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Mais vale ser ateu do que ir à igreja e odiar os outros, diz o Papa Francisco

Chamou narcisistas aos colegas, defendeu bispos suspeitos de encobrirem casos de pedofilia e disse aos católicos para não procriarem como coelhos. Recordamos as frases mais polémicas do Papa mais pop da Igreja Católica.

O Papa mais pop da história voltou aos microfones e, sem surpresa, voltou a deixar marcada uma frase que vai correr o mundo. Numa audiência em Roma, que teve lugar esta terça-feira, 2 de janeiro, Francisco explicou que é melhor viver como um ateu do que ir à igreja e odiar os outros. “Quantas vezes vemos o escândalo dessas pessoas que passam o dia na igreja ou que lá vão todos os dias, e depois vivem a odiar ou a falar mal dos outros”.

Desde 2013 à frente do Vaticano, o Papa não é um estranho a declarações chocantes. Umas vezes escandalizam, outras surpreendem pela quebra do protocolo e da rigidez que historicamente marca os discursos da Igreja. Caracterizado como um Papa mais liberal do que os seus antecessores, tem apanhado de surpresa alguns dos seus pares, ao mesmo tempo que continua a chocar com os eternos críticos da Igreja.

Já acusou os líderes da organização de serem narcisistas e de “provocarem asco aos jovens” ao exibirem os seus carros do último modelo, ao mesmo tempo que foi ferozmente criticado por ordenar e defender bispos sob suspeita de encobrimento de casos de pedofilia. Pelo meio, ainda teve tempo para aconselhar os católicos a não procriarem “como coelhos” e a procurarem apoio psiquiátrico para os filhos que exibam tendências homossexuais. Recordamos as mais polémicas.

“Se o meu bom amigo, o doutor Gasbarri ofender a minha mãe, vai levar um murro (…) para tudo há limites”.

Disse-o aos jornalistas no início de 2015, na sequência do atentado terrorista à redação do jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris, que fez 12 mortos. Durante uma conversa que abordou os limites da liberdade de expressão, o Papa traçou uma linha. “Não se pode provocar, nem insultar a fé dos outros. Há limites. Toda a religião tem dignidade, não posso ridicularizar uma religião que respeite a vida humana”, reafirmou antes de acrescentar que matar em nome de Deus é uma “aberração” e que nada poderá justificar a violência.

“Os chefes da Igreja foram, muitas vezes, narcisistas, adulados pelos cortesãos. A Cúria é a lepra do papado”.

A estreia de Bergoglio como Papa fez de 2013 um ano fértil em declarações arrasadoras. Uma delas teve como alvo o próprio Vaticano. Em entrevista ao diário “La Repubblica”, disse que o governo do estado religioso tem um defeito: “Está centrado no Vaticano. Vê e ocupa-se dos interesses do Vaticano e esquece o mundo que o rodeia. Não partilho desta visão e farei tudo para a mudar”, concluiu.

“Deus deu-te os meios para seres responsável. Alguns creem, perdoem-me a expressão, que para serem bons católicos devem ser como coelhos“.

Numa visita oficial às Filipinas, em janeiro de 2015, o Papa recordou uma conversa tida com uma mulher mãe de sete filhos, todos nascidos por cesariana, e que se encontrava grávida com o oitavo, o que considerou ser um “exemplo de irresponsabilidade”.

“Dói ver uma freira ou um padre com um automóvel último modelo”.

A crítica aberta aos subordinados foi feita em 2013, durante uma conversa com seminaristas. Num discurso dirigido aos jovens católicos, explicou que é “justamente a vocês, jovens, causa-vos asco quando um padre ou freira não são coerentes”. “Eu sei que o carro é necessário porque é preciso fazer muito trabalho e ir daqui para ali, mas é melhor um carro humilde, e se tiverem a tentação de ter um bom carro, pensai nas crianças que morrem de foem”.

“No dia em que me apresentarem provas contra o bispo Barros, eu falarei. Não há qualquer prova contra ele. É tudo calúnia. Isso é claro?”.

