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O Futuro dos super-heróis é feminino

Os super-heróis já não são coisas de miúdos. Movimentam milhões em Hollywood e são cada vez mais diversos. Demorou muito tempo, mas finalmente chegou a hora das heroínas.
Brie Larson é Captain Marvel

Quando, em 1995, a realizadora Rachel Talalay se deslocou ao San Diego Comic-Con para promover “Tank Girl”, baseado numa história aos quadradinhos inglesa sobre uma anti-heroína condutora de um tanque, o festival era uma pequena amostra daquilo que é hoje.

Naquela altura, não passava de uma confraternização simpática do mundo dos comics, ainda com pouca adesão de estúdios a promoverem filmes e séries. Isto porque ainda eram raros os filmes e séries baseados nas histórias aos quadradinhos. De acordo com Talalay, agora responsável em séries como “The Flash” e “Supergirl”, outra grande diferença entre o Comic-Con de 1990 e o de agora reside no facto do número ínfimo de mulheres que então acorria ao centro de convenções. “Quando lá levei o ‘Tank Girl’ não havia audiência feminina”, diz Talalay. “As únicas mulheres que estavam era as que lá trabalhavam”.

Tank Girl” não teve sucesso. Talalay culpa os produtores que, segundo ela, a afastaram do processo de montagem e o tornaram um filme sem nexo. Duas décadas mais tarde, muito mudou no cenário do ecossistema da animação, como demonstra o lançamento em março de 2019 de “Captain Marvel” o primeiro filme do Marvel Cinematic Universe a ter uma mulher na liderança. Passado em 1990, segue a história de Carol Danvers, uma piloto da Air Force com poderes especiais que se vê metida numa guerra intergalática. Estando à frente das audiências desde a sua estreia, o filme mostrou uma dinâmica e atração sem precedentes. “Avengers: Infinity War teria um final inesperado, e é claro que Danvers e o seu elevado ego tiveram um papel primordial no ponto final do terror cósmico de Thanos como se confirmou em “Avengers: Endgame”, lançado um mês depois.

Captain Marvel” também teve a oportunidade de prolongar a maré de sorte que os estúdios Marvel viveram, com sucessos de bilheteira como “Black Panther”, “Thor: Ragnarok” e “Spider-Man: Homecoming”. Com Brie Larson no papel principal, “Captain Marvel”, Paul Dergarabedian, analista sénior da comScore, uma das maiores empresas de estudos de mercado, previa estar ali “um dos filmes do ano”.

Comercializar filmes ajustados a uma audiência branca masculina é surpreendente.Se há mais dinheiro disponível porque não aproveitá-lo?

Ter tanta confiança num filme dirigido por uma mulher é um fenómeno novo em Hollywood, especialmente nos estúdios da Marvel e da Disney, que em 2009 comprou a companhia. Durante 10 anos e 20 filmes da Marvel, as super-heroínas tiveram papéis secundários (como em “Avengers” ou “Guardians of the Galaxy”) ou obtiveram papéis iguais na sequela (“Ant-Man and The VASP”). Os estúdios da D.C. Films e da Warner Bros não conseguiram melhor nas longas décadas de parceria. A Warner lançou sete filmes do Batman, seis do Super-Homem e um sobre um combate entre ambos. Só em 2017 apostou em “Wonder Woman”, o seu primeiro filme com uma única heroína.

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Gal Gadot em “Wonder Woman”

Wonder Woman” não só lucrou mais de 800 milhões de dólares no universo das bilheteiras, mas também posicionou o estúdio — intencionalmente ou não — na dianteira da cultura do género da altura, num tempo em que se notava a falta de entusiasmo suscitada na era Batman pós Christopher Nolan. “‘Wonder Woman’ teve uma enorme repercussão junto das espectadoras femininas mas também dos espectadores masculinos, que queriam que as filhas se inspirassem na sua personalidade“, afirma Dergarabedian, referindo-se talvez ao sucesso generalizado por todo o país e que fez que em 2017 se tornasse na máscara do Halloween mais popular.

