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Flash-Fiction: “HoodWink”, um conto de Pat R

"HoodWink" é o primeiro de uma série de contos da autora Pat R para a PLAYBOY Portugal, com trabalho de ilustração de Hugo Makarov.
Ilustração de Hugo Makarov

Parecia um antigo estéreo quadrado ou uma daquelas caixinhas pretas de maquilhagem onde ela guardava uma palete de sombras e duas ametistas, mas era na verdade a Marshall Acton II, que estava a atravessar a sala, a voar na direção da cara dele. Ainda tinha bons reflexos dos anos de skate e das noites de punhadas, quando alguém bebia umas cervejas a mais, portanto conseguiu fazer uma incursão à direita no último segundo antes do embate.

Que a Marshall se tenha estatelado na janela que dava para a varanda e estalado o vidro na forma de uma teia de aranha perfeita era irrelevante, quando Lana tentava desafi ar o limite das injúrias orais. Claro que, depois do choro, dos gritos e dos abraços envergonhados que cessariam a dor, ela se arrependeria de ter atirado a coluna e de lhe ter chamado nojento, mas naquele momento a sensação de caos emocional era superior ao resto. Como ela dizia muitas vezes, só depois da escuridão é que conseguimos ver as estrelas. Se tivermos sorte e se não existirem nuvens.

Por esta altura, Peter já estava transtornado.

Não acontecia muitas vezes, mas, quando o elevavam àquele nível de tensão, perdia as estribeiras, por isso a atitude assertiva desde a primeira discussão era contorná-la sem diminuir a área de segurança e sair pela porta fora em resistência à chantagem emocional. Enquanto saía, os gritos intensificavam-se até serem abafados pela casa, como um sonho mau que esquecemos rapidamente com a lista de DMS por ler no Instagram, ao acordar. Só quando chegava à rua, é que Peter se apercebia que não sabia o que fazer, como se a azáfama dos carros o deixasse subitamente atordoado.

Desta vez, até estava com sorte, porque tinha o carro parado mesmo do outro lado da estrada, o que parecia o contexto perfeito para refletir nos argumentos dela sem se afastar o suficiente para se abstrair deles. Fechado no interior do veículo, pensou que ela talvez tivesse razão, já não faziam sexo há muito tempo, mas ele também estava a lidar com muita coisa. Conseguia ver a marca circular no vidro da janela, de onde o cabelo loiro aparecia de tempos a tempos entre o vidro estalado. Reparar aquilo teria um custo – mental e monetário — e ele estava sem trabalho há dois meses e a dar em doido. O amor promete sempre ser suficiente até a vida testar os nossos limites de frustração. E ali estava ela, conseguia vê-la na janela, o cabelo curto como um reflexo pardo no interior, o olhar aguado na curvatura da fenda no vidro — agora um alvo circular de dardos — e o corpo nu acetinado ao sol.

Nestas alturas, é que a desejava profusamente, mas o instinto desobediente não lhe permitia sentir-se estático pela culpa, por isso permaneceu imóvel a desafiar o tempo de resposta dela, até eventualmente deixar de a ver na escuridão da casa. Pensou em subir para conversarem.

Teve um vislumbre da curvatura do tronco dela entre as suas mãos, o sexo raivoso e reconciliador — que era o seu favorito — mas, quando levou a mão à porta do carro, uma Triumph Street Scrambler parou mesmo à frente do prédio. Há meses que andava a namorar uma mota daquelas, mas Lana conseguia tirar o foco da aquisição para o desemprego dele e para as prioridades financeiras que eles tinham — perpétuas dores de cabeça que, em certa medida, eram verdades absolutas — e ele acabava a arquivar mais um dos seus sonhos juntamente com o seu desejo sexual. Mas, agora, tinha voltado esta ideia projetada do poder que um homem em cima de uma mota tem e eles até eram parecidos, as mesmas calças pretas, os vans velhos desbotados, o cabelo num rabo de cavalo.

Um movimento mudou o foco da sua atenção. Viu-a na frontalidade, o casaco de pelo fechado até ao pescoço, os lábios pintados, o cabelo curto branco. Trinta segundos entre a dor de um beijo soprado, o arquear de uma perna e a mota já tinha desaparecido dali. O instinto — desobediente — fê-lo arrancar atrás deles. Foi uma condução atribulada, de mãos a tremer e ultrapassagens perigosas, ao som da Hanging Man dos Swans, que tinha ficado à espera daquele momento na aparelhagem do carro.

Quando estacionou, percebeu que não era a traição em si que o desalinhava, mas a força da ereção que crescia dentro das calças, enquanto via a namorada saltar da mota com aquele desconhecido e desaparecerem no interior do prédio. Olhou para a protuberância a testar o limite da ganga, talvez tivesse estado com os olhos tapados durante muito tempo, mas agora ela ansiava saltar. Os sonhos arquivados, o desemprego e a falta de desejo sexual eram problemas irrisórios agora que tinha começado a ver pela primeira vez. Tinham-lhe suprimido um sentido, mas os outros floresciam, como se a luz não fosse possível sem a escuridão, como se a máscara fosse uma forma de conseguir identificar as estrelas. Isto, se eles tivessem sorte, pensou, se não chegassem a ser ofuscados pelas nuvens.

Flash-Fiction: "HoodWink", um conto de Pat R

Texto: Pat R.

Ilustração: Hugo Makarov