A afirmação, feita em janeiro de 2018, viria a ensombrar os meses seguintes da vida do Papa. O bispo em causa era Juan Barros, acusado de encobrir os crimes de abusos sexuais a jovens, cometidos pelo sacerdote Fernando Karadima na década de 80, dos quais foi acusado e eventualmente condenado. A declaração indignou os chilenos, que não se deixaram demover pela defesa e continuaram a pedir a condenação do bispo pelo alegad encobrimento. Até porque à época, já os relatos das vítimas de Karadima haviam sido considerados credíveis. Tanto que o ex-sacerdote foi condenado pelo Vaticano, em 2011, a uma vida de “penitência e oração”. Nunca cumpriu um dia de prisão, até porque os crimes já haviam prescrito.

Mais vale ser ateu do que ir à igreja e odiar os outros, diz o Papa Francisco
A defesa do bispo Barros foi um problema para o Papa

A polémica forçou Francisco a tomar medidas e, no seguimento de um encontro com as vítimas chilenas, pediu desculpa, admitiu que cometeu “erros graves” de análise e expressou “vergonha e dor”. O escândalo que o próprio provocou – até porque em 2015 havia nomeado Barros bispo de Osorno, numa altura em que já estava sob suspeita – forçou-o a enviar uma equipa do Vaticano para reanalisar o caso. Em junho, sem conclusões, o próprio bispo renunciou ao cargo, numa decisão aceite pelo Papa.

“Pensemos nas armas nucleares, na possibilidade de aniquilação de um número elevado de seres humanos num pequeno instante. Pensemos também na manipulação genética, na manipulação da vida ou na teoria do género, que não reconhecem a ordem da criação”.

Durante uma entrevista com jornalistas italianos, reproduzida no livro “Esta Economia Mata” – da autoria de Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi – e citada pelo britânico “The Independent” e até pelo órgão católico “National Catholic Reporter”, o Papa comparou as modernas visões da identidade de género aos perigos destrutivos das armas nucleares ou até da manipulação genética. “Com esta atitude, o Homem comete um novo pecado contra Deus, o Criador”, concluiu.

“Se uma pessoa é homossexual e procura Deus e a boa vontade divina, quem sou eu para julgá-la?”.

Numa das mais emblemáticas frases desde que chegou ao cargo em 2013, Francisco surpreendeu o mundo pouco tempo depois de ser eleito líder da Igreja. Numa conversa sobre a homossexualidade no Vaticano, o líder da Igreja Católica frisou que “os homossexuais não devem ser marginalizados por causa de o serem, mas que devem ser integrados na sociedade”.

“Quando [a homossexualidade] se manifesta na infância, a psiquiatria pode desempenhar um papel importante para ajudar a perceber como as coisas são. Mas é outra coisa quando ocorre depois dos vinte anos”. 

Em 2018 o Papa regressou ao tema durante uma conversa com jornalistas. Francisco disse ainda que “o silêncio não será uma cura” e que “ignorar um filho ou uma filha com tendências homossexuais revela falta de paternidade ou maternidade”. “Que rezem, que dialoguem e que entendam, mas que não condenem”, concluiu.

O aconselhamento de intervenção psiquiátrica a todos os que revelem estas tendências foi recebida com espanto e críticas. De tal forma que o Vaticano procedeu a eliminar a palavra “psiquiatria” da transcrição da resposta do Papa, alegando que ela não respeitava “o pensamento de Francisco”. “Não queria dizer que se trata de uma doença psiquiátrica, mas talvez que se deve ver como estão as coisas a nível psicológico”, explicou o gabinede de imprensa à época.

“[Fazer um aborto] é como contratar um assassino”.

Numa audiência com fiéis na Praça de São Pedro, em outubro de 2018, o Papa voltou a um dos temas mais problemáticos da atualidade da Igreja Católica. “Está certo deitar fora uma vida humana para resolver um problema? É justo contratar um assassino para resolvr um problema?”, explicou o argentino. O tom condenatório usado na audiência sob o tema “Não Matarás” contrasta com a compreensão demonstrada em 2016 na carta apostólica assinada pelo próprio, onde autorizava os sacerdotes a perdoarem as mulheres que tenham praticado o aborto, desde que o confessem e se mostrem arrependidas.