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Quando os ativistas pelos direitos dos animais se tornam extremistas

Há grupos que recorrem a bombas, sequestros e ameaças de morte, tudo em nome dos direitos dos animais. O fenómeno não chegou a Portugal, mas nos EUA até há um ativista na lista dos mais procurados pelo FBI.

Várias organizações e sociedades para a prevenção da crueldade contra os animais e para a conservação de espécies ameaçadas defendem os direitos dos animais organizando protestos ou colocando-se entre caçadores e presas. Mas há grupos que não se ficam pelas medidas mais tradicionais. Num fenómeno que ganhou uma nova dimensão nas últimas décadas, algumas organizações viraram-se para métodos extremistas: recorrem a bombas para sabotar laboratórios, invadem edifícios, destroem propriedade e organizam campanhas difamatórias. Tudo em nome dos direitos dos animais.

Para crimes sem castigo, há um grupo que atua, muitas vezes à margem da lei, em nome da causa animal nacional. Em Portugal, a Intervenção e Resgate Animal (IRA) já tem um longo histórico de salvamentos, mas uma reportagem da TVI colocou a sua atuação em causa. De acordo com a investigação, a Polícia Judiciária estará mesmo a investigar uma suposta ligação de Cristina Rodrigues, membro da comissão política do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), ao grupo de ativistas.

Uma das vítimas do IRA, Teresa Bento, viu a sua égua Maeve raptada por supostamente estar a ser maltratada, segundo a reportagem transmitida a 15 de novembro. Embora o animal tenha sido encontrado mais tarde pelos donos, revelaram que foram perseguidos e ameaçados. De acordo com o testemunho do grupo na sua página de Facebook, “a senhora toda chorosa que aparece vítima de uma perseguição do IRA, é a tal que roubou a Maeve de uma quinta com a ajuda dos ‘primos’ e, conforme podem ver no nosso vídeo e fotos, o estado dela já vinha desde Janeiro e não era de agora”. O grupo acrescenta que a senhora era “bastante conhecida por ser traficante de animais e colaborar com uma transportadora de cavalos de Sintra”.

Há quem considere que as ilegalidades são justificadas. Para não sofrerem qualquer tipo de retaliação, ocultam a sua identidade, mas não têm medo de atuar em situações que consideram ser de maus-tratos para com animais. A equipa também intervém a favor da comunidade dos mais desfavorecidos, fornecendo roupas, alimentos para as pessoas e rações para os seus animais.

O membros do IRA são apenas uma pequena amostra de uma comunidade de dezenas de milhares de ativistas e organizações de direitos dos animais espalhados todo o mundo e todos eles lutam para acabar com o uso de animais em estudos e contra os maus-tratos. Alguns, no entanto, recorrem a medidas mais drásticas como bombardeamentos, ameaças e agressões – e acabam por tornar-se em verdadeiros grupos de extremistas.

Na lista dos terroristas mais procurados do FBI

Daniel Andreas San Diego está na lista dos mais procurados do FBI, nos Estados Unidos, acusado do envolvimento em dois atentados, em São Francisco, na Califórnia. Acredita-se que tenha sido o responsável pelo bombardemento do Instituto de Biotecnologia da Chiron Corp, a 28 de agosto de 2003, pelo uso de animais nos seus laboratórios. Já em setembro do mesmo ano, uma bomba de pregos foi detonada à porta da empresa de cosméticos Shaklee Corp. Ninguém morreu nestes incidentes.

San Diego é um ambientalista vegan e uma espécie de salvador de animais que as autoridades acreditam ter laços com grupos extremistas de direitos dos animais como a Animal Liberation Brigade, responsável pelos dois atentados em 2003. Acredita-se que Andreas também esteja ligado à Stop Huntingdon Animal Cruelty (SHAC) – um movimento internacional para os direitos dos animais para fazer frente ao Huntingdon Life Sciences (HLS), o maior laboratório de testes de animais da Europa.

Quando os ativistas pelos direitos dos animais se tornam extremistas

Desaparecido desde os crimes, terá agora 40 anos, é considerado como um terrorista doméstico pelos EUA e o FBI oferece uma recompensa de quase 220 mil euros por informações que levem à sua prisão.

Assalto ao Instituto Royal de São Paulo

Em 2013, o Instituto Royal, um centro de investigação para cosméticos no estado de São Paulo, no Brasil, foi invadido por ativistas que libertaram centenas de animais destinados a serem utilizados como cobaias.

Primeiro, os intervenientes manifestaram-se em frente ao instituto e acusaram o laboratório de usar métodos cruéis na realização das experiências. Em outubro desse mesmo ano, acorrentaram-se ao portão do edifício e prometeram ficar no local até terem uma lista de reivindicações atendidas. À época, os representantes do laboratório aceitaram conversar, mas não houve consenso. Os ativistas decidiram recorrer a medidas mais drásticas.

Acabariam por invadir o local e retirar 178 cães da raça beagle, camundongos e coelhos. Os seguranças foram ameaçados com facas e foram mantidos como reféns durante o resgate. Dentro do laboratório, o grupo destruiu equipamentos, portas, janelas e carros do instituto e dos próprios funcionários. Na altura, o gabinete de assessoria queixou-se que os invasores também terão levado computadores e documentos relacionados com as investigações desenvolvidas no local.

Quando os ativistas pelos direitos dos animais se tornam extremistas

A invasão ocorreu depois de inúmeras denúncias de habitantes que se queixavam de ouvir os uivos de dor dos animais submetidos alegadamente a testes dolorosos. O laboratório encerrou atividades na cidade e os ativistas regressaram ao local e levaram os ratos camundongos que lá tinham sido deixados para testes de produtos farmacêuticos.

Milícia à porta da Novartis

Há grupos que funcionam como uma espécie de milícia. Membros do Animal Liberation Front (ALF) – um grupo de ativistas dos direitos animais que agem diretamente para libertá-los, através de resgates, invasão de instalações e sabotagens – incendiaram a casa de férias do ex-CEO da Novartis, Daniel Vasella, em agosto de 2009.

O grupo acreditava que a empresa farmacêutica estava teria ligações ao Huntingdon Life Sciences, um laboratório britânico que realiza testes em animais. A Novartis negou as alegações e relatou pelo menos uma dezena de outros ataques a funcionários. Em 2009, dois explosivos foram colocados em dois carros estacionados na entrada da casa de Ulrich Lehner, membro do conselho da Novartis.

O HLS também foi vítima de um casal de ativistas – o suíço Sven Van Hasselt, 31 anos, e sua esposa britânica, Natasha Simpkins, de 30 –, que também faziam parte do grupo extremista de direitos dos animais SHAC. O casal fez várias ameaças de morte, cometeu transgressões agravadas e chegou mesmo a publicar nas redes sociais objetos supostamente contaminados com o vírus da Sida, apenas para intimidarem os funcionários do laboratório. Chegaram também a revelar publicamente dados privados sobre a empresa e os seus funcionários que acabaram por ser vítimas de assédio. O casal acabou por ser preso no aeroporto de Heathrow em fevereiro de 2018.