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Flash-Fiction: “If You Miss Me”, um conto de Pat R

"If You Miss Me" é o segundo de uma série de contos da autora Pat R para a PLAYBOY Portugal, com trabalho de ilustração de Hugo Makarov.

— Sailor Joe. Nome artístico de Jovani De Vitis, guitarrista e compositor da banda Tripping Lonesome, que acabou de lançar um documentário com filmagens inéditas da gravação do novo disco e da tour na Europa…

Começar era um jogo de calibração do tom, vários anos de experiência já tinham ensinado a Louie que não existia nada mais eficaz do que saber regular o timbre e escolher o vocabulário certo para chegar aos segredos de alguém e ele tinha esperado muito tempo para conseguir fazer aquela entrevista. A empatia não era uma dificuldade,  afinal já tinha vivido algumas coisas e ser jornalista há quinze anos tinha-o ensinado que o único truque de que qualquer pessoa precisava era aprender genuinamente a ouvir. Ainda estava a ganhar ritmo à entrevista quando o som de uma mensagem no Whats App ecoou no bolso.

O olhar intimidante de Sailor Joe fez um círculo invisível no ar. Louie costumava deixar o telemóvel em silêncio, mas dias não são dias. Decidiram passar à frente.
— Mas… diz-me, Joe, foi uma experiência divertida reverem-se no produto final?
— Sim…bem, talvez acabe por ser sempre uma experiência de observação curiosa. Inevitavelmente, foi um revisitar, recordámos momentos que tínhamos vivido juntos e, ao mesmo tempo, forçou a um confronto com o produto final.

Quando o som da segunda mensagem ecoou na acústica da sala, Louie sentiu-se corar.
— Podes atender, meu – disse Joe. – Tranquilo.
Não era o que o código da profissão impunha, mas aproveitou a benevolência dele para se abstrair da entrevista para uma realidade distinta. A verdade é que a noite anterior tinha sido um cocktail de papelada desarrumada, uma maratona de clips de entrevistas à banda no Youtube, um ou dois scotchs a mais e uma troca de nudes com um dos flirts que guardava para momentos de solidão, apesar de ser sempre ela que o procurava, entre as festas de swing e as aventuras sexuais para as quais ele não estava convidado – eram o último recurso um do outro, mas tinham-se conformado com esse facto e, lá no fundo, até o apreciavam.

Quando ela enviou a primeira fotografia, ainda lhe faltava estruturar metade da entrevista, mas ser caloroso e empático já era uma característica sua e, mesmo sem tempo, uma copa D não o ia desconcentrar da tarefa entre mãos. Só que duas horas depois, continuavam nas sugestões do que fariam um ao outro caso estivessem juntos, ignorando a curta distância entre as suas localizações geográficas — há coisas que não cedem à aplicação da Uber.

Quando ela deixou de responder, já deviam ser três da manhã. Ele tinha desmaiado com o balanço do último
scotch e a pressão das follow-up questions, mas, quando o terceiro despertador o arrancou a um sono mais
transcendente que o acid rock, sentiu-se desapontado. Chegou atrasado e com um hálito que fazia ricochete com o do entrevistado. O cumprimento pareceu-lhe uma memória das manhãs nos anos de faculdade — o hálito matinal das ressacas – só que aquele era o Sailor Joe e como ele adorava entrevistar músicos! Mas agora tinha entrado um terceiro elemento, na linha do olhar tinha o grande plano a imagem dos mesmos lábios grossos cor-de-rosa que o tinham provocado na noite anterior a chuparem uma ereção rugosa. A legenda do vídeo dizia: a conversa de ontem deixou-me com saudades destes tempos. E, na verdade, nada lhe extraía tanta felicidade como recuperar a memória de um sexo oral bem feito.

Aquele momento cosmicamente perfeito seria um motivo de revisitação eterna, só que, quanto mais observava,
mais tinha a certeza: aquilo não tinha mesmo acontecido. Bem, não com a ereção dele, pelo menos.

Tentou formular uma questão, mas estava bloqueado. Sailor Joe tossiu para agitar o ar da sala, o que lhe trouxe alguma clareza aos pensamentos. Informou-a de que se tinha enganado no destinatário da mensagem, pois aquele não era certamente o pénis dele. Depois, encheu-se de coragem e continuou a entrevistar o artista. A presença multicultural sobre os antecedentes dele estava implícita nas oito faixas do novo disco (o aceno afirmativo de Joe garantia que tinha fixado os dados principais da pesquisa entre as dezenas de fotografias que vira da alma dela) e, ainda que ele apenas tivesse ouvido aquele álbum durante um chat envolvente, tinha a certeza que If You Miss Me ia ser um êxito em 2020. Tinha que o ser.

Ouvira-o pela primeira vez há menos de vinte e quatro horas e já estava a abrir um espaço para os deuses entrarem. Entretanto, ela respondeu que, nesse caso, não fazia ideia de quem era o homem do vídeo, mas que podiam ser eles os dois se a noite corresse bem.

Como um shaman a abrir um ritual, Sailor Joe mergulhou numa explicação espirituosa sobre a origem do título do disco estar naquele sexo que toda a gente tem e que não consegue esquecer, o deslumbramento de um amor irrealizado que não passa de uma noite, mas que promete a vida. Às vezes, a sensação que Louie procurava incessantemente, entre mensagens e projeções eróticas pela madrugada, era precisamente essa capacidade de algo lhe incendiar a alma durante trinta minutos — o sabor da euforia — ainda que as consequências da combustão conseguissem ficar, talvez, para sempre.

Flash-Fiction: “If You Miss Me”, um conto de Pat R

Texto: Pat R.

Ilustração: Hugo Makarov

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