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Flash-Fiction: “Messias”, um conto de Pat R

"Messias" é o terceiro de uma série de contos da autora Pat R para a PLAYBOY Portugal, com trabalho de ilustração de Hugo Makarov.

Lana ainda gostava de manter as ametistas debaixo da almofada para convidar os sonhos a entrar. Tinham-lhe sido oferecidas por Mikey, no primeiro encontro a sério deles, depois de se conhecerem num jantar de aniversário de uma amiga comum e passarem a noite a falar sobre fantasias e filmes de terror.

Na altura, ela estava com outra pessoa, por isso não podia dizer que tinha sido amor à primeira vista. Não tinha. Nem sequer à segunda. Mas, ao fim de quatro ou cinco encontros, lá começou a achar piada à barba grisalha dele e ao modo como o cabelo ficava despenteado sempre que tirava o capacete para a cumprimentar. Ele sabia que ela estava com outra pessoa, mas insistiu tantas vezes para se encontrarem que acabou por ceder. Mikey tinha levado as ametistas nesse encontro, guardadas num saco de veludo preto e, a meio de uma conversa dura sobre relacionamentos e desencontros, estendeu-as por cima de um chai latte e sussurrou:
Isto é para ti.

Contra o brilho lilás não existiam argumentos e, apesar de no início ter ficado cética em relação ao poder espiritual dos cristais, ao fim de uma semana tinha começado a ter sonhos lúcidos e intensos. Nesses sonhos, Mikey era uma presença constante, como uma válvula para mundos de cores cálidas, sensações lascivas e prazeres ocultos e cada orgasmo era como um regresso violento e extasiante ao útero da mãe.
Têm de ser energizadas na lua cheia de cada mês, tens de lhes dar uma intenção.

Mas, ainda que Lana tivesse criado um ritual no epicentro de cada ciclo lunar, isso já não fazia muita diferença agora que os médicos tinham aniquilado qualquer hipótese favorável de recuperação. Nunca mais conseguia ser uma expressão sufocante.

Ainda assim, ela continuava a sonhar e, nesses sonhos, os orgasmos eram tão intensos que sentia a energia desprender-se do corpo e ascender, as pernas fraquejarem durante a elevação, o corpo a desfazer-se em estilhaços, recomposto quando ele aparecia.

Sorvia-a enquanto estavam imersos um no outro, a tornaram-se uma camada cósmica do universo, antes de regressarem à terra e ela acordar. Amanhecer agora trazia uma memória vívida das rajadas tórridas dos primeiros encontros deles, quando ela se escapulia da casa que partilhava com Peter em Echo Park e Mikey a ia raptar na sua Triumph.

Recordava a adrenalina da viagem, enquanto pensava no tempo que tinham até o namorado regressar a casa, a palpitação entre pernas como uma bomba-relógio, o pisar da linha que, na altura, potenciava um sabor agora esquecido.

Tinham exercitado aquele jogo durante demasiado tempo e ela não precisava de uma ametista para saber que o que acontecera naquela tarde tinha sido uma lição do destino. Depois de uma discussão violenta com Peter, telefonara a Mikey para a ir buscar e, em menos de cinco minutos, ele tinha aparecido. Pararam à porta do prédio dele, mas ela queria fazê-lo ao ar livre, para conseguirem chegar às estrelas e, apesar de quase não terem aguentado a viagem até ao Ernest E Deb, assim que lá chegaram fizeram-no mesmo ali, a ver o pôr-do-sol desaparecer no prateado dos arranha-céus de LA.

Naquela altura, a sexualidade era um espetro, mas agora parecia uma condenação. Quando regressaram, já de noite, um camião ignorou um sinal vermelho e ela foi projetada da mota para o asfalto. Como descrever a sensação de um camião contra o corpo? Como o embate da chegada da escuridão, como se o mundo ficasse subitamente silencioso e a cor das ametistas fosse um sonho irrealista que alguém imaginara no auge de uma ilusão. Na escuridão, não existia luz, apenas a presença constante do sabor a alcatrão e a sangue na boca, apenas a sensação quente e líquida entrepernas depois de Mikey ter ejaculado dentro dela, enquanto fitavam a baixa de LA e sentiam que nada no mundo os conseguiria alguma vez vencer. Nada, exceto aquele camião.
Afetou o sistema nervoso central disse o médico quando ela acordou da terceira
operação. É pouco provável que recupere a líbido depois deste acidente.

Mas Lana ainda gostava de manter as ametistas debaixo da almofada. Era um ritual que faziam uma vez por mês, depois dos cristais estarem energizados. Ela deitava-se com a cabeça na almofada e abria as pernas enquanto Mikey a tentava fazer vir com a boca. Ele adorava aquilo e ela fazia essencialmente por ele, porque o orgasmo nunca chegava e nunca era realmente um advérbio paralisante. Ela tinha desejado as estrelas, mas agora ansiava por uma forma de descer delas. O truque parecia estar em fechar os olhos e preparar-se para a chegada da escuridão, imaginar como seria se o púrpura das ametistas tivesse o poder de ascender e piscar no céu. Como um portal para uma realidade alternativa, conseguia ver-se lá, como o Messias há muito esperado, como prolongamentos necessários da imaginação, até o sonho afagar a névoa e devolver à realidade o seu sabor amargo.

Flash-Fiction: “Messias”, um conto de Pat R

Texto: Pat R.

Ilustração: Hugo Makarov

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