Finalmente, com “Wonder Woman”, a DC Films conseguia mudar o gosto das audiências para filmes menos masculinos e menos brancos. “Sabemos que há décadas o gosto dos fãs se tornou mais abrangente, mais diversificado, e honestamente, mais feminino do que nunca”, diz Matthew Smith, professor da Universidade de Radford e autor de “Critical Approaches to Comics”. O recorde contabilizado nas bilheteiras tanto de “Black Panther” como deWonder Woman” provaram que Smith estava certo.

O Futuro dos super-heróis é feminino
Scarlett Johansson no papel de Black Widow

O facto de só se dever comercializar os produtos ajustados a uma audiência branca masculina é surpreendente”, continua Smith. “Se há mais dinheiro disponível porque não aproveitá-lo?”.

Para os apreciadores dos comics a explicação reside no facto de Hollywood não ter ligado à fórmula. Excetuando “Tank Girl”,Catwoman” e “Electra” foram desastres de bilheteira e estrearam-se com uma diferença de seis meses um do outro entre 2004 e 2005. Os filmes de Halle Berry e Jennifer Garner falharam por vários motivos, incluindo, respectivamente a separação de “Catwoman” do universo Batman e a adaptação falhada de “Daredevil” que ninguém queria.

As escassas audiências (“Catwoman” e “Electra” renderam nos EUA 40 milhões e 24 milhões de dólares, respetivamente) davam razão aos produtores em não investir em filmes sobre super-heroínas e isso prevaleceu por mais de uma década.

Ter tanta confiança num filme dirigido por uma mulher é um fenómeno novo em Hollywood

Mas Dergarabedian gosta de dizer que essa época baixa não passou de uns episódios infelizes que precederam “Wonder Woman”. Dá o exemplo da interpretação de Sigourney Weaver no papel de Ripley nos filmes de “Alien” e mais recentemente de Jennifer Lawrence em The Hunger Games”, cujo primeiro filme estabeleceu março como o mês ideal para o lançamento de um sucesso de bilheteira.

Depois da sua actuação em “Mad Max: Fury Road”, em 2015, Charlize Theron entrou em “Atomic Blonde”, que ajudou à sua evolução como heroína rentável após o desastre financeiro de “Aeon Flux. Em 2014, Scarlett Johansson levou o filme de ficção-científica “Lucy” a render quase 500 milhões de dólares em todo o mundo. Mesmo assim, por quase uma década, a personagem da Marvel de Johansson não passou de um papel secundário. Mas isso mudou quando a Marvel deu luz verde para a realização do filme independente “Black Widow”.

Black Widow” conto com a realizadora australiana Cate Shortland e sua contratação é exemplo de como as mulheres conseguiram finalmente instalar-se em ambos os lados da câmara. Tanto “Catwoman” como “Electra” foram dirigidos por homens; já “Wonder Woman” beneficiou muito com a visão de Patty Jenkins que realiza ainda a sequela “Wonder Woman 1984”. “Captain Marvel” também tem uma realizadora feminina (embora seja metade dr uma equipa de marido e mulher, Anna Biden e Ryan Fleck), e seis dos sete credenciados argumentistas são mulheres.

Apesar de tudo apontar para isso, “Captain Marvel” ainda não era uma aposta segura. Por um lado, fora dos círculos dos fãs de comics, a piloto da Air Force é ainda uma figura desconhecida para a maioria — tal como a sua anterior incarnação, Ms. Marvel — mesmo que tenha aparecido sob várias formas desde a década de 70. Mas os otimistas podiam argumentar que esta falta de familiaridade pode tornar-se numa vantagem para o filme. No fim de contas, quantas vezes vamos querer ver os pais de Bruce Wayne morrer? “Captain Marvel” podia fazer com que nos estivéssemos nas tintas para os Kree ou para o facto de a heroína brilhar nos trailers como se estivesse numa viagem alucinógena. Também nos pôde fazer pensar porque demorou tanto para elas terem tanto destaque.

Texto: Eric Ducker

O Futuro dos super-heróis é feminino
Charlize Theron em “Mad Max: Fury Road”

Texto publicado originalmente na edição norte-americana da PLAYBOY