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Flash-Fiction: “White Room”, um conto de Pat R

“White Room" é um conto da autora Pat R para a PLAYBOY Portugal, com trabalho de ilustração de Hugo Makarov.

Num quarto branco com cortinas pretas, com os Cream a criarem compasso no sistema de som e as imagens inquietas da última sequência do Zabriskie Point a ejacularem do projetor para cima deles. Quatro corpos despidos em sobreposição na cama, os lençóis – um campo de combate, o suor – um gotejar como mais uma textura daquele crime. Suor, lágrimas e sangue, a tríade do amor.

O despertador marcava quatro da manhã, mas ele sentia o calor do pôr do sol no deserto… só que, naquele quarto, o sol nunca nasceria. Permaneceriam as memórias um do outro, como fantasmas a fugirem deles próprios, o aperto na garganta, quando já estivessem demasiado longe, o cheiro com o dom fatal de ainda os perseguir. Mas ainda eram quatro da manhã, ele ainda ali estava. Karen tinha deixado a janela aberta e a aragem fria arranhava-lhe a pele molhada. Talvez já não fosse a primeira vez, era o que aquele olhar lhe dizia, talvez no Egito, talvez há muitos anos atrás. Talvez já não se lembrassem. Mas ela olhava para ele e a pupila devolvia-lhe a confi rmação. Eu vejo-te, eu vejo-te.

Quando chamou o táxi, ela quis pôr o If You Miss Me a tocar, como uma finalização daquele sonho, um regresso à digressão. Tinha conseguido fugir das limitações do nome Sailor Joe durante umas horas, recuado até à pureza normalmente esquecida de Jovani De Vitis, mas agora a mancha negra estava a voltar e ele era chamado a assumir o papel. O beijo de despedida marcou a caminhada na direção de um tempo triste que o levaria pelas curvas de Brooklyn até ao hotel em Manhattan, onde estavam os outros membros da banda. Não existiam cordas capazes de conter a vibração daquela dor. O concerto da noite seguinte, em Philly, seria uma lamentação, mas por enquanto ainda via a silhueta dela na janela do quarto. Não, já não estava ali. Era transportado no interior do táxi e o condutor disparatava sobre o tempo e a falta dele. A vida é uma memória célere. A viagem de regresso, um refl exo obscuro do da chegada. O carro e o motorista podiam ser os mesmos, mas ele estava deturpado, tinha deixado qualquer coisa lá dentro.

Nos meses que antecederam o concerto em Nova Iorque eles tinham trocado mensagens, uma rotina de antecipação. A expetativa tinha adornado o encontro ainda na sua fase embrionária, ainda nas margens ilimitadas da imaginação. Violações contínuas de flashes de dois corpos no escuro a encontrarem a forma certa de fazerem a luz entrar. Hologramas de um sol que oferecia o seu brilho e trazia vida, aquele que se simbolizava a ele próprio, mas que também tinha o poder para fomentar um começo.

Agora a imaginação estava enfraquecida, contaminada pela amargura da realidade, mas ainda conseguia recriá-la na proximidade ao seu corpo dentro da carrinha da banda depois do concerto, os outros a falarem no ruído de fundo, a carne da perna dela apertada na sua mão, que estava no escuro à procura de mais, os elogios soprados ao ouvido e o cheiro a jasmim. Oh, o cheiro a jasmim!

Quando chegaram ao hotel, a expectativa conduziu-os até ao quarto de hotel dele. Perderam-se um no outro, na cama onde ele dormiria sozinho, mas não por muito tempo. Ela queria levá-lo para casa dela, queria mostrar-lhe o filme. Um filme que ele já tinha visto várias vezes, mas que agora teria um sabor diferente. Chamaram um táxi. O mesmo táxi.

Na escuridão dos bancos traseiros, ela puxou a mão dele, fê-lo procurar mais do que a perna, depois mais do que a carne. Puxou as cuecas para longe do corpo e deixou-o entrar. Um no outro, suspiraram. A música na rádio sobrepôs-se à respiração, o olhar do taxista pelo espelho retrovisor era um gesto de pacto, de silêncio. Em casa dela, o filme tornou-se o ritual de passagem, o cheiro do amor. O relógio disse-lhe que, naquela noite, estava a conseguir aceder ao portal, a energia condensava-se e permitia um vislumbre da realidade paralela. Nessa realidade, eles tinham outros rostos. Talvez no Egito. Ele já tinha ouvido aquela conversa sobre o tempo, já tinha fechado os olhos e inspirado, já tinha ansiado pelo destino. O taxista perguntou-lhe se estava a ter uma boa noite, mas ele não tinha forma de saber, a alma tinha ficado dentro do quarto.

Quando chegou, ainda faltava uma hora para partirem rumo ao próximo destino. A viagem de elevador foi uma ascensão ao inferno. Lá dentro, no escuro, agravado pelas cortinas que impediriam a entrada da luz, pousou a cabeça na almofada e a pele negra acetinada dela conduziu-o em rodopio até à espiral do sono. Estava apenas a vestir-se. Tinha caracóis negros, os olhos eram rasgados, mas, de repente, a beleza não importava nada. A multidão gritava, mas ele sabia, não havia ninguém ali dentro. Eram tão solitários. O peito comprimia-se. Eram tão solitários.

Ouviu um pássaro do lado de fora da janela, mas naquele hotel as estruturas eram demasiado rígidas para o amor trespassar. Aquele quarto estava vazio. Estendeu a mão no escuro à procura de mais. Do rosto dela. Sentiu-o. A imaginação fazia coisas loucas. Ali estava ele, como todo o brilho irrevogável da luz no céu estrelado, como súbita falta de ar. Estavam a encontrar-se novamente, não nesta vida, mas noutra. Afinal, ele conseguia respirar e estava a respirar sobre ela. Ela respirava de volta.

-Se o vamos fazer, é agora – disseram os olhos negros dela, as pernas abertas, a luz a pulsar de dentro para fora. – Entra.

Precipitou-se, porque o sol era a força primordial que tinha o condão de desofuscar as trevas, precipitou-se porque o sol era a porta.

 

Flash-Fiction: “White Room", um conto de Pat R

Texto: Pat R.

Ilustração: Hugo Makarov

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