cem mil dólares por ano de financiamento direto à NORML”, conta Stroup.

Esse financiamento durou uma década. Além do mais, a revista ofereceu uma página inteira de anúncios, algo que, estima Stroup, permitiu angariar cerca de 50 mil dólares a mais de cada vez que os anúncios eram impressos com a revista, além de ter permitido que fossem organizadas festas para angariação de fundos nas mansões PLAYBOY em Chicago e Los Angeles. A cobertura da revista, que incluiu uma entrevista ao próprio Stroup em 1977, foi uma alavanca para o grupo, que precisava de conquistar os corações tanto de ganzados como de abstémios para conseguir levar a cabo mudanças reais.

“Durante a década de 1970, sempre que ajudávamos um pobre coitado que tinha sido preso por um crime não violento relacionado com marijuana a sair da cadeia, o PLAYBOY Forum dava conta do caso”, conta Stroup. “Isto foi uma grande ajuda para nós”.

Stroup e outros elementos da NORML atravessaram o país à procura do apoio de legisladores a nível estadual para que estes pudessem apresentar propostas de lei que descriminalizavam o consumo de marijuana e à procura de especialistas que testemunhassem a favor das propostas, “para que o legislador se parecesse com alguém que percebe do assunto e não um radical qualquer”, conta. E resultou.

Entre 1973 e 1978, 11 estados, a começar pelo Oregon, introduziram legislação que descriminalizava a marijuana. A NORML decidiu ainda levar a batalha até à justiça norte-americana, avançando com processos contra o governo por ter classificado a canábis como droga de Classe 1 — uma designação que ainda hoje partilha com a heroína.

Hoje em dia, 66% dos americanos são a favor da legalização da canábis — um número muito superior aos meros 12% que apoiavam a medida em 1969. A NORML muito contribuiu ao longo das décadas para esta mudança de perceção do público. “Mas aquele incrível apoio da Fundação PLAYBOY e de Hugh Hefner a título pessoal”, recorda Stroup, “não sei se sem isso a NORML teria conseguido sobreviver sequer aos seus primeiros seis meses de vida”. Fumemos a isso.

Texto: Cat Auer

Ilustrações: Tara Jacoby

Weed Warriors: Quando Hugh Hefner e um jovem advogado desafiaram as normas
Ilustração de Tara Jacoby

Artigo publicado originalmente na edição norte-americana da PLAYBOY e posteriormente na PLAYBOY Portugal. Pode adquirir exemplares anteriores na nossa loja online.