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Flash-Fiction: “Akaron Kaba”, um conto de Pat R

"Akaron Kaba" é o mais recente conto da autora Pat R para a PLAYBOY Portugal, com ilustração de Hugo Makarov.
Ilustração: Hugo Makarov

O brilho do luar rachava as janelas e incendiava-lhe os caracóis vermelhos. Estaria em
casa a sonhar com ela?

A mão que lhe tocava no ombro dizia que não, que ela estava mesmo ali. A languidez daquele serão tinha-os engolido como uma névoa, em que o riso dela era um padrão repetido no tempo. Quem és tu? O êxtase vinha do cheiro floral que pairava no ar como um prolongamento do sonho. Estavam a mostrar notícias um ao outro, no telemóvel, coisas que os fazia sorrir. Ela já tinha lido um poema de Bukowski e ele tinha-a escutado de olhos entreabertos, apenas o suficiente para conseguir ver a bainha do vestido enrolada na cintura e o vermelho das cuecas de renda cavadas nas coxas brancas. Ele tinha um cigarro aceso numa das mãos, o fumo a subir para a parede como um fantasma condenado à solidão.

O cheiro dela era um nevoeiro que exalava sobre ele o odor de espaços obscuros, de segredos. Não usava perfume, tinha acabado por explicar, por isso é que o cheiro era tão intenso, era a fragrância pura do óleo essencial de Ylang Ylang, provavelmente o culpado pela tensão que crescia por cima dos Black Sabbath e que irradiava na sala como uma fonte luminosa. Tudo bem, ele já estava a conter-se há algum tempo.

Kiki disse que queria aprisioná-lo no telemóvel dela, como os membros da tribo kayapo que diziam akaron kaba, tanto para tirar uma fotografia como para aprisionar uma alma. Tinha o telemóvel voltado na sua direção, aquele bloco negro entre as suas unhas vermelhas
compridas nos dedos tatuados com vários símbolos astrológicos, quando ele perguntou o que acontecia à sua alma se ela fizesse um filme.

-Fica aqui dentro às voltas – disse ela. – A enlouquecer.

Era um jogo perigoso, mas ele estava a gostar, conseguia sentir o gelo aquecer, a casa tornar-se mais cálida.

-Se a verdade fica dentro dos limites da lente da câmara, o que é que acontece a tudo o que sucede fora desses limites?

-É esquecido pelo tempo.

O ecrã do Iphone criava-lhe um brilho nas pálpebras como letras de canções em movimento, enquanto ela procurava qualquer coisa na Internet e Finn escolhia outra música para manter o ambiente na sala. O som era o fogo sagrado para a segunda parte daquele encontro. Já tinham comido uma pizza num italiano da Baixa, depois ele convidara-a para estrearem um Yamazaki 12 anos que tinha guardado para ocasiões especiais. Qualquer entusiasmo que tivesse sucedido ao convite tinha-se metamorfoseado em entorpecimento.

Podiam ser os Earth, sim. Os Electric Wizard, o Jimi Hendrix, era indiferente, ela anuía a tudo sem descolar os olhos do ecrã. Quando lhe perguntou do que é que ela estava à procura há tanto tempo, sentiu a irritação tremer-lhe na voz. A sobrancelha dela fez um arco por cima da linha do Iphone e quando disse que estava à procura de uma forma educada de lhe dizer o quanto queria chupar a alma daquela pila, ele pensou para si próprio “Calma, Finn”.

Tinha sido só uma piada, mas era tarde demais, as paredes fundiam-se, escorregando para o chão. Viu-a, em câmara lenta, a mover-se pelo sofá, na sua direção. Era como uma serpente a manusear o corpo na direção da presa, os olhos fixos no prémio, a íris recortada como uma lâmina, enquanto ele se tentava escapulir na direção da claridade da janela – a única réstia de luz que chegava à sala – mas sentiu as pernas fraquejarem e o corpo ficar dormente devido ao feitiço. Talvez nem se tivesse mexido sequer ou o ataque tivesse acontecido demasiado rápido para que o processasse.

Como uma brisa, tinha sido embalado pela neblina e agora era o cabelo de Kiki, que normalmente se enrolava em cima das protuberâncias do peito, que caía em canudos vermelhos sobre os seus ombros, a única fração real da ilusão. Os caracóis eram um baloiço
em câmara lenta sobre a forma arqueada das costelas. O sorriso dela era exteriormente idêntico, um sorriso de plenitude, de amor etéreo e antecedia cada beijo nos lábios carnudos molhados de saliva. Uma noite, quanto tempo duraria uma noite?

Havia algo de reconfortante no modo como lhe agarrava o braço, enquanto exercia mais pressão com a boca. Era quase um toque contraditório, a língua enrolava-se, mas as mãos empurravam-no para longe. O corpo estava dormente, as extremidades enclausuradas na indefinição do tempo. A mão dela arrastava-se desde a cintura até à perna como um formigueiro que queimava, os dedos esticados como duas pernas a brincar com um vestido rodado. A língua era um encontro perfeito de texturas. Linguagem de sinais. Kiki enrolou os dedos nos pelos negros e olhou para ele. Tinha olhos grandes, muito verdes e algumas sardas perto do nariz. Pensou, durante segundos, que aqueles caracóis eram serpentes suspensas, adormecidas até à hora certa da noite. Talvez fosse do vermelho das unhas em contraste com o preto dos pelos, mas a ponta dos dedos tocavam-no de fugida e o comprimento das garras cravava-se mais fundo. Sentia os lábios dela percorrem cada centímetro da sua pele, vagarosamente, à procura do melhor sítio para morder. Cada beijo era uma viagem diferente, a densidade dos lábios envoltos nele, os fios de saliva a reconectarem-na ao seu destino. Até que o engoliu e a sala ficou subitamente muito longe.

Ele viu o telemóvel em cima do tecido vermelho do vestido dela. Ali estava a fotografia que ela lhe tinha tirado, o seu olhar atarantado a atravessar a dimensão do ecrã até eles. Não devia ser muito diferente daquilo. Teria alguma vez a sua alma de volta? Deslizou o dedo no
ecrã até a câmara aparecer. Parecia-lhe justo que não conseguissem sair os dois. Virou o telemóvel para ela, a profundidade do olhar escondia nele as lágrimas. Ela continuou fixa nele, a íris cada vez mais pequena, o negro a dominar.

Um dia lembrar-se-ia daquele vídeo. Já teria passado muito tempo. Enviá-lo-ia a alguém diferente, na esperança de que o momento voltasse. Uma das razões da sua beleza era essa, mesmo na iminência do choro, engasgada pela profundidade a que o queria prender, existia algo oceânico nela, como o murmúrio dos que já haviam partido, a liberdade era uma selva e a coragem parecia ser apenas a de pressionar o botão e começar a filmar.

Flash-Fiction: "Akaron Kaba", um conto de Pat R
Ilustração: Hugo Makarov

Texto: Pat R.

Ilustração: Hugo Makarov

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