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Flash-Fiction: “Florida Man”, um conto de Pat R

“Florida Man" é o mais recente conto da autora Pat R para a PLAYBOY Portugal, com ilustração de Hugo Makarov.
Ilustração: Hugo Makarov

Poderia ter sido na véspera, mas ele tinha a certeza de que já passara mais tempo. Quanto mais pensava nisso, mais sabia que o tempo era uma ilusão. Acontecera pouco antes da mudança para Nova Iorque, antes de os dias começarem a ser passados no interior daquele Ford Crown Victoria amarelo, com cheiro a pastilha elástica e maçã verde.

Se pensasse nisso durante muito tempo, chegaria à conclusão de que uma rede de eventos conduzira à outra, mas Erick não gostava de pensar muito. Os detalhes compunham a narrativa e cada passageiro era uma história diferente, uma fração de tempo. Durante um encontro efémero, quaisquer que fossem as suas qualidades, conseguiam ser impressionantes. Existia algo de intemporal no modo como se vestiam mas o que lhe interessava era o que pulsava do interior, debaixo delas, para lá dos odores frescos, doces ou acres dos seus corpos, ou do modo como passavam a viagem com o rosto sonhador encostado à janela ou abstraídos para lá do ecrã do telemóvel.

Erick imiscuía-se nas conversas que tinham uns com os outros ou em chamada, ao telemóvel, a fantasiar sobre o que representariam fora daquele carro quando devolvidas ao mundo real. Se não começassem um diálogo, transformar-se-iam num mistério e, quanto mais tempo passassem dentro do carro, maior o enigma seria. Se as viagens fossem curtas, passava o dedo no botão da rádio e deixava a música absorvê-los; mas em viagens longas o tempo diluía-se. Existia uma piada antiga que dizia que o tempo era a forma que a Natureza tinha de impedir que acontecesse tudo ao mesmo tempo. Às vezes era que se sentia. Cada degrau para um tempo mais prolongado era um convite para as sombras do passado, que serviam de companhia a uma solidão sem igual. O espelho retrovisor talvez fosse um portal, a máquina do tempo.

Quando ainda vivia na Florida, certa vez foi jantar a casa do Kendrick. O plano inicial incluía-os apenas a eles mas, quando sugeriu convidar Ava, Erick não se opôs. Algum tempo depois do jantar e de uns cheiros, a distorção começou. O tempo era uma ilusão quando estavam a divertir-se. No momento em que Kenny disse que ia mostrar a Ava onde ficava o quarto, Erick levantou-se. Da sala aos quartos eram três portas e, de algum modo, acabou por ser o primeiro a sair e o primeiro a entrar. Talvez aquilo já estivesse a acontecer noutro tempo, talvez ele soubesse isso desde o começo. Nessa altura, o tempo nunca o tinha intoxicado e um quarto escuro era apenas um quarto escuro. Não ligou a luz quando entrou.

Havia uma solidão patente nos contornos da cama iluminados ao luar, a criarem sorrisos tristonhos nos recantos das superfícies. Tudo à sua volta era êxtase: o riso carnal abafado da sala, a máscara do “Sexta-feira 13” em cima do toucador, o candeeiro de sal que Kendrick trouxera da Polónia no último verão, a colcha de algodão branca que, à falta de luz, parecia uma camada de espuma no mar. No frenesi da imaginação, permaneceu encostado atrás da porta, no oceano sonhado. Pegou na máscara e pô-la no rosto. Imaginou-se deitado na cama e alguém com ele. Era improvável, mas ainda assim fê-lo. Deixou-se levar pela imaginação e sentiu o corpo despertar.

O relógio em movimento na parede marcava um tempo mais lento do que o que os dominava. O segredo tinha de estar na expressão da voz que destruía as suas crenças. Tinha um timbre rasgado, afastado no compasso das sombras, mas era uma voz delicada, sussurrante, feminina. Só que não era a imaginação que falava. Também já não era a ele que ela tocava, mas noutra parte da sombra. A sombra parecia-se com Kenny e Ava estava a desapertar-lhe as calças, estava a pô-lo na boca, tudo a acontecer muito rápido. Ele mal conseguia pensar: o coração batia-lhe muito rápido e sentia uma fraqueza nas pernas, como a vórtice de quem está a afogar-se. A câmara do telemóvel tornou-se uma válvula para outra realidade, onde a excitação deles o despertava de um sonho muito longo e, a determinado momento, conseguiu compreender o poder de toda aquela situação. Estava a filmá-los a fazer sexo e a masturbar-se ao mesmo tempo. O tempo era uma ilusão quando se divertiam. Mas, tão rápido quanto se lembrara, também se esqueceu.

O tempo tinha-os embalado num sono profundo, o vídeo no telemóvel era o único som no quarto. Um raio de luz arrancou-o do sono mais doce e viu o rosto chateado de Ava a tentar fazê-lo perceber que não eram eles que experienciavam realmente o tempo, mas sim o tempo que os experienciava a eles. Para lá da confusão estava a repulsa. Kenny pediu-lhe apenas que se fosse embora. Talvez fosse melhor assim. Foi o primeiro a sair e percebeu que possivelmente já não voltaria, nunca mais. A luz diluía a incerteza de um tempo no qual a ilusão tendia a ser mais evidente. Naquele momento compreendeu: as pessoas preferiam esquecer-se.

Eram atores num palco, imersos no calor do amor, na imagética onde outras realidades se multiplicavam para lá da sua. Na primeira noite de trabalho, sentiu o tempo abrandar. Cada cliente era uma história diferente, um fragmento de uma realidade paralela. Viu cabeças nos bancos traseiros embaladas pelo excesso de trabalho, de bebida, de tesão ou de entorpecimento e, quanto mais tarde melhor, mais distanciados da realidade estariam. De noite, as coisas morriam e era nessa ausência temporal que ele existia.

Tal como aquele casal que ele conduzira e que, a meio da viagem, começara a fazer sexo dentro do carro, como se ele não os visse, como se nem ali estivesse. Cada sombra era uma camada de tempo que ainda não conhecia. O passado, o presente e o futuro mantinham-se afastados do seu pensamento até se materializarem numa profundeza inevitável. Quanto mais sozinho, mais difícil se tornava, por isso chamava todos estes tempos para perto dele. O homem da Florida estava sempre em fuga, mas de quê? De quem? Quando, no espelho, os clientes cruzavam o olhar com o seu, pareciam sempre zangados, confusos, repugnados, porque nem ali era suposto que ele os observasse. Nem ali era suposto que ele existisse. Ele não era ninguém e isso, muitas vezes, conseguia ser um alívio.

Flash-Fiction: “Florida Man”, um conto de Pat R
Ilustração: Hugo Makarov

Texto: Pat R.

Ilustração: Hugo Makarov

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