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Será que Christopher Nolan repete a proeza com “Tenet”?

O mais recente filme de Christopher Nolan, “Tenet”, está a chegar e tem às costas uma responsabilidade: a de voltar a trazer pessoas às salas de cinema. Será que consegue?

Christopher Nolan é um caso raro. Desde o surpreendente sucesso que foi “Memento”, já lá vão duas décadas, que o realizador tem conseguido a rara combinação de encher salas de cinema mantendo uma marca autoral. Entre as sequências explosivas dos seus filmes com o Batman, planos que parecem dobrar-se sobre si próprios em “A Origem” ou o cuidado visual de “Dunquerque”, Nolan consegue manter complexidade e uma certeza: receitas de bilheteira.

O realizador está agora de volta com “Tenet”, um ambicioso thriller de ficção-científica que se vai estrear numa altura em que os cinemas vão desbravando a nova vida neste pós-confinamento. O que aí vem é visto como o seu mais ambicioso projeto até agora. E num tempo em que na Internet é pródiga em revelar detalhes antes da estreia, não deixa de ser curioso que o realizador tenha conseguido manter bem guardados detalhes de “Tenet”.

Na linha da frente

O filme ia estrear em meados de julho mas a estreia foi adiada duas vezes, numa altura em que a Warner Bros. reviu o seu calendário. A Warner sabe que tem aqui um peso-pesado mas também uma escolha difícil: ao mesmo tempo que tem um filme de grande orçamento(cerca de 200 milhões de dólares), do qual quer ter retorno o quanto antes, teme também que o receio coletivo em tempos de Covid-19 possa ter impacto.

Será que Christopher Nolan repete a proeza com "Tenet"?

Recentemente, o “New York Times” dava conta de como estúdio e produtor discordavam sobre o que fazer. Ao mesmo tempo que a Warner, na tentativa de defender o melhor possível o seu investimento, preferia o adiamento, Nolan é um fã da experiência de ver um filme no grande ecrã e preferia ver “Tenet” lançado o quanto antes, como quem procura rapidamente recuperar a reação de confiança entre público e salas de cinema. Ambas as partes acabaram por chegar a acordo. Afinal de contas, a Warner queria manter o seu realizador feliz — ele que tem provado ao longo dos anos ser uma garantia de retorno financeiro. E foi assim que acordaram num adiamento que coincidia com o regresso de “A Origem” aos cinemas, dez anos depois. O Covid-19, porém, empurrou a data de estreia para 12 de agosto. A ver se é desta.

“Tenet” é o primeiro grande teste entre cinema e grande público no pós-confinamento

Curiosamente, passam também 15 anos desde “Batman: O Início”, o primeiro de três filmes do Homem-Morcego de Gotham a cargo de Nolan. Com Christian Bale no papel de Batman, a personagem foi revigorada e atingiu uma projeção que nunca tinha tido no grande ecrã.

Não é por acaso dois dos três filmes são os mais rentáveis de sempre para Nolan. Mais uma vez, o realizador provou que conseguia
manter um lado de identidade própria, não caindo no papel de simples tarefeiro — o seu estatuto deu-lhe uma margem que nem sempre outros realizadores tiveram na hora de trabalhar filmes de super-heróis, um género que no século XXI se tornou para Hollywood sinónimo de blockbuster.

“Tenet”, o segredo mais bem guardado de Nolan

Em “Tenet” teremos oportunidade de ver John David Washington, filho de Denzel Washington, no seu maior papel até à data. Ao seu lado, no que parece ser uma dupla em missão, com capacidade para manipular o tempo, está o outrora menino-bonito da saga de vampiros “Twilight”, Robert. O elenco conta ainda com nomes como Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Debicki, Kenneth Branagh, e, naturalmente,
Michael Caine, ele que já é presença habitual em filmes de Nolan.

“Fecharam-me numa sala para ler o argumento”, contou Robert Pattinson

O trailer divulgado do filme mostra-nos sequências de ação visualmente interessantes, algumas que parecem desafiar as leis da física, mas foi cuidadosamente elaborado de forma a manter-nos na total dúvida sobre o que aí vem. Sabemos apenas que a ameaça de uma III Guerra Mundial paira no ar, que o ambiente é de missão de espionagem e que há uma palavra, “tenet”, que não sabemos o que significa, mas que “abre as portas certas; e algumas das erradas também”.

Será que Christopher Nolan repete a proeza com "Tenet"?

O argumento tem sido mantido no segredo dos deuses. O próprio Pattinson, que tem falado um pouco (muito pouco…) em entrevistas sobre o filme, contava em 2019 que não tinha ficado com uma cópia do argumento. “Fecharam-me numa sala para o ler”, contou. Embora a possibilidade de viagens no tempo ter sido referida como mecanismo da narrativa, não é bem isso o que podemos esperar, mas uma história “a desenrolar-se em algo para lá do tempo real”, como refere a críptica sinopse do filme.

À “Collider”, Kenneth Branagh, a trabalhar pela segunda vez com Nolan, exemplificou até que ponto Nolan teve cuidados em manter guardado a sete chaves o filme. “Bateram à porta, abri e estava lá um realizador de renome internacional chamado Chris Nolan. Tinha um envelope debaixo do braço e disse-me: ‘Vim entregar-te o argumento’. Mais personalizado do que isto é impossível”. E é curioso ver como, na era das redes sociais, Nolan conseguiu manter escondido o seu projeto sem ter de obrigar toda a gente a assinar acordos de confidencialidade. “Seria bom se pudéssemos guardar isso entre nós”, recordava o mesmo ator as palavras de Nolan. “Ninguém assina nada. É um aperto de mão e um nível de confiança”.

Filmado em sete países, passando do ponto de vista do género de espionagem para “vários géneros”, como contou o próprio Nolan em entrevista à “Entertainment Weekly”, “Tenet” é mesmo o maior projeto até à data do realizador. A parte interessante é que, além do suspense do filme, contamos também com este suspense extra de saber se o público acorre em grande número às salas. E se no caso deste primeiro suspense podemos simplesmente sentar-nos para ver o filme, este segundo suspense é daqueles que pede um final feliz.

Afinal de contas, o conforto de casa é agradável para ver um filme. Mas não há nada como desfrutar do cinema no seu melhor lugar: numa sala escura, em frente a um grande ecrã.