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Flash-Fiction: “Medicine For a Broken Heart”, um conto de Pat R

“Medicine For a Broken Heart” é um conto da autora Pat R para a PLAYBOY Portugal, com trabalho de ilustração de Hugo Makarov.

Tinha-lhe custado uma réplica personalizada do Blackout do Meth e do Red que ele e Alan acabaram a ouvir durante a viagem de carro de dois dias e meio desde a cidade dos anjos até às portas do inferno, para onde elas já tinham voado uma semana antes para passarem a consoada com os pais. Michelle e Karen eram de Nova Orleães, mas como já tinham dito desde a primeira vodka limão na festa de receção aos caloiros no início do semestre “um ano de estudo na UCLA já fez alterações calamitosas no nosso ADN”.

Na altura, nem sequer sabia o nome delas, mas o cabelo negro luzidio da mais alta e a sua pele negra acetinada fixaram-se-lhe no olhar como os primeiros sinais persistentes de um descolamento de retina. Finalmente, descobriu que o nome dela era Karen. Tinham-se encontrado mais vezes no campus e, um pouco antes de o semestre terminar, Alan convidou-as para uma passagem de anos a quatro.

Claro que o plano inicial deles não incluía uma viagem de quase 2000 milhas até à capital do Lousiana, mas não queriam parecer inflexíveis perante a recetividade delas. O plano materializara-se durante a viagem, depois de ter cedido ao impulso de comprar o Blackout, que alguns encontros ocasionais em festas no campus o tinham feito perceber que seria uma prenda cobiçada. O abraço apertado depois de lhe estender o CD mostrou a dimensão da sua gratidão. Mas os sorrisos não cessaram aí, fazia parte do plano prolongarem-se noite dentro, quando Benji permitiu ao seu braço ganhar vida própria e alimentar o entusiasmo da noite numa compulsão de desenhos abstratos dela. Não queria saber quão tolo pareceria ao olhar dos outros, a verdade é que estava a conseguir abrir um portal para a alma dela e cada gargalhada era uma confirmação compensadora disso, aproximando-o substancialmente do fim.

Na manhã da verdadeira festa, Benji já sobrevivia à transição de ano, talvez como os australianos que festejavam o ano novo antes de toda a gente. As vodkas da noite anterior pesavam como más decisões e a dor de cabeça impedia-o de comunicar objetivamente durante o pequeno almoço a quatro na cozinha do apartamento alugado. A aspirina que decidiu pôr diretamente na boca talvez também não tivesse sido o melhor para se fazer ao lado de alguém que se está a tentar conquistar, pelo que o resto do dia foi passado entre rodadas de chá de camomila e garrafas de água numa repetição expectável devido à noite anterior. Ela não estava nada impressionada. O sorriso e olhar brilhantes haviam-se transmutado num semblante inexpressivo, em que os olhos eram mísseis cruéis de julgamento constante. Mas ainda havia esperança. Mais tarde nesse dia, quando desceram dos quartos vestidos para a festa, Michelle, que já estava sentada no sofá, não conseguiu ficar indiferente ao seu fato e à camisa folhada.

-Uau, Benji! – exclamou. – Estás mesmo giro!

Era o boost de confiança que precisava para materializar o plano que esquematizara naquela viagem de três dias ao som do Method. A caminho do restaurante, fez o desvio planeado para comprar a rosa vermelha sob o pretexto de que tinha de fazer um telefonema para os pais antes da meia-noite. Como New Orleans parecia ter o efeito de impulsionar más decisões, à hora do champanhe, Alan rodou uma ganza que ele decidiu provar como incentivo para o que se seguia. A erva trouxe à boca a sensação da espuma como uma cascata de pensamentos ansiosos, a agonia a deturpar a realidade.

– BOM ANOO! – gritaram uns para os outros e, antes que a boca se tornasse numa máquina de fazer bolhas, pôs-se de joelhos e estendeu a rosa. As pétalas vermelhas refletiram-se na surpresa dos seus olhos cor de mel. Ok, um não era sempre garantido, ele já sabia, mas passava a vida a dizer que bastava acreditar muito numa coisa para que ela acontecesse. O que o otimismo de Alan não conseguiu prever foi o desconforto que caracterizou a noite deles, depois da declaração, e o dia seguinte não foi menos estranho. Um mau estar persistente, uma evasão consciente, um almoço terrível, ao que se seguiram curvas intermináveis no carro num começo de uma viagem de três dias de regresso a LA, desta vez a quatro. Como se não bastasse, Karen recusou-se a ir ao lado dele atrás.

O novo milénio estava mesmo a ser o apocalipse que todos tinham passado os anos 90 a prever. Para não ter de lidar com a humilhação, Benji fechou os olhos e fingiu que estava a dormir. Cada vez que a cabeça saltava e batia no vidro com um solavanco, ele sossegava-se repetindo interiormente que um sono de três dias não seria grande coisa comparativamente à vergonha de uma vida.

O Blackout foi a escolha musical de regresso, como o encerrar de um ciclo. Estava prestes a tornar-se um marco musical para ele. Invisivelmente, já estavam os dois a sangrar no interior do veículo até o groove misterioso de Cerial Killer irromper e o primeiro toque o seguir magicamente, como uma brisa indecifrável, mas suficiente para fazer as pessoas vir à porta espreitar. Abriu os olhos para ter a certeza, mas Michelle também estava a fingir que dormia. Não resistiu, nem sequer desapertou as calças, deixou que fosse ela sozinha.

Eram duas pessoas entregues às sensações dos pés, cuja única missão seria transformar aquela passagem de ano em mais do que lembranças tristemente nauseantes. Permitiu ao corpo despertar ao ponto de ela conseguir sentir o totem entre a planta dos seus pés. A viagem foi passada em transe, seguido do êxtase quando chegaram à cidade e ele ejaculou no que parecia ser um orgasmo eternamente aguardado. Despediram-se sem falarem do que tinha acabado de acontecer. O silêncio era como magia cristalizada. Um sorriso capaz de transmutar mil mágoas. De várias vidas.

Karen saiu da cidade pouco depois do curso e Michelle tornou-se enfermeira. Cada vez que se recordava dela, Benjamim ainda conseguia sentir o cheiro doce dos seus pés de curandeira. O vapor sagrado daquela viagem de carro seria, mesmo no plano da imaginação, o melhor curativo que alguém podia receber num tempo de luto.

Flash-Fiction: “Medicine For a Broken Heart”, um conto de Pat R

Texto: Pat R.

Ilustração: Hugo Makarov

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