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Volodymyr Zelensky, o comediante que se tornou presidente

Fez de presidente da Ucrânia na televisão e a ficção tornou-se realidade. Aos 41 anos, concorreu e venceu a segunda volta, no domingo, 21 de abril.

Podia ser apenas uma experiência sociológica bem humorada, mas não é. Volodymyr Zelensky é um comediante ucraniano de 41 anos que interpreta o chefe de Estado na série de televisão “Servant of the People”, um sucesso na televisão do seu país. Agora, a personagem saltou da ficção para a realidade e venceu as eleições presidenciais da Ucrânia. no domingo, 21 de abril.

Zelensky bateu 39 candidatos para conquistar um lugar na segunda volta das eleições presidenciais e, agora, venceu com 73% dos votos o seu rival, o agora ex-Presidente Petro Poroshenko, que teve menos de 25%. Não fez comícios oficiais nem adotou um discurso demagógico. Limitou-se à narrativa do novo, do diferente e do combate à corrupção, tudo em estilo stand-up.

Na primeira volta de 31 de março, nenhum dos candidatos mais próximos da Rússia passou à segunda volta. Ficou patente a perda de influência de Putin no panorama político ucraniano. O resultado ditou uma derrota do presidente russo, cujas ações acabaram por isolar os grupos políticos pró-Rússia no país.

Mesmo sendo um outsider político, o humorista recebeu 30% dos votos na primeira volta, enquanto que Poroshenko não passou dos 18,5% e Yulia Timoshenko, antiga primeira-ministra que cumpriu dois anos de uma pena de prisão de sete por abuso de poder, apenas recebeu 14% de votos e ficou assim também excluída da segunda volta.

“Estão prestes a começar uma nova vida: sem corrupção, sem subornos. Uma vida num novo país, um país de sonho. Acreditamos que tudo vai correr bem e que vamos ganhar, mas são os ucranianos que têm de decidir”, disse o candidato no discurso após a divulgação dos resultados da primeira volta. A onda antipolítica numa Ucrânia onde a corrupção aumenta a cada dia e onde o conflito com a Rússia parece não ter fim, levou o comediante a ser o favorito para tomar o poder na Ucrânia.

Curiosamente, Zelensky pareceu também agradar a algumas franjas do governo russo. “É evidente que nós não queremos ver o partido da guerra aos comandos da Ucrânia, mas sim um partido que procura uma regularização progressiva e real da situação no sudeste ucraniano no quadro dos acordos existentes”, explicou Dmitri Peskov, o porta-voz do Kremlin, em conferência de imprensa.

Zelensky nasceu no seio de uma família judaica em Kryvyi Rih, no sudeste da Ucrânia. O seu pai, Oleksandr Zelensky, é um professor que dirige um departamento académico de computação cibernética e hardware no Instituto de Economia Kryvyi Rih e a sua mãe, Rimma Zelenska, foi engenheira. O ator estudou direito Universidade Nacional de Economia de Kiev embora nunca tenha exercido. Antes da série televisiva que estreou em 2015, já era famosos pelas suas imitações de políticos.

Em “Servant of the People”, disponível na Netflix em alguns países – excluindo Portugal –, o ator interpreta Vasyl, um comum professor que anda sempre de bicicleta e usa molas nas calças do fato. O professor vê a sua vida mudar quando um discurso político anticorrupção filmado por um dos seus alunos se torna viral nas redes sociais – e acaba por torná-lo no novo presidente da Ucrânia.

Estreou-se no entretenimento com 17 anos numa competição de comédia. A participação correu tão bem que foi imediatamente convidado a integrar o grupo de comediantes Zaporizhia-Kryvyi Rih-Transit, que produziam o concurso televisivo de humor Major League do canal ucraniano KVN e que acabou por vencer. A partir daí participou em diversos filmes e produziu um programa de televisão.

Foi um dos apoiantes do movimento Euromaidan entre 2013 e 2014, a série de revoltas e manifestações que exigiam uma maior integração da Ucrânia na Europa. Durante a guerra no Donbass, que se seguiu à anexação da Crimeia por parte da Rússia, apoiou ativamente o exército ucraniano. E em agosto de 2014 manifestou-se contra a intenção do Ministério da Cultura ucraniano proibir artistas russos na Ucrânia.

Apresentou a candidatura em janeiro e, durante a campanha, teve um discurso populista, de renovação e anticorrupção. Disse ainda que gostaria que a Ucrânia se tornasse membro da União Europeia e da NATO; mas quer que sejam os eleitores ucranianos a decidi-lo em referendo. “Se não há promessa, não há decepção” foi uma das frases mais memoráveis que marcaram a campanha do comediante. Contudo, a falta de um programa eleitoral sólido e concreto preocupou os diplomatas ocidentais.

A agenda do novo presidente não é exatamente um mistério: prometeu “lutar contra a corrupção” e acabar com a guerra no leste do país, entre tropas ucranianas e combatentes pró-russos.

Volodymyr Zelensky, o comediante que se tornou presidente
Os discursos políticos de Zelenskiy assemelham-se a um espetáculo de stand-up

Na sequência da primeira volta, Petro Poroshenko afiançou que se vencesse as eleições presidenciais iria reforçar a cooperação internacional para libertar a Crimeia, anexada pela Rússia. A península separou-se da Ucrânia após um polémico referendo em 2014 e no qual 96% dos eleitores votaram a secessão. Já Kiev considera que a Crimeia continua a ser território ucraniano, se bem que ilegitimamente e “temporariamente ocupada”.

Do seu lado, o governo russo tem afirmado repetidamente que o povo da Crimeia, democraticamente e em plena conformidade com o direito internacional e da Carta das Nações Unidas, votou pela reunificação com a Rússia. O debate sobre o tema tornou-se, sem surpresa, num dos talking points incontornáveis das eleições.

Do lado da barricada de Poroshenko, as críticas feitas a Zelensky incidiam sobre a falta de experiência e de apoio estrutural do candidato, bem como a sua ligação ao segundo homem mais rico da Ucrânia e magnata anti-Rússia Ihor Kolomoiski, que convidou o humorista para o seu canal de televisão, onde se tornou famoso.

Zelensky é fluente em russo e ucraniano, um ponto que esteve a seu favor, num momento em que os direitos linguísticos são um tema sensível no país. A sua habilidade linguística acabou por atrair o apoio no leste da Ucrânia, onde a maior parte da população fala russo.

O ator mostrou-se favorável a negociações com a Rússia para tentar solucionar o conflito e admite encontrar-se com Vladimir Putin. Desde o fim da União Soviética, em 1991, que os presidentes ucranianos se alternavam entre os pró-Moscovo e os pró-ocidente.

Mais de 34 milhões de cidadãos podiam votar, mas cinco milhões de ucranianos residentes nos territórios dominados por separatistas pró-russos, nas províncias de Donetsk e Lugansk, foram impedidos de exercer o direito de voto.

A verdade é que foram poucos os que levaram a sério a possibilidade de Volodymyr Zelensky se tornar no chefe de estado da Ucrânia – tal como aconteceu com Donald Trump no EUA ou Jair Bolsonaro no Brasil –, já que parecia demasiado irreal que a população escolhesse um comediante para liderar o país. No entanto, Zelensky tornou-se no próximo morador do Palácio de Mariyinsky. “Tudo é possível!”, disse na sua sede de campanha, ao celebrar a vitória.